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Entrevista: 
Monica Vasconcelos Cruvinel

‘A loucura é um grande encontro com a alteridade’

No Dia da Luta Antimanicomial, no ano em que a Reforma Psiquiátrica completa duas décadas e meia, o Portal EPSJV decidiu fazer mais um balanço das mudanças que a lei 10.216/2001 implementou no sistema de saúde brasileiro. Mas, desta vez, as análises que você vai ler partem da experiência concreta de pessoas com transtornos mentais, usuários que se cuidam na Rede de Assistência Psicossocial (RAPS), instituída por portaria uma década depois, mas que também vivenciaram práticas violentas, que motivaram a luta pela superação do modelo anterior, como internações involuntárias e tratamentos com eletrochoque. Ao contar sua história nesta entrevista, Monica Cruvinel, professora da Educação Básica de Campinas, destaca ainda as particularidades da condição de mulher “louca”, segundo suas próprias palavras. Ressalta, entre outras coisas, o medo de perder a guarda dos filhos e a maior vulnerabilidade das mulheres que carregam um diagnóstico de Saúde Mental diante das situações de violência existentes na sociedade. “Ninguém acredita na gente”, desabafa, explicando que foi para discutir – e enfrentar – essas questões que ela criou a Coletiva de Mulheres Antimanicomiais. Com muitos elogios à Reforma Psiquiátrica e, particularmente, ao funcionamento dos CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial, onde encontrou um tratamento respeitoso e humanizado, Monica aponta também retrocessos acumulados ao longo desses 25 anos, principalmente o fortalecimento das comunidades terapêuticas, que recuperam a lógica dos manicômios, e a precarização dos serviços que compõem a RAPS.
Cátia Guimarães - EPSJV/Fiocruz | 18/05/2026 07h09 - Atualizado em 11/06/2026 13h16

Eu queria começar pedindo para você contar a sua experiência como portadora de transtornos mentais, usuária da Rede de Assistência Psicossocial (RAPS). Qual foi o diagnóstico, como ele foi descoberto? Por quais instituições e formas de cuidado você passou?

Foi aos 32 anos. Eu não gosto muito de falar em diagnóstico porque acho que eles rotulam. Acho que é mais legal usar o termo loucura mesmo. Nessa época, eu tinha passado por diversas violências: violência doméstica, violência na vida, uma série de mudanças. E, a princípio, eu achei que tinha uma depressão. Busquei ajuda médica, busquei delegacia e todo o resto que envolve ser mulher e sofrer violência. E os próprios remédios que o médico me deu causaram reações muito graves, que só hoje eu sei que eram reações medicamentosas. Mas minha família achou que aquilo era parte de algum outro quadro além da depressão.

Acho que o mais difícil para a maioria das mulheres é que a gente tem o risco de perder a guarda dos filhos. Existe um pressuposto de que a mulher louca não é capaz de maternar. E ela é.

Daí, eu tive uma internação involuntária. Mais de uma: tive três. Isso acontece muito com mulheres, né? Acho que tem um recorte de gênero em que a gente, por questões da vida mesmo, acaba sendo internada, por exemplo, [em] momentos em que termina um casamento, em que se rebela contra alguma ordem definida na sociedade, quando a gente quer ter autonomia da família. Enfim, ser mulher é difícil e acho que uma das ‘saídas’, quando a gente vai a contrapelo, é a internação, é um diagnóstico, uma psiquiatrização, uma patologização. Foi muito difícil. Eu fui submetida a eletrochoque. É tortura, é dolorido, você perde a memória. E acho que o mais difícil para a maioria das mulheres é que a gente tem o risco de perder a guarda dos filhos. Existe um pressuposto de que a mulher louca não é capaz de maternar. E ela é. Óbvio que a gente precisa de suporte. Acho que o meu maior sofrimento era perder a guarda dos meus filhos. Eu não perdi, ainda bem.

