O dado mais geral e alarmante do Informe sobre Violências e Acidentes que acaba de ser divulgado pela Fiocruz, com dados de 2022 e 2023, é que 65% dos óbitos entre jovens se devem a causas externas, um número muito maior do que o da população em geral. E, desses, 73% são negros. Uma primeira leitura possível é que, de fato, os jovens morrem menos de doenças crônicas, muitas vezes relacionadas à velhice, por exemplo. Mas a pesquisa também identifica que os jovens têm mais risco de morrer por violência e acidente. Quais as principais razões disso? Esse é um cenário novo?
A gente não tem muitos dados colhidos na série histórica. Sobre os dados de violência sim: [estudos] já indicam que a maior causa de óbitos entre os jovens é a questão da violência, desde que isso começou a ser colhido de forma mais sistemática e passou a fazer parte do debate público mais amplamente. Os mapas da violência que começaram a ser produzidos já apontavam essa incidência, esse peso da morte por causas externas entre os óbitos que ocorrem na fase da juventude.
A violência contra a juventude, ter os jovens como vítimas de violência, é um fenômeno que foi se adensando na virada do milênio
Mas a comparação com estudos antigos mostra que, se a gente pensar em uma periodicidade mais longa, isso se acentuou do final do século passado para cá. Até [mais ou menos] os anos 1970 e 80, a incidência ainda era de doenças contagiosas. A violência contra a juventude, ter os jovens como vítimas de violência, é um fenômeno que foi se adensando na virada do milênio. E eu acho que ele se coloca como um fator extremamente alarmante, que é expressão tanto do aumento da violência urbana quanto do papel que foi destinado aos jovens na sociedade contemporânea no Brasil.
As causas externas [de morte] são, no caso da juventude, principalmente acidentes de trânsito e homicídio. E a questão dos homicídios é muito marcada pelo fator de cor e raça. Ela atinge vários segmentos de jovens, mas principalmente os jovens homens negros. É uma questão que a gente costuma dizer que tem sexo, cor e território. Os condicionantes sociais são muito evidentes nesse caso. E tem toda a discussão de por que isso, de por que ele é o principal suspeito, tanto para as forças oficiais de repressão quanto para a população em geral, uma discussão sobre o temor que a figura desses corpos jovens negros, principalmente se tiverem as marcas do território, da periferia, da favela, produzem como suspeição, como medo, como forma de reação que resulta em violência, muitas vezes, fatal, sem direito de defesa.
Mesmo depois que a opinião pública começou a ficar mais alerta, que se começou a pensar em políticas públicas para enfrentar essa questão, que o governo federal, [na gestão] Dilma [Rousseff], criou o ‘Plano Juventude Viva’ como uma tentativa de enfrentar essa questão e muitos movimentos de direitos humanos tentaram produzir abordagens para fazer a denúncia e buscar formas de reduzir disso, acho que a gente ainda não conseguiu enfrentar de maneira mais efetiva essa terrível tragédia.
Esse informe [da Fiocruz] ilumina como esse é um fenômeno claro de múltiplas determinações. Muitas vezes a gente pode interpretar como uma questão social que diz respeito às condições sociais de renda, ao lugar onde vivem essas pessoas, a gente pode pensar que é uma questão do racismo estrutural... E tudo isso é verdade, é tudo isso junto, ao mesmo tempo. Mas também é muito importante ressaltar o que esse informe traz: que essa questão tem a ver com essa fase da vida, são jovens com mais de 18 anos a maior parte das vítimas. A taxa de mortalidade é maior para aqueles jovens maiores de 20 anos, que têm ainda menos proteção que os adolescentes porque, mal ou bem, os adolescentes têm todo um arcabouço legal [o ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente], que ainda precisa ser aprofundado e protegido, porque muitas vezes está sob ameaça, mas existe. Os jovens maiores de 20 anos talvez fiquem mais expostos ainda a esse tipo de violência, porque produzem menos comoção na sociedade e têm menos proteção.
Um dos resultados da pesquisa destaca que 84% das mortes por acidente de trânsito no Brasil são de jovens do sexo masculino. E que em 53% dos casos entre homens e 40% dos casos entre mulheres, o meio de transporte é a motocicleta. Isso pode ter relação com o crescimento e a precarização do trabalho desses jovens por plataformas, com aplicativos de entrega?
