Sol, calor, praia, parques, reuni?es entre amigos, bar, férias escolares e mais calor. Difícil ficar em casa, quando tudo conspira a favor de estar na rua. O balde de água fria, ou de água quente nesse calor, é uma pandemia que ainda n?o acabou, impondo a necessidade do uso de máscaras e de se evitar aglomeraç?es, ainda que a vacinaç?o seja grande aliada, especialmente contra casos graves. Mas nem tudo está perdido. Os especialistas ouvidos por esta reportagem dizem que é possível manter uma vida social ativa, desde que sejam tomados alguns cuidados. E o primeiro deles é prestar a atenção no cenário da doença na sua região, uma condição inicial para planejar saídas.
Nesta matéria preparamos algumas dicas em formato de perguntas e respostas para você aproveitar o ver?o, sem desistir de se precaver contra a infecç?o e transmiss?o do novo coronavírus. Mas antes de sair por aí, é importante prestar atenç?o na evoluç?o dos casos, algo que pode ser um pouco confuso em meio a tantas informaç?es. Por isso, também apresentamos os dados aos quais você deve ter atenç?o para saber qual a situaç?o de risco na sua regi?o. O problema, como você verá, é que também há gargalos de informaç?es.
Como saber se minha cidade está com baixa taxa de transmissão?
A recomendaç?o é que se preste atenç?o na evoluç?o do número de casos e na taxa de ocupaç?o dos leitos de hospital, diz a pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Bianca Borges. “Nesse caso, o importante é perceber se esse tipo de notificaç?o está crescendo ou diminuindo. O número absoluto n?o é t?o significativo”, explica. Ela aponta o dado das hospitalizaç?es como o mais confiável. “Esse dado é bem preenchido e funciona como um bom indicador sentinela, tanto que ele é monitorado assim desde o início da pandemia”, diz. A informaç?o sobre a quantidade de hospitalizaç?es é o principal indicador utilizado para a classificaç?o das bandeiras de risco, mas estados e municípios adotam classificaç?es um pouco diferentes, explica Borges.
Em julho de 2020, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) elaborou uma recomendaç?o de indicadores para os gestores públicos. Nessa proposta, a classificaç?o tem cinco níveis de risco: muito baixo (verde), baixo (amarelo), moderado (laranja), alto (vermelho) e muito alto (roxo). O índice é construído a partir de pontuaç?o de indicadores de capacidade de atendimento (número de leitos ocupados e previs?o de esgotamento de leitos de UTI – Unidade de Terapia Intensiva) e epidemiológicos (número de óbitos, número de casos de síndrome respiratório aguda grave - SRAG - e taxa de casos positivos para Covid-19). Para todas as classificaç?es o Conass recomenda os cuidados de distanciamento físico, com reforço a partir da classificaç?o amarela – em que eventos que gerem aglomeraç?o devem ser evitados –, e ampliaç?o das medidas de distanciamento na classificaç?o laranja – com a proibiç?o de eventos que gerem aglomeraç?o. Na classificaç?o vermelha, apenas serviços essenciais devem funcionar. Mesmo com as orientaç?es do Conass, estados e municípios puderam adotar parâmetros diferentes. A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, adota uma classificaç?o em quatro níveis (baixo, moderado, alto e muito alto) e considera apenas taxa de ocupaç?o de hospitais e número de óbitos.
A pesquisadora da EPSJV/Fiocruz indica as plataformas Monitora Covid-19 da Fiocruz e do Ministério da Saúde para o acompanhamento da evoluç?o da doença e comenta que os principais dados chegam das redes estaduais. O MS disponibilizou recentemente uma plataforma para consulta por município, mas para a sanitarista, só aqueles de maior porte v?o ter a capacidade de coletar e disponibilizar dados de qualidade e atualizados. Esse é o caso da cidade do Rio de Janeiro, que oferece um detalhamento até por bairro, subsídio importante para pautar as demandas locais por acesso à saúde. Mas fique atento: Borges explica que bairros com mais notificaç?o de casos n?o necessariamente est?o em maior risco, ou seja, essa informaç?o pode significar apenas que neles est?o sendo realizados mais testes.