Eu sofria muitas internações e era muito indignada com remédio. Eu não acho que a questão é remédio só. Daí, para sair desse ciclo de violência, eu resolvi que iria estudar. Dentro da minha internação, eu falei: ‘cara, eu vou ter que estudar’. Fui fazer mestrado, prestei [o processo seletivo] escondido e consegui. Fazendo mestrado e doutorado, eu consegui autonomia. Foi um momento em que eu fiquei bem. Recentemente, as coisas pioraram. Porque a gente tem muitas sequelas da psiquiatrização, tanto do eletrochoque como dos medicamentos e do próprio sofrimento. Eu estou com declínio cognitivo, pode até ser já o início de um quadro demencial. É uma grande tristeza, porque é uma vida de muitas torturas. E uma vida curta, né? Tenho 57 anos e há dez esse declínio já começou. Ao mesmo tempo, embora eu não tenha um olhar cristão de que a gente precisa sofrer, acho que o sofrimento nos faz olhar o mundo com outras lentes.

Quando eu consigo chegar na RAPS [Rede de Atenção Psicossocial] – que até então não era RAPS, havia só hospital clínica ou particular –, vejo que é uma outra forma de lidar com a singularidade, com a loucura, com a diferença. Eu acho que a loucura é um grande encontro com a alteridade. Não tem nada de glamouroso, tem de muito aprendizado. E aí eu começo a militar na luta antimanicomial. Primeiro, muito tímida, porque sou uma mulher que, apesar de tanto sofrimento, tem muitos privilégios: afinal, eu estudei, sou professora. Comparada a muitos dos meus amigos que não têm nem o que comer, nem onde morar, eu sou uma mulher de muitos privilégios. Eu começava a fazer parte das assembleias e não tinha quem escrevesse. As pessoas não falam a nossa língua. A gente precisa de acessibilidade e é muito difícil as pessoas entenderem isso. E eu comecei a fazer esse meio de campo: ‘Deixa que eu faço a ata, vamos fazer assim...’. Comecei a puxar as coisas, não no lugar de quem ‘faz por’, mas [na intenção] de trocar saberes. Em toda assembleia, em todo lugar, eu estou ensinando alguém a usar o Zap [ WhatsApp], o Google Meet... Para abrir o horizonte. Aqui [em Campinas], tem a luta do território, com muitos usuários. A gente está sempre junto, reivindicando direitos. E, nacionalmente, a gente fundou a Coletiva Nacional de Mulheres Antimanicomiais, que foi um trabalho lindo. Era pela internet, a gente tentava, a todo momento, dar acessibilidade às pessoas, tivemos mais de 600 participações. A gente fazia rodas locais. Era para a pré-conferência [referência à 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, que aconteceu em 2025]. Porque eu via que os meus amigos não estavam entendendo o que era conferência, nem eu. Então, fizemos de um jeito e com uma linguagem que a gente entendia. A gente aprendeu a usar o Google Meet, aprendeu a organizar o tempo, aprendeu o que é fazer uma proposta [para apresentar numa conferência]. Tivemos várias rodas formativas.

As pessoas falam que os profissionais precisam de formação, mas nós, usuários, também precisamo

A luta antimanicomial é machista também. As mulheres servem para fazer tarefa, mas não servem para idealizar, dar ideia. Tem gente que manda a gente tomar remédio: ‘Ei, você já tomou remédio hoje?’. Tem machismo em todo lugar. ‘Bora’ montar uma coletiva só de mulheres, né? Foi muito bacana. E, a partir daí, foi um grande aprendizado. A gente fez roda em presídio, em aldeia, nos CAPS... A gente fez muitas rodas em linguagem muito acessível, explicando o que era a 5ª conferência, o que é comunidade terapêutica... Acho que é essa pegada de formação. As pessoas falam que os profissionais precisam de formação, mas nós, usuários, também precisamos.

Acho que é um pouco essa a minha história, a história de como eu chego [à área da Saúde Mental] e do que me dá desejo de trocar saberes com os usuários, de aprender, de a gente se apoiar.

Você tem 57 anos e tornou-se usuária dos serviços de Saúde Mental com 32. Você entra no circuito do cuidado em Saúde Mental ainda um pouco antes da formalização da Reforma Psiquiátrica, certo?

Já tinham cidades com experiências locais, mas [a minha experiência] fica paralela a isso.

Eu queria perguntar, a partir dessa sua experiência, quais são os elementos mais importantes nesse cuidado, comparando pré e pós-Reforma. O que você destacaria de mais significativo nas mudanças de concepção trazidas pela Reforma Psiquiátrica?

