Durante os dias 11 e 12 de novembro, aconteceu a 8ª edição do Seminário Discente do Programa de Pós-graduação em Educação Profissional em Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), que teve como tema “Tecendo Redes de Saberes: formação em saúde entre territórios, tecnologias, cuidados e afetos". O evento, que contou com rodas de conversa e apresentação de trabalhos, teve como objetivo promover reflexão crítica e socialização de conhecimentos, articulando territórios, tecnologias, cuidados e afetos em diálogo com uma formação crítica, politécnica e voltada à transformação social.
Educação popular
A primeira mesa temática – “Do chão às salas: Encontros entre cultura popular, território e ciência” – reuniu a educadora popular Marina Rodrigues, a professora-pesquisadora da EPSJV Grasiele Nespoli e a erveira da Rede Fitovida, Rosa dos Santos. O debate teve a mediação da mestranda em Educação Profissional em Saúde da Escola Politécnica; Marcelle Felippe.
Rosa apresentou o trabalho desenvolvido erveiras na Rede Fitovida. “É uma articulação de diversos grupos comunitários no estado do Rio de Janeiro, que defendem o direito ao uso do conhecimento tradicional das plantas medicinais, buscando legitimar suas práticas por meio de leis e políticas públicas que reconheçam, preservem e promovam a cultura popular”, definiu. Rosa ainda falou sobre o que as erveiras fazem nessa rede: “O objetivo da partilha, do nosso trabalho, não é fazer produtos para venda; é ensinar, é partilhar o saber para que as pessoas aprendam e façam dentro dos seus territórios. Nenhum saber é melhor que o outro, precisamos respeitar os saberes diferentes do nosso”.
Segundo Grasiele, quando se fala em salas de aula, fala-se do chão da escola. “Aqui é o lugar, não o único, claro, mas é o lugar que deve ter o compromisso com a produção do conhecimento, com a verdade, por meio da leitura da realidade, da compreensão dos saberes populares que nascem das experiências da vida e de trabalho”, destacou, acrescentando que a escola é um lugar estratégico de elaboração de saberes, e reflexão dos incômodos e da transformação da realidade: “Na perspectiva da educação popular, a sala de aula é espaço político comprometido com a leitura e a escola é espaço de liberdade, plural, democrático e de confluência”.
Em seguida, Mariana iniciou sua fala, destacando que para compreender e incidir nas políticas públicas, primeiramente é preciso entender as pessoas e como elas entendem os territórios nos quais elas estão inseridas. “Falamos muito de promoção da saúde, mas como promovemos isso com um povo oprimido? Como a gente promove saúde com o povo que não fala, que não pode decidir, que não tem controle sobre os seus corpos, um povo que sofre o tempo todo na violação dos seus direitos?”, questionou. A partir dessas inquietações, Mariana apontou: “Vou buscando forças para encontrar caminhos para fazer com que pessoas que vieram, que estão numa trajetória, que também é a minha trajetória, saiam e rompam com esses aprisionamentos”.
Sob a ótica antirracista e inclusiva
Na parte da tarde, com a mediação do mestrando Renan Silva, as professoras-pesquisadoras da EPSJV Letícia Batista e Valéria Carvalho falaram um pouco sobre “Educação Profissional sob a perspectiva antirracista e inclusiva”.
Valéria fez uma reflexão sobre como a falta de acesso a produções de intelectuais negros durante as formações impacta na forma como a sociedade compreende a saúde, a humanidade e os direitos. “Saí da minha formação sem ler nenhum autor negro. Ao pensar na importância de visibilizar essas elaborações, estamos falando ao mesmo tempo de um processo de superar a desumanização da população negra. Porque a gente precisa entender também que uma das principais estratégias de desumanização da população negra foi a destituição da sua racionalidade. Se um marco da espécie humana é a razão, quando se diz que aqueles seres não detêm razão, está se dizendo que não são seres humanos. Então, são seres que não são reconhecidos como seres de direitos humanos, inclusive, do direito e no acesso a saúde”, lamentou. Em sua apresentação, a professora-pesquisadora ainda comentou pontos da Política Nacional de Saúde integral da População Negra e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, que segundo ela, ainda precisam avançar muito. Por fim, Valéria defendeu que a educação antirracista tem um papel essencial na construção de uma perspectiva politécnica mais crítica e transformadora: "Pensar a educação antirracista dos trabalhadores na saúde e no quanto essas perspectivas, que foram expropriadas e invisibilizadas, têm a contribuir inclusive na perspectiva politécnica, no sentido de nos permitir aprofundar a compreensão das relações sociais e étnico-raciais do nosso país, fortalecendo nossa atuação enquanto trabalhadores e trabalhadoras da saúde nas lutas antirracistas”.
