Em parceria com a Rede PMA Equidade & Diversidade da Fiocruz e como parte do Projeto Sankofa, a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) realizou, no dia 18 de novembro, a mesa-redonda “Qual o cuidado para que saúde? Ou como deve ser o cuidado em saúde para uma atenção de fato integral à população negra?”. O encontro foi fruto da pesquisa “Educação Profissional em Saúde e Racismo: conceitos, práticas e estratégias de formação”, coordenada pelas professoras-pesquisadoras da Escola, Carolina Dantas e Viviane Soares, e teve como objetivo promover um diálogo sobre como construir práticas de cuidado que considerem as especificidades dos corpos negros que chegam às unidades de saúde.
A abertura do evento contou com a participação das professoras-pesquisadoras da EPSJV, Viviane Soares e Valéria Carvalho. Em seguida, compuseram a mesa de debate, a técnica de enfermagem, Elizabeth Aguiar, e a médica de família e comunidade, Gabriela Barreira. A moderação ficou a cargo da professora-pesquisadora da Escola, Fernanda Martins.
Para Viviane, o encontro é uma forma de compartilhar saberes que a Escola Politécnica tem produzido sobre saúde no âmbito da pesquisa “Educação Profissional em Saúde e Racismo: conceitos, práticas e estratégias de formação”, financiada pela Rede PMA Equidade & Diversidade, vinculada à Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz (VPPCB). Segundo a professora-pesquisadora, o objetivo do projeto é problematizar, analisar e visibilizar as formas de expressão, mecanismo de reprodução e exclusão gerados pelo racismo institucional à população negra no acesso e no cuidado em saúde, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). Dessa forma, Viviane ressaltou que a necessidade de aprofundar a investigação sobre o racismo institucional na saúde, a partir do campo da Educação Profissional em Saúde, e de produzir material didático voltado especificamente para a formação técnica que tenha como eixo transversal a questão racial no Brasil e o racismo institucional na saúde, são questões urgentes e estratégicas. E explicou três pontos principais: “Primeiro, porque a EPSJV é uma referência tanto na formação de técnicos quanto na produção de materiais educativos nessa área. Segundo, porque o racismo institucional na saúde e as iniquidades que ele reproduz no acesso e no cuidado à população negra ainda são uma lacuna na maioria dos currículos da formação técnica — quando aparecem, é de forma pontual. E, por fim, porque os técnicos representam a maior parte dos trabalhadores do SUS, sendo formados, em maioria, por instituições privadas”.
Ainda em sua fala, Viviane destacou que se a saúde é produzida nas relações entre trabalho, ambiente, cultura, política e ciência, a formação técnica precisa reconhecer essa complexidade e garantir que os saberes sirvam, antes de tudo, aos sujeitos que os elaboram. A pesquisadora ressaltou ainda a importância de incorporar uma perspectiva racializada na saúde. Para Viviane, isso significa compreender práticas discursivo-sociais que afetam corpos — especialmente os de mulheres negras — e que se constroem em contextos históricos específicos. “Escutar mulheres negras é fundamental para entender como as opressões de raça, gênero e classe atravessam os diferentes níveis de acesso ao cuidado, sobretudo quando olhamos para quem cuida e quem é cuidado no Brasil”, afirmou.
Em seguida, Valéria apresentou o projeto Sankofa, desenvolvido desde 2017 na Escola Politécnica com o objetivo de incorporar abordagens étnico-raciais nos currículos e pesquisas da instituição. Segundo ela, a iniciativa busca “superar ausências, lacunas e silenciamentos relacionados às perspectivas africanas, indígenas e antirracistas”. A professora-pesquisadora explicou que a proposta também pretende fortalecer a formação docente para enfrentar a visão eurocêntrica predominante. “Nesse enfrentamento, queremos ampliar o foco dos currículos, valorizando os conhecimentos africanos, afrodiaspóricos e indígenas”, afirmou.
Valéria destacou ainda que o projeto e outras ações antirracistas na Escola Politécnica têm gerado resultados importantes, como “a maior procura e escolha dos estudantes por temáticas étnico-raciais nas monografias, especialmente quando relacionadas às questões da saúde”. Para ela, esse movimento demonstra um interesse crescente em se debruçar sobre essas discussões. Além disso, a pesquisadora ressaltou que os trabalhadores incentivam os estudantes a assumirem um papel ativo: “Colocamos para eles a importância de serem fortalecedores e multiplicadores dessas perspectivas”.
Por fim, a professora-pesquisadora reforçou a relevância da articulação entre ensino, pesquisa e currículo. “O fortalecimento de um projeto de ensino antirracista com pesquisas como essa é fundamental. É muito caro e importante pensar essa integração e refletir sobre a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra”, apontou. Valéria lembrou que, das seis diretrizes gerais dessa política, quatro estão diretamente relacionadas à formação dos trabalhadores da saúde. “Isso mostra o peso da formação antirracista para a efetivação dessa política, voltada para a maioria da população brasileira, para os usuários e trabalhadores do SUS e, especialmente, para os técnicos em saúde”, concluiu.
