Entrevista
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Uma das histórias mais conhecidas da ‘Oitava’, contada há 40 anos quase como uma anedota, relata a chegada de ônibus lotados a Brasília, com milhares de pessoas que, espontaneamente, reivindicavam participar daquele que se tornaria um evento único do campo da Saúde Pública no Brasil. Eles não tinham sido eleitos delegados, não teriam direito a votar, mas, atendendo ao chamado daqueles tempos de forte mobilização social, queriam participar. Dar um ‘rosto’ – e uma narrativa em primeira pessoa – a essa história tão repetida é o objetivo desta entrevista, que integra as comemorações pelas quatro décadas da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Hoje aposentado pela Secretaria Estadual de Saúde de Brasília, em 1986 Marcos Freire Jr. era um médico recém-formado – literalmente, no ano anterior –, encantado com a Saúde Pública, que lhe tinha sido apresentada em uma única disciplina da faculdade, chamada ‘Saúde e Sociedade’, e, ainda mais empolgado com a perspectiva de que o cuidado em saúde pudesse abarcar as hoje chamadas práticas integrativas. Freire já tinha participado de uma conferência preparatória local, em Recife, e, na verdade, nem se lembra ao certo como tomou conhecimento da ‘Oitava’. O fato é que ele esteve lá, por conta própria. Participou das discussões e, junto com um grupo de pessoas interessadas nos mesmos temas, ajudou a amplificar esse debate para além daquele evento: embora a Política Nacional de Práticas Integrativas só tenha sido publicada no Brasil 20 anos depois, em 2006, ele garante que o caminho dessas experiências no Sistema Único de Saúde (SUS) foi aberto pela Oitava, principalmente pela defesa de uma concepção de Atenção Integral à Saúde.
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Celebrada por ter, de certa forma, inaugurado a participação social na Saúde e por ter sido uma das maiores expressões da mobilização popular daqueles tempos, a 8ª Conferência Nacional de Saúde tem tido sua história contada, principalmente, por sanitaristas e integrantes do chamado movimento da Reforma Sanitária. Foi por isso que, na comemoração dos 40 anos da ‘Oitava’, o Portal EPSJV saiu em busca de alguém que tenha participado do evento como representante do movimento social. Nesta entrevista, Eni Carajá, militante do Morhan, o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, e um dos fundadores, em Minas Gerais, do famoso MOPS, o Movimento Social de Saúde, que teve grande protagonismo naqueles agitados anos 1980, fala sobre a organização que a sociedade civil já promovia antes mesmo da ‘Oitava’, rememora a experiência de ver “o povo” ocupar aquele espaço e faz um balanço do que veio depois.
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Há exatos 40 anos, entre 17 e 21 de março, cerca de 4 mil pessoas se encontraram no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, para debater as políticas de Saúde no Brasil. O ano era 1986. O cenário era o de uma mobilização social intensa, que tinha contribuído para o fim dos governos militares e agora lutava tanto pelas ‘Diretas Já’ quanto pelos rumos da democracia que nascia depois de mais de duas décadas de ditadura. Foi nesse contexto que se deu a 8ª Conferência Nacional de Saúde, um evento que, diferente de todas as edições anteriores, apostou na participação popular para discutir criticamente o modelo de atenção, redesenhar o sistema de saúde e propor uma verdadeira Reforma Sanitária no Brasil. De lá saíram as principais concepções e propostas que pouco depois formatariam a maior política social inscrita na Constituição de 1988: o Sistema Único de Saúde, SUS. “É uma lembrança muito bonita”, emociona-se Maria Inês Bravo, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e uma das lideranças da Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, que quatro década atrás foi delegada da ‘Oitava’ representando o Conselho Federal de Serviço Social. Mas ela alerta: ser ‘bonito’ não significa que tenha sido fácil. Num país em que a oferta de Saúde era fortemente privatizada, o setor empresarial decidiu não participar da Conferência quando percebeu que o debate mobilizaria um grande contingente de pessoas dispostas a defender mudanças profundas, como a estatização dos serviços, o financiamento público e o princípio de que a Saúde é direito de todos e dever do Estado. Ausentes da ‘Oitava’, esses mesmos empresários jogaram todas as fichas na Assembleia Nacional Constituinte. E ganharam um bocado. Na avaliação de Maria Inês, a maior perda que o movimento sanitário que vinha da ‘Oitava’ teve nessa queda de braço foi a substituição da proposta de estatização progressiva da Saúde pelo papel “complementar” do setor privado em relação ao público no texto da Constituição. Apesar desse revés, o que se conquistou não foi pouco – e, segundo a dirigente da ‘Frente’, nada disso teria sido possível sem a mobilização social da 8ª CNS. Reconhecendo que vivemos hoje um momento de descenso dos movimentos sociais e argumentando que o movimento da Reforma Sanitária se institucionalizou demais, abandonando as lutas por fora do Estado, nesta entrevista ela conta um pouco dessa história e defende que a melhor forma de comemorar esse marco de 40 anos é retomar a radicalidade das propostas da ‘Oitava’.