Embora seja reforma e não revolução, eu acho que os ideais da Reforma Psiquiátrica brasileira são muito revolucionários

Embora seja reforma e não revolução, eu acho que os ideais da Reforma Psiquiátrica brasileira são muito revolucionários. Você imagina que as pessoas ficavam décadas em manicômios, sofrendo torturas como se sofria nas senzalas e em campos de concentração. Eu sei que [algumas pessoas] ainda ficam [internadas assim] mas, historicamente, a gente precisa ter esse marco.

Não foi o CAPS que virou manicômio, foi a OS [Organização Social, tipo de instituição privada contratada pelo Estado para gerir serviços públicos] que entrou e precarizou

Eu sei que os profissionais fazem muitas críticas [à forma como foi implementada a Reforma] mas, como usuária, eu acho brilhante todo o processo. Claro que são processos locais e inconclusos, mas você imagina o que significa tirar as pessoas do manicômio com programas como o ‘De volta para casa’ [que garante um auxílio para pessoas que passaram dois anos ou mais em internações psiquiátricas possam viver e continuar o tratamento em liberdade]... Preparar as casas, preparar oficinas de trabalho, preparar renda para essas pessoas, pensar que elas vão ter um cuidado comunitário no território, com acesso a outras unidades de saúde, com acesso à convivência, ao transporte... Isso se deu em muitos locais. Campinas, onde eu moro, teve uma rede muito robusta, que agora está precarizada. São Paulo teve, Santos, Belo Horizonte... A gente tem experiências. Então, para mim, a Reforma é um marco histórico. A gente pode fazer críticas: ela se dá no momento de redemocratização do país, foi o que era possível dentro daquelas condições de produção. Mas ela estabelece um olhar que não é médico-centrado, que é menos hierarquizado. Eu vou defender sempre o CAPS, por exemplo. Há pessoas que falam em ‘Capscômio’. Mas não foi o CAPS que virou manicômio, foi a OS [Organização Social, tipo de instituição privada contratada pelo Estado para gerir serviços públicos] que entrou e precarizou, foi o governo de direita que entrou... Enfim, se falarmos em ‘Capscômio’, estamos falando que a Reforma fez manicômios e isso não é verdade: ela fez espaços de cuidado importantes.

Eu não troco o CAPS que eu vou por outro serviço qualquer.

Eu vejo gente falando assim: ‘o CAPS não é para sempre’. Mas eles falam que a nossa condição é para sempre. Por que a gente não pode ter um local [que nos dê] a garantia de que, se porventura tivermos um episódio de transbordamento, vamos ser cuidado por pessoas com quem temos vínculos? É muito melhor. Eu não troco o CAPS que eu vou por outro serviço qualquer. Acho que a diferença é essa: ter outros olhares para a gente. Por exemplo, eu tenho dificuldade espacial, então, tem uma profissional que vai fazer um itinerário de ônibus comigo até eu aprender. Se preciso tirar um RG [Registro Geral, documento de identidade] e eu não der conta sozinha, eles vão me ajudar também. É muito bonito tudo isso. A relação que a gente tem entre os usuários, um se apoia no outro... É uma casa. É uma casa aberta em que a gente vai socializar e, quando precisar de mais, a gente vai ter um acolhimento.

Pós-Reforma, o louco tem um lugar de existência na cidade e no país

Essa é a diferença de a gente não ser paciente. O [termo] usuário é controverso, mas foi consensuado coletivamente: eu sou usuária de um serviço e isso me dá direito, por exemplo, a ser conselheira municipal de saúde, a participar de uma conferência nacional de saúde. Eu acho que, pós-Reforma, o louco tem um lugar de existência na cidade e no país.

O CAPS faz parte de uma rede, a que você já fez referência, que é a Rede de Atenção Psicossocial, que envolve outras instituições e tipos de serviços de saúde. A partir da sua experiência como usuária, me explica o que é essa rede e qual a sua avaliação sobre esses outros serviços?

