Guia de verão

Verão, férias escolares, vontade de estar na rua e encontrar os amigos. No entanto, a pandemia continua e é preciso tomar alguns cuidados quando sair, e mesmo antes de combinar saídas. Nessa matéria, em formato de perguntas e respostas, você confere dicas de especialistas para aproveitar o calor da estação e não ser roteador de coronavírus
Juliana Passos - EPSJV/Fiocruz | 10/01/2022 10h12 - Atualizado em 12/01/2022 11h59

Sol, calor, praia, parques, reuniőes entre amigos, bar, férias escolares e mais calor. Difícil ficar em casa, quando tudo conspira a favor de estar na rua. O balde de água fria, ou de água quente nesse calor, é uma pandemia que ainda năo acabou, impondo a necessidade do uso de máscaras e de se evitar aglomeraçőes, ainda que a vacinaçăo seja grande aliada, especialmente contra casos graves. Mas nem tudo está perdido. Os especialistas ouvidos por esta reportagem dizem que é possível manter uma vida social ativa, desde que sejam tomados alguns cuidados. E o primeiro deles é prestar a atenção no cenário da doença na sua região, uma condição inicial para planejar saídas.

Nesta matéria preparamos algumas dicas em formato de perguntas e respostas para você aproveitar o verăo, sem desistir de se precaver contra a infecçăo e transmissăo do novo coronavírus. Mas antes de sair por aí, é importante prestar atençăo na evoluçăo dos casos, algo que pode ser um pouco confuso em meio a tantas informaçőes. Por isso, também apresentamos os dados aos quais você deve ter atençăo para saber qual a situaçăo de risco na sua regiăo. O problema, como você verá, é que também há gargalos de informaçőes.

Como saber se minha cidade está com baixa taxa de transmissão?
A recomendaçăo é que se preste atençăo na evoluçăo do número de casos e na taxa de ocupaçăo dos leitos de hospital, diz a pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Bianca Borges. “Nesse caso, o importante é perceber se esse tipo de notificaçăo está crescendo ou diminuindo. O número absoluto năo é tăo significativo”, explica. Ela aponta o dado das hospitalizaçőes como o mais confiável. “Esse dado é bem preenchido e funciona como um bom indicador sentinela, tanto que ele é monitorado assim desde o início da pandemia”, diz. A informaçăo sobre a quantidade de hospitalizaçőes é o principal indicador utilizado para a classificaçăo das bandeiras de risco, mas estados e municípios adotam classificaçőes um pouco diferentes, explica Borges.

Em julho de 2020, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) elaborou uma recomendaçăo de indicadores para os gestores públicos. Nessa proposta, a classificaçăo tem cinco níveis de risco: muito baixo (verde), baixo (amarelo), moderado (laranja), alto (vermelho) e muito alto (roxo). O índice é construído a partir de pontuaçăo de indicadores de capacidade de atendimento (número de leitos ocupados e previsăo de esgotamento de leitos de UTI – Unidade de Terapia Intensiva) e epidemiológicos (número de óbitos, número de casos de síndrome respiratório aguda grave - SRAG - e taxa de casos positivos para Covid-19). Para todas as classificaçőes o Conass recomenda os cuidados de distanciamento físico, com reforço a partir da classificaçăo amarela – em que eventos que gerem aglomeraçăo devem ser evitados –, e ampliaçăo das medidas de distanciamento na classificaçăo laranja – com a proibiçăo de eventos que gerem aglomeraçăo. Na classificaçăo vermelha, apenas serviços essenciais devem funcionar. Mesmo com as orientaçőes do Conass, estados e municípios puderam adotar parâmetros diferentes. A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, adota uma classificaçăo em quatro níveis (baixo, moderado, alto e muito alto) e considera apenas taxa de ocupaçăo de hospitais e número de óbitos.

A pesquisadora da EPSJV/Fiocruz indica as plataformas Monitora Covid-19 da Fiocruz e do Ministério da Saúde para o acompanhamento da evoluçăo da doença e comenta que os principais dados chegam das redes estaduais. O MS disponibilizou recentemente uma plataforma para consulta por município, mas para a sanitarista, só aqueles de maior porte văo ter a capacidade de coletar e disponibilizar dados de qualidade e atualizados. Esse é o caso da cidade do Rio de Janeiro, que oferece um detalhamento até por bairro, subsídio importante para pautar as demandas locais por acesso à saúde. Mas fique atento: Borges explica que bairros com mais notificaçăo de casos năo necessariamente estăo em maior risco, ou seja, essa informaçăo pode significar apenas que neles estăo sendo realizados mais testes.

