O governo federal acaba de lançar o programa ‘Novo Desenrola Brasil’, voltado a conter e solucionar o endividamento das famílias brasileiras. E foi incluída no texto a proibição de que quem participe do programa possa apostar em jogos de quota fixa, as chamadas bets, por um ano. Como pesquisador e profissional da área da Saúde, qual a sua avaliação sobre isso?
Essa ação, com certeza, vem de um diagnóstico que o governo vem fazendo dentro da plataforma que hoje já existe para autoexclusão dos jogos. Hoje, o governo tem uma plataforma em que as pessoas se excluem dos bancos de jogos e apostas, dessas bets. Essa plataforma é mais ampla e vem fazendo um estudo do perfil de quem vem jogando nessas bets. E acredito que a base para o governo tomar essa decisão deve ser [a identificação] de um perfil de pessoas que estão buscando um equilíbrio financeiro nas suas dívidas e procuram esses aplicativos de jogos como uma forma de reduzir as suas dívidas. As pessoas ficam desesperadas por não conseguirem recurso financeiro e vão buscando soluções, desde as bets até agiotas e outras formas. Como não conseguem uma negociação que lhes atenda e sabem que têm que terminar com aquela dívida, elas vão se arriscando cada vez mais. E os jogos se baseiam nisso. Quanto mais risco tem, mais se paga. E a pessoa também pensa que, se arriscando mais, se conseguir ganhar, vai ter mais dinheiro. Só que isso não ocorre. É uma grande armadilha essa estrutura.
Essa questão dos jogos de apostas realmente tem que ser regulada no país
Então, quando o governo faz essa ação, com certeza é baseado em dados, em informação sobre o perfil de pessoas que estão endividadas. Para essas pessoas não continuarem jogando, o governo está dando esse limite de um ano, de forma que ela diminua sua dívida. Algumas vão conseguir abater integralmente agora, porque vão ter descontos, outras vão refinanciar. E a expectativa é que, ao longo desse um ano, as pessoas [com comportamento compulsivo com jogos de apostas] procurem também outros mecanismos de tratamento. Porque uma das questões dessa plataforma [de autoexclusão] é que ela faz um diagnóstico. Você entra no aplicativo e responde a uma série de perguntas que falam se você está ou não com uma certa dependência dos jogos. Se estiver, ela não te obriga, mas te oferta a possibilidade de se autoexcluir. E você já pode também sair com uma agenda para um atendimento especializado por uma plataforma que atende, à distância, pessoas com esse perfil. Então, eu acho que essa é uma ação positiva como forma de ajudar essas pessoas a se reorganizarem. É lógico que só isso não vai bastar. Isso faz parte de um conjunto de ações que o governo vem fazendo, com o entendimento claríssimo de que essa questão dos jogos de apostas realmente tem que ser regulada no país.
Mesmo antes do surgimento e da legalização das bets, no Brasil e no mundo, já se considerava o comportamento dependente ou compulsivo em relação a apostas como um problema de saúde mental, que tem, inclusive, categorias próprias no CID-10. No senso comum, é frequente que se associe o que se chama de vício à dependência química, ou seja, de algumas substâncias, como a nicotina no tabaco. Eu queria que você explicasse as diferentes formas de dependência que existem e por que se considera como dependência o comportamento compulsivo mesmo sem relação química, como no caso dos jogos de apostas.
No caso dos jogos, é um capítulo novo dessa dependência, porque entra o mundo digital
Tem um capítulo novo nessa questão da dependência. Como você bem colocou, um tempo atrás, essa questão da dependência química era o carro-chefe desse processo, além de outras [formas de] dependência, alimentar, por exemplo, com pessoas que deixam de comer por uma questão de imagem corporal e pessoas que abusam da alimentação. São coisas que a gente ingere ou não, em excesso ou não. Com o álcool, é a mesma coisa. E também no uso abusivo de psicotrópicos, medicações que envolvem o atendimento psiquiátrico, que hoje são o carro-chefe de faturamento da indústria farmacêutica. São trilhões de dólares envolvidos nesse processo no mundo inteiro, é muito dinheiro. No caso dos jogos, é um capítulo novo dessa dependência, porque entra o mundo digital, que é a grande novidade do século 21. Hoje, você tem todo um trabalho sendo feito pelas indústrias em torno das telas, por exemplo: de como as pessoas veem as telas, como as cores que estão ali atraem as pessoas, como se causa dependência mesmo. Dá prazer à pessoa ver aquelas telas.
