Ciência

“A ciência é uma atividade social em ao menos dois sentidos. Primeiro, porque é uma exclusividade do ser social, da sociedade. Nada há de semelhante na natureza. Em segundo lugar, é social no sentido de que é parte movida e movente do desenvolvimento histórico da humanidade. Ainda que muitas vezes pela mediação de indivíduos particulares, a ciência é um complexo social decisivo para o desenvolvimento da totalidade da humanidade”.
Leila Leal - EPSJV/Fiocruz | 25/02/2016 11h09 - Atualizado em 01/04/2016 11h55

“A ciência é uma atividade social em ao menos dois sentidos. Primeiro, porque é uma exclusividade do ser social, da sociedade. Nada há de semelhante na natureza. Em segundo lugar, é social no sentido de que é parte movida e movente do desenvolvimento histórico da humanidade. Ainda que muitas vezes pela mediação de indivíduos particulares, a ciência é um complexo social decisivo para o desenvolvimento da totalidade da humanidade”.

A definição de Sérgio Lessa , professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e membro do comitê editorial da Revista Crítica Marxista , talvez cause estranheza se estivermos pautados pelo senso comum que encara a ciência como uma atividade exclusivamente individual, restrita a ‘gênios’ privilegiados e cuja imagem correspondente é apenas a de tubos de ensaio, microscópios ou laboratórios equipados com aparelhos modernos. No entanto, a compreensão da ciência como atividade social é o ponto de partida daqueles que buscam encará-la de maneira mais profunda, como fruto das relações sociais estabelecidas ao longo da história.

Como atividade social, a ciência é fruto do processo que a humanidade desenvolve ao se apropriar da cultura produzida historicamente. Por isso, ela expressa o trabalho humano. Por essa perspectiva, a ciência é, então, expressão do processo histórico da humanidade que condensa o trabalho e as potencialidades humanas desenvolvidas ao longo dessa história, ou seja, uma objetivação. Mas a ciência é também um fenômeno determinado pelas relações de produção que se estabelecem na base da sociedade.

É justamente esse ponto de partida que permite o entendimento da ciência como uma atividade que é, ao mesmo tempo, uma objetivação humana e um fenômeno que, ao se manifestar na superestrutura da sociedade, é determinado pelas relações sociais de produção que se estabelecem na base dessa sociedade. “Deve ser evidente que a concepção de ciência como objetivação humana não se opõe à concepção de que a ciência é determinada, no seu desenvolvimento, pelas necessidades e possibilidades, objetivas e subjetivas, predominantemente fundadas pelo trabalho ao longo do tempo. O desenvolvimento das forças produtivas comparece também como o momento predominante do desenvolvimento científico”, explica Sergio Lessa.

Neutralidade?

Se é verdade que a ciência é determinada pelas relações sociais de produção, como ela pode ser neutra? Esse questionamento é importante para desmistificar o conhecimento científico e superar a idéia, ainda muito presente na sociedade, de que a ciência é algo ‘puro’, que está acima das contradições existentes na realidade. Por exemplo: atualmente, em uma sociedade organizada a partir da divisão social do trabalho entre trabalho intelectual e manual e da propriedade privada - características básicas do modo de produção capitalista -, a produção de conhecimento irá expressar as contradições criadas por essa forma de organização social, como a exploração do trabalho, a opressão e a busca pelo lucro em detrimento do desenvolvimento humano, entre outras. Da mesma forma, os limites e potenciais da ciência são determinados pela forma como a humanidade se apropria e utiliza o conhecimento por ela produzido: “O potencial emancipatório da ciência não reside nela, mas no uso que a humanidade dela faz. O mero desenvolvimento das idéias científicas, por si só, não possui qualquer potencial emancipatório ou alienante. Isto posto, não deixa de ser também verdade que o desenvolvimento da ciência, o conhecimento mais aproximado do que é o mundo, será um apoio importante para a transição para o comunismo, se algum dia a humanidade vier a conhecer a revolução proletária”, avalia Sérgio Lessa, discutindo o papel da ciência para o desenvolvimento de projetos de transformação social.

E isso se reflete diretamente na Educação . “A escolha de uma determinada concepção de ciência se reflete na educação. Essa relação entre educação e produção de conhecimento científico pode estar a serviço tanto dos projetos de dominação quanto dos de emancipação. Em contrapartida a uma suposta neutralidade da ciência e da prática educativa, a pesquisa entendida como princípio educativo aparece como uma ação do pensamento, inserida na totalidade social e com sentido explícito”, diz Isabel Brasil, diretora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

Ciência e sociedade ao longo da história

A percepção da dimensão histórica e social da ciência fornece elementos, também, para a compreensão do modelo de ciência que se constituiu como hegemônico nos séculos XIX e XX. A chamada ‘ciência moderna’ é, assim, um dos modelos de ciência produzidos pela humanidade, e seu surgimento remonta ao próprio surgimento do modo de produção capitalista. “A ‘ciência moderna’, a ‘ciência moderna da natureza’, é um fenômeno histórico específico cuja gênese encontra-se por volta do século XVI com Galileu Galilei - estreitamente associado ao conjunto de transformações que marcaram o surgimento da manufatura e do modo de produção capitalista”, explica Pedro Leão, filósofo e colaborador da Revista Crítica Marxista.

