Entrevista: 
Carlos Estellita-Lins

‘O suicídio está associado, inclusive, à crise socioeconômica que nosso país atravessa’

O mês de setembro ganha a cor amarela como parte da campanha de prevenção ao suicídio. Por conta disso, o Portal EPSJV/Fiocruz foi ouvir o pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) Carlos Estellita-Lins, com atuação clínica em psicanálise e psiquiatria e estudioso do tema, para entender o recrudescimento do suicídio em alguns grupos populacionais e a relação entre suicídio e as transformações ambientais. Trata-se de um problema de saúde pública mundial: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 800 mil pessoas morram desta forma anualmente, uma a cada 40 segundos, o que equivale a 1,4% dos óbitos totais. A média global de mortes voluntárias é de 10,7 por cem mil habitantes, sendo 15 por cem mil entre homens e oito entre as mulheres. No Brasil, onde os índices são também relevantes, segundo dados do Ministério da Saúde registrados entre 2011 e 2017, a média foi de 5,7 suicídios a cada cem mil habitantes. Os números são maiores quando se trata da população jovem de 15 a 29 anos, na qual o suicídio é a quarta maior causa de morte, especialmente entre os homens. Entre 2011 e 2017, a taxa de suicídio entre os homens dessa faixa etária foi de nove mortes por cem mil habitantes, enquanto que entre as mulheres foi quatro vezes menor (2,4 por cem mil). Uma verdadeira epidemia de suicídio atinge ainda a população indígena, entre a qual a taxa de mortalidade por mortes voluntárias é quase o triplo da média nacional (15,2 por cem mil). E diferentemente da população geral, a maioria dos suicídios cometidos pelos indígenas (44,8%) no mesmo período ocorreu na faixa etária de dez a 19 anos.
Portal EPSJV/Fiocruz - EPSJV/Fiocruz | 12/09/2018 10h08 - Atualizado em 21/09/2018 15h58

As mortes por suicídio são um problema mundial, que demanda um tratamento precoce e eficaz. O que é preciso fazer para prevenir?

O primeiro aspecto da prevenção é enfatizarmos que o suicídio não é uma ideia abstrata de autoextermínio, menos ainda se trata de uma fatalidade, uma decisão pessoal soberana e heroica. É um desfecho que está ligado aos transtornos mentais, bem como a situações de vida desfavoráveis. É preciso olhar para o fato de que o suicídio está geralmente associado ao sofrimento psíquico, a situações de estresse e de pressão e, inclusive, à crise socioeconômica que nosso país atravessa. Vivemos em um modelo de sociedade hipertecnológico, que promete rapidez e facilidades, mas acaba promovendo estresse, burn-out [síndrome caracterizada por distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso] e sobrecarga. Para alguns autores, trata-se do perigoso cultivo dos estados de ansiedade, do luto coartado, de experiências de trabalho ou desemprego, cujo rumo acaba em depressões. Fala-se em valorização da vida, pois todo tratamento inadequado da existência e qualquer pressão ambiental circunstancial podem levar ao suicídio. Se for possível intervir preventivamente, trata-se de produzir algum tipo de transformação nos modos de vida e, portanto, compreender que diminuir as taxas de suicídio é uma tarefa para todos, está no coração da saúde pública. O segundo aspecto preventivo consiste em diminuir acesso aos meios de autoextermínio e ainda ou, sobretudo, cuidar de situações de crise psíquica com risco de suicídio. O tratamento rápido e adequado de transtornos ansiosos e depressivos tem claro impacto nas taxas de suicídio. Falo, portanto, do porte e uso de armas de fogo, da utilização disseminada de defensivos agrícolas, de acidentes de transporte, assim como de políticas de urgência mais eficazes que não se limitem ao nível pré-hospitalar. São evidentemente pontos críticos em nosso país.
 

Ao suicídio temos um novo conceito associado, o de antropoceno. O que se entende por esse conceito? E o que os estudos revelam sobre a relação entre um e outro?