É uma rede. Então, a gente pode usar o postinho – inclusive, aqui em Campinas, os prontuários são integrados. Eu posso usar o postinho, posso usar o ambulatório do hospital geral. Aqui em Campinas tem uma rede robusta de centros de convivências – que, infelizmente, estão sendo precarizados – que são maravilhosos. O centro de convivência não tem só pessoas com questões de Saúde Mental, tem pessoas da comunidade. Existem as unidades de acolhimento, para quando se precisa de um acolhimento mais rápido. Tem os CAPS infanto-juvenis, que eu acho fantásticos porque não são por diagnóstico, [não reproduzem] essa história de ter uma policlínica para tal tipo de diagnóstico, que não tem sentido. Tem o CAPS álcool e outras drogas, para os usuários de substâncias [químicas]. Tem as residências terapêuticas, que são uma coisa maravilhosa: quando a gente envelhece e não tem lugar [para morar], as pessoas que viveram em instituições asilares por muito tempo vivem [nas residências terapêuticas] como numa república: elas entram e saem, têm pessoas que ajudam no cuidado, mas têm a liberdade possível nessa democracia possível que a gente tem.

Os trabalhadores defendem muito o leito [psiquiátrico] em hospital geral – na 5ª Conferência [Nacional de Saúde Mental] mesmo isso apareceu. Eu acho um erro. O hospital geral faz parte da rede. Quando um usuário abre uma crise, muitas vezes ele é encaminhado para o hospital geral que, às vezes, tem mini-hospitais psiquiátricos dentro, com muita contenção, com medicação, com eletrochoque. Então, eu acho que a gente tem que sempre pedir para fortalecer a rede e não pedir leito [em hospital geral].

Infelizmente, a gente tem as comunidades terapêuticas dentro da RAPS. Eu acho que elas devem ter uma força política muito grande, porque estão desde a América do Norte até a América do Sul inteirinha. Têm a ver com a questão da guerra às drogas. Elas entram na RAPS, só que há portarias que exigem tantas coisas para as comunidades terapêuticas se cadastrarem na Saúde, que elas não conseguem. Campinas não tem nenhuma comunidade terapêutica vinculada à Saúde. O que elas fizeram? Entraram pela assistência social. O que a gente está vivendo é um grande processo de institucionalização em massa. É muito triste. Uma parte do governo [federal] financia, o governo do estado também, os municípios... Eu acho estarrecedor que a gente tenha o financiamento desses espaços e, junto a isso, o enfraquecimento do cuidado em liberdade da RAPS.

E eu não acho que a comunidade terapêutica, como dizem os profissionais, seja só para pessoas usuárias de substâncias. Tem aumentado o número de internação de mulheres, estão tentando fazer as policlínicas infantojuvenis... Então, eu acho que o projeto é muito maior do que o uso de substâncias.

Para o senso comum, muitas vezes aparecem como processos distintos o sofrimento psíquico da pessoa portadora de transtornos mentais e do usuário de álcool de outras drogas. E a própria existência de CAPS específicos para álcool e outras drogas ajuda nessa percepção. Diante disso, minha pergunta é: pela sua experiência, os usuários que não são propriamente pessoas com indicação de dependência de álcool e outras drogas estão apropriados dessa crítica às comunidades terapêuticas? Vocês conseguem discutir e mobilizar outros usuários em função desse problema e do retrocesso que ele significa?

Como usuária, atualmente, eu não vejo que tenha essa separação. Eu sou de um CAPS III [voltado para “adultos em sofrimento psíquico que exigem atenção contínua”, com funcionamento 24 horas e acolhimento noturno, como explica o site do Ministério da Saúde]. Não dá para falar que meu CAPS não é um CAPS AD [Álcool de outras drogas] também. Porque quando tem alguém de CAPS III usando substâncias, ele vai [para lá] e vice-versa. Para mim, nem deveria separar. Eu não vejo essa separação.

Acho que a gente está frágil em termos de militância, tanto de trabalhadores quanto de usuários. E não só na saúde

Outro aspecto é que eu acho que a gente está frágil em termos de militância, tanto de trabalhadores quanto de usuários. E não só na saúde. O grau de politização é muito pequeno. E isso, para usuário, ressoa mais. Os CAPS, hoje em dia, se têm uma assembleia, é para falar de rifa, de passeio, de manutenção... Você acaba criando uma alienação. Se não é um CAPS que tenha uma assembleia vigorosa, você vai ter uma massa despolitizada. Aqui em Campinas, especificamente, a gente teve um processo de desmonte no ano passado. Houve uma luta muito intensa e, de lá para cá, eu acho que as assembleias e o grau de consciência estão mais fortes. Nós, usuários, sem os profissionais, não fazemos muita coisa, não temos muita força.