Há pessoas que ganham uma vez e acham que vão ganhar sempre. Elas vão buscar aquele prazer que tiveram com a vitória. É a mesma coisa da pessoa que usa heroína, que faz o primeiro uso e depois fica buscando aquele mesmo prazer da primeira utilização
Com os jogos é a mesma coisa. Há pessoas que ganham uma vez e acham que vão ganhar sempre. Elas vão buscar aquele prazer que tiveram com a vitória. É a mesma coisa da pessoa que usa heroína, que faz o primeiro uso e depois fica buscando aquele mesmo prazer da primeira utilização. Nos jogos, a pessoa ganha uma ou duas vezes e tem prazer, uma euforia grande. E o ser humano está sempre em busca desse prazer, dessa satisfação. Aqui se trabalha com o ser humano na sua complexidade, não apenas numa questão química. Por isso a gente fala que não adianta trabalhar a questão da dependência química, e agora da dependência digital também, simplesmente com a exclusão, só não deixando a pessoa utilizar [o que causa dependência]. Porque a pessoa vai procurar outras formas [de prazer]. A questão é essa.
Quando fala de dependência, a gente está falando do sujeito com a sua história e com a sua complexidade. Há pessoas mais estruturadas, mais organizadas, que conseguem enfrentar esses problemas e fazer dos jogos de aposta uma diversão. E tem pessoas que não conseguem, porque a sua história, a sua psiquê, a maneira como elas se relacionam com a própria vida traz uma complexidade. E esses jogos vêm trabalhando isso também: quem consegue lidar bem, ok, agora, com quem não consegue, eles também não têm preocupação.
Nos anos 1990, você tinha que ir a um local jogar, agora não precisa mais, você pode deitar na sua cama e jogar a noite toda
O governo no Brasil, há muito tempo, vem tentando regular essas histórias. A gente já foi procurado aqui [na Fiocruz Brasília] uma vez até pela Caixa Econômica, que tinha uma parte do financiamento das loterias voltada para investir em pesquisas e apoio a órgãos públicos para prevenir essa questão da dependência dos jogos. A regulação saiu em 2023. Agora, no mundo digital, temos um universo muito maior. Na década de 1990, 2000, tinha os bingos, que eram os grandes jogos. Mas você tinha que se deslocar para um local para jogar bingo. A gente via os aposentados perdendo suas aposentadorias, pais de família, que iam lá tentar um dinheiro extra para pagar suas dívidas... Havia pessoas com dependência dos jogos, pessoas que queriam o prazer do jogo, o prazer da vitória. Agora você tem os jogos no celular. Nos anos 1990, você tinha que ir a um local jogar, agora não precisa mais, você pode deitar na sua cama e jogar a noite toda. A gente vê muitos amigos que estão no restaurante e estão jogando. Não conseguem ficar lá sem jogar. Quando acaba a bateria do celular, muitas vezes a pessoa entra em um nível de ansiedade muito grande. É uma busca do prazer mesmo, de resolver seus problemas. E aí tem a complexidade da vida do ser humano: de como ele foi criado, as relações que teve com os pais, com a família, com os vizinhos...
Por isso, eu vejo também com bons olhos que o Ministério da Saúde queira ampliar a atenção psicossocial nesse processo, tanto a rede de CAPs [Centros de Atenção Psicossocial] quanto o atendimento online, que é uma realidade já colocada no mundo com a qual os profissionais [de saúde] precisam aprender a lidar.