Trata-se uma agenda extremamente contemporânea nas Ciências Sociais, na Filosofia e, especialmente, nos estudos de Ciência e Tecnologia. Acredito que a Saúde precisa adotar esta agenda de modo claro e determinado. Não estamos falando apenas das modificações climáticas, do aquecimento dos oceanos e da atmosfera, já estamos falando de transformações que, a partir de 2005, foram objetos de uma reflexão mais sólida quando se advertiu que as transformações climáticas eram irreversíveis.  Sabemos que elas não estão somente relacionadas à extinção de muitas espécies animais – o que não é irrelevante, uma vez que efetivamente ocorre neste momento uma grande extinção de animais como há milhões de anos não ocorria –, como também ao aquecimento global, ao efeito estufa. O caráter irreversível não pode mais ser negado.  Periódicos de grande fator de impacto como Science e Nature, a partir de então, passaram a publicar artigos programáticos assinados por centenas de cientistas, criando o consenso de que o planeta Terra está passando por uma nova fase de transformação geológica. Essa transformação é provocada pelo homem, mais especificamente pelas tecnologias humanas, pelo complexo tecnoindustrial movido a carvão, combustíveis fósseis ou nucleares. Possivelmente desde 1750, com a Revolução Industrial e o desenvolvimento do capitalismo tal como nós o conhecemos, o planeta passou a sofrer transformações e algumas agressões. Antropoceno não é simplesmente uma mudança irreversível pela qual o planeta passa, é também o nome de uma nova agenda política que tem se organizado em torno da luta pelos ‘comuns’, da tentativa de repensar a saúde nesse quadro e da valorização de experiências e modos de vida mais simples, autossustentáveis. A saúde mental participa disto necessariamente. Trata-se de admitir experiências e modos de vida que não envolvem o consumo, que não envolvem combustíveis fósseis, que não envolvem plástico, que não envolvem derivados de petróleo, que não envolvem automóveis. Em suma, iniciativas que tentam conversar, dialogar e aprender com comunidades tradicionais como as nossas comunidades indígenas. A conexão indireta da catástrofe ambiental com a saúde começa a ser estudada: escassez de água, migrações maciças (com campos de refugiados), inundações, vendavais e todo tipo de acidente meteorológico. Alguns autores mencionam uma ‘ecologia dos pobres’, dada sua repercussão imediata em comunidades menos favorecidas e mais vulneráveis. A saúde mental encontra-se envolvida não somente quanto ao estresse pós-traumático promovido por grandes crises humanitárias, mas também diretamente, como por exemplo no caso da solastalgia ou do estresse pós-climático, noções provisórias que pretendem descrever o sofrimento por modificação do panorama, do meio ambiente psiquicamente enraizado, assim como do território existencial. Das reivindicações dos índios guarani-kaiowa ao estudo instigante de Glenn Albrecht, passando pela ecosofia de Felix Guattari, temos um leque de inquietações desta ordem.

O suicídio é uma morte violenta que está associada a situações violentas, a ambientes de violência e a um desfecho violento

 

O recrudescimento do suicídio estaria também associado às chamadas determinações sociais da saúde, problemas como aumento do desemprego e falta de moradia?