Então, eu acho que [esses espaços] não estão muito politizados no Brasil inteiro, com algumas exceções, como Minas. Se o país está polarizado, a gente tem trabalhador e usuário de ultradireita. A gente tem usuário que vota na vereadora daqui que quer fazer intervenção involuntária. Não tem noção. Falta formação. É por isso que eu acho que a militância tem que ser formação política mesmo.

A luta contra a comunidade terapêutica é imprescindível, mas não deve vir separada da luta pelo fortalecimento e ampliação da nossa RAPS

E é difícil falar sobre comunidade terapêutica também. Porque eu acho que a contrarreforma não é só a instituição asilar. A contrarreforma é a destruição da rede que não é asilar. Quando uma família precisa de socorro, se não tem um CAPS ou ele está precarizado porque é [administrado por uma] OS, ela vai achar que comunidade terapêutica é a saída. A luta contra a comunidade terapêutica é imprescindível, mas não deve vir separada da luta pelo fortalecimento e ampliação da nossa RAPS.

Agora eu queria perguntar sobre a relação entre os usuários no cuidado de Saúde Mental. No relatório da 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada no ano passado, por exemplo, um dos aspectos destacados é a necessidade de fortalecer redes de apoio, fazer formação para o usuário e familiares... A Reforma Psiquiátrica traz também novas percepções do cuidado, que envolvem práticas como as dos grupos de apoio e outras formas de relação entre os próprios usuários. Eu queria que você contasse como percebe isso a partir da sua experiência.

Entre usuários [dos serviços de Saúde Mental], pelo menos os que eu conheço, a gente não duvida do que o outro está sentindo

Eu acho que é incrível a nossa relação entre usuários. A gente se entende. Quando eu preciso de alguém, sempre penso em falar com algum amigo meu que é usuário, que vai entender a minha loucura. Quando eles me procuram, também. A gente não tem muita força, por causa das nossas fragilidades, mas a gente se apoia muito. Ano passado houve manifestações da greve aqui. Eu não consigo tomar um ônibus sozinha, mas nunca andei tanto de ônibus quanto nas greves, porque sempre tinha um usuário vindo me pegar e me levar. E eu nunca preciso pedir. Além disso, não dá para generalizar, mas, entre usuários [dos serviços de Saúde Mental], [pelo menos] os que eu conheço, a gente não duvida do que o outro está sentindo. Então, se o cara falar ‘eu sou Jesus’, a gente não vai questionar, não vai causar nenhum espanto. Eu sei escrever, sei fazer um monte de coisa, mas não sei andar sozinha. Eu preciso, às vezes, de ajuda. Ninguém [entre os usuários] questiona isso. Outras pessoas, incluindo os profissionais de saúde e os meus filhos, [às vezes falam]: ‘pô, mas você não consegue ir ali?’. Não, eu não consigo. Então, [entre usuários], eu entendo que existe a [sua] dificuldade, que ela é esquisita, mas acredito no que você está falando. Tem uma potência de apoio entre nós, uma potência criativa.

Mas acho que tem um risco de profissionalizar isso. Pode ser bom, mas pode ser muito perigoso. Eu acho que qualquer trabalho, atualmente, com usuário de Saúde Mental, mesmo no SUS [Sistema Único de Saúde], às vezes, é mais exploração do que qualquer outra coisa. A pessoa ganha uma bolsa de R$ 70 reais e quem fica com essa grana são os espaços que fomentam as oficinas de trabalho. Eu acho que a chave seria a gente ter associações de usuários para fazermos o nosso trabalho. Porque cuidar do outro, às vezes, é muito difícil. Às vezes, o surto do outro me gera gatilhos. Eu tenho muito medo de esse lugar de ajuda mútua remunerado acabar sendo aquele em que se tem o menor salário para fazer os trabalhos mais difíceis, assim como o redutor de danos faz. Acho que a ideia é boa, mas tem que ser muito estruturado, não dá para pôr um usuário para fazer ajuda mútua se não tiver garantido o cuidado dele na rede, não dá para você falar para a gente cuidar se a gente não tiver garantia de estar cuidado. Acho que pode ser uma aposta interessante, desde que também não seja por menos de um salário-mínimo. E acho que esse não é o único lugar em que a gente deve estar. Meu sonho é fazer uma escola de usuários, livre, para a gente fazer formação do que quiser: crochê... Eu acho que a chave é o trabalho e não um trabalho protegido. É apostar que a gente é capaz de fazer um trabalho.

