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Infográficos, cartas e e-book transformam narrativas de mulheres negras em dispositivos de formação crítica na saúde

Produzidos por professores-pesquisadores da EPSJV/Fiocruz, materiais propõem uma leitura desestabilizadora do racismo institucional no SUS e colocam experiência, memória e história de mulheres negras no centro da formação em saúde
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 02/04/2026 10h38 - Atualizado em 02/04/2026 11h47

Dois infográficos ilustrados, um baralho de cartas e, em breve, um e-book. Mais do que produtos de pesquisa, esses materiais foram concebidos como dispositivos de formação crítica para tensionar e transformar a maneira como o racismo institucional é compreendido e enfrentado no Sistema Único de Saúde (SUS). Desenvolvidos por professores-pesquisadores da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), partem de um princípio central: as narrativas de mulheres negras não são ilustrações de desigualdade, mas produção de conhecimento.

Produtos da pesquisa “Narrativas de Mulheres Negras como Campo de Investigação e Universo Estratégico para o Enfrentamento do Racismo Institucional no SUS”, realizada entre 2023 e 2025, com financiamento do 1º Edital de Fomento à Pesquisa da EPSJV, os materiais nascem de uma inquietude: o que mulheres negras têm a dizer sobre o racismo institucional na saúde e o que muda quando suas experiências são tomadas como base para compreender e intervir na realidade?

Produtos que deslocam o olhar

Segundo a professora-pesquisadora da Escola Politécnica Carolina Dantas, que coordena a pesquisa juntamente com a também professora-pesquisadora Viviane Soares, os dois infográficos — “O racismo institucional e a saúde da mulher negra” e “A saúde da mulher negra e as histórias que o corpo conta” — rompem com a lógica tradicional de apresentação de dados em saúde. Em vez de tratar números como evidências neutras, eles os colocam em diálogo com relatos reais, conectando estatísticas a experiências concretas de cuidado, adoecimento e sobrevivência.

No primeiro, indicadores sobre acesso à saúde, doenças crônicas, trabalho, mortalidade e violência aparecem acompanhados de narrativas que revelam as condições em que esses dados são produzidos. No segundo, o foco se desloca para a história, a experiência e projetos de futuro que os corpos das mulheres negras carregam, reunindo narrativas contemporâneas e trajetórias de resistência que ajudam a compreender o presente à luz da memória.

Já o baralho “Cartas Desestabilizadoras: um dispositivo para o diálogo sobre saúde da mulher negra e racismo institucional” propõe uma outra forma de engajamento: o debate coletivo. Com 24 cartas divididas entre os eixos “Acesso à saúde” e “Cuidado em saúde”, o material funciona como disparador de conversas sobre temas frequentemente silenciados ou naturalizados no cotidiano dos serviços. “Sem respostas certas ou vencedores, as cartas convidam à construção de análises coletivas que conectem experiências individuais às dimensões históricas, institucionais e estruturais do racismo. Nesse processo, o papel da mediação é garantir escuta, sustentar o contraditório e transformar o desconforto em reflexão”, afirma Carolina.

A coordenadora da pesquisa adianta ainda que conjunto será aprofundado por um e-book, com lançamento previsto para o próximo ano, que reunirá os fundamentos teóricos e metodológicos da pesquisa, sugestões de uso dos materiais e análises temáticas das entrevistas. Entre os temas abordados estão as tensões entre universalidade e equidade, corporeidade e a desumanização de mulheres negras no cuidado em saúde, as barreiras de acesso e absenteísmo no SUS, bem como as emoções envolvidas no cuidado em saúde.

Da sensibilização à desestabilização

Para a equipe do projeto, um dos diferenciais dos materiais está na recusa à lógica da “sensibilização” como estratégia principal de leitura do racismo institucional. Em vez disso, a proposta é produzir deslocamentos. Carolina explica: “É questionar evidências naturalizadas, explicitar os silenciamentos e tensionar os sentidos que sustentam as desigualdades raciais na saúde”.

Nos infográficos, isso aparece na articulação entre dados, memória e narrativa, que transforma estatísticas em parte de um processo histórico mais amplo. Já nas cartas, aposta no diálogo como prática formativa e política, capaz de colocar sentidos em movimento e abrir espaço para novas interpretações. Para Carolina, essa especificidade está justamente na aposta no diálogo como ato formativo e de transgressão. “Não há resposta certa, não há vencedor, e a rodada só se encerra quando o grupo consegue conectar a experiência individual às dimensões históricas, institucionais e estruturais do racismo”, explica, acrescentando que ao mobilizar corpo, emoção e pensamento coletivo, as cartas recusam a lógica da sensibilização e propõem, em seu lugar, um processo formativo comprometido com a equidade racial e com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

Formação em saúde como prática crítica

Os produtos também dialogam diretamente com uma concepção ampliada de formação em saúde. Para a equipe do projeto, a formação geral (humanística, científica e artística) não é acessória, mas condição para o exercício profissional. “Isso significa reconhecer que disciplinas como história, língua portuguesa, geografia, matemática etc. têm impacto direto na forma como trabalhadores da saúde compreendem o mundo, identificam desigualdades e atuam no cuidado. Aquilo que é retirado dessa formação faz falta, especialmente para os sujeitos mais vulnerabilizados, que no Brasil têm cor, gênero e classe”, comenta Carolina. 

Nesse sentido, os materiais foram pensados como ferramentas que podem ser incorporadas a diferentes contextos formativos: da educação básica e técnica às práticas de educação permanente no SUS, passando por atividades de extensão e espaços de mobilização social.

Dispositivos em circulação

Flexíveis, os infográficos e as cartas podem ser utilizados de forma independente ou combinada. De acordo com Carolina, a leitura dos infográficos ganha potência quando feita coletivamente e com mediação, permitindo explorar, com calma, as relações entre dados, história e experiências. As cartas, por sua vez, podem ser usadas em rodas temáticas, aprofundando questões específicas, ou em rodas transversais, que articulam diferentes dimensões da vida social, como trabalho, território e mobilidade, à produção do adoecimento. “Em todos os casos, o objetivo é criar condições para que o racismo institucional, muitas vezes invisibilizado no cotidiano dos serviços, possa ser nomeado, analisado e enfrentado de forma coletiva”, disse a coordenadora, que destaca ainda o quanto o trabalho coletivo foi importante para esse projeto, que contou com os também professores-pesquisadores da Escola Politécnica Jonathan Moura, Aline Rosa, Danielle Leal, Fernanda Martins, Jéssica Lima, Nathália Barros, Talita Rosetti e Valéria Carvalho. 

Ao colocar as narrativas de mulheres negras no centro, os materiais não apenas ampliam o campo de investigação, mas propõem um outro modo de produzir conhecimento em saúde — comprometido com a equidade e com a transformação das práticas.

Acesse os materiais em: https://drive.google.com/drive/folders/1zWutd9ITQReLzeTCflFAyae9OatBHmGt...