Eu acho que essa é uma pista muito interessante que você está percebendo nesses dados. Eu tenho uma impressão parecida. No panorama que a gente fez em 2023, a gente já tinha encontrado a pista do peso dos acidentes de trânsito como causas de morte, mas também de adoecimento, internações, lesões e sequelas entre os jovens. O informe de agora trabalha apenas com causas de óbitos. E eu acho, de novo, que tem múltiplos fatores.
Esse alto número de acidentes de trânsito não é só fruto do comportamento desregrado de jovens que não têm limites, não têm responsabilidade, não têm maturidade, que dirigem o veículo de forma irresponsável: é também fruto de uma situação de trabalho que muitas vezes é muito precária
As motos são o veículo mais acessível para uma parcela da juventude que tem pouca renda, que é a grande maioria dos jovens do nosso país, e que está no mercado de trabalho. Essa é uma outra coisa importante de a gente lembrar: é entre os jovens maiores de 20 anos que se tem a mais forte ocorrência dos acidentes como causa de mortalidade. A partir dos 18, 20 anos, a maior parte dos jovens está no mundo do trabalho. Apesar de você ter uma parcela de adolescentes que também está, ela é bem menor do que a dos jovens depois dos 18, 20 anos. No panorama de 2023, a gente viu como era muito alto o número de jovens que se acidentavam no deslocamento de casa para o trabalho. Muitas vezes o que a opinião pública associa é que os jovens vão a festas, bebem, saem dirigindo sem critério, alcoolizados, não respeitam as regras de trânsito, correm demais e batem o carro. Isso também acontece, evidentemente, e com consequências trágicas e graves. Mas nos impressionou, naquele momento, perceber a porcentagem de acidentes de trânsito com jovens que eram relacionados ao trabalho. E nessas duas dimensões: tanto aqueles que trabalham com o veículo dirigindo as motos – que aparecem na classificação dos acidentes de trabalho com a profissão ‘motociclista’ – como também aqueles acidentes de atropelamentos de carros, trem, ônibus, aqueles veículos rurais que levam grupos de trabalhadores. Esses também são acidentes que envolvem jovens trabalhadores.
Esse alto número de acidentes de trânsito não é só fruto do comportamento desregrado de jovens que não têm limites, não têm responsabilidade, não têm maturidade, que dirigem o veículo de forma irresponsável: é também fruto de uma situação de trabalho que muitas vezes é muito precária. E aí você tem razão: talvez uma das figuras mais emblemáticas que a gente conseguiu enxergar melhor são justamente os jovens entregadores de aplicativos, que é uma função que vem crescendo. Não dá ainda para dizer que a maioria dos jovens que trabalham, trabalham [por aplicativo]. Se você comparar com todas as ocupações, ainda é uma pequena parcela [dos jovens] que está no trabalho de plataformas em geral e mesmo no trabalho de [aplicativo de entrega]. Mas, olhando principalmente os entregadores de aplicativos que usam motos ou bicicletas – muito mais do que os motoristas de Uber –, tem-se um perfil jovem e masculino. E esse é um trabalho precário e desprotegido. As motos são, inclusive, muito mais vulneráveis a acidentes. E aí tem essa questão, sobre a qual a gente tem refletido muito: o quanto esse trabalho precário incide sobre a saúde dos jovens, de várias formas. E uma delas são essas situações de violência. Eles estão muito mais sujeitos a acidentes, inclusive porque, para o jeito de remuneração do trabalhador de aplicativo, a questão do tempo é crucial. Quantas entregas ele consegue fazer naquele tempo? Então, não é por um comportamento irresponsável e desregrado que ele está correndo. É porque há um modo de remuneração do trabalho, que, por ser baixa, para que ele consiga receber uma parcela significativa, tem que trabalhar muitas horas por dia, e ficar sob condições muito precárias, na espera, sob sol, sem proteção. Tudo isso contribui para a ocorrência de acidentes no trabalho.
E não há só essa pista dos acidentes de trânsito [nesse estudo feito pela Fiocruz]. Se você for ver nesse levantamento, a terceira causa de mortalidade são as lesões autoprovocadas. Eu acho também impressionante como esse dado é alto. Pelo panorama que a gente fez lá atrás, a gente vê que a maior parte das internações – aqui não estamos tratando da mortalidade – de jovens que trabalham no sistema de saúde é por questões de saúde mental. E que, muitas vezes, são produzidas por assédio, estresse, toda essa coleção de problemas que vem também da situação de trabalho, da sobrecarga, do cansaço, da exaustão. Não tem nenhuma evidência nesse informe para sabermos quantos desses motivos são produzidos por situações relacionadas ao trabalho, mas a gente tem uma pista aí.