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Entre os seis ‘personagens’ do estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro e chocou o Brasil nas últimas semanas, três – dois acusados e a vítima – eram colegas de escola. Foi no ambiente escolar, por exemplo, que a jovem conheceu e se relacionou, inclusive afetivamente, com o adolescente que a atraiu para uma emboscada. Não por acaso, foi para cobrar ações pedagógicas e políticas públicas educacionais voltadas à prevenção da violência de gênero e sexual que, no dia 10 de março, estudantes, professores e membros da comunidade escolar em geral promoveram uma manifestação em frente ao Colégio Pedro II. Mas, ao contrário do que possa parecer, e apesar da gravidade desse crime em particular, esse não é um problema isolado. Um relatório sobre ataque às escolas no Brasil, produzido em 2023 por um Grupo de Trabalho instituído pelo Ministério da Educação (MEC), já apontava a misoginia – um comportamento social baseado no ódio contra meninas e mulheres – como elemento central naquele fenômeno que se começava a identificar e mapear no país. Com diagnósticos do problema e propostas de enfrentamento, o documento tratava especificamente de crimes que tinham como alvo o espaço da escola e a comunidade escolar, “um tipo razoavelmente recente de violência, com características próprias”. Mas o próprio texto afirma que “olhar somente para os ataques às escolas não é suficiente para a construção de políticas públicas eficazes no enfrentamento do problema”, defendendo que, “para isso, é necessário olhar para as outras violências que permeiam o ambiente escolar”. É com a experiência de ter sido o relator desse Grupo de Trabalho e do seu documento final que, nesta entrevista, o professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação Daniel Cara comenta os aspectos educacionais que merecem destaque no debate sobre o caso do estupro coletivo ocorrido em Copacabana. Ele fala sobre o que pode ajudar no enfrentamento desse problema nas escolas, propõe mudanças legislativas e aponta o conservadorismo que hoje caracteriza boa parte da sociedade brasileira, com expressões no Congresso Nacional, como um obstáculo a ações mais efetivas de prevenção à violência sexual, tanto na política em geral quanto no espaço escolar. Ressaltando uma diferença de percepção em relação ao relatório sobre ataque às escolas que ele mesmo coordenou três anos atrás, Cara destaca que, embora a influência dos conteúdos que circulam nas redes sociais continue sendo muito importante nesse processo, os valores associados ao discurso de ódio contra meninas e mulheres já estão tão entranhados na sociedade que boa parte dos jovens entra em contato com eles mesmo que nunca tenham participado de comunidades da chamada ‘machosfera’.