Sim, com certeza. E podemos e devemos ter uma visão crítica sobre este cenário para saber o que fazer. É importante lembrar que o suicídio é uma morte violenta que está associada a situações violentas, a ambientes de violência e a um desfecho violento. Não é à toa que encontramos mais desfecho de atos suicidas com óbito, ou seja, realizados e consumados, nos homens, entre os quais a incidência de uso de armas de fogo é maior. Muitas campanhas de prevenção ao suicídio envolvem hoje em dia proibir, limitar, circunscrever e repensar as sociedades armada. Essa violência na qual a sociedade está inserida é um meio altamente nocivo e de realização do autoextermínio. Então, os homens, inseridos em uma cultura violenta e machista, têm uma associação maior com o suicídio, e isso afeta inclusive as pessoas desfavorecidas, oprimidas, em condição social desfavorável. Elas têm menos saúde mental e se encontram em meio a problemas de depressão e ansiedade. As mudanças climáticas e ambientais são também relevantes nessa análise. Nós estamos vivendo em uma época, que tem sido chamada de antropoceno [conceito pelo qual têm sido estudados os impactos provocados pelo homem ao ambiente], em que as mudanças climáticas são irreversíveis, não se sabe o rumo efetivo que isso ganha a cada grau de aquecimento dos oceanos e da atmosfera, e isso acarreta catástrofes que implicam perdas e sofrimento enorme. Isso acarreta às comunidades mais pobres um dano gigantesco, relacionado com menor produtividade, maior dificuldade de emprego, imigração e, portanto, experiências nocivas do ponto de vista da qualidade de vida. Depressão está associada a tudo isso.
 

Os crimes ambientais, a exemplo do que aconteceu em Mariana (MG), poderiam ser associados a quadros depressivos e, consequentemente, aos índices de suicídio?

Nós ainda não temos estudos sobre o tema em Mariana, mas exemplos de catástrofes ambientais já mostram relações com os problemas de saúde mental e, consequentemente, as situações de sofrimento extremo e o risco de suicídio. Evidentemente, o sofrimento das populações e cidades na margem do Rio Doce é público e notório, representando um drama ecológico intimamente ligado à atividade de mineração. Atualmente, no Hemisfério Norte, a quantidade de incêndios florestais é gigantesca, e esses fenômenos danificam elementos vulneráveis nas comunidades, transformam a paisagem, a experiência de vida. Para entender essas relações, é preciso aprofundar a investigação da ecologia psíquica para além da noção de solastalgia, que tem sido proposta como sentimento de perda, de sofrimento em função dessas transformações ambientais, o que circunscreve as pessoas às paisagens – lembrando ainda que nossa paisagem urbana é extremamente agressiva, sobrecarregada de signos, imagens antropomórficas, poluída visualmente. Existe, ainda – não podemos esquecer –, outro tipo de meio ambiente, o dito cyberespaço, que interage de modo desconhecido e inesperado com quaisquer outras dimensões ambientais.
 

Por que o suicídio é maior na população jovem geral?

O SIM/DATASUS [Sistema de Informações sobre Mortalidade criado pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde] vem mostrando nos últimos anos uma interiorização da violência, ou seja, um crescimento de morte e agravos à saúde por causa violenta, como homicídio, suicídio e acidente automobilístico, em cidades menores. Houve uma interiorização da violência, e uma disseminação disso atinge as camadas jovens de uma maneira muito intensa. Além disso, é preciso refletir sobre questões comuns que afetam especialmente os jovens, que estão associadas a tentativas de suicídio, como os estados depressivos, as distimias, a abertura de quadros de transtorno bipolar e o consumo abusivo de álcool e outras drogas. Além disso, já é hora de prestarmos mais atenção nas profundas transformações que a globalização acarretou e que o mundo digital tem trazido à vida dos jovens.

O suicídio recrudesce na população indígena, sobretudo entre jovens indígenas do sexo masculino. O que tem levado ao crescimento das taxas de suicídio neste grupo?

Eu tenho tentado colaborar com essa reflexão sobre o suicídio indígena, que evidentemente não pode ser pensado a partir do homem branco, dos critérios da ciência ocidental. As comunidades indígenas podem servir como exemplo ou até mesmo como um paradigma para pensarmos os aspectos da relação entre saúde mental e meio ambiente. A gente tem encontrado um aumento vertiginoso, bastante elevado de situações de autoextermínio, de violência contra si próprio – ou seja, de tentativas de suicídio de toda ordem – entre jovens de comunidades indígenas. Encontramos isso nas comunidades Guarani-Kaiowá [localizadas em Mato Grosso do Sul], como também nas comunidades indígenas da Amazônia. É um assunto que envolve aspectos culturais, étnicos, ou seja, pertinentes à cada etnia, à cosmologia e, também, à cosmopolítica. Ou seja, diz respeito à maneira como se articulam a experiência de vida, os rumos da etnia e a sua inserção nesse planeta que se tornou mais hostil, mais limitado e marcado por uma negociação entre humanos, animais e não humanos.
 

