Ato e ocupação em fábrica da Coca-Cola marcam encerramento do FAMA 2018

No Dia Mundial da Água (22/03), participantes do Fórum Mundial Alternativo da Água promoveram marcha pelas ruas de Brasília contra a privatização da água e do saneamento. Mais cedo, manifestantes ocuparam planta industrial da Coca-Cola em Samambaia (DF), para denunciar a apropriação das fontes de água em todo o mundo pela multinacional
André Antunes - EPSJV/Fiocruz | 23/03/2018 12h46 - Atualizado em 23/03/2018 13h23
Foto: Andre Antunes

Os participantes do Fórum Alternativo Mundial da Água realizaram na manhã de quinta-feira (22/03), um ato para marcar o Dia Mundial da Água. Milhares de manifestantes saíram em marcha pelas ruas de Brasília, entoando lemas como 'água é um direito, não é mercadoria' e portando faixas contra a privatização da água, pedindo justiça para os afetados pelos crimes ambientais de Mariana, Minas Gerais, pela Samarco, e de Barcarena, no Pará, pela norueguesa Hydro Alunorte. Os manifestantes também denunciaram os estragos causados pelo avanço do agronegócio, da mineração e das barragens hidrelétricas sobre os territórios de populações tradicionais e camponesas.

Acompanhada por todo o trajeto por um grande efetivo da Polícia Militar, a manifestação partiu do Parque da Cidade em direção ao estádio Mané Garrincha, um dos locais que recebe o 8º Fórum Mundial da Água, que os organizadores do FAMA acusam de ser um espaço de negociação entre governos e empresas para promover a privatização da água e do saneamento. O ato terminou em frente à sede da Rede Globo, próxima ao estádio, com os manifestantes entoando lemas como 'o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo', e 'A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura'.
A manifestação marcou também o fim do Fórum Mundial Alternativo da Água, que reuniu em Brasília, de 17 a 22 de março, em torno de 7 mil participantes vindos de 35 países de 5 continentes, segundo a organização, para se contrapor ao Fórum oficial e construir uma plataforma de mobilização em nível nacional e internacional contra a privatização da água e do saneamento.

“Essa é a nossa luta nesse momento: sair daqui de Brasília, levar para casa todas as informações e formações que tivemos no FAMA. Parabéns a todos os integrantes dos movimentos sociais que estão nessa luta, de dizer às grandes corporações e também aos políticos que se vendem para as grandes empresas que digam não à privatização da água, que digam não à privatização do saneamento. Água deve ser pública, deve ser um direito de todos”, disse o representante da Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), entidade sindical que foi uma das organizadoras do FAMA 2018, durante a marcha. Tiago Ávila, do comitê do FAMA do Distrito Federal, destacou a desigualdade no acesso à água no Distrito Federal, que vive uma crise hídrica há mais de um ano, e cuja população convive hoje com racionamentos de água que segundo ele não afetam ricos e pobres igualmente. “Cidade Estrutural, por exemplo, consome 58 litros por habitante por dia, enquanto no Lago Sul se consomem 368 litros. São sete vezes mais. No entanto, o racionamento na periferia dura dois, às vezes três dias, e no Lago Sul dura um turno. Então, esse racionamento covarde e desigual precisa ser combatido. O agronegócio não fica sem água, a Coca-Cola não fica sem água”, criticou.

Movimentos ocupam Coca-Cola

Antes do ato, na madrugada de quinta-feira, cerca de 350 militantes de movimentos populares haviam ocupado o parque industrial da Coca-Cola em Samambaia, nos arredores de Brasília. A ação tinha o objetivo de denunciar o que os movimentos consideram uma apropriação das fontes de água em todo o mundo pela multinacional, que juntamente com outras grandes corporações, como Nestlé e Ambev, foi uma das promotoras do Fórum Mundial da Água, que ocorreu paralelamente ao FAMA, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. Além de palavras de ordem, os militantes picharam mensagens de protesto como ‘Racionamento para quem?’ e ‘Coca-Cola tire as mãos das nossas águas!’. Participaram da ação militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), do Levante Popular da Juventude, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Declaração final do fórum reforça necessidade de articulação das lutas pela água

Na quarta-feira (21), a organização do Fórum divulgou a Declaração Final do evento. Subscrita por 36 organizações que participaram do encontro, a declaração seguiu a estrutura prevista para as plenárias do Fórum, com uma análise de conjuntura sobre o avanço do grande capital em crise sobre os recursos naturais na América Latina, Ásia e África, em especial, seguida da denúncia das estratégias das transnacionais para obter o controle sobre as fontes de água. “Identificamos que o objetivo das corporações é exercer o controle privado da água através da privatização, mercantilização e de sua titularização, tornando-a fonte de acumulação em escala mundial, gerando lucros para as transnacionais e ao sistema financeiro. Para isso, estão em curso diversas estratégias que vão desde o uso da violência direta até formas de captura corporativa de governos, parlamentos, judiciários, agências reguladoras e demais estruturas jurídico-institucionais para atuação em favor dos interesses do capital”, afirma o documento.

O resultado desejado por essa aliança entre Estados, grandes corporações como Nestlé, Ambev, Monsanto, Bayer, entre outras, e organismos financeiros multilaterais, como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, continua o documento, é a “invasão, apropriação e o controle político e econômico dos territórios, das nascentes, rios e reservatórios, para atender os interesses do agronegócio, hidronegócio, indústria extrativa, mineração, especulação imobiliária e geração de energia hidroelétrica. O mercado de bebida e outros setores querem o controle dos aquíferos. As corporações querem também o controle de toda a indústria de abastecimento de água e esgotamento sanitário para impor seu modelo de mercado e gerar lucros ao sistema financeiro, transformando direito historicamente conquistado pelo povo em mercadoria”, denunciam as organizações participantes do FAMA, que acreditam que o Fórum foi importante para promover a unidade das lutas de diversas populações que lutam atualmente pelo direito à agua, no Brasil e no mundo. “Nestes dias de convívio coletivo, identificamos uma extraordinária diversidade de práticas sociais, com enorme riqueza de culturas, conhecimento e formas de resistência e de luta pela vida. Ninguém se renderá. [...] Identificamos que a resistência e a luta têm se realizado em todos os locais e territórios do Brasil e do mundo e estamos convencidos que nossa força deve caminhar e unir-se a grandes lutas nacionais e internacionais. A luta dos povos em defesa das águas é mundial”, afirma a declaração final do FAMA.

*A cobertura do Fórum Mundial da Água, evento oficial ao qual o FAMA se contrapôs, você acompanhará na próxima edição da Revista Poli

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