Existem grupos populacionais mais vulneráveis à dependência de jogos de aposta?
Essas comunidades que têm menos poder econômico vão buscando nessas plataformas uma maneira de melhorar a sua vida
As [populações mais vulneráveis] costumam ser o carro-chefe, o alvo, porque não têm facilidade de conseguir recurso financeiro. Não têm casa própria, muitas vezes, ou moram na periferia de maneira precária, muitas vezes não têm água tratada, não têm saúde adequada. As pessoas veem seus filhos, sua esposa, seu marido, precisando de alguma coisa, e [nos jogos encontram] algo fácil que fala que elas vão conseguir seu dinheiro extra. E essa não é a realidade. Para uma pessoa ganhar R$ 2 mil num jogo de aposta, um grande número de outras pessoas já perdeu milhões. E essa pessoa vai sair divulgando que ganhou, ela faz essa propaganda. Essas comunidades que têm menos poder econômico vão buscando nessas plataformas uma maneira de melhorar a sua vida.
Hoje, basicamente, 100% dos clubes de futebol são financiados pelas bets
E há muitos grandes atores que eles têm como ídolo vendendo essas plataformas, principalmente jogadores de futebol. Hoje, basicamente, 100% dos clubes [de futebol] são financiados pelas bets. Não é à toa que o esporte mais patrocinado seja o esporte mais divulgado no Brasil, que é o futebol. Isso é uma maneira de atingir essa população. Quem tem recurso é atingido [por essa propaganda] também, mas, como tem recurso, vai procurar o seu psicólogo, um serviço [de saúde mental], etc. Essa comunidade não tem, e é a mais atingida, a que mais sofre com esse processo. A população mais atingida é a da periferia, é a pessoa que já tem esse processo todo de exclusão da própria sociedade. E essas plataformas se constroem de maneira a atrair essas pessoas cada vez mais.
Se o reconhecimento dos jogos de aposta como fator que pode gerar dependência e, portanto, uma questão do campo da saúde mental, já existia, o que muda com a chegada das bets? Segundo o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, feito pelo Ministério da Saúde, entre 2018 e maio de 2025, houve um aumento de 104% no número de atendimentos feitos no SUS para os CID-10 que se referem a ‘jogo patológico’ e ‘mania de jogo e aposta’, incluindo a Atenção Básica e os CAPs. Esse é um crescimento relevante? É possível afirmar que ele tem relação com as bets?
Esses números que você apresentou são de pessoas já diagnosticadas. E eles são relevantes. Se você olhar as curvas [desses atendimentos] e pegar a curva também de crescimento do número das bets, você vai ver que elas seguem esse [aumento]. Agora, o maior dado ainda não aparece aí. A gente tem quadros de ansiedade severas, de depressão, quadros de violência, principalmente de homens contra mulheres. Esses homens se perdem nesse processo, ficam com ansiedade grande, etc. e, muitas vezes, na sua fragilidade, em vez de assumir os problemas e dividir com a companheira, preferem depositar nela a sua raiva. Esse é um problema gravíssimo que a gente vê. Não é o único, mas é um deles. E que a gente precisa cuidar. A gente tem visto o aumento de números de quadros de ansiedade e de depressão na Atenção Primária à Saúde e nos CAPs, de forma relevante, de maneira imperiosa. Acho que, desenvolvendo pesquisas melhores, a gente vai poder inferir mais essa relação [entre esses sintomas e os jogos de apostas]. Mas são muitos os quadros de ansiedade, depressão, dependência química que vão procurando a RAPS [Rede de Atenção Psicossocial] toda. Esses dados a gente vê com muita clareza.
Esses dados que você apresenta [referem-se a] pessoas que conseguiram relatar um conjunto de sintomas que [permitem] fazer esse diagnóstico dos jogos. Agora, a grande massa não consegue fazer essa vinculação: vai falar da dívida, do filho que pede para comprar alguma coisa e ela não pode ou que precisa fazer um aparelho dentário e não consegue, que precisa comprar um sapato e não consegue... O nível de ansiedade dessas pessoas que estão sob essa pressão vai levando a outros sintomas que têm tudo a ver com a parte emocional desse processo que elas estão vivendo. E aí você vai pesquisando.