Letícia destacou que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, embora tenha sido criada em 2006, só começou a ser implementada três anos depois. Segundo ela, essa demora reflete um problema estrutural: “Em 2025, menos de 10% dos municípios brasileiros têm, de fato, sua implantação enquanto política. Isso não é por acaso”, afirmou. Para a professora-pesquisadora, os chamados “vazios sócio-históricos” não impactam apenas a organização do processo educacional, mas revelam uma tensão que persiste desde a Constituição de 1988: “Existe uma espécie de tensão permanente entre universalidade e equidade”, apontou.
Letícia também chamou atenção para os limites da premissa liberal de igualdade. Para ela, essa concepção não se sustenta na prática, pois “é uma realidade abstraída da diferença”. Ela explicou que é preciso apresentar a diversidade presente na formação social brasileira, ressaltando que “no nosso caso, é impossível discutir classe social sem discutir a questão racial”. Segundo Letícia, essa interdependência revela como as desigualdades estruturais estão enraizadas e não podem ser analisadas isoladamente.
Por fim, Letícia ressaltou a necessidade de refletir sobre alguns pontos para construir, de fato, uma educação antirracista. Ela mencionou o letramento racial e a importância de discutir a branquitude. Na visão dela, isso envolve também compreender a materialidade do racismo: “É preciso defini-lo como um problema social e não como um legado histórico. Não é algo que ficou no passado; é uma realidade que permanece”, disse. Letícia explicou que as identidades raciais são aprendidas e que um dos seus efeitos são as práticas sociais. Para ela, “uma postura antirracista requer não só um conjunto de ações, mas, sobretudo, superar a omissão que ainda está presente nesses espaços”.
Pedagogia do território
A roda “A pedagogia do território na Educação Profissional em Saúde” abriu o segundo dia do evento. Com a mediação da mestranda Thaisa Pinto, o debate contou com a presença do professor-pesquisador da EPSJV, Maurício Monken; da idealizadora do Espaço Gaia, Laura Torres; e da educadora socioambiental, Valdirene Militão.
Segundo Maurício, território não é um palco para as relações humanas e sim ator para a produção social da vida. “O SUS é territorializado, a vigilância em saúde tem como um de seus princípios de ações a organização dos territórios. Muito embora o uso que a Saúde faz do território é de organizar prática, de atuação de uma área. E muito pouco de usar o conceito para entender como é a produção social da saúde”, explicou, dando exemplo de como a pedagogia do território é pensada na Escola Politécnica. “Entendemos que é preciso aprender com o território para organizar as práticas e fazer pesquisa e formação. Viver, produzir, se apropriar e vivenciar o espaço”, acrescentou.
Laura corroborou com a fala de Maurício ao apresentar o Espaço Gaia: “Não temos que estudar o território e sim construir com ele”. A organização atua no território do Lixão de Itaoca, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), atendendo mulheres que vivem em vulnerabilidade social e econômica. “Trabalhamos com os eixos de gênero e clima e as relações com suas interseccionalidades, como justiça climática, emancipação financeira e reprodutiva, igualdade racial, segurança alimentar. Também fazemos pesquisa através do observatório De Olho em Itaoca”, contou.
Valdirene explicou o trabalho desenvolvido com mulheres da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá (RJ), abordando temas como soberania e segurança alimentar, nutricional e economia solidária. “Nesses territórios têm quintais onde podemos produzir, mas que não eram vistos como potenciais para tal. Através do projeto Semeando, da Fiocruz Mata Atlântica, queríamos conversar com essas mulheres”, afirmou. No início, apenas uma participante apareceu. “Veio só a Dona Fátima”, contou Valdirene, que continuou: “Ela nos disse: ‘As pessoas só vão participar quando virem o que está acontecendo’. Então começamos pelo quintal dela.” A horta, explicou, não era o objetivo principal: “A ideia era ter uma desculpa para entrar na casa, no território, conversar com as famílias sobre direitos — saneamento, água, cidade e tantos outros.” O resultado surpreendeu. “Dona Fátima fez um quintal produtivo, aprendeu a fazer sabão e se tornou a primeira mulher certificada como quintal orgânico do Brasil”, comemorou a educadora. Ela também destacou a importância de devolver algo ao território pesquisado: “O que fica para elas? Porque a pessoa para o que está fazendo para nos atender... Essa pesquisa tem que voltar para o território de forma compreensível, não em um texto cheio de termos técnicos. Tem que ser algo que elas possam usar e se orgulhar.”
