Covid-19 e a formação técnica em saúde é tema de seminário da RETS

Pesquisadores discutem questões como o impacto da pandemia no cotidiano das instituições de formação de técnicos em saúde e as perspectivas para o futuro
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 09/10/2020 10h30 - Atualizado em 13/10/2020 15h23

‘Covid-19 e a formação dos técnicos em saúde’ foi o tema do 9º seminário virtual da Rede Internacional de Educação de Técnicos em Saúde (RETS), sediada na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). Realizado no dia 1º de outubro, o evento reuniu a diretora da EPSJV, Anakeila Stauffer e os pesquisadores Bernardina de Souza, do Ministério da Saúde de Moçambique; Gabriel Muntaabski, do Instituto Nacional de Educación Tecnológica (Inet), da Argentina; e Mário Maia-Matos, da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (ESTeSL), de Portugal. A mediação foi feita pelo professor-pesquisador da EPSJV, Helifrancis Condé.

Em sua fala, Anakeila ressaltou algumas reflexões sobre como a pandemia agrava, intensifica e dá visibilidade aos efeitos da crise econômica, como o desemprego, a superexploração do trabalho, a pobreza, a desigualdade social e a mortalidade, especialmente  em frações da classe trabalhadora. “Há um explícito recorte de classe social dos prejuízos da pandemia: trabalhadores são afetados em sua saúde e condições de vida, enquanto capitalistas tentam salvar seus negócios. A visão hegemônica da pandemia e da resposta da saúde pública, respaldadas pela biologia para combater o vírus, tem apenas apontando respostas individuais de orientações e medidas de biossegurança, medidas de higiene, isolamento, uso de EPIs, a esperança em uma vacina”, disse.

Em seguida, a diretora da EPSJV apresentou algumas ações da Escola nesse contexto , como a produção de materiais educativos e informativos que possam orientar os trabalhadores de nível médio do SUS e as demais categorias profissionais da saúde a respeito do novo coronavírus, o desenvolvimento de ações de comunicação que visem a dar destaque às ações institucionais e à  comunicação pública articulada com a divulgação científica e a popularização da ciência. Anakeila também destacou o desenvolvimento de estratégia específica para o recebimento de artigos científicos relacionados à pandemia do novo coronavírus, na Revista Trabalho, Educação e Saúde; o trabalho com outras unidades da Fiocruz na articulação com lideranças comunitárias de favelas, de movimentos sociais, de sindicatos de trabalhadores do SUS, e do controle social para o desenvolvimento de ações de enfrentamento da pandemia, dentre outros.

“Pensamos também na continuidade das ações da área de gestão para o apoio às atividades da Escola, incluindo as relacionadas ao enfrentamento da pandemia, como a construção da Praça Luiz Fernando Ferreira. Elaboramos um plano de retomada das atividades presenciais da EPSJV e um manual técnico sobre o diagnóstico e as condições necessárias para o retorno às atividades presenciais das escolas públicas”, apontou.

A perspectiva, segundo Anakeila, que se tem para a formação dos técnicos em saúde no Brasil não são as melhores. “Estamos vivendo a pior crise da história do Brasil. Além da sanitária, vivemos a crise social especialmente pela retirada de políticas e direitos da classe trabalhadora, a crise ambiental causada pela exploração capitalista, e uma crise política”, enumera.

Na educação, Anakeila apontou um cenário de uso mais intensivo do ensino remoto, compreendido como a forma única de continuidade do trabalho escolar no mundo todo, e a reconfiguração do trabalho docente – segundo ela, uma forma efetiva de subordinação dos trabalhadores da educação aos artefatos tecnológicos, ao mesmo tempo em que o caráter predominantemente empresarial dessas tecnologias se expressa na educação pública tanto como captura de recursos públicos quanto como disseminação de uma forma específica de ser e de estar no mundo.

Covid-19 e Moçambique

Bernardina de Souza, da Direção Nacional de Formação de Profissionais de Saúde do Ministério da Saúde de Moçambique, afirmou que após o surgimento de casos de Covid-19 no mundo, Moçambique confirmou o primeiro caso em março de 2020. Segundo ela, pelo decreto presidencial 11/2020 de 30 de março declarou-se o Estado de Emergência em todo o território nacional, que determinou o fechamento das escolas, entre outras medidas. A partir disso, começou o desafio de encontrar uma solução para a aplicação das aulas à distância.