Mas eu não preciso saber sobre os casos brandos?
Sim, mas mapear os casos brandos é um desafio por vários motivos. O primeiro é consequência de uma boa causa: a efetividade das vacinas fez com que as pessoas com casos leves procurassem menos as unidades de saúde. Outra quest?o apontada pelo coordenador do monitor InfoGripe e pesquisador da Fiocruz, Marcelo Gomes, é a demora no processamento dos dados diante da quantidade enorme de notificaç?es, principalmente nos estados mais populosos, como S?o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Uma boa notícia, de acordo com o coordenador do InfoGripe, foi o aumento da quantidade de testes antígeno, que s?o muito mais precisos do que os sorológicos que foram muito utilizados no início da pandemia, e cujo resultado sai muito mais rápido do que o PCR, o que ajuda a diminuir a defasagem entre o informe do caso e a sua tabulaç?o.
Um indicador auxiliar é o de síndrome gripal. Borges explica que esse dado era monitorado apenas em alguns espaços, mas com a chegada da Covid-19, passou a ser uma informaç?o que todas as instituiç?es de saúde, públicas ou privadas, precisam comunicar. “Quando os índices est?o baixos, essa comunicaç?o é um pouco deixada de lado, mas ela é importante. Foi esse indicador que permitiu informar a exist?ncia de uma nova síndrome de Influenza”, diz. Apesar de funcionar como um alerta epidemiológico para equipes de saúde, o monitoramento de casos brandos no Brasil, funciona bem apenas quando há um grande número de casos. “Aí ele deixa de ser um indicador sentinela”, explica Borges.
No boletim epidemiológico divulgado dia 13 de dezembro pelo Observatório Covid-19 e InfoGripe, ambos da Fiocruz, os pesquisadores exemplificam a dificuldade na obtenç?o de dados com o registro de uma alta abrupta dos casos no Espírito Santo e Acre. Em um momento de baixa dos casos, o entendimento é de que se trate de defasagem na notificaç?o dos dados. O boletim se refere ?s semanas epidemiológicas (SE) 47 e 48, que correspondem ao período de 21 de novembro a 4 de dezembro, e informam que o problema vinha sendo identificado há dez semanas. “Os sistemas de informaç?o v?m apresentando problemas na coleta, digitalizaç?o e disponibilizaç?o de registros de casos e de óbitos. As falhas se refletem na divulgaç?o de registros, ora muito abaixo do esperado, ora de aumento abrupto no número divulgado de casos de Covid-19, como observado desde a SE 37. A irregularidade do fluxo de notificaç?o de casos e óbitos prejudica o acompanhamento da pandemia e a avaliaç?o dos possíveis impactos de medidas de flexibilizaç?o, que v?m sendo adotadas em alguns estados e municípios”, avaliam. E concluem: “Para assegurar o transcurso do ver?o em condiç?es seguras, é essencial o aperfeiçoamento de sistemas de informaç?o,
bem como a análise e divulgaç?o oportuna de tend?ncias e condiç?es de risco”.
E o dado sobre a cobertura vacinal, é importante? Posso confiar no percentual de vacinados divulgado pela prefeitura?
No final de 2021, prefeituras de grandes cidades, como S?o Paulo e Rio de Janeiro, comemoraram as altas taxas de vacinaç?o. Ainda que essa seja uma notícia bastante positiva, é preciso ter cautela. “Ele é um indicador importante em termos de risco de novos casos graves, mas para transmiss?o em si n?o é”, diz Marcelo Gomes, explicando que o fato de as crianças n?o estarem vacinadas é um dos nós da qualidade desse dado. “Isso é que faz com que o percentual de vacinados da populaç?o adulta simplesmente n?o seja um bom indicador de proteç?o coletiva”, comenta.