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Quem acompanhou a cobertura jornalística sobre o novo censo escolar certamente fixou uma informação: em apenas um ano, entre 2024 e 2025, o Brasil teria perdido 420 mil matrículas no Ensino Médio. A explicação viria pouco depois, com a resposta da Secretaria Estadual de São Paulo – maior rede do país – de que vinha duplicando o número de registros de alguns estudantes, em função dos diferentes itinerários formativos cursados junto com a Formação Geral Básica. Trata-se, de acordo com Fernando Cássio, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Repu, a Rede Escola Pública e Universidade, de um exemplo concreto do efeito “caótico” que a primeira Reforma do Ensino Médio, instituída no governo Michel Temer, gerou na oferta e na gestão desse segmento educacional no Brasil. A boa notícia, segundo ele, é que, ao contrário do que o susto inicial sugeriu, o que nas tabelas do novo censo parecia uma volumosa perda de estudantes é, na verdade, um sinal de que os dados do censo voltaram a mostrar um retrato mais fiel da realidade do país. Mas, se a queda das matrículas foi um alarme falso, o que mais de relevante os dados mostraram sobre o cenário educacional brasileiro? Na avaliação do pesquisador, quase nada. Na verdade, o que ele considera que merece destaque está além dos números: uma mudança de metodologia adotada na edição deste ano, que resultou no desaparecimento – ou na invisibilização – do Ensino Médio Integrado à Educação Profissional, o modelo mais exitoso de educação pública do país, carro-chefe da experiência dos Institutos Federais. De fato, os dados sobre Educação Profissional de nível técnico referentes a 2025 juntaram numa única categoria, nomeada como “articulados”, a modalidade integrada (em que Ensino Médio e a Educação Profissional acontecem na mesma escola) e a concomitante (que se dá em escolas diferentes). Não por acaso, a mesma nomenclatura tem sido cada vez mais usada também nos marcos legais e regulatórios da área, como a recente Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica. “Não foi simplesmente uma decisão técnica”, diz Cássio, fazendo eco à preocupação de entidades como o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, Conif, e a Anped, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, que emitiram notas públicas questionando a mudança.
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Ir e voltar em segurança. Estudar, trabalhar, ter momentos de lazer, sem que o medo seja um acompanhante. Não ter que mediar conflitos para acessar direitos e os serviços de saúde. Ou seja, viver sem que a violência seja um perigo eternamente à espreita. Essa é uma realidade distante para boa parte dos brasileiros. Segundo a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registradas 44.127 mortes violentas intencionais no Brasil, 5,4% a menos do que o ano anterior – mas quadros estatísticos mais específicos, como violência contra mulheres, crianças e adolescentes, seguem em vias de crescimento. Tendo em vista que a segurança é um dos determinantes sociais da saúde, é preciso compreender como sua ausência pode impactar a sociedade. Nesta entrevista, a antropóloga e cientista social Jaqueline Muniz, professora e pesquisadora do bacharelado e mestrado em Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), aborda a relação entre segurança pública e Saúde Coletiva. “Segurança pública é abundância de futuro. Insegurança pública é tornar o mundo ‘presentista’. E isso inviabiliza que as pessoas possam se deslocar, se mover, ascender e melhorar suas vidas”, afirma Muniz.
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A história desta entrevista com a Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Estela Bezerra, começa na semana antes do carnaval. A partir da constatação de que os casos de assédio e violência contra a população feminina tendem a aumentar durante a ‘folia’, a ideia era divulgar a campanha ‘Se liga ou eu ligo 180’ e discutir o Pacto dos Três Poderes contra o Feminicídio, assinado em 4 de fevereiro. Por desencontros de agenda, a conversa acabou não acontecendo. Quando foi retomada, pouco tempo depois, o tema se mantinha o mesmo, mas o objetivo principal passou a ser marcar as comemorações e lutas do 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher. O que se deu entre o primeiro contato e a publicação deste texto, no entanto, foi um ‘choque de realidade’, daqueles que mostram como não faltariam ‘ganchos’ jornalísticos para discutir a violência que todos os dias vitimiza mulheres no Brasil. Nada poderia ser mais didático sobre a importância do envolvimento dos três Poderes da República no enfrentamento da violência contra as mulheres do que a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que, no final de fevereiro, absolveu um homem de 35 anos do crime de estupro, alegando que a relação que ele mantinha com uma menina de 12 anos era “consensual”. Diante da indignação coletiva, a ‘sentença’ foi revertida, mas, num novo capítulo sórdido da história que mobilizou o país, um dos desembargadores envolvidos foi afastado por denúncias de ter, ele próprio, cometido assédio sexual. E não parou por aí: a gravação desta entrevista já tinha terminado quando, no último dia de fevereiro, o Disque Denúncia tornou públicas a identidade e a fotografia de quatro homens que, junto com um menor de idade, promoveram o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. Confirmando as estatísticas segundo as quais a maior parte da violência sexual contra mulheres é promovida por pessoas conhecidas, do seu círculo afetivo, a jovem foi atraída para a ‘emboscada’ por um ex-namorado, ‘amigo’ da mesma escola. Tudo isso atravessa as análises que Estela Bezerra faz nesta entrevista, em que a secretária admite que o Brasil tem falhado na tarefa de proteger as mulheres, apesar de todos os avanços das últimas décadas. Citando as principais medidas implementadas no âmbito do Executivo, a partir da pressão dos movimentos sociais, ela defende a importância de ações que comprometam o Legislativo, o Judiciário e as instituições que ajudam a travar as batalhas culturais, como a mídia e as entidades religiosas. “O Pacto Brasil contra o Feminicídio, que propõe para as instituições tratarem de maneira central esse tema, começando a observar também a própria cultura de violência que elas instituem, é um caminho de esperança para que a gente consiga dar respostas mais efetivas”, diz.