Mas eu não preciso saber sobre os casos brandos?
Sim, mas mapear os casos brandos é um desafio por vários motivos. O primeiro é consequência de uma boa causa: a efetividade das vacinas fez com que as pessoas com casos leves procurassem menos as unidades de saúde. Outra questăo apontada pelo coordenador do monitor InfoGripe e pesquisador da Fiocruz, Marcelo Gomes, é a demora no processamento dos dados diante da quantidade enorme de notificaçőes, principalmente nos estados mais populosos, como Săo Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma boa notícia, de acordo com o coordenador do InfoGripe, foi o aumento da quantidade de testes antígeno, que săo muito mais precisos do que os sorológicos que foram muito utilizados no início da pandemia, e cujo resultado sai muito mais rápido do que o PCR, o que ajuda a diminuir a defasagem entre o informe do caso e a sua tabulaçăo.

Um indicador auxiliar é o de síndrome gripal. Borges explica que esse dado era monitorado apenas em alguns espaços, mas com a chegada da Covid-19, passou a ser uma informaçăo que todas as instituiçőes de saúde, públicas ou privadas, precisam comunicar. “Quando os índices estăo baixos, essa comunicaçăo é um pouco deixada de lado, mas ela é importante. Foi esse indicador que permitiu informar a existęncia de uma nova síndrome de Influenza”, diz. Apesar de funcionar como um alerta epidemiológico para equipes de saúde, o monitoramento de casos brandos no Brasil, funciona bem apenas quando há um grande número de casos. “Aí ele deixa de ser um indicador sentinela”, explica Borges.

No boletim epidemiológico divulgado dia 13 de dezembro pelo Observatório Covid-19 e InfoGripe, ambos da Fiocruz, os pesquisadores exemplificam a dificuldade na obtençăo de dados com o registro de uma alta abrupta dos casos no Espírito Santo e Acre. Em um momento de baixa dos casos, o entendimento é de que se trate de defasagem na notificaçăo dos dados. O boletim se refere ŕs semanas epidemiológicas (SE) 47 e 48, que correspondem ao período de 21 de novembro a 4 de dezembro, e informam que o problema vinha sendo identificado há dez semanas. “Os sistemas de informaçăo vęm apresentando problemas na coleta, digitalizaçăo e disponibilizaçăo de registros de casos e de óbitos. As falhas se refletem na divulgaçăo de registros, ora muito abaixo do esperado, ora de aumento abrupto no número divulgado de casos de Covid-19, como observado desde a SE 37. A irregularidade do fluxo de notificaçăo de casos e óbitos prejudica o acompanhamento da pandemia e a avaliaçăo dos possíveis impactos de medidas de flexibilizaçăo, que vęm sendo adotadas em alguns estados e municípios”, avaliam. E concluem: “Para assegurar o transcurso do verăo em condiçőes seguras, é essencial o aperfeiçoamento de sistemas de informaçăo,
bem como a análise e divulgaçăo oportuna de tendęncias e condiçőes de risco”.

E o dado sobre a cobertura vacinal, é importante? Posso confiar no percentual de vacinados divulgado pela prefeitura?
No final de 2021, prefeituras de grandes cidades, como Săo Paulo e Rio de Janeiro, comemoraram as altas taxas de vacinaçăo. Ainda que essa seja uma notícia bastante positiva, é preciso ter cautela. “Ele é um indicador importante em termos de risco de novos casos graves, mas para transmissăo em si năo é”, diz Marcelo Gomes, explicando que o fato de as crianças năo estarem vacinadas é um dos nós da qualidade desse dado. “Isso é que faz com que o percentual de vacinados da populaçăo adulta simplesmente năo seja um bom indicador de proteçăo coletiva”, comenta.