No curso nosso, uma das etapas é essa: como fazer com que o profissional da RAPS, da Atenção Primária ou do CAPS, saiba fazer um diagnóstico dessas pessoas que estão chegando ali. Porque hoje o profissional vai tratar os sintomas: a pessoa chega ansiosa e ele trata os sintomas de ansiedade. Só que não vai resolver o problema se não fizer o diagnóstico correto. Se o problema é com os jogos, o tratamento é um. Como que se faz isso? Tem diversas formas, principalmente trabalhando em rede. Não adianta só tratar o sintoma dando um ansiolítico ou outro medicamento ou achar, de forma preconceituosa, que a pessoa está ansiosa porque é fraca, etc. Tem que ter um atendimento que seja o mais acolhedor possível, compreendendo o momento de vida que essa pessoa está passando, que é o que faz ela procurar os jogos. Essa compreensão da complexidade do ser humano é importante para fazer esse diagnóstico também. Tem que procurar a causa [do problema], como em qualquer outra patologia que a gente trata na saúde, buscar o que está fazendo aquele quadro aparecer. Pode tratar o sintoma? Pode. Mas o tratamento não para por aí.
Essa capacitação [de profissionais de saúde] que a gente propôs é parte de uma estratégia do governo [federal]. Porque é importante que os funcionários da rede de Atenção Primária e dos CAPS estejam bem preparados para fazer essa abordagem e esse diagnóstico. E para eles entenderem isso, é importante saberem a história dessa questão da dependência dos jogos para depois passarmos para uma parte mais operacional.
A partir da proposta do curso que vocês estão oferecendo, eu queria que você falasse sobre o papel de cada instância e nível de complexidade na abordagem desse problema: qual o papel dos profissionais e dos equipamentos da atenção básica, dos CAPs, das emergências e hospitais...
A nossa intenção [com o curso] é atingir 20 mil profissionais de saúde. E não adiantava a gente ter um curso muito grande, uma especialização. É um curso à distância, autoinstrucional. A princípio, nosso foco são os profissionais dos CAPs e da Atenção Primária, mas isso não quer dizer que outros profissionais [não possam fazer]. O Ministério [da Saúde] procurou a gente porque queria atingir essa população. É um curso de 45 horas, curto, que a pessoa pode fazer nos intervalos, à noite, no seu final de semana. E a plataforma para o curso pega tanto no celular quanto no computador. Então, você pode fazer dentro da sua rotina de trabalho, nas folgas, porque tem momentos de formação e paradas para reflexão e para algumas perguntas e respostas. Hoje a gente já tem mais de 15 mil pessoas inscritas e, dessas, mais de 3 mil já terminaram. É um curso novo, uma temática nova, então, para nós também existe um aprendizado grande.