Mas, mesmo nesse modelo, a ciência só se tornou atividade autônoma, independente de outras áreas a partir do século XIX. Até então, a ciência não se distinguia da filosofia. Foi o acelerado desenvolvimento da produção de conhecimento que resultou na constituição gradual de diferentes disciplinas científicas, que passaram a funcionar de forma coerente com a lógica da divisão do trabalho da sociedade capitalista - ou seja, as formas de organização da produção fundadas na propriedade privada, na separação entre trabalho intelectual e trabalho manual e na crescente especialização dos trabalhadores para a atuação em setores específicos da produção. Essas disciplinas autônomas entre si, e não mais fundidas no conceito de filosofia, encontraram no modelo de universidade européia moderna do século XIX a estrutura institucional adequada para a sua difusão. É esse mesmo contexto, na passagem do século XVIII para o século XIX, que marca o surgimento sistematizado das ciências sociais como disciplina autônoma para o estudo científico da sociedade.

Além do desenvolvimento da produção de conhecimento em consonância com a divisão social do trabalho, a relação entre o desenvolvimento da ciência moderna e o surgimento do capitalismo pode ser compreendida a partir do processo de produção de um conhecimento que se chocava com a estrutura social que o capitalismo buscava substituir: o feudalismo. “A dissolução do modo de produção feudal e sua gradual substituição pelo modo de produção capitalista – caracterizado pela generalização da produção de valores — foi acompanhada por uma crescente homogeneização e uniformização geral da sociedade. A proposta de matematização da natureza desenvolvida por Galileu e sistematizada por Descartes com a sua concepção de corpo/extensão só podem ser plenamente entendidos no interior desse processo. A ciência do Renascimento e de Galileu surgem em um claro confronto com a concepção de mundo medieval, e esse caráter crítico se reafirma no Iluminismo”, analisa Pedro Leão.

Com o desenvolvimento do modo de produção capitalista, a ciência se aproximou cada vez mais da técnica e da produção de mercadorias, associando-se à dinâmica da acumulação de capital. “Esse processo não pode deixar de esvaziar o conteúdo crítico e emancipatório que a ciência teve no momento anterior da sua história”, diz Pedro Leão.

Sérgio Lessa explica que, hegemonicamente, as relações de produção capitalistas condicionam a produção de um conhecimento instrumentalizado, ‘coisificado’ e fragmentado: “É assim que a relação entre capital e ciência tem ocorrido desde a gênese do modo de produção capitalista: a busca do lucro e o fetichismo da mercadoria impõem os limites e os impulsos que levam a ciência avante. Observamos o processo de fragmentação que tem marcado o desenvolvimento científico. Para evitar que os conhecimentos científicos sejam generalizados em uma concepção de mundo que reflita as contradições, necessidades e possibilidades do mundo em que vivemos, um dos mecanismos mais eficientes tem sido o de fragmentar ao extremo o trabalho dos cientistas”, analisa.

Pedro Leão aponta também um aprofundamento desse processo. Segundo ele, a passagem do capitalismo livre concorrencial para o monopolista — no final do século XIX e caracterizada pelo aprofundamento das relações de produção capitalistas —, com o aumento dos lucros através do controle dos mercados e da formação dos grandes complexos industriais e a associação do capital produtivo com o capital bancário, aprofunda a articulação da atividade científica ao processo produtivo, especialmente através de sua conversão em tecnologias que sustentam esse processo. “A situação da ciência no capitalismo contemporâneo é o resultado de seu desenvolvimento contraditório, como é o próprio desenvolvimento do capitalismo. Ao mesmo tempo em que criou um volume de conhecimento sem o qual a vida humana seria hoje impensada, tornou-se autônoma em relação às verdadeiras necessidades sociais e humanas, e em alguns momentos se transforma mesmo no seu contrário: não é preciso dizer muito sobre o macabro festival que é a aplicação da ciência na moderna indústria de armamentos”, finaliza Pedro Leão.

Nesse sentido, Regina Simões, doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) e professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, exemplifica com a área da saúde coletiva para pensar os limites da produção de um conhecimento científico que se afasta das necessidades da sociedade e analisar as alternativas para a construção de conhecimento contra-hegemônico: “Hoje existe uma produção de conhecimento na área da saúde coletiva impressionantemente vultuosa, mas é cada vez mais difícil ver como essa produção de conhecimento se reverte para as políticas de saúde de maneira concreta. Isso também é determinado politicamente: a nossa produção científica sofre influência muito grande do financiamento privado, inclusive de fundações internacionais. Temos um exemplo claro: em determinado momento dos anos 90, houve interesse muito grande de saúde reprodutiva dos homens, o que veio de uma preocupação internacional com a disseminação do HIV e DSTs. Decidiu-se fazer investimento para reforçar a participação masculina na linha de saúde reprodutiva e o Brasil foi eleito como um dos países prioritários, tendo recebido um aporte muito grande de fundações privadas internacionais. Hoje, o financiamento acabou e a produção na área, que era muito intensa, está restrita a pequenos grupos. Isso sumiu do cenário como preocupação central”, conta. E propõe: “A construção de um conhecimento científico crítico em saúde passa por uma adoção de perspectiva: é preciso apostar no engajamento, na luta pelo financiamento público, pela participação da comunidade científica e da população na produção das prioridades de pesquisa. Um novo momento de retomada das lutas sociais se reflete em todos os níveis, inclusive na organização dos trabalhadores, no sentido de colocarem suas demandas, suas necessidades”.

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