Essa é talvez uma das grandes características da juventude brasileira: os jovens fazem muitas coisas ao mesmo tempo
A questão do mal-estar, do sofrimento mental, dos adoecimentos mentais de jovens é um tema que está sendo muito colocado hoje. Mas se costuma relacionar as situações de violência e de assédio dos jovens ao isolamento e às redes sociais. Principalmente depois da pandemia, a ideia do isolamento é uma das que mais é relacionada ao elemento de produção desse mal-estar e desses sofrimentos. Mas a gente está encontrando também esse outro lado: que muitas vezes o sofrimento mental, os problemas que levam a adoecimentos mentais podem estar sendo produzidos por vivência de situações que são de violência também – porque a violência é psicológica – e de exaustão, estresse, acúmulo de atividades e de responsabilidades, que vem tanto do que o jovem vivencia nas suas situações de trabalho como do acúmulo de jornadas.
Muitas vezes esse acúmulo que a gente está acostumado a pensar para a condição feminina, do trabalho da casa com o trabalho externo, no caso dos jovens, tem uma dimensão tripla: é continuar a se educar, se formar, trabalhar fora e cuidar da casa
Porque essa é talvez uma das grandes características da juventude brasileira: os jovens fazem muitas coisas ao mesmo tempo. A gente alargou o período de estudo dos jovens, tanto com a extensão da Educação Básica para o Ensino Médio como pelo aumento das possibilidades de acesso ao ensino superior. Isso fez o jovem cumprir uma trajetória educacional mais longa, principalmente os jovens das classes trabalhadoras, que às vezes têm um intervalo entre o Ensino Médio e o Ensino Superior ou os cursos de qualificação profissional. Então, ele fica mais tempo em processo de formação, mas acumula com a entrada no mundo do trabalho, que não deixou de se realizar após os 18 anos. O problema é que é muito difícil essa conciliação. Muitas vezes ele começa uma coisa e acaba invadindo a outra, e normalmente ele tranca o estudo para continuar no trabalho. E acumula também com as responsabilidades familiares que crescem nessa fase da vida, seja porque os jovens começam a contribuir com os arranjos familiares para manter a casa – tanto do ponto de vista de elevar a renda quanto de assumir as tarefas do trabalho não remunerado, principalmente dos cuidados com os outros membros da família –, seja porque está montando a sua própria unidade familiar e se torna ele o responsável. Essa é a fase em que as mulheres começam a ter filhos também.
Então, muitas vezes esse acúmulo que a gente está acostumado a pensar para a condição feminina, do trabalho da casa com o trabalho externo, no caso dos jovens, tem uma dimensão tripla: é continuar a se educar, se formar, trabalhar fora e cuidar da casa. E os trabalhos que são destinados aos jovens são cada vez mais precários, com menos controle da jornada. Mesmo o trabalho autônomo que aparece como aquele desejado pelo jovem, porque é mais flexível, é mais flexível no sentido de que não tem horários fixos, mas normalmente leva a uma jornada mais extensa do que o trabalho assalariado.
Eu queria fazer uma pergunta exatamente sobre isso. Dados do Ministério do Trabalho relativos ao último trimestre de 2024 mostram um aumento, que o governo considera significativo, da ocupação entre jovens de 14 a 24 anos e uma queda do número de jovens chamados ‘nem-nem’ [que nem trabalham nem estudam] para o menor patamar dos últimos 12 anos. A ocupação da juventude parece, inclusive, contribuir para a melhora dos índices de desemprego no Brasil. Que ocupações são essas e como esses jovens têm se relacionado com esse mercado de trabalho?
