Fiocruz lança e-book sobre o impacto da pandemia em populações vulnerabilizadas

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Editora Fiocruz lançaram, na última quarta-feira (28), o e-book "Os Impactos Sociais da Covid-19 no Brasil: populações vulnerabilizadas e respostas à pandemia", disponível para download gratuito na plataforma SciELO Livros.

O objetivo é levantar como a pandemia impacta populações com marcadores sociais distintos, como raça, gênero, classe social, sexualidade, territórios e dinâmicas social e econômica. O livro faz parte do segundo volume da série "Informação para Ação na Covid-19" e reúne informações já produzidas pela Fiocruz durante a pandemia.

Segundo Gustavo Corrêa Matta, Sergio Rego, Ester Paiva Souto e Jean Segata, pesquisadores que organizaram a obra, é preciso analisar e propor medidas para as diferentes consequências da propagação do vírus.

"Analisar e intervir sobre os fenômenos decorrentes da circulação e transmissão não se resume a identificar o vírus, compreender sua disseminação e controlá-lo. A colocação em cena da covid-19 em diferentes contextos, espaços e linguagens, especialmente em situações de extrema desigualdade sociossanitária, expõe a multiplicidade e especificidade do fenômeno pandêmico", afirmam na apresentação do e-book.

Acerca disto, o livro, dividido em três partes e 17 capítulos, congrega informações produzidas por uma gama de 68 especialistas de diversas áreas, como antropologia, bioética, história, medicina, comunicação, ciência política, psicologia, relações internacionais, políticas públicas, entre outras.

Carlos Machado de Freitas, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Ensp/Fiocruz) e coordenador do Observatório Covid-19 Fiocruz, explica que na primeira parte do e-book encontram-se as informações produzidas no campo das ciências sociais e humanidades, para oferecer “uma compreensão mais ampla de uma perspectiva social dos vários processos envolvidos na pandemia”.

Na segunda, estão as narrativas sobre as populações vulnerabilizadas e, na terceira, uma parte dedicada à ciência, tecnologia e comunicação, “um tripé absolutamente importante, que inclui o papel das mídias, do desenvolvimento científico, tecnológico, até das formas de comunicação em saúde, em ciência, que se entrecruzam no enfrentamento da pandemia”, explica Freitas.

“A questão central deste livro é trazer os processos de determinação social que tornam alguns grupos mais vulneráveis e contribuem para o impacto maior da pandemia sobre esses grupos, como também de entender e compreender as respostas no bojo desses processos sociais”, afirma.

Na mesma linha, Gustavo Miranda destaca que as informações contidas no livro podem auxiliar na produção de políticas públicas direcionadas às populações vulnerabilizadas. "Essas análises podem ajudar a construir estratégias que minimizem o impacto da covid-19 entre essas populações", pontua o pesquisador.

Ester Paiva Souto afirma que os pesquisadores buscam "oferecer algumas pistas" aos leitores para a compreensão da pandemia para além dos âmbitos puramente científicos.

"Ou seja, os desafios postos em relevo pela pandemia não são apenas sanitários, mas são também socioeconômicos, políticos, culturais, éticos, científicos e são desafios muito agravados pelas diferentes desigualdades que temos no Brasil", diz Souto.

Negros morrem mais do que brancos

Negros – pretos e pardos, de acordo com a denominação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – morrem mais do que brancos em decorrência da covid-19 no Brasil. A assertiva pode ser verificada a partir de dois estudos realizados neste um ano de pandemia, um do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio e outro do Instituto Pólis.

No primeiro, ficou demonstrado que, enquanto 55% de negros morreram por covid, a proporção entre brancos foi de 38%. Na segunda pesquisa, o Instituto Polis mostrou que a taxa de óbitos por covid-19 entre negros na capital paulista foi de 172/100 mil habitantes, enquanto para brancos foi de 115 óbitos/100 mil habitantes.

O acesso desigual à saúde também se reflete na vacinação. Uma reportagem da Agência Pública de março deste ano apontou para a discrepância entre brancos e negros vacinados: 3,2 milhões de pessoas que se declararam brancas receberam a primeira dose do imunizante contra o novo coronavírus. Já entre os negros, esse número cai para 1,7 milhão.

No Brasil, a primeira vítima fatal da doença foi Cleonice Gonçalves, de 63 anos. Ela contraiu o vírus de sua patroa, que voltava da Itália para o Rio de Janeiro. Gonçalves era mulher, negra, hipertensa, diabética e empregada doméstica.

Sua morte ganhou as manchetes de jornais internacionais, como em reportagem da Reuters: "A brazilian woman caught coronavirus on vacation. Her maid is now dead” (“Uma mulher brasileira pegou coronavírus nas férias. A ‘empregada’ dela agora está morta”, em tradução livre).

Edição: Poliana Dallabrida

Por: Ana Paula Evangelista

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Repórter SUS