As violências e as desigualdades estruturais impactam profundamente o cotidiano escolar, afetando a saúde de estudantes e trabalhadores. A partir desse entendimento, surgiu o projeto de pesquisa-intervenção “Estratégias intersetoriais de produção do cuidado em escolas de territórios marcados por violências”, coordenado pela professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Ingrid D'avilla. Desde 2024, a iniciativa tem atuado diretamente no fortalecimento do Programa Saúde na Escola (PSE) no município do Rio de Janeiro, em parceria com o Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), e desenvolvido em cooperação técnica com as Secretarias Estaduais de Educação (Seeduc) e de Saúde (SES) do Rio de Janeiro, além da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-RJ).
O PSE constitui uma das principais políticas intersetoriais brasileiras voltadas à promoção da saúde de adolescentes e jovens no ambiente escolar. Na visão de Ingrid, no atual contexto — “marcado pelo aumento das desigualdades, pela intensificação das violências de gênero nos territórios e pelo crescimento das demandas de saúde mental entre estudantes”, iniciativas que fortaleçam o diálogo entre saúde e educação tornam-se ainda mais estratégicas. “É nesse cenário que o projeto se alinha diretamente aos princípios e diretrizes do PSE, oferecendo uma abordagem inovadora e territorializada da produção do cuidado. Ao propor ações que integram saúde, educação, assistência social, cultura e direitos humanos, a iniciativa contribui para qualificar as práticas intersetoriais preconizadas pelo programa, ampliando sua potência no cotidiano das escolas públicas de Ensino Médio”, destaca a coordenadora do projeto.
Para a vice-diretora de Ensino e Informação da EPSJV/Fiocruz, Márcia Valéria Morosini, o projeto é estratégico para a institução ao abordar um tema que considera urgente: o avanço das violências que afetam jovens moradores de territórios vulnerabilizados e as instituições de ensino nessas áreas. Segundo ela, a iniciativa se diferencia por adotar a perspectiva do cuidado ampliado, com ênfase no trabalho junto aos docentes e na construção de uma abordagem intersetorial. Márcia ressaltou que a articulação envolve a mobilização de diferentes saberes e instituições em torno de um objetivo comum, o que fortalece a atuação coletiva frente às desigualdades. “Essa convergência diferencia essa experiência que pode gerar contribuições importantes para o PSE no Rio de Janeiro e oferecer subsídios para políticas públicas”, afirma.
Ações intersetoriais nos territórios
Desde novembro de 2024, têm sido realizadas reuniões de pactuação e avaliação contínua do projeto, com participação de equipes da coordenação do PSE em âmbito municipal, com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-RJ); e em âmbito estadual, com a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) e com a Coordenadoria de Gestão Intersetorial e Frequência Escolar (Coogin) da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ). Além disso, também têm acontecido reuniões semestrais com representações regionalizadas da Seeduc-RJ - Diretorias Regionais Metropolitanas III e VI.
A mais recente delas aconteceu no dia 24 de março, com a presença da equipe da pesquisa e representantes da Coogin/Seeduc-RJ e da SMS-RJ. No encontro, a equipe fez uma devolutiva das etapas do projeto e dos produtos em andamento. “A gente sempre fica focado no ’fazer’ e quando alguém para um tempo para escrever, analisar e fazer essa troca é fundamental. Parabéns pelo trabalho do projeto”, disse a coordenadora do PSE na SMS-RJ, Dilma Medeiros. A coordenadora da Cogin/Seeduc-RJ, Bruna Santos, complementou: “Acredito muito na potência da parceria entre Ciência, Saúde e Educação. Temos que caminhar juntos, porque a política só vai atender melhor a necessidade da população a partir de estudos, de análises, de estar apropriada do território”.
Nos territórios de Manguinhos e Maré (região na qual está localizada a Fiocruz, no Rio de Janeiro), o projeto tem viabilizado a atuação contínua em três escolas públicas estaduais de Ensino Médio - Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila e Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro (Manguinhos); e Ciep 326 Professor César Pernetta (Maré), articulada com as equipes das Clínicas da Família de referência para o PSE. Duas dessas escolas, embora formalmente incluídas no programa, não realizavam atividades de forma rotineira até a chegada do projeto. A terceira passou a integrar o programa a partir das articulações promovidas pelo projeto. Em função da megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, foi pactuada a inserção do Colégio Estadual Gomes Freire de Andrade, na Penha (RJ), com ações em andamento desde dezembro do mesmo ano.