Eu tenho um problema com essa coisa dos ‘nem-nem’ como um indicador absoluto ou principal. Acho que ele é um indicador importante, mas que esconde muitas coisas também. A gente sempre precisa olhar as diferentes subfaixas da juventude, porque é um período longo de 15 anos, marcado por percursos e por pontos de inflexão muito significativos. Se a gente olhar os dados de ‘nem-nem’, vai ver sempre que eles não são fortes na adolescência. Porque o ‘nem-nem’ é o jovem que não está nem estudando nem ocupado no mercado de trabalho. E a maior parte dos adolescentes brasileiros está na escola, 95%. Na faixa de 25 a 29 anos, a maior parte dos jovens já não está estudando, seja porque abandonou a escola antes de completar, seja porque já terminou. E aí o significado de não estar estudando é completamente diferente. Adolescente que não está frequentando a escola é evidentemente um problema porque ele não terminou a educação básica ainda. Já [no caso do] jovem com mais de 25 anos que não está estudando, isso pode ter um significado negativo e um significado positivo. Ele pode ter completado o seu percurso de formação já. Quanto ao trabalho, é a mesma coisa. Adolescente que está trabalhando a gente tende a ver como um problema. Em tese, não deveria estar, a não ser na condição de aprendizagem, que ainda é muito pequena. Mas ele não estar trabalhando não é um problema em si.
Existem muitos obstáculos para as mulheres jovens realizarem sua inserção no mercado de trabalho
Esse é um indicador composto por situações que não são produzidas simultaneamente. Outra coisa é a questão da diferença por gênero. São as mulheres jovens com mais de 20 anos a grande maioria das que se concentram nessa situação de ‘nem-nem’. E onde estão essas jovens mulheres? Estão presas no trabalho doméstico não remunerado. Elas são ‘nem-nem’ não porque não estejam fazendo nada, mas porque estão no cuidado com a casa, com a família, sem receber por isso. E porque existe um obstáculo a elas no mercado de trabalho. Essa é uma coisa que todo mundo que faz pesquisa qualitativa com jovens sabe: nas entrevistas de trabalho, as primeiras coisas que se perguntam para mulheres jovens é se elas têm ou pretendem ter filho. O trabalho da mulher é encarado como de segunda categoria porque os empregadores acham que elas vão tirar licença quando ficarem grávidas ou vão faltar porque a criança vai ficar doente, ela vai ter que levar no posto, tem reunião da escola, tem os horários de pegar e buscar na creche... Existem muitos obstáculos para as mulheres jovens realizarem sua inserção no mercado de trabalho. Fora que isso é difícil também quando não se tem ainda uma estrutura de serviços públicos de cuidado que permita que a mulher possa deixar as crianças em creche ou escola de tempo integral para poder trabalhar. O fenômeno do ‘nem-nem’ está muito ligado a isso e não àquilo que os relatórios da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] e do Banco Mundial têm como pista, que tem a ver com uma espécie de desencanto, desengajamento, falta de projeto de vida que estaria acontecendo entre os jovens. Ou com essas interpretações sobre geração Z, [geração] alfa agora, de que os jovens não querem trabalhar, desistiram, não têm ambição, não querem se submeter às agruras do trabalho. Para mim, essas são todas interpretações muito pouco capazes de entender o que acontece de verdade na vida real dos jovens.
O indicador dos ‘nem-nem’ mede quem não está frequentando a escola sem discriminar quem já terminou e quem não terminou, o que faz a diferença. Outra coisa é que quem está procurando emprego, por exemplo, não está inativo. O último dado com o qual eu trabalhei [apontava] 25% do número de jovens como ‘nem-nem’. Mas se você exclui disso aqueles que estão procurando trabalho, cai para 15%. Eu acho que o dado mais interessante da observação histórica é que aumentou o número de jovens na escola, aumentou a frequência líquida, ou seja, aqueles jovens que estão estudando no momento certo, e que estão indo para o ensino superior. Mas, como eu disse, não diminuiu a taxa de jovens que está na força de trabalho. Então, quando os dados da conjuntura econômica melhoram no sentido de queda de desemprego, os jovens estão lá. Para mim, isso é um sinal de que não existe desengajamento ou desalento dos jovens no mercado do trabalho.
Agora, como você perguntou, que trabalho é esse? A gente está muito acostumado a olhar os dados da educação e perguntar: mas que educação é essa? É uma educação de qualidade ou não? Agora, a gente não costuma fazer a mesma pergunta sobre o tema do trabalho. A grande manchete, o que as pessoas observam, são os índices de desemprego, desalento e ‘nem-nem’, ou seja, o não trabalho é visto como um dado negativo, a preocupação é essa. A preocupação com a qualidade desse trabalho é muito menor.