E o papel dos familiares? Existe, na rede, uma estrutura para acolher e incorporar os familiares nesse tratamento? Imagino que haja uma dificuldade dos próprios familiares, de quererem ou conseguirem estar, mas queria ouvir a sua percepção sobre como isso funciona na prática.

Acho que é muito singular. Depende do local, porque a Reforma são experiências locais, né? Então, eu vou falar pela minha experiência. Meus filhos são convocados sempre [pelo CAPS], e vão. Eu lembro que teve uma fase em que meu filho queria que eu tomasse remédio e eu falava que não era só remédio. Daí minha referência, o meu médico, a equipe, conversou com ele e foi superlegal. Ele ainda falou assim: ‘ah mãe, eles são tudo do seu time’. E eu falei: ‘pois é, ainda bem, né?’.

Também depende das famílias. Se tem alguém diagnosticado com transtorno mental e está indo ao CAPS, é porque os vínculos familiares estão muito ruins, né? É difícil, muitas famílias querem internar. É difícil também eles terem que cuidar. Eu vejo meus filhos: é difícil cuidar de mim em alguns momentos.

Acho que se poderia melhorar [esse serviço de aproximação com os familiares]. Precisa de investimento para envolver melhor, sair da nossa bolha, trazê-los mais para perto. Eu acho que usuário sozinho não faz verão, precisamos estar todos juntos, mas também acho que em alguns momentos nós precisamos estar juntos [entre usuários], nos fortalecendo. Eu acho que a luta é coletiva, que as conquistas que a gente conseguiu foram por luta. Não [se trata de] protagonismo – não gosto dessa palavra, que é superneoliberal –, mas nós [usuários] também podemos ser o centro, no sentido de se pensar o cuidado a partir do que a gente quer, do que é bom para a gente.

Você fundou um movimento chamado Coletiva Nacional de Mulheres Antimanicomiais. Além do machismo no próprio movimento, que você já comentou, há particularidades na vivência do transtorno mental e na violência do cuidado de Saúde Mental no caso das mulheres?

Ah, eu acho que tem. As questões de gênero, raça e classe são camadas que se sobrepõem. Não existe medidor de dor, todos sofrem. A intersecção de se ter um transtorno [mental] é cruel, é estigmatizante e pega homens e mulheres. A gente chega ao posto de saúde e, como eles sabem que somos pacientes psiquiátricos, já vão achar que o que a gente tem é psicológico. E a pessoa pode estar infartando. Tem um estigma tremendo. Essa é uma intersecção que deveria ser mais compreendida.

Essa violência, essa misoginia, que acontece na sociedade, quando é contra uma mulher louca, é exponencialmente maior, porque ninguém acredita na gente

Sendo mulher, a gente ainda tem as violências que sofre na sociedade, os assédios, a violência sexual, violência física, as agressões, institucionalmente também. Na Saúde, a gente sabe o quanto as mulheres são estupradas em situações de internação, e não só na Saúde Mental. Eu acho assustador. Se uma mulher é vítima de violência, às vezes, pelo próprio porteiro [do hospital], e engravida nessas situações,  depois [os profissionais de saúde] põem anticoncepcional [entre os medicamentos] da pessoa. Eu acho o cúmulo. Não tem uma conversa sobre se ela quer aquele anticoncepcional ou não. A gente teve, não faz muito tempo, acho que foi no governo [Jair] Bolsonaro, casos de esterilizações forçadas de usuários de substância. E tem a maternagem. A gente perde os filhos. É preciso falar sobre a lei de alienação parental [nº 12.318/2010]. O próprio cara que agride a mulher fala que ela é louca, interna, fica com o filho e o agride também: isso é uma prática, é uma realidade. E piora se a gente considerar mulheres negras e indígenas. Então, eu acho que tem essas especificidades. Essa violência, essa misoginia, que acontece na sociedade, quando é contra uma mulher louca, é exponencialmente maior, porque ninguém acredita na gente.

Você foi delegada da 5ª Conferência Nacional de Saúde Mental, que aconteceu no ano passado. O que destacaria como pontos mais importante nas discussões, propostas e formulações políticas que saíram de lá?

