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Debate sobre segurança pública e violência urbana marca início do ano letivo dos Cursos Técnicos da Escola Politécnica

Cecília Oliveira, Raphael Calazans e Ana Tobossi compartilharam análises e experiências sobre políticas públicas, atuação do Estado e realidade das periferias urbanas
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 06/03/2026 16h00 - Atualizado em 20/03/2026 10h14

Para marcar o início do ano letivo dos Cursos Técnicos, a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) promoveu, no dia 5 de março, um debate sobre “Segurança pública e violência urbana em territórios vulneráveis” — tema que atravessa o cotidiano de milhões de brasileiros e impacta diretamente a vida das pessoas. Participaram do encontro a jornalista Cecília Oliveira, fundadora e diretora do Instituto Fogo Cruzado; o ex-aluno da EPSJV/Fiocruz, Raphael Calazans, que atualmente trabalha na Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas e Gestão de Ativos, do Ministério da Justiça e Segurança Pública; e Ana Tobossi, integrante do Conselho Gestor e Político-Pedagógico do Centro de Integração na Serra da Misericórdia (RJ).

A mesa de abertura contou com a presença da vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, Alda Cruz; da diretora da EPSJV, Anamaria Corbo; e do representante do Grêmio Politécnico, o estudante do 2º ano da habilitação em Biotecnologia, Matheus Waldhelm.

Em sua fala, Matheus ressaltou que a violência contra a população preta, pobre e periférica, sobretudo jovem, é uma questão de saúde pública e constitui um problema sócio-histórico. Ele explicou: “Sócio por se tratar de um problema social e histórico porque remonta um processo de colonização de mais de 400 anos em que a população negra foi explorada e violentada”. Na visão dele, o racismo no Brasil se manifesta de forma “velada, escondida e camuflada”. “Isso é reflexo do mito da democracia racial, que nos faz acreditar que o Brasil é um país miscigenado e homogêneo, onde existe harmonia entre brancos, negros e indígenas. Isso nega o racismo estrutural e sabemos que isso não é a realidade”, lamentou, concluindo: “Vivemos num cenário de necropolítica, no qual a morte e o medo se apresentam como estratégia política de governabilidade, definida por ascensão de um estado de exclusão e terror”.

Em seguida, Anamaria explicou a escolha do tema. “Sempre pensamos em assuntos que são importantes no momento em que vamos organizar esse espaço de discussão e reflexão. Estávamos acompanhando o massacre que aconteceu nos Complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, e percebemos que no decorrer do processo de acompanhar a opinião pública, a mídia mudou completamente o seu discurso, a forma como estava noticiando a situação”, relembrou. Diante disso, Anamaria contou que a escolha para falar sobre segurança pública se dá em um ano de eleições para cargos essenciais para essa discussão. “É o grande tema desse ano no nosso país, porque vai ser fundamental em todas as discussões, para pensarmos em como se elaboram as políticas públicas e como isso interfere na vida de cada um aqui dentro”, destacou.

Às vésperas do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a diretora da EPSJV falou ainda sobre o estupro coletivo sofrido por uma jovem de 17 anos, em 31 de janeiro, em Copacabana, mas que só se tornou público em fevereiro; e o estupro de uma idosa em um ônibus, no Rio de Janeiro, no dia 22 de fevereiro. Ela leu uma nota de repúdio divulgada pelo Conselho Deliberativo da EPSJV. “A escola tem papel fundamental na formação de seus estudantes para a transformação da realidade social. Educar é enfrentar desigualdades, questionar toda forma de opressão e promover o respeito incondicional à dignidade humana. Reafirmamos nosso compromisso com uma educação que combata toda forma de racismo, machismo, misoginia, violência de gênero e exploração, contribuindo para a construção de uma sociedade baseada na igualdade, na justiça social e no respeito. Em nossa Escola, não será admitida nenhuma situação de violência, assédio ou qualquer prática que viole a integridade física, moral ou psicológica de nossas estudantes e trabalhadoras.”, diz um trecho.

Representando o o presidente da Fiocruz, Mário Moreira, Alda agradeceu ao convite e falou sobre a satisfação de estar na EPSJV, destacando a relevância da instituição no cenário nacional e internacional: “É uma honra estar aqui compartilhando esse belo trabalho que vocês realizam e recebendo os novos alunos que são as nossas sementinhas. Temos que registrar a importância que a escola tem na formação de técnicos, de manter o legado de Joaquim Venâncio, na inserção de jovens muito precocemente no contexto da Ciência, e o papel que a EPSJV exerce no cenário nacional e internacional”.
Por fim, Alda falou sobre a importância do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli, o Claves, da Fiocruz, que foi criado em 2016. “A violência precisa ser analisada, quantificada, compreendida, para que possamos desenhar políticas públicas de enfrentamento. A Fiocruz tem grupos muito fortes, com muita competência no estudo da violência, seja interpessoal, seja no trânsito, seja de gênero... Toda essa competência científica está sendo canalizada para trazer soluções para sociedade”, ressaltou.

(In)segurança pública

“Não conhecemos nenhuma política pública ou serviço de Estado para além da violência. As pessoas foram colocadas em situações de extrema vulnerabilidade e abandono. Não existe segurança pública nesse território. Se entendemos que segurança pública é um conjunto de políticas para garantir a vida e a dignidade humana, isso não chegou aqui. O que passamos é fruto do racismo”, iniciou Ana Tobossi, integrante do Conselho Gestor e Político-Pedagógico do Centro de Integração na Serra da Misericórdia (Cem), localizado na comunidade da Terra Prometida, no Complexo da Penha (RJ).