Outra quest?o é saber onde mora parte das pessoas que se vacinaram nessas cidades com altos índices de imunizaç?o. Isso porque os dados individuais cadastrados no SUS est?o bastante desatualizados em relaç?o ao município de resid?ncia e, além disso, há muita mobilidade entre as regi?es. “É muito comum os trabalhadores se vacinarem no município de trabalho, n?o no município de resid?ncia, justamente por conta do horário em que os postos de saúde ficam abertos. Isso acaba inflacionando o total de vacinados no município que recebe esses trabalhadores de cidades vizinhas e diminuindo a quantidade de vacinados nos municípios de resid?ncia”, explica Gomes. Bianca Borges lembra que é preciso considerar ainda a quantidade de visitantes que as cidades turísticas, como o Rio de Janeiro, recebem.
Existem testes rápidos confiáveis? Em quais situações devo optar por um PCR?
Bianca Borges explica que o teste PCR, o mais detalhado e demorado, só é efetivo a partir do terceiro dia da apresentaç?o de sintomas. No entanto, como sabemos, os assintomáticos t?m um grande papel na disseminaç?o da Covid-19. A sanitarista confirma a existência de testes rápidos confiáveis, em especial aqueles que medem antígenos, enquanto os sorológicos s?o pouco efetivos. Ela pondera que nenhum teste confere certeza de 100%, ainda que um bom teste rápido de antígeno consiga chegar a 95% de precis?o. “Esta é uma boa medida para amparar a decis?o das pessoas mais expostas em realizar alguns encontros”, diz. A cartilha elaborada pela Fiocruz e lançada no final de 2021 recomenda a realizaç?o de testes de dois a três dias antes para quem for viajar.
Com que máscara eu vou?
Infelizmente n?o existe número ‘cabalístico’ para medir aglomeraç?es. Essa é uma quest?o que depende de fatores como distanciamento entre as pessoas, ventilaç?o do ambiente e uso de máscaras, ou seja, precisa ser avaliada caso a caso. Tendo em mente que n?o existe risco zero, quanto melhor a qualidade da sua máscara, maior o distanciamento e mais ventilado for o ambiente, menor o risco. As máscaras PFF2 ou equivalentes s?o as mais seguras. Considerando, no entanto, que elas podem ser mais incômodas no calor, o pesquisador do Observatório do Clima e Saúde da Fiocruz Diego Xavier diz que é possível pensar em máscaras mais leves (preferencialmente cirúrgicas de duas camadas) para espaços abertos e usar as de maior proteç?o (N95, PFF2 e KN95) em locais com mais pessoas e menos ventilaç?o, como cinemas, shoppings e supermercados. “A situaç?o de pior risco está nos locais sem circulaç?o de ar, como em ambientes climatizados por ar-condicionado, com muita gente e sem uso de máscara”, diz Xavier.
É seguro sair se for ao ar livre?
Se para os adultos já é difícil o cumprimento dos protocolos, sair com crianças para a praça ou parque pode ser uma tarefa ainda mais árdua. Para esses casos, a recomendaç?o é manter encontros com a mesma rede de famílias. “O ideal é que se tenha até tr?s núcleos de familiares, sendo cada núcleo composto por pessoas que vivem numa mesma casa”, informa Marcelo Gomes. Ao fazer essa recomendaç?o, a preocupaç?o dos pesquisadores é dupla: tanto evitar infecç?es quanto facilitar o rastreamento (e consequente isolamento) posterior, caso a transmiss?o acabe acontecendo. As idas à praia foram apontadas pelos especialistas como as de menor risco, por contarem com brisa do mar e a presença do sol, que contribui para esterilizaç?o do ambiente. Mas por ser um ambiente em que o uso de máscara é pouco efetivo por conta do suor e umidade, é importante é garantir o distanciamento de dois metros entre os núcleos familiares que n?o est?o no arranjo feito por você.
Bares e restaurantes ao ar livre também podem ser uma boa opç?o de divers?o. Uma vez que n?o será possível usar máscaras para comer e beber, a recomendaç?o é que esses encontros se deem dentro da combinaç?o dos núcleos familiares ou com pessoas que voc? saiba que est?o tomando o máximo possível de medidas de proteç?o. A distância de dois metros entre as mesas também n?o pode ser esquecida. Agora, se esses espaços, mesmo ao ar livre, n?o puderem oferecer uma distância de dois metros entre os grupos familiares, a recomendaç?o de Diego Xavier é direta: “N?o vá”.
Posso realizar reuniões e encontros em casa?
