EPSJV apresenta infográficos com resultados do Mapeamento de Doulas

Realizada em parceria com a Associação de Doulas do Rio de Janeiro, pesquisa apresentou o perfil socioeconômico, a formação, o processo de trabalho, dentre outras informações, dessas trabalhadoras em cinco territórios de quatro regiões do Brasil
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 05/01/2022 11h04 - Atualizado em 05/01/2022 14h50

A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) apresentou, no final de dezembro de 2021, os infográficos com os resultados finais da pesquisa "Mapeamento de Doulas", realizada em parceria com a Associação de Doulas do Rio de Janeiro (Adoulas-RJ). O estudo teve como objetivo mapear o perfil socioeconômico, a formação, o processo de trabalho, as práticas, entre outras informações, das doulas em cinco territórios de quatro regiões do Brasil. Iniciada em 2019 no estado do Rio de Janeiro e depois estendida aos estados de Mato Grosso, Paraíba, Santa Catarina e São Paulo em 2020 e 2021, a pesquisa contou com 785 participantes.

Segundo a professora-pesquisadora da EPSJV/Fiocruz Morgana Eneile, que divide a coordenação do estudo com o também professor-pesquisador José Mauro Pinto, apesar de ter sido constituída a partir da Classificação Brasileira de Ocupações, em 2013, a atuação das doulas já existe há décadas. “Quando começamos a pensar na pesquisa, nós identificamos que era necessário traçar um perfil mais apurado dessas profissionais. Com o crescimento da profissão, era necessário identificar o que significava, qual o exercício e quem eram essas pessoas que são doulas”, conta Morgana, que explica ainda que, a partir dos resultados do estado do Rio de Janeiro ficou evidente a necessidade de comparar com outros estados do país.

Inicialmente, foram realizadas a coleta de dados por questionário on-line e, num segundo momento, por grupos focais e entrevistas. Neste produto inicial estão apontados os dados relativos aos questionários, mais especificamente relativos à perfil, renda, formação, atuação, remuneração, doulas que são mães, opinião das doulas sobre reconhecimento, ativismo e cenário obstétrico, representados através de um conjunto de infográficos por estado e de panorama geral.

Principais resultados

A pesquisa apontou que o perfil das doulas é majoritariamente branco, excetuando-se o estado da Paraíba, onde esse dado é de 36%, somente. “Em especial em São Paulo e em Santa Catarina, onde está acima de 70%, a gente atribui isso ao fato de que, nesses locais, temos um processo formativo privado que, ao longo dos anos, não dava oportunidades para pessoas negras. No caso da Paraíba, a gente tem uma trajetória de processo formativo de uma instituição pública que possibilita que outros perfis de mulheres possam se tornar doulas, assim como fazemos na EPSJV”, conta. Na Escola Politécnica, Morgana continua, o curso de qualificação profissional de doula tem o propósito de formar mulheres, priorizando que essas sejam negras e moradoras de periferias.

Em relação à remuneração, o estudo mostra que a renda dessas profissionais é de até três salários-mínimos, mesmo com a forte atuação não exclusiva, e somente 5% das participantes recebem acima de R$ 2 mil por atendimento. Ainda assim, 65% afirma estar satisfeita com a remuneração.

Sobre a relação entre maternidade e ser doula, Morgana destaca que, mesmo não sendo uma condição, 72% das doulas são mães e esse fato influenciou diretamente o desejo de atuarem. “Ainda que elas não tenham se tornado doulas pela maternidade, há uma relação intrínseca com o fato de se tornarem profissionais doulas. É o desejo de exercício da profissão, que nasce e passa por uma vivência pessoal”, ressalta. E contrapõe: “Apesar disso, temos um número expressivo de 28% que não são mães e não tem essa perspectiva. São pessoas que procuram a profissão porque enxergam ali uma possibilidade”.

De acordo com a professora-pesquisadora, há um certo mito na relação entre as doulas serem ativistas e o fato de terem passado por alguma violência obstétrica.  “De fato, o ativismo é uma marca presente para 92% das entrevistadas. Mas as experiências positivas tanto quanto as negativas em relação aos seus partos são responsáveis por essas mulheres mães se tornarem doulas. As doulas não são ativistas porque passaram e querem descarregar as suas experiências traumáticas. Muitas passaram por boas experiências de parto, tiveram doulas e, por isso, querem que outras mulheres tenham essa vivência”, explica.

Morgana aponta que há ainda uma grande quantidade de doulas que fazem difusão gratuita na internet, usando as redes sociais como um lugar de esclarecimento e difusão de informação em saúde: “78% das doulas promove essa difusão de informação em saúde, com a metade investindo em rodas e eventos de apoio à gestação e puerpério, em sua maioria, gratuitas. Elas tomam para si esse lugar, não necessariamente com propósito de obter um retorno financeiro, mas no sentido e no entendimento da relevância, uma vez que o cenário obstétrico não tenha esse grau de informação, é necessário que se faça essa intervenção junto à população”.

A ideia agora é dar ainda mais voz às participantes do estudo, com a publicação de um livro ainda no primeiro semestre de 2022. “A fase dos infográficos é um aperitivo para o que ainda vamos constituir a partir das vozes das doulas que participaram da pesquisa. Estamos muito felizes em apresentar para a sociedade um pouco do perfil das doulas, desmistificando que elas não são pessoas ricas, mas sim trabalhadoras no universo da saúde que ganham até três salários-mínimos e que atuam privilegiadamente no SUS. São operárias à luz do movimento humanizado, que se cristalizou como pouco acessível, e vêm transformando a realidade através do cotidiano de sua atuação em diferentes cenários”, conclui.

Acesse a pesquisa completa aqui: https://www.epsjv.fiocruz.br/mapeamento-de-doulas

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