Outra questăo é saber onde mora parte das pessoas que se vacinaram nessas cidades com altos índices de imunizaçăo. Isso porque os dados individuais cadastrados no SUS estăo bastante desatualizados em relaçăo ao município de residęncia e, além disso, há muita mobilidade entre as regiőes. “É muito comum os trabalhadores se vacinarem no município de trabalho, năo no município de residęncia, justamente por conta do horário em que os postos de saúde ficam abertos. Isso acaba inflacionando o total de vacinados no município que recebe esses trabalhadores de cidades vizinhas e diminuindo a quantidade de vacinados nos municípios de residęncia”, explica Gomes. Bianca Borges lembra que é preciso considerar ainda a quantidade de visitantes que as cidades turísticas, como o Rio de Janeiro, recebem.

Existem testes rápidos confiáveis? Em quais situações devo optar por um PCR?
Bianca Borges explica que o teste PCR, o mais detalhado e demorado, só é efetivo a partir do terceiro dia da apresentaçăo de sintomas. No entanto, como sabemos, os assintomáticos tęm um grande papel na disseminaçăo da Covid-19. A sanitarista confirma a existência de testes rápidos confiáveis, em especial aqueles que medem antígenos, enquanto os sorológicos săo pouco efetivos. Ela pondera que nenhum teste confere certeza de 100%, ainda que um bom teste rápido de antígeno consiga chegar a 95% de precisăo. “Esta é uma boa medida para amparar a decisăo das pessoas mais expostas em realizar alguns encontros”, diz. A cartilha elaborada pela Fiocruz e lançada no final de 2021 recomenda a realizaçăo de testes de dois a três dias antes para quem for viajar.

Com que máscara eu vou?
Infelizmente năo existe número ‘cabalístico’ para medir aglomeraçőes. Essa é uma questăo que depende de fatores como distanciamento entre as pessoas, ventilaçăo do ambiente e uso de máscaras, ou seja, precisa ser avaliada caso a caso. Tendo em mente que năo existe risco zero, quanto melhor a qualidade da sua máscara, maior o distanciamento e mais ventilado for o ambiente, menor o risco. As máscaras PFF2 ou equivalentes săo as mais seguras. Considerando, no entanto, que elas podem ser mais incômodas no calor, o pesquisador do Observatório do Clima e Saúde da Fiocruz Diego Xavier diz que é possível pensar em máscaras mais leves (preferencialmente cirúrgicas de duas camadas) para espaços abertos e usar as de maior proteçăo (N95, PFF2 e KN95) em locais com mais pessoas e menos ventilaçăo, como cinemas, shoppings e supermercados. “A situaçăo de pior risco está nos locais sem circulaçăo de ar, como em ambientes climatizados por ar-condicionado, com muita gente e sem uso de máscara”, diz Xavier.

É seguro sair se for ao ar livre?
Se para os adultos já é difícil o cumprimento dos protocolos, sair com crianças para a praça ou parque pode ser uma tarefa ainda mais árdua. Para esses casos, a recomendaçăo é manter encontros com a mesma rede de famílias. “O ideal é que se tenha até tręs núcleos de familiares, sendo cada núcleo composto por pessoas que vivem numa mesma casa”, informa Marcelo Gomes. Ao fazer essa recomendaçăo, a preocupaçăo dos pesquisadores é dupla: tanto evitar infecçőes quanto facilitar o rastreamento (e consequente isolamento) posterior, caso a transmissăo acabe acontecendo. As idas à praia foram apontadas pelos especialistas como as de menor risco, por contarem com brisa do mar e a presença do sol, que contribui para esterilizaçăo do ambiente. Mas por ser um ambiente em que o uso de máscara é pouco efetivo por conta do suor e umidade, é importante é garantir o distanciamento de dois metros entre os núcleos familiares que năo estăo no arranjo feito por você.

Bares e restaurantes ao ar livre também podem ser uma boa opçăo de diversăo. Uma vez que năo será possível usar máscaras para comer e beber, a recomendaçăo é que esses encontros se deem dentro da combinaçăo dos núcleos familiares ou com pessoas que vocę saiba que estăo tomando o máximo possível de medidas de proteçăo. A distância de dois metros entre as mesas também năo pode ser esquecida. Agora, se esses espaços, mesmo ao ar livre, năo puderem oferecer uma distância de dois metros entre os grupos familiares, a recomendaçăo de Diego Xavier é direta: “Năo vá”.