O pesquisador da Fiocruz Eduardo Volot?o, atualmente assessor do Conselho Diretor do Instituto de Investigaciones Biológicas Clemente Estable (IIBCE) para o tema Covid-19, em Montevidéu, no Uruguai, reforça que as trocas de ar s?o fundamentais para diminuir o risco de exposiç?o. Por isso, se for se reunir em casa, manter portas, janelas abertas e usar ventiladores s?o medidas importantes para manter uma constante renovaç?o do ar, ainda que o calor dessa época do ano possa tornar essa medida um pouco incômoda. Além de evitar grandes grupos, o ideal é confraternizar com quem está adotando as medidas de proteç?o. “Há um problema da falsa sensaç?o de segurança com pessoas conhecidas e já observamos que as festas familiares podem ser grandes vetores do vírus”, alerta o pesquisador.
Qual o risco de ir ao cinema?
Ainda que a recomendaç?o seja dar preferência a espaços ao ar livre, curtir um filme pode ser uma opç?o de lazer mesmo sendo um espaço fechado e mal ventilado, como s?o os ambientes com ar-condicionado em geral. Os requisitos nesse caso, de acordo com Gomes, é que haja limitaç?o da venda de ingressos e se utilize uma máscara com alta capacidade de filtraç?o, do tipo PFF2 ou equivalentes. A cobrança do passaporte vacinal por parte das salas também tem um papel importante. “Por mais que o principal objetivo da vacina seja evitar casos graves, ela também tem um impacto, embora menor, na diminuiç?o do risco de transmiss?o”, diz.
Preciso evitar o abraço?
Depende. Marcelo Gomes diz que o ideal é priorizar os cumprimentos com os cotovelos e soquinhos, mas os abraços com máscara oferecem um risco médio. Já o cumprimento com o beijo no rosto traz um risco alto, porque aproxima muito a área de respiraç?o entre as pessoas. Antes de ser acusado de querer abolir o beijo na boca em pleno ver?o, Marcelo Gomes pondera. “N?o é que eu n?o possa fazer, a quest?o é com quem, em que ambiente, em que contexto e com que frequência. N?o preciso abolir completamente, mas devo mudar meu comportamento em relaç?o a todo mundo”. E reforça: “Se eu estou com grandes grupos, é preferível evitar o beijo e o abraço”, completa.
Meus deslocamentos são todos em transporte coletivo. Como posso diminuir os riscos?
Como lugar fechado e comumente lotado, o transporte público é um grande gargalo de transmiss?o. Mas se for possível utilizá-lo fora dos horários de pico, em que se possa manter distanciamento, haja ventilaç?o e com uso de máscaras de maior proteç?o (PFF2, N95 e similares), o coordenador do InfoGripe avalia que o risco de infecç?o e, consequentemente, de transmiss?o, é pequeno.
Que cuidados devo tomar nas viagens de longa distância?
Os avi?es possuem um sistema de filtragem eficiente que permite que viagens curtas sejam feitas em maior segurança, no entanto, há o tempo de espera nos sagu?es. Os especialistas ouvidos pela reportagem também ressaltam que as companhias aéreas precisam fiscalizar o cumprimento dos protocolos. Já as viagens de ônibus s?o mais arriscadas, devido ao sistema de ar-condicionado, e diferente dos ônibus urbanos, na maioria das vezes n?o apresentam a opç?o das janelas abertas. Para aumentar os cuidados, algumas possibilidades s?o o isolamento inicial e a realizaç?o de testes de antígeno, que n?o necessitam de apresentaç?o de sintomas para serem feitos. Marcelo Gomes recomenda que, se n?o for feito o isolamento inicial, a própria família redobre os cuidados e fique em isolamento nos 14 dias seguintes à viagem. Eduardo Volot?o comenta que é difícil falar em tempo de viagem curta ou longa, e entende que a capacidade de transmiss?o dentro do ônibus de viagem está mais condicionada à distância entre as cadeiras de alguém potencialmente contaminado e o tipo de máscara utilizado. Em outras palavras, viajar nesse momento é uma atividade de alto risco, que precisa ser feita com moderaç?o.