Eu saí como delegada desde o Serviço de Geração de Renda daqui [de Campinas], porque a gente fez uma conferência de inclusão pelo trabalho com 200 usuários. Nós fomos a primeira cidade a fazer uma conferência livre que tirou delegados. A gente mudou o estatuto e, a partir daí, todas as outras começaram [a fazer o mesmo]. Fomos nós, os usuários. Foi a conferência mais linda! Eu passei por todos os estágios: as pré-conferências, a municipal, a macrorregional, a estadual. E eu posso dizer para você que a força dos usuários foi incrível. Em São Paulo, a gente não ia ter conferência presencial, mas a gente entrou numa live, uma reunião online com o conselho [de saúde], eram todos loucos, falando ao mesmo tempo, gritando... A gente derrubou a live. Passou uma semana, conseguimos a verba [para fazer a conferência presencial]. Então, eu acho que, com o nosso jeito louco de ser, a gente teve muita força. A gente organizou um ato, fomos até o MDS [Ministério do Desenvolvimento Social], tudo organização de pessoas usuárias. Isso, para mim, foi o grande ponto positivo, porque a gente viu os trabalhadores, e não só da Saúde, meio que anestesiados. Acho que os usuários tiveram uma potência.

Pelo que acompanhei das propostas, desde [minha participação como] delegada daqui, eu acho que a gente estava defendendo o óbvio. Na minha avaliação, a gente estava pedindo, tentando garantir coisas que estão sendo destruídas. A questão das comunidades terapêuticas eu acho que foi uma grande pauta, a questão da participação das pessoas usuárias também. Mas, de resto, eu não acho que teve muita [novidade]. Vou ‘puxar a sardinha’: acho que a Conferência Livre das Mulheres, da qual nós levamos uma delegação [para a Conferência Nacional], trouxe coisas muito mais inovadoras. A gente fez as conferências nos territórios, nas aldeias, em todas as regiões do Brasil, e, daí, discutimos a questão de gênero e Saúde Mental. Não que isso seja novo, mas acho que, com essa potência, vindo de usuários, foi muito bonito. Teve também a questão das pessoas trans... A gente discutiu a questão de gênero e Saúde Mental: a que liberdade a gente tem direito enquanto mulher? Como [se dá] a Saúde Mental das mulheres indígenas, quilombolas, das mulheres negras, das mulheres trans? A gente teve um letramento sobre isso: várias pessoas trans e travestis explicando para nós, usuários, o que era gênero, o que é intersexo, a gente aprendendo a usar os pronomes... Então, eu acho que a Conferência Livre das Mulheres foi muito bonita nesse sentido de pensar gênero, raça e classe.

Por fim, eu queria que você fizesse um balanço desses 25 anos da Reforma Psiquiátrica, comparando com o que havia antes, claro, mas principalmente fazendo uma análise dos avanços e retrocessos na implementação desse novo modelo assistencial que a Reforma instituiu.

A Saúde Mental não está isolada do resto da conjuntura. É um momento de recrudescimento da direita, óbvio que eles vão voltar a fazer espaços de exceção

Eu acho que é difícil a gente fazer um balanço só da Saúde Mental, sem pensar a conjuntura toda. Essa lei tem 25 anos, sai num momento de redemocratização... É óbvio que não foi como a gente queria, mas saiu. E hoje, a gente tem uma conjuntura de um ascenso do fascismo e da ultradireita, um Congresso megaconservador, que já quis aprovar castração química para pedófilo. A Saúde Mental não está isolada do resto da conjuntura. É um momento de recrudescimento da direita, óbvio que eles vão voltar a fazer espaços de exceção.

Cabe a nós, desta geração, com as correlações de força que a gente tem atualmente, lutar pelo que a classe trabalhadora conquistou um dia. Porque, embora seja reforma, toda conquista da classe trabalhadora tem que ser defendida

Só é possível [conter isso] com luta coletiva, de forma organizada. Cabe a nós, desta geração, com as correlações de força que a gente tem atualmente, lutar pelo que a classe trabalhadora conquistou um dia. Porque, embora seja reforma, toda conquista da classe trabalhadora tem que ser defendida. A gente tem que defender essa lei, tem que defender a Reforma e tem que inventar novas formas de cuidado para essa contemporaneidade. Eu acho que só a luta social vai dar conta disso.