E onde estão trabalhando esses jovens?
Na categoria assalariado, você tem o empregado em setor privado com ou sem carteira. Tem funcionário público estatutário e CLT. Tem empregado doméstico com e sem carteira. Depois tem o trabalho por conta própria, que é o autônomo, que alguns agora chamam de empreendedores. E tem os empregadores, aqueles que têm uma empresa que emprega mais alguém além de si próprio. E tem ainda a categoria do trabalhador familiar. Nos dados que o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] publica todo mês, a gente não acha esse recorte com os jovens, mas tem algumas [pistas] lá na PNAD [Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio] anual. E para surpresa de muita gente, a maior parte dos jovens são assalariados. Porque essa é uma outra coisa que se fala muito: não existe mais trabalho assalariado, os jovens nem sabem o que é a azulzinha, a carteira de trabalho, por isso eles não estão ligados em direitos do trabalho, são todos autônomos, trabalhadores de plataforma, todos querem ser empreendedores... Mas isso não é verdade. Nessa grande categoria de assalariados, estão 78% dos jovens ocupados. Não [necessariamente] é trabalho formal, estou falando da relação de trabalho. São assalariados. [Que trabalham por] conta própria, onde estão os autônomos, são 17%. Empregadores, mais ou menos 1,2%. E os com carteira são a maioria dos assalariados. 50% são empregados em setor privado com carteira e cerca de 25% são assalariados no setor privado sem carteira.
Aquela nossa impressão de que todos os jovens trabalham por plataforma hoje em dia não é uma realidade comprovada pelos números, o que não quer dizer que esses segmentos não sejam significativos, que eles não estejam em crescimento e que pode ser que, como tendência, venham a ocupar muito mais espaço
A questão dos trabalhadores de plataforma a gente sabe que vem crescendo, mas ainda não tem muito dado concreto. O IBGE fez uma pesquisa experimental junto com o pessoal da Unicamp, em 2022, que aponta que os trabalhadores por plataforma no Brasil não passam de 3% e, entre os jovens, não chega a 2%. Aquela nossa impressão de que todos os jovens trabalham por plataforma hoje em dia não é uma realidade comprovada pelos números, o que não quer dizer que esses segmentos não sejam significativos, que eles não estejam em crescimento e que pode ser que, como tendência, venham a ocupar muito mais espaço.
Mas eles [os jovens trabalhadores de aplicativos] produziram uma visibilidade muito importante. É importantíssimo a gente olhar e entender o que está acontecendo. Eles estão colocando questões para a sociedade, mas a importância deles não repousa na questão numérica. Porque as plataformas são recentes, né? Elas instituíram uma realidade que não existia antes e têm poder de atração sobre os jovens, com toda a ideia do trabalho autônomo, da tecnologia, com a possibilidade de fazer uma coisa que o jovem já gosta, que é circular pela cidade. Agora, essa foi uma experiência também que já produziu um monte de problemas e desafios. A mobilização, o Breque dos APPs, os entregadores antifascistas, que começaram a falar a respeito da experiência e apresentar suas demandas, suas queixas, apontar os problemas, os conflitos, foram muito importantes, principalmente na pandemia, para dar visibilidade a isso. Tinha um monte de jovem trabalhando de uma maneira que a sociedade ainda não conhecia direito. E eles começaram a colocar a falta de proteção, a falta de direito, a questão da vulnerabilidade e da saúde como um ponto central dessa história. Porque se eles se acidentam, não tem ninguém que se responsabilize por eles, eles não podem parar.
Essa é outra coisa que a gente descobriu no panorama [feito com a Fiocruz em 2023], que os jovens são os que menos param em função dos problemas [de saúde]. Eles são os que mais sofrem acidentes de trabalho e de trânsito e são os que menos param por isso. Essa foi uma das pistas para nos ensinar que existe uma imensa relação entre o tema do trabalho precário que os jovens estão encontrando hoje e a questão da saúde.
Quantas dessas mortes por agressão, por arma de fogo, por situações de conflito, também não são fruto de relações violentas que os jovens estão sujeitos por causa do tipo de trabalho que estão fazendo?