Formação em Saúde e Transformação Social
Na parte da tarde, a roda de conversa tratou do tema “Da Escola Técnica ao Mestrado Profissional: Formação em Saúde e Transformação Social”, com a participação da mestranda Francielly Moreira; da professora-pesquisadora da EPSJV, Isabella Koster; e da Carla Teixeira.
Carla falou sobre como são os mestrados profissionais, mais especificamente na área de Saúde Coletiva, e a importância de se pensar em metodologias mais horizontais: “Não pesquiso o outro, pesquiso com o outro. Preciso ficar perto do outro para identificar as suas necessidades e demandas e poder construir autonomia das vozes e dos olhares para criamos um novo saber com o outro. É pesquisa com instrumento político”, destacou.
Ao falar de mestrados profissionais como espaços de mudança, Carla ressaltou: “Precisamos superar modelos acadêmicos que apresentem narrativas subjetivas como discursos subalternizados; precisamos ter uma perspectiva decolonial e respeitas as adversidades culturais, étnicas e raciais, bem como a incorporação de saberes e práticas das comunidades tradicionais; e defender a interface entre os saberes e abolir as fronteiras”.
Ela trouxe ainda reflexões sobre interseccionalidade, destacando a importância de compreender a interface entre classe, gênero e raça. Segundo ela, essa perspectiva revela “a coexistência de diferentes fatores como vulnerabilidades, violências e discriminações, que se manifestam de forma simultânea na vida das pessoas”. Para a pesquisadora, é essencial que as políticas públicas tenham atenção às múltiplas discriminações presentes na realidade concreta, priorizando a valorização das singularidades identitárias. “Os serviços e os profissionais precisam estar preparados para compreender essas implicações e oferecer um cuidado que considere essas singularidades”, afirmou. Carla defendeu ainda que a formação dos profissionais de saúde deve fortalecer e capilarizar esse debate, com o objetivo de “combater as invisibilidades no acesso e no cuidado”.
Em sua fala, Isabella apresentou a concepção ampliada de técnicos em saúde pelo Observatório de Técnicos em Saúde da EPSJV. “É um conjunto de trabalhadores que atuam na área da saúde, com escolaridade variada – ensino fundamental, médio e superior – e formação técnica ou superior tecnológica, como também aqueles que atuam sem formação profissional na área, com saberes adquiridos no e pelo trabalho”, definiu. A professora-pesquisadora falou ainda sobre temas caros à Escola Politécnica, como o conceito de Politecnia e trabalho como princípio educativo, bem como a dicotomia que existe na formação técnica, na qual os trabalhadores, em sua maioria, são formados na rede privada para atuar na rede pública. “A formação dos trabalhadores deve ser um processo de construção de conhecimentos científicos, tecnológicos e de formação humana, de maneira que possa superar o modelo de Educação Profissional baseado na educação tecnicista e de formação em serviço”, sublinhou.
Por fim, Franciely defende que não é possível discutir educação sem abordar a dualidade educacional e a influência do capitalismo nesse processo. Para ela, compreender essas relações é essencial para pensar em uma educação emancipatória. "É impossível falarmos de educação sem falarmos de dualidade educacional, sem a gente falar aqui de uma educação emancipatória e também de entender ali como que o capitalismo interfere na nossa situação", afirmou. Segundo Franciely, a primeira luta pela emancipação começa com o reconhecimento da natureza do trabalho para o qual os profissionais são formados. Ela ressaltou que esse trabalho é historicamente marcado pela dualidade. "Isso pra mim é o principal ponto de partida: a gente entender que a estrutura de trabalho, como ela é feita, principalmente o ensino profissionalizante do nível técnico, é para um trabalho fragmentado", explicou. A educadora criticou a lógica de formar trabalhadores alienados, que executam tarefas sem compreender seu propósito, apenas repetindo movimentos. "O trabalhador alienado não sabe o que ele está fazendo, mas ele tem que fazer e ele está ali só repetindo o movimento e sem pensar", concluiu, deixando uma provocação: “Como podemos, a partir da sala de aula, construir redes de resistência ativa capazes de transformar a formação humana em emancipação real nas escolas técnicas?".
Para encerrar o 8º Seminário Discente, foi apresentado o vídeo “Poli 40 anos: Fundamentos da formação humana: politécnica e omnilateral”, produzido pelo professor-aposentado da EPSJV, Julio Lima. O vídeo foi pensado a partir de falas de pesquisadores que participaram dos seminários “Fundamentos da Educação Escolar no Brasil Contemporâneo”, realizado em 2006; “Estado, Sociedade e Formação Profissional em Saúde: contradições e desafios em 20 anos de SUS”, em 2008; e “O Trabalho no Mundo Contemporâneo: fundamentos e desafios para a saúde”, em 2013.