Primeiramente, foram realizados encontros com as equipes das Clínicas da Família, o que viabilizou a construção de planejamentos conjunto, a definição de prioridades e a implementação de ações integradas no dia a dia das escolas. De acordo com Ingrid, as iniciativas abordaram temas centrais para a promoção da saúde e do cuidado integral, incluindo vacinação de estudantes e trabalhadores, saúde mental, gênero, sexualidade e Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), diversidade e combate ao racismo, além de ações de acolhimento realizadas após operações policiais ou episódios de tiroteio nos territórios. “Nessas situações de crise, a atuação articulada entre escola e saúde mostrou-se fundamental para a oferta de escuta, acolhimento e cuidado, reconhecendo os impactos diretos da violência armada sobre os processos de ensino-aprendizagem e nas dinâmicas de convívio dentro e fora da escola”, ressalt.
Na avaliação da coordenadora do projeto, esse acompanhamento contínuo tem possibilitado identificar tanto as potencialidades quanto os limites e desafios da implementação do programa nos territórios, além de gerar subsídios importantes para qualificar as práticas intersetoriais, contribuindo para o fortalecimento do PSE como uma política pública estruturante, e não apenas como um conjunto de ações pontuais. “Um aspecto inovador das atividades desenvolvidas foi a realização de oficinas voltadas especificamente para docentes das escolas, com oferta de rodas de conversa e experimentação de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (Pics)”, conta Ingrid, acrescentando que essas iniciativas têm ampliado o alcance do PSE - historicamente voltado aos estudantes - ao incluir os docentes como atores fundamentais das comunidades escolares na construção de ambientes mais saudáveis: “As oficinas favoreceram espaços de escuta, troca de experiências e reflexão sobre o trabalho docente, o cuidado de si e as condições de trabalho, contribuindo para o fortalecimento do vínculo entre educação e saúde e para a promoção da saúde mental no ambiente escolar”.
Em parceria com as equipes locais de gestão educacional, também foram realizadas oficinas com estudantes e trabalhadores, pensando na construção coletiva de estratégias de cuidado, por meio de escutas qualificadas de situações apontadas pelas escolas como prioritárias. Entre os casos acompanhados, destacaram-se situações mais graves, que exigiram a ativação e articulação da rede intersetorial. Desenvolvidas de forma contínua, essas escutas permitiram aprofundar a compreensão sobre o sofrimento psíquico envolvido e subsidiar decisões compartilhadas entre a equipe do projeto, a escola e os serviços do território. Para Ingrid, essa experiência também reforça a importância das redes informais e comunitárias na produção do cuidado, especialmente em contextos em que os serviços públicos enfrentam limitações. "A iniciativa contribuiu ainda para o fortalecimento de vínculos institucionais e comunitários por meio de visitas técnicas, reuniões e atividades culturais e formativas realizadas nos territórios”, afirma.
Nessa direção, o projeto aposta na construção de um modelo baseado no apoio institucional intersetorial, que articula diferentes políticas públicas no cotidiano escolar. A proposta envolve a atuação de apoiadores com formação voltada à saúde coletiva, saúde da família ou saúde mental, mas que, sobretudo, tenham capacidade de desenvolver ações coletivas, dialogar com diferentes equipes e atuar de forma integrada nos territórios. A atuação desses apoiadores parte da inserção no dia a dia das escolas, buscando fortalecer vínculos, aproximar serviços e favorecer a construção de respostas compartilhadas às demandas locais.
A experiência na prática
Dentre os apoiadores institucionais intersetoriais do projeto está Geórgia Rolemberg Lau, que tem atuado na Escola Municipal Luiz Carlos da Vila, em Manguinhos. Lá, duas oficinas vêm mobilizando o cotidiano escolar ao articular cuidado, expressão e construção coletiva entre docentes e estudantes. A oficina de música “O show tem que continuar”, iniciada em junho de 2025, é voltada para professores, gestores e demais trabalhadores da escola, com encontros semanais conduzidos pelo professor de Música. “Inspirada na obra do patrono da escola, importante compositor de samba, a atividade combina resgate da história institucional com práticas de canto e técnicas vocais, contribuindo tanto para a saúde física — especialmente das cordas vocais — quanto para o bem-estar mental. Além disso, o espaço tem fortalecido vínculos entre os participantes, que compartilham experiências, memórias e repertórios, criando um ambiente coletivo mais integrado e acolhedor”, afirma Geórgia.
Já em 2026, Geórgia conta que teve início a oficina de teatro destinada aos estudantes, conduzida por professores de Artes Cênicas. Segundo ela, a presença do grupo tem despertado curiosidade e engajamento no ambiente escolar, estimulando processos de aprendizagem por meio da expressão corporal e da criação cênica. “Durante as atividades, os alunos trabalham consciência corporal, respiração e construção de cenas, refletindo sobre o próprio cotidiano a partir do teatro. Um dos rituais da oficina, deixar sapatos e celulares fora da arena e cuidar coletivamente do espaço, também tem incentivado práticas de atenção, respeito e pertencimento, ampliando o sentido educativo da experiência”, completa.