Posso realizar reuniões e encontros em casa?
O pesquisador da Fiocruz Eduardo Volotăo, atualmente assessor do Conselho Diretor do Instituto de Investigaciones Biológicas Clemente Estable (IIBCE) para o tema Covid-19, em Montevidéu, no Uruguai, reforça que as trocas de ar săo fundamentais para diminuir o risco de exposiçăo. Por isso, se for se reunir em casa, manter portas, janelas abertas e usar ventiladores săo medidas importantes para manter uma constante renovaçăo do ar, ainda que o calor dessa época do ano possa tornar essa medida um pouco incômoda. Além de evitar grandes grupos, o ideal é confraternizar com quem está adotando as medidas de proteçăo. “Há um problema da falsa sensaçăo de segurança com pessoas conhecidas e já observamos que as festas familiares podem ser grandes vetores do vírus”, alerta o pesquisador.

Qual o risco de ir ao cinema?
Ainda que a recomendaçăo seja dar preferência a espaços ao ar livre, curtir um filme pode ser uma opçăo de lazer mesmo sendo um espaço fechado e mal ventilado, como săo os ambientes com ar-condicionado em geral. Os requisitos nesse caso, de acordo com Gomes, é que haja limitaçăo da venda de ingressos e se utilize uma máscara com alta capacidade de filtraçăo, do tipo PFF2 ou equivalentes. A cobrança do passaporte vacinal por parte das salas também tem um papel importante. “Por mais que o principal objetivo da vacina seja evitar casos graves, ela também tem um impacto, embora menor, na diminuiçăo do risco de transmissăo”, diz.

Preciso evitar o abraço?
Depende. Marcelo Gomes diz que o ideal é priorizar os cumprimentos com os cotovelos e soquinhos, mas os abraços com máscara oferecem um risco médio. Já o cumprimento com o beijo no rosto traz um risco alto, porque aproxima muito a área de respiraçăo entre as pessoas. Antes de ser acusado de querer abolir o beijo na boca em pleno verăo, Marcelo Gomes pondera. “Năo é que eu năo possa fazer, a questăo é com quem, em que ambiente, em que contexto e com que frequência. Năo preciso abolir completamente, mas devo mudar meu comportamento em relaçăo a todo mundo”. E reforça: “Se eu estou com grandes grupos, é preferível evitar o beijo e o abraço”, completa.

Meus deslocamentos são todos em transporte coletivo. Como posso diminuir os riscos?
Como lugar fechado e comumente lotado, o transporte público é um grande gargalo de transmissăo. Mas se for possível utilizá-lo fora dos horários de pico, em que se possa manter distanciamento, haja ventilaçăo e com uso de máscaras de maior proteçăo (PFF2, N95 e similares), o coordenador do InfoGripe avalia que o risco de infecçăo e, consequentemente, de transmissăo, é pequeno.

Que cuidados devo tomar nas viagens de longa distância?
Os aviőes possuem um sistema de filtragem eficiente que permite que viagens curtas sejam feitas em maior segurança, no entanto, há o tempo de espera nos saguőes. Os especialistas ouvidos pela reportagem também ressaltam que as companhias aéreas precisam fiscalizar o cumprimento dos protocolos. Já as viagens de ônibus săo mais arriscadas, devido ao sistema de ar-condicionado, e diferente dos ônibus urbanos, na maioria das vezes năo apresentam a opçăo das janelas abertas. Para aumentar os cuidados, algumas possibilidades săo o isolamento inicial e a realizaçăo de testes de antígeno, que năo necessitam de apresentaçăo de sintomas para serem feitos. Marcelo Gomes recomenda que, se năo for feito o isolamento inicial, a própria família redobre os cuidados e fique em isolamento nos 14 dias seguintes à viagem. Eduardo Volotăo comenta que é difícil falar em tempo de viagem curta ou longa, e entende que a capacidade de transmissăo dentro do ônibus de viagem está mais condicionada à distância entre as cadeiras de alguém potencialmente contaminado e o tipo de máscara utilizado. Em outras palavras, viajar nesse momento é uma atividade de alto risco, que precisa ser feita com moderaçăo.

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