O Estado tem sido cúmplice desse cenário de morte voluntária dos indígenas?

Trata-se de uma responsabilidade governamental. Os últimos governos fracassaram e as comunidades indígenas têm inúmeras críticas. O Estado é um mediador e não simplesmente algo ou alguém que zela pela Constituição da sociedade – aliás, falta demarcar terras indígenas. De acordo com a Constituição brasileira, o Estado tem um papel maior e mais amplo em relação à saúde, à educação e à cultura. As primeiras nações, ou seja, essas comunidades que lembramos, compostas por mais de 200 etnias, com seus diversos idiomas e suas diferentes culturas, têm absolutamente um valor inestimável e papel importantíssimo na preservação da floresta, do clima, do meio ambiente, da paisagem e das experiências de vida. O recrudescimento do antropoceno implica maior sofrimento dessas comunidades, ao mesmo tempo em que são elas que conseguem apresentar respostas e soluções aos conflitos desta vida antropocênica. Acredito que o suicídio indígena pode mudar os nossos paradigmas, a nossa concepção sobre o meio ambiente, em relação à saúde mental, à depressão, à ansiedade, ao bullying, à violência étnica e a de gênero também.
 

Como na população geral, os casos de suicídio são maiores entre indígenas do sexo masculino. Os motivos de acometer mais indígenas homens são os mesmo que na população geral?

Precisamos abrir mão, pelo menos um pouco, das ‘caixinhas do enquadramento’ epidemiológico, que pensam separadamente homem e mulher e faixas de idade, quando se quer pensar sociedades tão complexas, tão sofisticadas, como inclusive as várias etnias indígenas. Isso apenas reforça as taxas de suicídio de aproximadamente 30 a 40% a cada cem mil encontradas entre jovens indígenas de Mato Grosso, Pará ou Amazonas. É evidente que os jovens indígenas estão extremamente suscetíveis aos problemas da atualidade: comem açúcar e frango congelado, recebem dinheiro da mineração ou de hidrelétricas, têm seus territórios invadidos por todo tipo de estrangeiro, não encontram soluções imediatas para os seus problemas. A relação do suicídio com a questão da terra parece ser fundamental nas etnias do planalto central, especialmente do grupo Gê e guaranis kaiowá, nhendewá e mbiá, que sofrem genocídio e discriminação desde o século 19. A escola indígena e o bullying cultural são igualmente aspectos de concernimento. Eles estão diante dos desafios de uma modernidade consumista e opressora. O que não significa que suas culturas não resistam e inventem novas articulações. Pelo contrário, quando os antropólogos falam em perspectivismo ameríndio, estão traduzindo uma experiência riquíssima que desafia nossas noções de conhecimento, religião e política.
 

Há algum outro tema relacionado à prevenção do suicídio que não tenhamos tratado?

Nós tratamos dos aspectos principais, como o fato de que a prevenção do suicídio não deve ser pensada exclusivamente a partir dos transtornos mentais conhecidos, mas também ligada ao modo de vida contemporâneo. O que significa, com certeza, necessidade de prestar atenção nas depressões e nas formas de ansiedade que marcam a vida contemporânea. Por isso, não caberia limitar-se a tratá-las com psicoterapia, com medicamentos, com hospitais de urgência – que são indiscutivelmente importantes para lidar com situações de risco de suicídio. Precisamos, sobretudo, criar novos modos de vida que impliquem uma saúde mental distinta da que se tem alcançado.

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