O curso tem quatro módulos. No primeiro a gente fala da questão dos jogos na contemporaneidade. A gente contextualiza a evolução desses jogos na história do Brasil, chegando até o cenário atual. A gente vai falar muito sobre bingo, que é sobre o que há grandes pesquisas, é o grande campo [de jogos] explorado no Brasil em termos de estudo. E chegamos até as bets. [isso é importante] para as pessoas entenderem que essa questão dos jogos é uma construção social que tem um lastro no Brasil. Não é alguma coisa que surgiu agora do nada. Se o profissional entende essa parte histórica, como se deu essa evolução, ele é mais capaz de reconhecer os problemas. E quais as ferramentas que a gente tem para fazer as avaliações desses usuários? Quais são os mecanismos e questionários que existem, que outras formas há de fazer um diagnóstico? [No segundo módulo], o profissional aprende a fazer esse diagnóstico. Depois, o terceiro módulo vem trabalhar a questão da prevenção e da intervenção psicossocial. Quais são as estratégias práticas para atuar nesses casos? Que tipo de terapia existe nesse processo? [Abordamos a] questão do instrumento mesmo, baseado na atenção psicossocial. [Trata-se de] entender que esse sujeito é biopsicossocial, que não é um sujeito que está ali só com sintoma, [para o qual] eu dou um remédio e ele se trata. Ele é biológico, mas também é formado socialmente. Essa compreensão mais ampla e mais complexa desse sujeito é fundamental para esse profissional. Porque a pessoa chega com uma queixa, em que podem existir outras questões envolvidas, mas uma delas, os jogos, está ali de uma forma fundamental. E há ainda um quarto módulo, que trabalha a questão da rede [de atenção à saúde]. Se a pessoa chega no SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] com uma crise de hipertensão, é lógico que eles vão tratar da hipertensão. Mas se entenderem que a crise de hipertensão desse sujeito muitas vezes vem porque ele perdeu mais uma vez na bet, porque teve essa grande frustração e está vendo os seus problemas se agravando, [podem compreender] que não vão resolver a hipertensão dele simplesmente tomando um anti-hipertensivo ou com o profissional falando que ele precisa fazer uma caminhada... Isso ajuda, mas não vai dar conta porque o problema dele é outro, é a dependência dos jogos de aposta. Ele está buscando uma outra coisa para a vida, um prazer, resolver problemas etc. Essa compreensão do ser humano é fundamental nesse processo. É preciso] saber fazer o acolhimento dessa pessoa, de maneira a não julgá-la: ‘Cara, os jogos vão te piorar’. O profissional fazer esse tipo de comentário não vai resolver a vida de ninguém. Ele tem que acolher essa pessoa, entender o que ela está vivendo. E para isso ele precisa de formação. O curso vem abrir algumas luzes para esse processo. Não é um curso que vai formar totalmente, mas, com certeza, vai jogar informação suficiente para esse profissional mudar sua postura quando atender o cidadão no seu serviço de saúde.
A iniciativa de uma formação sobre a dependência de jogos de apostas para profissionais de saúde é, por si só, o reconhecimento de um problema novo, ou com dimensões novas, que chega aos serviços de saúde. O SUS está preparado para enfrentar isso?
O positivo desse processo é que está sendo feito um conjunto de ações estruturadas e organizadas para dar conta disso
A questão da digitalização é nova para toda a sociedade. Então, eu acho muito duro falar em estarmos preparados ou não. Tem serviços e pessoas que estão, tem secretarias [de saúde] que estão mais organizadas, têm mais recursos... Mas eu acho que o positivo desse processo é que está sendo feito um conjunto de ações estruturadas e organizadas para dar conta disso. Se elas estão suficientes hoje, a gente ainda não sabe. Vão ter estudos que vão contar isso para a gente. Mas hoje eu vejo um nível de organização dentro do sistema público, no Brasil, muito positivo. Eu tive a oportunidade de ir ao lançamento da plataforma de autoexclusão dos jogos [de bets], em que tanto o ministro [Alexandre] Padilha quanto o ministro [da economia] da época [Fernando] Haddad falaram. Pela primeira vez, o Ministério da Economia e um ministério social, o da Saúde, estão trabalhando juntos, sem amarras, enfrentando [esse problema], fazendo diagnóstico. Tem um Grupo de Trabalho dos dois ministérios trabalhando juntos nesse processo. E isso é fundamental porque está juntando o Ministério da Fazenda, Banco Central, Ministério da Saúde, Secretaria dos Direitos Humanos e tem também várias ações da própria Secretaria de Comunicação, Secom, porque a questão da comunicação é fundamental para trabalhar isso. O Ministério da Ciência e Tecnologia [está envolvido], porque está estudando a questão das telas... É uma grande articulação e já tem ações efetivas sendo feitas.