Dentre os principais desafios, destacam-se a indisponibilidade de internet, de  smartphones e computadores portáteis por parte das instituições de formação bem como dos professores e estudantes. Sobre as estratégias pedagógicas e políticas adotadas, Bernardina explicou que foram privilegiadas reuniões virtuais com os gestores de todas as escolas com o objetivo de encontrar soluções aplicáveis a cada instituição assim como as condições econômicas dos estudantes para continuar as aulas, além de formações virtuais sobre a utilização da plataforma Google Classroom.

Covid-19 e a Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (ESTeSL)

Segundo Mário Maia-Matos, em Portugal, em março, o confinamento total do país levou a que toda a formação ministrada tivesse rapidamente que ser transformada em formação à distância, impactando de forma diferente diferentes anos. “A ESTeSL respondeu com a criação do Gabinete de Apoio, Desenvolvimento e Monitorização do Ensino à Distância (GADMED) que avaliou as práticas docentes, fez formação e criou uma plataforma de Ensino Digital. O apoio aos estudantes passou pelos Diretores de Curso certificando-se, estudante a estudante, se tinham as condições necessárias para as aulas à distância. Mas um curso de saúde não pode ser ministrado 100% à distância”, alertou.

Mário ressaltou ainda que o Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior português e a Direção Geral de Saúde emitiram despachos sobre o modo como as Instituições de Ensino Superior deveriam agir no ano letivo 2020-2021 no início de agosto. Diante disso, a ESTeSL tem trabalhado para garantir o ensino presencial dentro das condições de segurança indicadas pelas autoridades, fazendo deste processo um modo de ensinar também os estudantes a se comportarem como profissionais de saúde. “Não se ensina saúde a distância, mas temos que ter a determinação para ultrapassar as dificuldades que nos surgem com soluções reais. Só com profissionais de qualidade conseguiremos ter um sistema de saúde capaz de lutar contra flagelos como este. Neste período de pandemia, temos perdas e ganhos, e o que ficará para a História será a nossa capacidade de adaptação e resolução de problemas com os olhos postos no futuro”, destacou.

Covid-19 e Argentina

No contexto da pandemia e diante da necessidade de priorizar o atendimento de todos os profissionais de saúde, em meados de março, a Argentina lançou o Programa Nacional de Formação de Enfermagem (Pronafe), parte do Instituto Nacional de Educação Tecnológica, do Ministério da Educação da Argentina. “Através do fortalecimento das carreiras de enfermagem, o programa propõe aumentar a quantidade e a qualidade dos enfermeiros no país. Ele se desenvolve em 200 instituições superiores de enfermagem e 30 carreiras universitárias”, apontou Gabriel.

Segundo ele, o Pronafe consiste na formação de formadores que podem reproduzir a ‘Oficina de capacitação para habilidades clínicas ao pessoal de saúde frente a casos suspeitos ou confirmados de Covid-19’, que visa treinar habilidades de higienização das mãos e colocação e remoção segura de equipamentos de proteção individual para cuidar da saúde das equipes que atendem pacientes com diagnóstico suspeito ou confirmado de Covid-19.
“Essas oficinas foram realizadas nas modalidades virtual, presencial e direta (por meio de aulas síncronas). No âmbito da representação dos contágios no quadro do pessoal das equipes de saúde, foi imprescindível o diálogo sobre os aspectos institucionais, administrativos e ambientais para garantir a segurança de todos os que prestam cuidados diretos e indiretos. Por isso implementamos momentos de diálogo e de reflexão sobre essa problemática e propomos ideias sobre as diferentes formas de abordar a construção de ambientes seguros para trabalhadores e pacientes”, contou.

Na visão de Gabriel, foi de vital importância debater os aspectos culturais que influenciam o comportamento, apostando num diálogo horizontal que englobe todos os representantes das equipes multidisciplinares. “Em suma, o Pronafe formou 3.140 formadores, que atuam em 484 instituições de saúde em 247 localidades onde, por sua vez, já capacitaram mais de 35 mil trabalhadores da saúde na prevenção da Covid-19”, resumiu.

Comentar