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Antes de começar a ler esta entrevista, sugerimos que você faça um teste rápido. Abra a ferramenta de busca do google, digite as palavras “CNC + 6X1” e selecione a categoria ‘notícias’. Se o resultado for parecido com o que a reportagem do Portal EPSJV/Fiocruz encontrou (em 04/03), entre as referências mais recentes aparecerão reportagens do G1, Globo, jornal Valor Econômico, CNN Brasil, Correio Braziliense, revista Isto É, Band News e do portal Terra, entre vários outros. Se repetir a operação com as palavras “Fiemg + 6X1”, conteúdos (nesse caso, menos atuais) de vários desses grandes veículos jornalísticos voltarão a ser listados. Agora faça a mesma busca digitando “Cesit + 6X1” ou “Unicamp + 6X1” – com essas palavras-chave, provavelmente o mais próximo que você vai chegar de um conteúdo divulgado por um veículo jornalístico de grande porte é uma matéria publicada pelo portal UOL em 26 de fevereiro. Mas o que isso significa? As siglas são fáceis de desvendar: CNC é a Confederação Nacional do Comércio e Fiemg é a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, duas entidades empresariais que têm feito campanha aberta contra o fim da escala 6X1 – a organização da jornada em que os trabalhadores só têm uma folga semanal – que está em discussão no Congresso brasileiro neste exato momento, com forte apoio popular. Já o Cesit é o Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, da Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, uma das mais importantes instituições de pesquisa do país, que acaba de produzir um dossiê, recheado de dados, abordando diversos aspectos relativos ao fim da escala 6X1. Essa parcialidade na escolha das fontes possivelmente explica que quem acompanhou as manchetes, editoriais e outras notícias dos principais jornais do país nas últimas duas semanas tenha sido informado, por exemplo, de que os brasileiros trabalham menos do que a média mundial, de que a reforma trabalhista que acaba de elevar para até 12 horas diárias a jornada de trabalho na Argentina é um exemplo que o Brasil deveria ter seguido e de que, por aqui, o fim da escala 6X1 pode aumentar o desemprego, prejudicar o PIB, Produto Interno Bruto, e reduzir a renda da população. “Nossos estudos mostram exatamente o contrário”, diz Magda Biavaschi, desembargadora aposentada do TRT-4, o Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, em Porto Alegre, doutora e pós-doutora em Economia Social do Trabalho, professora da pós-graduação do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisadora do Cesit. É com o objetivo de ‘furar’ o cerco da propaganda de boa parte da grande mídia que, nesta entrevista, ela desmonta o discurso alarmista de empresários e políticos de direita sobre o tema, ressalta a importância dessa pauta para um projeto de sociedade menos desigual e explica por que a luta em torno da jornada é “estrutural” na relação entre capital e trabalho.