Esse informe de agora traz também a questão da morte por agressão, que está no primeiro lugar [entre as causas externas de óbito dos jovens]. E isso também, muitas vezes, pode ser causado por conflitos gerados na situação de trabalho. Não existe esse dado, mas a gente vê nas notícias de jornal. Eu fiquei muito impressionada no final do ano passado com o número de casos de motoboys, entregadores de aplicativo sendo assassinados a tiros por um cliente que não gostou do jeito que a coisa foi feita ou de acidentes de trânsito provocados por um cara com Porsche que vai atrás do motoboy em trabalho. Então, quantas dessas mortes por agressão, por arma de fogo, por situações de conflito, também não são fruto de relações violentas que os jovens estão sujeitos por causa do tipo de trabalho que estão fazendo? Essa é outra pergunta para a qual a gente ainda não tem dados, mas que se deve colocar.
Existe a ideia de que o corpo jovem aguenta tudo, de que ele está no auge do vigor, da força, da disponibilidade, da energia e, então, pode fazer trabalhos que outras fases de idade não fazem
O telemarketing, por exemplo, é outra porta de entrada, que talvez envolva até mais jovens do que os aplicativos. É um trabalho altamente exaustivo e com alto grau de assédio, que produz muitas situações de estresse e esgotamento mental. O trabalho de telemarketing, na maior parte das vezes, é formal, mas é de uma intensidade enorme. Existe a ideia de que o corpo jovem aguenta tudo, de que ele está no auge do vigor, da força, da disponibilidade, da energia e, então, pode fazer trabalhos que outras fases de idade não fazem. E a gente não está olhando para esses jovens, eles estão completamente desprotegidos, porque nem os movimentos sindicais estão levando em consideração essa situação singular dos jovens.
Vivemos nos últimos anos, ou na última década, uma série de programas e políticas públicas educacionais que, de acordo com algumas análises críticas do campo da Educação, incentivavam a entrada dos jovens no mercado de trabalho. Embora muito distintos, são exemplos a execução do Pronatec, voltado para a Educação Profissional, que foi uma marca dos governos Dilma e se concentrou em cursos mais curtos, e, mais recentemente, a Reforma do Ensino Médio, que foi acusada por muitos educadores de incentivar a antecipação da entrada do jovem no mercado de trabalho. Qual a sua avaliação sobre isso?
Eu tenho uma leitura diferente. Eu não acho que essas políticas visam acelerar a entrada do jovem no mercado de trabalho, nem acho que tenham sido elas que aceleraram, porque não existe uma aceleração. Eu acho que as políticas de educação no Brasil promovidas pelos governos progressistas, com a colaboração de todos os autores que lutaram pela escola pública e pelo direito à educação, visaram, ao contrário, retirar a criança e o adolescente do trabalho e universalizar, nessa faixa etária, a frequência na Educação básica, que é a educação obrigatória da nossa Constituição. Eu acho que teve uma série de políticas que buscavam fazer isso e que tiveram sucesso. Teve uma queda da participação de adolescentes no trabalho e uma regressão do trabalho infantil. É claro que não zerou, mas produzimos uma queda muito significativa.
Mas, para lá dos 18 anos, isso não aconteceu. A aposta da esquerda era de que se você melhorasse as condições de vida dos pais ou responsáveis, do chefe de família, se tivesse pleno emprego, políticas estruturantes de educação que dessem vaga para todos os jovens, políticas de permanência, bolsa de estudo e acesso gratuito à educação de nível superior, esse jovem não iria trabalhar e ficaria na escola. Essa era a aposta, inclusive de quem fazia crítica a todas as políticas que buscavam produzir suportes para os jovens se qualificarem, se profissionalizarem: ‘Não tem que fazer isso, tem que dar livre acesso, condições de todo mundo estudar e fazer com que as famílias não precisem do trabalho dos seus jovens’. Isso foi feito, de certa forma, porque você aumentou muito o número de bolsas, de acesso gratuito à universidade, de políticas de financiamento, com milhares de formas de construção de vagas públicas. E isso teve o efeito, como eu estava dizendo, de botar muito mais jovens, principalmente das classes trabalhadoras, jovens negros, na universidade, mais do que na educação de qualificação profissional, que cresceu, mas não tanto assim. A gente pode tentar entender melhor as razões, mas a maior parte dos jovens dos setores populares leva os dois projetos concomitantemente: continuar estudando e, ao mesmo tempo, entrar no mercado do trabalho. O número de jovens que estão trabalhando, procurando trabalho, na faixa de 18 a 24 anos, cresceu no melhor período dos governos Lula e Dilma, quando havia a taxa de desemprego mais baixa, os salários mais valorizados, quase pleno emprego para a população adulta. E tudo isso, teoricamente, deveria fazer o jovem não precisar trabalhar. Mas aumenta a taxa de participação dos jovens.
