Comunicação Pública e Saúde

Mesa do seminário internacional da EPSJV/Fiocruz discute o papel da mídia na construção e desconstrução do SUS
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 07/11/2018 09h34 - Atualizado em 07/11/2018 12h57

O papel das mídias na construção e desconstrução do Sistema Único de Saúde (SUS) foi tema da mesa ‘Comunicação Pública e Saúde’, realizada no dia 30 de outubro, no Seminário Internacional da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) que comemorou também os 30 anos do Curso Técnico de Nível Médio em Saúde e dez anos da Revista Poli. “A comunicação atravessa os 30 anos de construção e desconstrução do SUS. Nesse tempo, tivemos uma consolidação e um maior empoderamento de uma comunicação privada. Mas também assistimos ao surgimento de movimentos importantes em torno de uma comunicação pública e várias mídias de comunicação alternativa”, ressaltou Rodrigo Murtinho, diretor do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz (Icict/Fiocruz), que mediou a mesa.

Segundo Cátia Guimarães, jornalista e editora da Revista Poli – Saúde, Educação e Trabalho, uma queixa recorrente dos comunicadores é que a grande mídia ataca o SUS, não valoriza, e, assim, contribui para o seu desmonte. Diante disso, fica evidente para os comunicadores a necessidade de construir e fortalecer pautas positivas para o SUS. “Dois caminhos que dariam conta disso é apostar nas brechas da grande imprensa, fazendo assessoria de imprensa, falando o que a gente faz, promovendo cursos de formação para jornalistas da grande mídia. Outro caminho é a aposta da produção própria através de uma rede de veículos alternativos e de comunicação pública, que a gente vem fazendo”, apontou.

O problema dessa formulação, de acordo com a jornalista, é que ela é baseada numa concepção “idealista”, como se a opinião pública ou os consensos sociais fossem resultado de uma “soma matemática”. E explicou: “Eles falam mal do SUS e a gente fala bem, dependendo do resultado dessa soma, o SUS vai estar melhor ou pior para o conjunto da sociedade. A gente desconfia que é mais complexo. Temos que disputar narrativas, mas não é apenas uma questão de equilibrar, somar ou subtrair”.

Para Cátia, é preciso não esquecer que a comunicação expressa ou age sobre algo que se dá realidade concreta. Sendo assim, a jornalista considerou que a primeira coisa a ser feita é se voltar para esse concreto. Ela exemplificou: o que aparece na mídia sobre o SUS são filas nos hospitais, falta de leitos, demora na marcação de exames e consultas. “Isso tudo é verdade e essa é a expressão mais visível e sensível do SUS para a população. Mas a gente reclama e não queria que só falassem mal do SUS, porque sabe que isso não é todo o SUS, isso não define o que ele é. Então como a gente faz a ligação de um projeto que precisa se concretizar na prática e que tem limitações com a experiência particular das pessoas quando elas vão ao serviço e não conseguem ser atendidas?”, questionou.

Na narrativa jornalística, de acordo com Cátia, há uma discrepância entre um sistema de saúde que foi concebido pela perspectiva da integralidade do cuidado e dos serviços e um modelo de jornalismo que se baseia na fragmentação da realidade. Tudo isso dificulta a disputa de sentidos e concepções de saúde, disse. Para a jornalista, uma das saídas é criar uma “trincheira” que incentive outras visões e versões sobre o SUS, ancoradas em “núcleos de verdade”. “Mas é preciso não cair na abstração de falar de um sistema que as pessoas não encontram na particularidade das suas experiências. E também não delegar à grande imprensa apenas a abordagem dos problemas e dificuldades reais do SUS que causam sofrimento real à população. Se a gente abraça as pautas positivas e deixa os problemas para a grande imprensa, vira uma guerrilha que não vai resultar em nada que signifique um avanço de concepção”, afirmou, finalizando: “A disputa de narrativas em defesa do SUS precisa ir além do próprio SUS. O que está sob ataque é uma concepção de mundo apoiada na solidariedade social e o papel do Estado nesse processo, que ataca mais diretamente até outras políticas, enfraquecendo o SUS ao longo prazo”.

Mídias de comunicação alternativa

Na tentativa de compreender as falhas da cobertura jornalística, Antonio Martins, editor do site Outras Palavras e idealizador do site Outra Saúde, destacou o fato de o Brasil ser uma sociedade segregada, que não enxerga determinados direitos como a saúde, educação, habitação como direitos reais. Segundo ele, há matérias excelentes na grande mídia sobre como hospitais privados conquistam vitórias no terreno da saúde, mas ninguém debate que esses hospitais atendem a uma fatia pequena da sociedade. “Aquela minoria que pode pagar faz parte de um sistema que é diferente dos planos de saúde e que é diferente do SUS. E o SUS, assim como a educação pública, é tratado numa gaveta não como se fosse direito de todos os trabalhadores, mas sim como o que resta para os pobres. Essa fragmentação impede que a gente veja a saúde de forma mais ampla. Não se debate na cobertura, por exemplo, como as pessoas que não têm recursos e não podem se curar de certos tipos de câncer que são perfeitamente curáveis para outras pessoas”, afirmou.

A solução para Antônio não é fazer somente pautas positivas, mas enxergar a saúde pública como a saúde que deveria preocupar todos os brasileiros: “Inclusive para apontar os problemas do SUS e discutir em profundidade alguns temas que às vezes temos receio de discutir porque ferem setores que fazem parte da construção do SUS. Por exemplo, a ausência frequente dos médicos nos horários em que eles deveriam prestar serviços”.