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Mobilizadas há mais de um mês, com ações que envolveram negociações com o governo federal, manifestações de rua e até ocupação de um porto da empresa Cargill, movimentos indígenas da Amazônia tiveram, no último dia 23 de fevereiro, sua primeira vitória: a revogação do decreto 12.600/2025, que incluía trechos dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização, com o objetivo de ampliar a rota de escoamento de grãos, principalmente soja e milho, para exportação. Tudo aconteceu num lugar distante das grandes cidades. Os ‘personagens’ principais são grupos de povos originários, que, em geral, não fazem parte da realidade urbana. Para piorar, a polêmica que virou notícia envolve a defesa de um rio que uma boa parte da população brasileira, concentrada no eixo Sul-Sudeste, nunca viu e talvez nem saiba onde fica. Por tudo isso, talvez a luta que as populações indígenas organizadas da Amazônia estão travando neste momento não pareça problema seu. É para desmistificar essa imagem, e encurtar a distância entre o que hoje acontece no Baixo Tapajós, e o que afeta as condições de vida e de saúde em todo o país, que o Portal EPSJV/Fiocruz convidou o pesquisador Allan de Campos para a entrevista desta semana. Afinal, como geógrafo, diz ele logo na primeira frase da conversa, sua tarefa é “pensar os diferentes lugares em relação”. Com isso Campos quer afirmar que a luta política que hoje se trava no Pará está longe de ser uma questão local ou uma pauta exclusiva de povos originários que, como parte do discurso midiático e mesmo governamental tem tentado caracterizar, estariam apenas se opondo ao desenvolvimento econômico do país em nome das suas tradições. Na verdade, argumenta o pesquisador – que também integra o Grupo Temático de Saúde e Meio Ambiente da Abrasco, a Associação Nacional de Saúde Coletiva –, a ameaça contra a qual os movimentos indígenas da Amazônia estão lutando neste momento está presente cotidiana e estruturalmente em muitas outras realidades do país: na piora das condições de saúde em várias regiões, com foco no estado do Mato Grosso, pelo uso intensivo de agrotóxicos; na especulação fundiária que redefiniu a ocupação do solo em parte do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia para criar a nova fronteira agrícola hoje conhecida como Matopiba; na ampliação da desigualdade social em vários territórios produtores de soja; e na comida cada vez menos saudável que chega ao prato da sua família todos os dias, ‘contaminada’ tanto pelo agrotóxico das plantações quanto pelo mercúrio revolvido dos rios. Por trás de tudo isso, incluindo as lutas atuais no Baixo Tapajós, segundo o pesquisador, encontra-se um mesmo processo: um modelo de produção de alimentos e de desenvolvimento “profundamente destrutivo”, que atende pelo nome de ‘agronegócio’. Nesta entrevista, Campos explica ainda o que significa transformar rios em hidrovias, reduzindo-os à concepção de uma infraestrutura logística, descreve o funcionamento da cadeia do agronegócio, analisa os interesses econômicos que estão em jogo, enfocando o papel do Estado nesse processo, e enumera estudos que há décadas mostram os efeitos desse modelo sobre a saúde da população.
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O Conselho Nacional de Educação (CNE) acaba de receber um relatório que deverá subsidiar a elaboração das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil. O texto foi produzido por um Grupo de Trabalho instituído pelo Ministério da Educação (MEC), que funcionou de agosto de 2025 a janeiro deste ano. Formalmente, a atualização das diretrizes se tornou necessária para adequá-las a duas outras novidades: as mudanças na Reforma do Ensino Médio, instituídas pela lei 14.945, de 2024, e a criação da Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica, que se deu por meio do decreto 12.603, de 2025. Mas a construção desse novo documento responde também às muitas críticas que as diretrizes atuais, instituídas pela Resolução CNE/CP nº 01, de janeiro de 2021, vêm sofrendo por parte de diversas entidades e movimentos sociais da Educação. Entre os vários pontos criticados do texto – elaborado com o principal objetivo de adequar as normas da EPT à primeira Reforma do Ensino Médio (lei nº 13.415), aprovada no governo do presidente Michel Temer –, estão a validação do notório saber – que permite que um profissional com experiência numa determinada área técnica possa ser professor da EPT, sem formação – e o enfraquecimento da perspectiva de oferta da Educação Profissional de forma integrada ao Ensino Médio, carro-chefe da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica. Integrante do GT que construiu a proposta das novas diretrizes, Wilson Canciani, ex-professor e gestor do Instituto Federal de Brasília, afirma, nesta entrevista, que este foi exatamente o ponto de maior controvérsia nos trabalhos do grupo – e aposta que a discussão deverá ressurgir “quente” agora dentro do próprio CNE. Ele reconhece que, tendo sido resultado de debates de um coletivo muito plural, o relatório – e consequentemente as diretrizes que dele resultarão – não atenderá a todas as expectativas dos educadores, mas avalia de forma muito positiva o que se conseguiu de consenso no texto final e o processo participativo como um todo. Com o relatório em mãos, o CNE agora deverá organizar uma consulta pública e publicar as novas Diretrizes até abril deste ano.









