BNCC e a Reforma do Ensino Médio em pauta

Profissionais da EPSJV discutem impactos e modos de resistência
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 04/05/2018 11h46 - Atualizado em 04/05/2018 11h46

Profissionais da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) se reuniram no dia 2 de maio em uma reunião para discutir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Reforma do Ensino Médio. Segundo a professora-pesquisadora da EPSJV, Luciana Figueiredo, o encontro surgiu da necessidade de trazer essa discussão para o coletivo da Escola. “A ideia é articular um espaço que possamos potencializar o estudo e trocarmos experiências. Além de debruçarmos sobre o documento da Reforma, devemos pensar nos impactos disso. Temos que sair da leitura crítica e partir para a ação”, ressaltou.

A proposta de BNCC, que complementa os conteúdos curriculares estabelecidos pela Reforma do Ensino Médio, foi entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE) no último dia 3 de abril.  “A BNCC é fruto de trabalho coletivo, que vai servir para escolas públicas e particulares como referência obrigatória para elaboração dos currículos escolares. É um compromisso do Estado Brasileiro com a promoção da educação integral e do desenvolvimento pleno dos alunos para construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva”, diz um trecho de apresentação do documento que foi destacado logo no início da reunião. “O texto se apresenta com um discurso muito sedutor, totalmente repetitivo, redundante e com elementos polissêmicos. E talvez isso tenha sido usado como estratégia mesmo”, alertou Luciana.

A professora-pesquisadora Danielle Cerri destacou que, além da presença muito forte do mercado privado da educação na Base, há questões muito sérias na oficialização da ausência de disciplinas – pela proposta, as únicas disciplinas obrigatórias são português e matemática. “A Base, quando trabalha a questão de interdisciplinaridade, não deixa nada claro como isso vai acontecer. Ela coloca as competências de maneira muito difusa, como se o professor de biologia pudesse falar sobre cinética ou um professor de química pudesse falar sobre desenvolvimento ambiental”, exemplificou, questionando: “Não existe um recorte disciplinar bem traçado, existem itinerários que não sabemos como serão feitos também. Se o professor de história pode dar aula de sociologia para que contratar um professor só para sociologia?”.

O professor-pesquisador Felipe Granato concorda que a Base permite que a escola contrate o mínimo de professores possível, no entanto também viu alguns méritos no currículo específico da matemática: “A matemática que é colocada na Base é uma matemática desconectada de tudo. Mas o currículo que está aparecendo lá não é bem assim, está contraditório. Eles colocam a matemática menos conteudista, interceptando com outras áreas. Não está destrinchado, mas eles parecem tentar fazer uma matemática mais humanizada”.

O professor-pesquisador André Dantas ressaltou que a Reforma em geral, completada agora pela BNCC, dá passos significativos para trás, no sentido de retomar uma divisão clara entre os que serão formados para dirigir – já que as escolas privadas de elite não deixarão de oferecer os conteúdos mais amplos – e os que serão formados simplesmente para ingressar no mercado de trabalho, privados de conhecimentos importantes. “É claro que é um retrocesso. Parece que o que caracteriza esse documento é precisamente um caráter absolutamente genérico, porque ele não aponta com clareza e nem consistência o conteúdo. É uma grande casca vazia, que permite que caibam ali os pacotes prontos de formação que se compram no mercado”.

Ele defendeu a necessidade de se aproveitar o espaço aberto de discussão com toda a EPSJV para dar “um pontapé” inicial e encontrar formas de resistência: “A disputa está nas formas como a gente pode e deve resistir a isso”.

Como encaminhamentos do encontro, ficou agendada para dia 16 de maio uma próxima reunião, onde será criado um grupo de trabalho para produzir uma manifesto geral. A partir disso, será feito um convite para que instituições formadoras do entorno da Fiocruz e outras parceiras, como os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), se unam em uma rede de resistência. Entre os resultados mais imediatos desse movimento, espera-se a organização de um Seminário sobre o tema, a ser realizado ainda neste ano.

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