No CE Professor Clóvis Monteiro, o apoiador Tiago Régis vem acompanhando um conjunto de iniciativas que articulam educação, cultura e saúde no cotidiano escolar. Entre os destaques está a oficina de grafite “Portais para o Futuro”, realizada em parceria com a professora de Filosofia. Voltada para duas turmas do segundo ano do Ensino Médio, a atividade propôs o grafite como ferramenta de expressão e autoconhecimento, já que memória, presente e futuro são dimensões humanas essenciais aos projetos de vida e saúde. “No primeiro encontro, o artista Airá apresentou sua trajetória, marcada pelas experiências na periferia e pelas escolhas que atravessam sua história, inspirando os estudantes a refletirem sobre seus próprios caminhos. Em seguida, os participantes transformaram memórias significativas em palavras e identidades visuais, que foram levadas para um mural coletivo no segundo dia da oficina”, contou Tiago.
As ações também incluem o fortalecimento da articulação intersetorial com a Clínica da Família Barbara Starfield, responsável pelo PSE na unidade. A parceria contribuiu para o planejamento e a realização de atividades voltadas tanto aos estudantes quanto aos profissionais da educação - quando exclusivamente direcionadas aos educadores levam o nome “Barbara & Clóvis: quando a saúde encontra a educação”. Outra iniciativa foi a criação de uma ludoteca na biblioteca da escola, inaugurada simbolicamente durante o torneio anual de xadrez, em outubro de 2025. “Com mais de 20 jogos, adquiridos pelo projeto, o espaço foi pensado como uma zona de imaginação coletiva e de problematização do real, ao acreditar e apostar na capacidade dos jogos de uma liberação dos interesses pedagógicos normativos", concluiu Tiago.
Incidência política e disputa de modelos de atuação
Neste mês de março de 2026, os integrantes do projeto enviaram contribuições para a consulta pública referente ao parecer orientativo do Conselho Nacional de Educação (CNE) para aplicação da Lei n° 13.935, de 11 de dezembro de 2019, que dispõe sobre a prestação de serviços de Psicologia e de Serviço Social nas redes públicas de Educação Básica. A participação nesse processo evidencia que a Escola Politécnica também se insere em uma disputa mais ampla sobre os modelos de intervenção nas escolas, ao propor caminhos que diferem da lógica centrada exclusivamente na inserção de profissionais dessas áreas.
Em um artigo que será publicado na revista Cadernos do Aplicação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os pesquisadores relatam exatamente que esse modelo de atuação que o projeto defende permite identificar limites e lacunas das políticas públicas quando confrontadas com a realidade dos territórios, especialmente em contextos marcados por desigualdades e violência. Ao mesmo tempo, aposta na valorização dos saberes locais e na construção de práticas de cuidado que considerem a diversidade, promovam equidade e fortaleçam os direitos das comunidades escolares.
A incidência política não para por aí. Em 2025, Ingrid participou de audiências públicas na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e no Ministério Público Federal, contribuindo para o debate sobre violência nas escolas e direito à educação. Entre os desdobramentos, destaca-se a criação de um banco de dados que subsidia a formulação de um projeto de lei estadual voltado à inserção de psicólogos e assistentes sociais na rede de ensino.
Desdobramentos e desafios
Eventos formativos, como seminários e cursos, também integraram a agenda do projeto, ampliando o debate sobre saúde mental, metodologias de pesquisa-intervenção e estratégias de acolhimento psicossocial no ambiente escolar. Há ainda diversos produtos em desenvolvimento, como: caderno de práticas intersetoriais, relatórios, vídeos, podcasts, mapas digitais das redes de cuidado e artigos científicos, além de propostas formativas voltadas a docentes e gestores.
“A experiência nos mostra que a escuta ativa e o acolhimento são centrais para o cuidado em saúde e a saúde mental nas escolas. Também evidencia que a intersetorialidade não pode ser imposta de cima para baixo — ela depende do reconhecimento dos limites e potencialidades de cada política e da criação de espaços de diálogo horizontal, que ainda são escassos no cotidiano escolar”, afirma Ingrid.
Sobre os principais desafios, Ingrid aponta a violência armada, que coloca em suspensão o cotidiano, interrompe atividades, gera medo, insegurança e evasão escolar, ampliando as condições de vulnerabilização que impactam diretamente às condições de saúde dos jovens. “Somam-se a isso as fragilidades dos fluxos e da comunicação entre escolas e serviços de saúde, além da reduzida articulação desses serviços com redes comunitárias, o que dificulta o cuidado de casos mais complexos. Mesmo assim, a experiência mostra que, com investimento, fortalecimento dos espaços institucionais e valorização dos saberes locais, é possível construir vínculos e avançar para a construção de novos dispositivos de atenção psicossocial nas escolas”, ressalta.