Cuidado em saúde: caminhos para uma atenção integral e antirracista à população negra
Na mesa-redonda, Fernanda explicou que o objetivo do evento foi promover um diálogo sobre o tipo de cuidado que a população negra recebe e aquele que deveria orientar o pensar e o fazer em saúde. “É fundamental refletirmos que 63% da sociedade brasileira é composta por pessoas negras, que são as principais usuárias do SUS — especialmente as mulheres. Historicamente, vivemos em uma sociedade que reproduz práticas sistemáticas de violência e perseguição contra corpos negros e temos que nos debruçar sobre isso”, destacou. E acrescentou: “Temos assistido uma propagação da violência sobre o corpo da população negra. Mas também vemos, cada vez mais, movimentos de resistência e de resiliência, que aprofundam e pautam esse debate como uma luta política, como um movimento de sobrevivência”.
Em sua fala, Gabriela Barreira falou sobre o cuidado no SUS, como ele se transversaliza de forma racializada e o que pode ser feito para que se tenha um cuidado antirracista. “Não deveria dar para falar de cuidado sem falar de raça. Não podemos pensar a saúde da população negra como um recorte temático da saúde geral, principalmente, se estamos falando de um cuidado construído no SUS, que tem a maior parte da população usuária negra. O cuidado racializado é um eixo estruturante do SUS e esse sistema cuida, mas falha nesse cuidado”, lamentou.
Isso acontece porque o cuidado, segundo Gabriela, é pensado para pessoas brancas como sujeitos universais: “É para esse corpo branco que são pensadas as políticas de saúde; que são escritos os livros de saúde; que são considerados os padrões. E quando olhamos para a nossa realidade, os corpos negros ficam no lugar do ’outro’, com dificuldades desde o acesso, por estarem vivendo num território vulnerabilizado e violento. Isso não tem como ser desvencilhado do cuidado em saúde”.
Gabriela destacou que profissionais negras não chegam ao cuidado “como uma página em branco”, pois carregam suas vivências enquanto pessoas negras na sociedade. Para ela, essa experiência é fundamental, mas não pode ser a única responsável por pautar o cuidado racializado. “A maioria dos profissionais de saúde, especialmente na medicina, são homens brancos de classe média-alta, que atuam em territórios com realidades muito diferentes das suas”, afirmou. Segundo Gabriela, quando o racismo não é discutido na graduação formam-se profissionais sem preparo para atender à população negra. “Quando deveria ser exatamente o contrário, uma vez que são essas pessoas que vamos atender mais nos ambulatórios durante a formação”, completou.
Gabriela ressaltou que o cuidado destinado à população negra, especialmente às mulheres negras, muitas vezes é um cuidado que fere. Segundo ela, quando uma mulher negra chega a um serviço de saúde, carrega consigo a memória de um cuidado historicamente negado. “Isso aparece nas experiências de peregrinar por maternidades em busca de acolhimento para o parto; no momento em que sua dor é diminuída pela ideia de que mulheres negras são mais resistentes; ou quando é julgada na sala de espera, associada a uma infecção sexualmente transmissível por ser vista como promíscua”, explicou. Para Gabriela, trata-se de um corpo marcado pelo cuidado negado e perpetuado dentro do SUS, que deveria ser integral, equânime e universal.
Em seguida, Elizabeth Aguiar se questionou: “Como é o cuidado para quem cuida?”. A técnica em saúde acredita que não há valorização profissional, principalmente com “os que querem fazer acontecer”. “Há uma grande maioria de pessoas negras que buscam atendimento. Nesse sentido, queremos trazer luz através da política de saúde para essas pessoas, partilhar nossos saberes para que elas entendam que podem exigir um tratamento digno e igual, dentro das suas diferenças. Mas no nosso cotidiano de trabalho, isso não acontece”, lamentou.
Como usuária negra, Elizabeth afirmou que também não encontra valorização nos espaços de saúde. “Quando chegamos ao posto, querem atender a gente rápido. E se você ficar sentado esperando, entra uma outra pessoa com cor da pele diferente e é atendida de forma diferente”, disse.
A técnica em saúde destacou que o racismo impacta até no diagnóstico, que muitas vezes chega de forma tardia para pessoas negras. Segundo ela, a formação não pode se restringir a quem está na porta de entrada do SUS. “Essa formação tem que alcançar todos os trabalhadores, os técnicos, quem está na portaria, quem atua na regulação”, afirmou. Para ela, treinar é fácil, mas formar alguém, fazê-la compreender a importância do saber e do conhecimento repassado, exige outra metodologia. Ela alertou ainda que o racismo institucional pode levar a desfechos piores e a diagnósticos e tratamentos mais lentos para essa população. “Uma paciente pode demorar mais para ser levada a exames adequados. É isso que acontece”, disse.
Por fim, Elizabeth reforçou que as equipes dentro do SUS precisam ser capacitadas para garantir que todas as pessoas negras tenham um atendimento digno. Um dos caminhos poderia ser o letramento racial: “Estou fazendo o curso que a Escola Politécnica e a Fiocruz estão oferecendo. Eu também posso ter falas racistas, eu estava desatualizada. Isso deveria ser obrigatório em todas as carreiras, porque através do letramento racial, entendemos o que é a raça e, assim, como vamos lidar com essas informações em nosso cotidiano”.
Assista ao evento completo em https://www.youtube.com/watch?v=csbkWGTivNw