Antônio relembrou que quando o site ‘Outras Palavras’ surgiu, há dez anos, o cenário era mais esperançoso. De acordo com ele, era o início da emergência de uma internet um pouco mais popularizada, em que cada pessoa poderia ser também um emissor de conteúdo através dos blogs, por exemplo. Segundo ele, tornou-se evidente para os que criticavam o oligopólio das comunicações a necessidade de promover outro tipo de comunicação. “Não esperávamos criar um concorrente de uma grande emissora, mas uma rede articulada de publicações que fossem pouco a pouco compondo um mosaico de contrainformação, não para criticar somente, mas para propor uma cobertura mais profunda e matizada. O ‘Outra Saúde’ é uma materialização dessa ideia, que produz conteúdo próprio de qualidade e busca agregar informação”, explicou, acrescentando: “O ‘Outra Saúde’ reúne ainda materiais publicados de outros sites, dando créditos e valorizando o trabalho feito por outros. Tem também uma newsletter que é disparada todos os dias de manhã, feita pela madrugada, dando conta do conjunto das informações importantes que foram publicadas na véspera”.

Comunicação no Brasil

Diferentemente de países europeus que começaram com sistema público de comunicação e foram abrindo gradualmente para o sistema privado e diferentemente também dos Estados Unidos, que começaram com sistema privado já regulado para impedir concentração e domínio de uma agenda nos meios de comunicação, no Brasil quando o sistema de comunicação ganhou força já era privado, sustentado com a ausência de regras de interesse público. Foi com essa contextualização que João Brant, pesquisador e militante do Movimento Democratização da Comunicação, começou sua fala na mesa-redonda através de Skype. “Temos um sistema de comunicação fundamentalmente privado, sem regras para concessão e tendo a comunicação como uma das poucas áreas onde a Constituição de 1988 não repaginou”, disse.

Segundo João, a ditadura militar-empresarial no país estruturou e fortaleceu uma única emissora – a rede Globo. E isso apesar de a Comunicação Social ser o único setor em que a Constituição brasileira proíbe oligopólios e monopólios. “Mas na realidade existem oligopólios e monopólios de fato e uma ausência de qualquer regulamentação para tratar desse tema. Na comunicação, a concentração não afeta somente os outros concorrentes e gera um problema de falta de diversidade para o consumidor, mas gera um problema efetivo para a democracia”, contrapôs. 

João ressaltou que o jornalismo é dependente dos meios privados e hierarquizado. “Os meios de comunicação são essenciais no funcionamento da economia, são espaços de reprodução da publicidade que, por sua vez, são elementos fundamentais de circulação do capital. A isso se aliam uma dimensão do Estado como investidor econômico e uma divisão de classes”, criticou. Porém, segundo João, há importantes exceções: “Quando jornalistas na ponta conseguem produzir bom jornalismo mesmo sendo contra interesse dos grandes veículos. Mas isso não é a regra. Além disso, a maior parte dos especialistas ouvidos nas matérias se associa a uma agenda da elite brasileira”.

Para João, ao longo do tempo, a cobertura jornalística, muito sustentada em escândalos, vai se transformando em uma cobertura antipolítica. “É uma oposição que não é simplesmente um meio de comunicação contra algum grupo. Na maioria das vezes, é a narrativa tradicional dos meios de comunicação versus a política. Isso gera uma enorme desconfiança e idealização de cenários políticos. As notícias negativas para a saúde ou sobre o SUS não deveriam ser um problema se estivessem associadas a soluções sérias”, apontou. E acrescentou: “Temos que aproveitar o fato de termos uma rede, com a ‘Revista Poli’ e o ‘Outra Saúde’ e outras iniciativas de cobertura séria do SUS, para que a gente possa fazer informação primária e servir de disputa nas redes de conteúdo sobre o sistema de saúde”.

Lançamento do hotsite

No mesmo dia, aconteceu o lançamento do hotsite comemorativo dos dez anos da revista Poli. Nele estão reunidas algumas das principais reportagens e entrevistas produzidas pela Poli ao longo da última década, separadas em grandes áreas que compõem o universo temático da revista: saúde, educação, trabalho, meio ambiente, conjuntura política, políticas públicas e eleições. No site também existem subáreas como ‘Poli em número’, que contém informações de alcance geográfico, número de entrevistados, exemplares e outros dados da revista, bem como ‘Poli na sala de aula’, ‘Poli na comunicação’ e ‘Poli nas lutas’ que reúnem depoimentos, em vídeo e em texto, de professores, pesquisadores, lideranças sindicais, ativistas de organizações da sociedade civil, de movimentos sociais e também comunicadores que utilizam a revista como ferramenta pedagógica em sala de aula ou como instrumento de militância política, institucional e científica.

“Há dez anos, apostamos na objetividade – da informação, dos fatos, do conhecimento, da ciência – sem que isso seja sinônimo de neutralidade em relação aos temas que justificam a nossa existência. Sempre atentos às divergências, nunca tivemos dúvida de que o ‘nosso lado’ é o que defende o fortalecimento do SUS, da educação pública, do desenvolvimento científico com investimento público e da garantia dos direitos humanos”, diz o texto de apresentação do hotsite.

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