Então, o que eu acho é que essa aposta idealizada não rolou. Tem que tentar entender o porquê. Eu acho que esse conteúdo da vivência burguesa da juventude, de dedicação integral aos estudos, que é aquilo que os jovens de classe média alta têm – a possibilidade de só trabalhar depois que se formar –é o que nós queremos para os nossos jovens, só que parece que não é isso que os jovens querem. Essa moratória só é desejada até certo ponto. Essa é uma visão baseada na ideia de que a essência do período da juventude é estudar, se formar, se preparar para uma vida futura. Mas não é assim. Os jovens já estão vivendo muitas dimensões do presente. Até o Ensino Médio pode ser [assim]. Agora, depois, com 18, 20, anos, não é só uma questão de sobrevivência da família, é a autonomia do próprio jovem. E às vezes isso significa sair de casa, montar a sua própria casa. Muitas vezes vou com a minha namorada, porque ela está grávida. Ou eu quero montar o meu espaço. Ou vou sair porque não consigo mais conviver com meus pais por causa da minha orientação sexual ou das minhas escolhas. Então, para viver essas múltiplas dimensões que vão se colocando na vida dos jovens com mais de 20 anos, ele quer ter a renda própria. Essa é uma das dimensões. A outra é que, no Brasil, os jovens sabem por experiência própria, pelos seus pais, seus irmãos mais velhos, que para conseguir um emprego, você precisa do diploma, mas precisa da experiência também, precisa da construção de um percurso profissional e, se começar a trabalhar tarde demais, você pode acabar ficando fora.
Agora, eu acho que tem sim, menos por parte do governo federal, mas muito por parte dessas fundações empresariais que estão produzindo propostas para a educação, [uma tendência] de [pautar] não a questão de entrar logo no mercado de trabalho, mas de que tipo de entrada no mercado de trabalho você vai fazer. É a implantação da ideia do empreendedorismo como projeto. Isso eu acho que foi uma coisa implantada, e que muitos dos nossos governos e muitas das pessoas de esquerda compraram junto. Foi isso que aconteceu na Reforma do Ensino Médio. Não é que eles estão preparando para entrar logo [no mercado de trabalho]. Eu acho que tem uma coisa de se defender que não é todo mundo que precisa fazer ensino superior, que você pode ser um bom técnico. Tem isso, mas acho que, muito mais forte é a ideia de que as transformações do mundo do trabalho são tão grandes que não vai mais existir emprego, muito menos o emprego formal com carteira assinada e com direitos. Então, o jovem deve ir se preparando para fazer outra coisa, para inventar o seu próprio trabalho, para ser um empreendedor. O Novo Ensino Médio tem um eixo de empreendedorismo, todas as universidades e faculdades hoje no Brasil têm um centro de empreendedorismo, disciplina de empreendedorismo, inclusive as públicas. Isso foi implantado, veio como diretriz da OCDE e do Banco Mundial e foi disseminado e concretizado pelas milhares de propostas de programas de educação que as associações empresariais disseminaram para o Brasil, [Instituto] Unibanco, [Fundação] Itaú, todas. É a ideia de que é muito mais legal para o jovem ser empreendedor do que ser assalariado, submetido, ao patrão, de que é muito melhor trabalhar autonomamente. E a esquerda também, por sua vez, traduz isso dizendo: ‘trabalhe com sentido’, ‘trabalhe com propósito’, ‘trabalhe que você vai encontrar soluções para a comunidade’. E isso, na verdade, [reproduz] a ideia de que o jovem não precisa mais dos direitos do trabalho. Eu acho que, infelizmente, muitos dos nossos governos, estaduais, municipais e federal, compraram essa ideia e não foram capazes de perceber o problema.
