100 anos depois: Paulo Freire hoje

Na comemoração do centenário do patrono da educação brasileira, professorese pesquisadores defendem e praticam a atualidade da pedagogia freireana
Cátia Guimarães - EPSJV/Fiocruz | 13/09/2021 18h00 - Atualizado em 16/09/2021 16h04

Acervo NEP-UEPADe Angicos a São Paulo, passando pela África: todas essas experiências ajudaram a formar a imagem que se tem de Paulo Freire no Brasil e no mundo. Mas usar os feitos na alfabetização de adultos como guia para contar a história desse educador pernambucano tem seus riscos. E o principal deles é limitar a um segmento formativo uma obra que tem ajudado gerações inteiras a pensar a educação como um todo. A crítica à educação bancária, que pensa no educando como um ‘pote vazio’, no qual se depositam conhecimentos; a defesa da escuta e do diálogo; e a compreensão de que é preciso partir da realidade concreta dos estudantes para ensinar para além dela são algumas das concepções freireanas que têm sido ‘aplicadas’ nas mais variadas práticas educativas. “Paulo Freire nos oferece uma possibilidade de pensar toda a educação e não somente o processo de alfabetização”, garante Anakeila Stauffer, professora-pesquisadora e ex-diretora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), que aconselha: “Ele é um daqueles educadores que precisam estar em nossa mesa de cabeceira”.

Na sala de aula

Sua relação com a Educação de Jovens e Adultos (EJA), no entanto, continua forte. Foi na experiência como professora da EJA na região metropolitana de Curitiba (PR), que Eliana Bastos resolveu que precisava “discutir na academia o que nós podemos fazer numa perspectiva freireana como professores contemporâneos”. Observando a dificuldade dos estudantes, que não conseguiam ler o letreiro do ônibus nem encontrar o nome na lista de presença, ela decidiu o tema do seu mestrado no Instituto Federal do Paraná (IFPR), voltado para a educação profissional – no caso, a formação de professores. O resultado foi a construção de um manual para a prática docente na Educação de Jovens e Adultos ancorado na pedagogia de Paulo Freire. “É um manual com uma prática humanística”, define. Ela exemplifica: “Para além da prática de ensinar conteúdos, como uma equação do segundo grau, por exemplo, muitas vezes eu preciso ensinar a interpretação do enunciado da questão. Preciso sentar com esse educando e entender essa especificidade. Como professores humanísticos, temos que pensar em estratégias que nos permitam lidar com as condições concretas que esses educandos apresentam”.

A relação entre a formação dos adultos e a educação das crianças é um dos aspectos que Ivanilde Apoluceno, do Núcleo de Educação Popular Paulo Freire da Universidade Estadual do Pará (Uepa), acha importante ressaltar quando se discutem os ‘usos’ da pedagogia de Paulo Freire. “Um adulto analfabeto não tem a compreensão do que são a escola e o processo de escolarização”, diz, contando que, numa pesquisa que realizou, constatou como as mães sentiam vergonha de não saber ler e, portanto, não conseguir orientar os filhos nas tarefas escolares.

Uma das experiências que Apoluceno desenvolve usando os “princípios metodológicos e estratégias” da pedagogia de Paulo Freire é no ensino de filosofia para crianças. Ela conta que, além do foco no diálogo, ali estão presentes os temas geradores, extraídos a partir da realidade dos estudantes, e, de modo geral, a valorização da experiência de vida deles. “Com as crianças, você tem outras coisas também a considerar, como o que é ser criança, porque a infância tem outros elementos”, relata, e sintetiza: “Por isso que eu digo que não é um método engessado, são princípios teóricos e metodológicos pelos quais a gente trabalha com crianças e adultos, levando em consideração a faixa etária e sua experiencia de vida”.

Acervo NEP-UEPAMais recentemente, o grupo tem trabalhado também com crianças e jovens autistas. Embora a iniciativa tenha pouco tempo e tenha sido interrompida pela pandemia, Apoluceno já se permite um balanço positivo. “Nós observamos as crianças na sala de aula com o professor durante dois meses. Ficamos só observando tudo que a criança expressava, a que ela reagia, o que gostava, pelo que se interessava, o que não gostava... A gente registrou tudo, fez um perfil do aluno e, a partir daí, fez um plano de trabalho não só individual como coletivo também. Isso é um ponto fundamental porque Paulo Freire trabalha com educação como comunicação, então a aprendizagem precisa ser interação com o outro. Foi fantástico! As crianças tinham atividades individuais em que não se comunicavam e hoje elas estão se comunicando, criança autista que não falava hoje está falando”, conta.