Tem hoje um conjunto de ações sendo feitas de maneira estruturante, fundamental e importante para dar conta desse campo novo, que é o campo do digital
Por exemplo, começou a existir uma legislação capaz de diferenciar as bets que são reguladas e as que não são. As bets que não são reguladas são a maioria e estão todas no exterior. Esse grupo vem trabalhando [sobre] como defender o cidadão brasileiro também dessas bets que estão no exterior e não seguem o regramento nacional. Então, falar se o SUS está preparado ou não, eu acho que é uma forma muito dura. Mas tem hoje um conjunto de ações sendo feitas de maneira estruturante, fundamental e importante para dar conta desse campo novo, que é o campo do digital.
O debate sobre a regulação da publicidade em saúde é antigo e já teve avanços em relação, principalmente, ao cigarro, e a bebidas alcóolicas. Agora estamos num contexto de enfrentamento de outro tipo de dependência, talvez mais sutil e menos perceptível para os usuários, e também diante de um outro ambiente comunicacional, com a presença das redes sociais, além da TV e outros meios. Inclusive, como você falou, as bets são as principais patrocinadoras de times de futebol, com vasta propaganda durantes os jogos... Regular a propaganda é uma dimensão importante de prevenção da dependência dos jogos do ponto de vista da Saúde Pública?
É superimportante e existe esse debate dentro do governo e do grupo interministerial que está trabalhando com isso. Tem um Grupo de Trabalho fazendo isso com muito empenho, pessoas muito bem formadas, especialistas em jogos... Por outro lado, esse debate tem suas dificuldades dentro do Congresso. E essa parte da regulação, para virar lei, tem que passar por lá.
E os interesses econômicos por trás das bets são enormes, né?
Isso, tem os interesses econômicos, mexe com os lobbies dentro do Congresso. Agora, isso é da discussão política, né? Existiu na questão também da regulação do tabaco e da [propaganda de] cerveja. Nós temos que fazer pesquisas e estudos e consolidar posições para esse enfrentamento político. Nós temos que ter informação. Se do outro lado as pessoas têm os seus motivos econômicos, nós, da ciência, temos que ter dados científicos para instrumentalizar as lideranças políticas que nos representam nesse Congresso. Foi assim que a gente conseguiu a questão [da regulação da propaganda] do tabaco e da bebida.
Há quem fale em “epidemia das bets”. Do ponto de vista do campo da Saúde, essa expressão faz sentido? E, independentemente do reconhecimento de uma epidemia, é possível afirmar que as bets se tornaram uma questão de Saúde Pública no Brasil?
Eu acho que dá para gente afirmar que as bets trazem um grande problema de Saúde Pública. O volume de pessoas que têm procurado [os serviços de saúde] com sintomas de ansiedade e depressão é muito grande e boa parte delas tem, no seu histórico, algum envolvimento, alguma participação nessas plataformas [de jogos de apostas]. Então, eu acho que é um problema de Saúde Pública sim.
Se fosse garantida casa para as pessoas, transporte, saneamento básico, escola para as crianças, se houvesse todas essas garantias de direitos sociais ao cidadão, restariam só os problemas realmente patológicos com as bets. Mas hoje o que acontece é que boa parte se envolve nessa patologia porque tem questões sociais não resolvidas
Ele tem a sua fatia de Saúde Pública, mas tem fatias, também, sociais. Se fosse garantida casa para as pessoas, transporte, saneamento básico, escola para as crianças, se houvesse todas essas garantias de direitos sociais ao cidadão, restariam só os problemas realmente patológicos com as bets. Mas hoje o que acontece é que boa parte se envolve nessa patologia porque tem questões sociais não resolvidas na sua vida. Quem recebe R$ 2 mil, R$ 3 mil é quem está endividado. Se você pegar [como referência] os cálculos do Dieese [Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos], essa pessoa deveria ter R$ 7 mil de salário-mínimo. Lógico que elas têm dívida. Então, tem questões que não são só de Saúde Pública, são questões sociais envolvidas nesse processo. Por isso, a gente ter um Grupo de Trabalho intersetorial é fundamental para encarar esse problema das bets como um problema da sociedade como um todo.