A gente abriu mão de discutir a questão de condições de trabalho do jovem
E aí volto para aquele problema que discutíamos: para mim, é claro que os jovens terem que trabalhar cedo demais é ruim, atrapalha, coloca problemas de saúde e violência para a vida deles. Mas, mais importante que isso ainda, é que tipo de trabalho é esse. Porque o jovem tem que começar a trabalhar em algum momento da vida. Então, claro que a discussão de quando ele começa e quando não começa é uma questão. Começar muito jovem é ruim. Começar junto com o estudo é complicado, é complexo, porque tem uma sobrecarga de atividades. Mas, é tão importante quanto [discutir] em que tipo de trabalho ele vai trabalhar. E a gente não está prestando atenção nisso, não está discutindo isso, não está botando isso como pauta. A gente abriu mão de discutir a questão de condições de trabalho do jovem, do que é um trabalho decente para a juventude. Quando eu estava no governo federal, na Secretaria Nacional de Juventude, a gente estava construindo um Plano de Trabalho Decente para a juventude. Qual é o trabalho que faz sentido, que não é prejudicial para o jovem? Como é que a gente pode discutir esse tipo de regulação de direitos? Com o golpe de 2016, isso desapareceu. Mas, só para acabar em um tom mais otimista, eu acho que os jovens conseguiram colocar esse tema na pauta com o pessoal da Vida Além do Trabalho, o VAT.
Essa era exatamente a pergunta seguinte. A grande novidade nas lutas por direitos trabalhistas e desprecarização do trabalho hoje é a defesa da redução da carga horária, com o fim da escala 6X1. O que isso tem a ver com a juventude e qual a importância dessa pauta?
Eles [o Movimento VAT] não se anunciam como jovens, pelo menos não a liderança principal, o [vereador do Rio de Janeiro] Rick Azevedo. Mas são evidentemente jovens. Inclusive porque a maior parte desses setores que tem no regime de trabalho a escala 6 por 1 são os que concentram os jovens ocupados. Pega a trajetória do próprio Rick: balconista de farmácia. Tem o pessoal que trabalha em restaurante, posto de gasolina, lojas, caixa de supermercado, repositório de prateleira... 38% dos jovens ocupados estão nesses setores que têm escala 6 por 1. O próprio Rick Azevedo agora tem 31 anos, quando ele fez o desabafo [no vídeo que viralizou nas redes sociais], tinha 29, mas dizia que estava há 12 anos trabalhando nessa escala. E entre as caras de quem ele mostra no vídeo, das pessoas que reagiram, estão muitos jovens, que sentem na pele essa questão da jornada.
Esse movimento do VAT vem falar que os trabalhadores querem, na verdade, uma modificação para o descanso remunerado. Eles vão falar em direitos do trabalho, querem uma modificação na CLT. Eles estão, na verdade, recuperando a importância da discussão dos direitos do trabalho para os jovens. Para os jovens e para todos.
É uma questão de vida, uma contradição vivida pelos jovens trabalhadores que veio a público de uma maneira que não é usual no nosso movimento sindical, num vídeo de TikTok. Mas por que ele viralizou? Por que [a denúncia] pegou? Por que produziu 3, 4 milhões de assinaturas para a PEC [Proposta de Emenda Constitucional nº 8/2025]? Porque ela bateu uma coisa que estava sendo vivida por milhares de outras pessoas. E eles associam isso a uma queixa, que inclusive vai rebater na saúde. Assim como os entregadores de aplicativos já tinham falado sobre saúde, eles também falam. Eu acho que por isso é uma novidade, eles conseguiram chamar atenção para uma coisa que estava fora da agenda: a discussão das condições de trabalho. O que eu acho interessante? Esse povo que estava achando que a saída era pelo empreendedorismo, achando que os jovens não querem mais trabalho fixo, trabalho com patrão, que a flexibilidade de horário é a principal questão. A contraposição a isso é que eles trabalham muito mais horas. Esse movimento do VAT vem falar que os trabalhadores querem, na verdade, uma modificação para o descanso remunerado. Eles vão falar em direitos do trabalho, querem uma modificação na CLT. Eles estão, na verdade, recuperando a importância da discussão dos direitos do trabalho para os jovens. Para os jovens e para todos. E atualiza uma reivindicação clássica das centrais judiciais, que é das 40 horas semanais, só que de uma forma muito mais concreta, muito mais fácil de entender, porque é muito diferente você falar em redução para 40 horas e falar que eu não quero trabalhar seis dias por semana, quero ter pelo menos dois dias de descanso remunerado. É completamente diferente.