Pedagoga com experiência com a educação de crianças com deficiência, Stauffer também destaca como, mesmo nesse campo tão específico, o pensamento freireano pode ter contribuições importantes. “Tornar a pessoa com deficiência um ‘objeto da prática educativa’ é o maior desserviço que a escola e a sociedade podem fazer. Respeitar o direito de essas pessoas se dizerem para além da deficiência, compreendê-las como sujeitos históricos, seres de cultura, é fundamental para podermos atuar na educação junto a elas”, diz.

Nos movimentos sociais

Também na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o grupo de pesquisa em educação, etnia e economia solidária vem desenvolvendo iniciativas diversas inspiradas em Paulo Freire. O ponto de partida, conta o professor Paulo Palhano, foi reconhecer o território e os segmentos suscetíveis a ações educacionais que existiam por lá. Com isso, eles vêm desenvolvendo ações voltadas para a própria comunidade universitária, para educadores da rede pública, movimentos sociais camponeses e uma comunidade indígena. Os resultados são os mais variados: foi criado um prêmio para professores da rede, uma rádio web universitária, um periódico científico para artigos com uma perspectiva freireana, uma biblioteca indígena potiguara com mais de 300 títulos dentro da biblioteca municipal e um processo continuado de interação de conhecimentos com a comunidade indígena.

Segundo Palhano, essa troca de saberes tem acontecido tanto pelo incentivo à participação dos indígenas nos eventos científicos promovidos na universidade – todos ‘abertos’ por caciques ou pajés – quanto pela formação universitária de jovens indígenas que retornam para suas comunidades, além do atendimento a demandas específicas. O exemplo mais recente é a realização de um curso de língua e cultura tupi, que será desenvolvido pela universidade a pedido dos indígenas. “Os saberes se encontram”, diz Palhano.

Como é que o povo pode andar com os próprios pés se não se reconhece a sua cultura, os seus saberes, a sua palavra?
José Willington Germano

Na nova velha teoria

Esses são apenas alguns exemplos de experiências que multiplicam e atualizam a obra de Paulo Freire. Mas cada vez mais pesquisadores identificam também a contribuição do educador pernambucano para um debate muito atual, que vai além da pedagogia: a decolonialidade. Trata-se de reconhecer como uma forma de opressão a imposição de modelos, padrões e referências de conhecimento construídos no centro do capitalismo – principalmente na Europa – como explicativos de todas as sociedades. Essa crítica, que ganha nomes e formas diversas, costuma ser associada a autores clássicos como Frantz Fanon e contemporâneos, como Boaventura de Sousa Santos, entre vários outros. Mas, sem nenhuma pretensão de pioneirismo, há quem defenda que uma semente desse olhar se encontrava também no pensamento do educador pernambucano. “Paulo Freire tinha essa dimensão pós-colonialista, que vai se firmando ao longo do tempo, na medida em que isso se encerra na própria África, América Latina etc., e ele vai bebendo em outras fontes. Quando ele diz que se identifica com os ‘esfarrapados do mundo’, será que aí não está Fanon, com os seus ‘condenados da Terra’?”, indaga José Willington Germano, professor Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que completa: “Como é que o povo pode andar com os próprios pés se não se reconhece a sua cultura, os seus saberes, a sua palavra?”.

Ivanilde Apoluceno concorda. “Ele não fala de decolonialidade, mas traz a discussão do colonialismo e da necessidade de descolonizar as mentes e as práticas sociais, denunciando as opressões dos grupos culturais e sociais”, contextualiza, explicando que, embora não haja mais o colonialismo que ainda era relativamente forte quando Paulo Freire começa a despontar no Brasil, permanece uma espécie de “mentalidade colonial”. “Ele diz da necessidade de valorizar e reconhecer os saberes dos sujeitos de culturas historicamente negadas, é disso que hoje a decolonialidade trata”, resume.

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Walter Kohan é professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e autor de vários livros que tratam sobre a vida e a obra freireana. Nesta entrevista, produzida para a matéria de capa da Revista Poli e que integra um especial comemorativo do centenário de Paulo Freire, o pesquisador contextualiza as experiências desenvolvidas pelo patrono da educação brasileira. Ele também questiona o uso da expressão “conscientização” associada à sua pedagogia, analisa os programas educacionais atuais à luz dessa concepção e explica por que Freire se tornou alvo de perseguição de grupos políticos no Brasil de hoje.

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