Ainda sobre racismo, Ana questionou: “Por que com o negro não tem comoção? Por que não dói? Por que a sociedade aplaude e aplaudiu o massacre (da Penha)? Não temos pena de morte no Brasil”. Na visão dela, a explicação é que os únicos corpos que são puníveis, matáveis e objetificados são os corpos negros. “Não tem como pensar que essa sociedade deu certo. Não tem como não repensar, aceitar esse sistema capitalista racista. Viram que matar gente preta, pobre e favelada rende voto. E a gente paga a cura: se é preto, paga com a vida; e a sociedade com seus impostos aplaudindo achando que terá solução”, criticou.

Ana deixou um recado aos estudantes: “Que a juventude guarde sempre que o combate ao racismo é fundamental. Não existe pensar num projeto emancipatório para o nosso povo sem a educação, sem a organização e sem a coletividade”.

A jornalista Cecília Oliveira, fundadora e diretora do Instituto Fogo Cruzado, apresentou um levantamento sobre o impacto da violência. “Entre 2017 e 2022, mais de cinco mil escolas do Rio de Janeiro foram afetadas por tiroteio. Isso resultou em 36 dias de paralisação em algumas unidades”, apontou. Nesse contexto, a violência armada, para Cecília, não é só sobre morte. “Ela também produz uma desigualdade do futuro. Ali é determinado quem vai e quem fica. E isso não é só sobre o direito de ir e vir, é sobre quem vai sobreviver”, afirmou.

De acordo com a jornalista, muitas pessoas acham que a violência é uma espécie de caos, que simplesmente acontece. Na verdade, ela continuou, o que os dados mostram, a partir de dados do Fogo Cruzado, é o contrário. “É muito fácil entender o quê e onde está acontecendo, contra quem e com qual frequência. A violência armada atinge os mesmos bairros, os mesmos territórios, as mesmas pessoas, afetando as mesmas populações sempre. O que as pessoas chamam de caos é, na verdade, muito organizado. Não é distribuída igualmente entre a cidade, ela se concentra em bairros habitados por pessoas pobres, negras, jovens. Isso é resultado de decisões de pessoas que definem os nossos futuros”, destacou.

Quando se analisa os impactos das políticas públicas sobre segurança pública, Cecília ressaltou: “Não é só sobre controle armado de um território, é sobre o controle econômico e dessas vidas. Por que algumas vidas são protegidas e outras são expostas permanentemente, diariamente, cotidianamente, à violência? Por que tem gente que consegue trabalhar e gente que não? Por que tem gente que estuda em escola que perde quase 40 dias de aula por ano e gente que estuda em escola bilingue? Responder isso é o desafio, inclusive, dos pensadores que estão sendo formados aqui”.

Para encerrar, o ex-aluno da EPSJV/Fiocruz, Raphael Calazans, atualmente no Ministério da Justiça e Segurança Pública, relembrou sua trajetória na escola e destacou o impacto que a formação politécnica teve em sua vida. Segundo ele, a instituição representou “dois movimentos”: “a prevenção de ter para onde ir e o cuidado de sempre ter para onde voltar”. 

Ao abordar o tema da política sobre drogas, Raphael afirmou que segurança pública e saúde pública são pilares fundamentais desse debate e criticou o conceito de “política antidrogas”, que, em sua avaliação, acaba sendo “anti-pessoa”. “Porque são pessoas que fazem uso dessas substâncias e , muitas vezes, adoecem por isso; comercializam e enriquecem; e muitas outras pessoas morrem também no comércio varejista dessas substâncias”, apontou.

Ele também refletiu sobre a forma como determinados territórios são classificados pelas políticas públicas. De acordo com Raphael, muitas vezes áreas consideradas vulnerabilizadas passam a ter  uma “mancha criminal”, enquanto, no campo da saúde pública, são analisadas a partir da ausência de serviços e estruturas do Estado. Ao dar o exemplo do bairro de Madureira, no Rio de Janeiro, ele afirmou que o território pode ser descrito como um “vazio sanitário” devido à escassez de serviços de saúde, mas que esse olhar ignora potências culturais do lugar, como as escolas de samba Império Serrano e Portela. “Se olharmos para esse lugar e consideramos um vazio é porque sustentamos uma política que, embora seja universal, ainda é fundamentada numa ótica racista”, afirmou, explicando que quando o olhar se volta para a cultura, é possível reconhecer o que há de potente nesses espaços — algo que, na prática, dialoga pouco com as políticas de saúde e segurança.

Por fim, Raphael situou essas questões em um contexto histórico mais amplo, lembrando que o país foi estruturado sobre profundas desigualdades sociais. Para ele, não é possível esperar mudanças radicais apenas a partir das estruturas formais existentes, já que elas próprias fazem parte da lógica que produziu essas desigualdades. “De fato, esse país é fundado pelo estupro, sequestro, saqueamento e pela desigualdade. Não dá para esperar que as estruturas formais deem conta de uma mudança radical dentro dessa própria lógica. A função da política pública é pensar caminhos”, concluiu.
Assista ao evento completo em: https://www.youtube.com/watch?v=kmSuLIPUdc