Vigilância e Monitoramento de Populações Expostas ao Mercúrio no Brasil

Escola Politécnica promove Curso de Atualização Profissional para Profissionais da Atenção Primária em Saúde que atuam em localidades do país onde exista atividade garimpeira
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 04/05/2021 11h24 - Atualizado em 04/05/2021 11h25

A Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) realizou, de 26 a 30 de abril, o Curso de Atualização Profissional em Vigilância e Monitoramento de Populações Expostas ao Mercúrio no Brasil. A formação faz parte de uma série de produtos de comunicação e de educação em saúde previstos na pesquisa ‘Impacto do Mercúrio na Saúde de Indígenas Munduruku: Pesquisa-Educação-Serviço’, coordenada pela professora-pesquisadora da EPSJV, Ana Claudia Vasconcellos, que também está à frente do curso. A pesquisa foi aprovada em 2020 no edital Atenção Primária em Saúde (PMA) do Programa Fiocruz de Fomento à Inovação (Inova Fiocruz).

O curso foi destinado a 40 profissionais de saúde da Atenção Básica do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Rio-Tapajós, no Pará. Devido à pandemia da Covid-19 e pelo fato de os alunos residirem em regiões remotas do país, o curso foi oferecido na modalidade de ensino remoto, com carga horária total de 40 horas. Segundo Ana Claudia, que coordena o curso em conjunto com o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), Paulo Basta, a formação teve o objetivo de contribuir com a reorganização do processo de trabalho das equipes de saúde que atuam em territórios impactados pela atividade garimpeira, onde vivem populações humanas potencialmente expostas ao mercúrio. “Queríamos sensibilizar e chamar atenção dos profissionais em saúde que trabalham na Amazônia brasileira, uma região muito impactada pelo mercúrio, que é utilizado na atividade garimpeira há muitas décadas”, explica. 

Na visão da professora-pesquisadora, o garimpo contribuiu fortemente para a contaminação do meio ambiente amazônico e de toda a população que ali vive e consome pescado contaminado. “O consumo do pescado contaminado é a principal via de exposição humana ao mercúrio e é assim que a população se contamina com ele”, aponta, explicando que a ideia do curso foi chamar atenção dos profissionais em saúde para os sinais e sintomas que são relacionados à exposição humana ao mercúrio. “Assim, esses profissionais podem orientar a população amazônica sobre as formas de diminuir essa exposição e encaminhar essas pessoas para o tratamento médico mais adequado”, acrescenta.

Ana Claudia destaca que, além do curso, o projeto conta com a produção de materiais educativos para serem utilizados nas escolas da região. “Vamos realizar uma oficina virtual de trabalho com professores indígenas Munduruku nos dias 20 e 21 de maio”, adianta.

Impacto do mercúrio na Amazônia

No início do mês de abril, a professora-pesquisadora da EPSJV. Ana Claudia Vasconcellos, teve mais um projeto aprovado no Inova Fiocruz, com o tema ‘Impacto do mercúrio em áreas protegidas e povos da floresta na Amazônia: Uma abordagem integrada saúde-ambiente’.

Em fase de implantação, o projeto tem como área de abrangência a Região Norte do Brasil, mais precisamente, a Amazônia Brasileira. De acordo com Ana Claudia, essa região abriga a maior parte da população indígena no país e, assim, concentra quase que a totalidade dos garimpos artesanais de ouro do Brasil. “Considerando que há uma clara incompatibilidade entre o desenvolvimento da atividade garimpeira e o bem-estar e a sobrevivência dos povos indígenas, essa pesquisa tem o objetivo de colaborar com o aprimoramento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena e, consequentemente, melhorar as condições de vida dos povos indígenas”, ressalta a professora-pesquisadora.

Dessa forma, o projeto irá ofertar dois cursos de qualificação profissional. Um deles é sobre os “Impactos da Atividade Garimpeira e a Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas no Brasil”, destinado a lideranças indígenas e conselheiros de saúde. “Nossa ideia é fortalecer o protagonismo indígena e o controle social”, explica.

Já o outro curso é sobre a “Exposição ao Mercúrio e seus Efeitos na Saúde Materno-infantil”, destinado a profissionais de saúde de nível médio e superior que atuam nos DSEIs que atendem comunidades indígenas de áreas impactadas pelo mercúrio utilizado no garimpo de ouro. “Durante o período pré-natal, quando o feto ainda está em desenvolvimento, é quando o indivíduo está mais exposto aos efeitos tóxicos do mercúrio, principalmente aos efeitos neurotóxicos. Queremos tratar de forma bem detalhada sobre esses prejuízos que o mercúrio pode causar à saúde infantil”, ressalta.

Além disso, será produzido um filme de animação, em parceria com pesquisadores indígenas, para sensibilizar e orientar as comunidades indígenas da Amazônia sobre os efeitos devastadores do mercúrio usado no garimpo. Ao final do projeto, será realizada uma assembleia na Terra Indígena Sawré Muybu, no Pará, para realizar a devolutiva dos resultados produzidos na primeira parte deste projeto, exibir o filme de animação que será produzido e discutir sobre a experiência da pesquisa e da oferta de cursos. A realização da assembleia, entretanto, irá depender da vacinação dos indígenas e da equipe de pesquisa contra a Covid-19. Além disso, antes da entrada em área, a equipe será submetida ao teste RT-PCR e, durante a permanência da equipe de pesquisa em área, será adotado um protocolo de segurança sanitária.

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