Em sua avaliação, o planejamento urbano e o planejamento em saúde dialogam no Brasil?
Sim, pelo menos em seu escopo de atuação, mas [esse planejamento] ainda é limitado e feito frequentemente de forma fragmentada. Pela Constituição Federal de 1988, o SUS e a política urbana compartilham princípios como a promoção da qualidade de vida, da equidade e da participação social, mas na prática essas políticas costumam ser elaboradas e executadas por setores diferentes e com pouca integração.
O conceito de território pode contribuir na aproximação entre essas políticas. Ele é o elemento integrador da atuação dos setores da gestão pública, pois a realidade social não se dá de forma separada. Essa separação é a forma como se organiza a ação da gestão pública, mas isso acaba tendo efeitos ruins. Planejamento urbano e planejamento em saúde estão diretamente interligados, no sentido de que a estrutura de uma cidade determina as condições de vida e os níveis de adoecimento da sua população.
O planejamento urbano influencia diretamente os determinantes sociais da saúde, como habitação, saneamento básico, mobilidade, entre outros. A APS, por sua vez, especialmente através da Estratégia Saúde da Família e da Vigilância em Saúde, conhece de perto os problemas e as potencialidades dos territórios e pode fornecer informações importantes para o planejamento das cidades.
Na prática da Atenção Primária, de que maneira o processo de territorialização permite identificar como a organização do espaço urbano influencia as condições de saúde e orientar o cuidado?
A territorialização na APS, na Vigilância em Saúde e o planejamento urbano orientado pelo Estatuto da Cidade compartilham uma premissa fundamental, que é o território. Mas ele está muito além de se referir apenas a um recorte espacial. Para as ciências humanas, trata-se de um fenômeno social que se caracteriza pela ocupação de pessoas e grupos sociais convivendo numa dinâmica de interação social com diferentes contextos de uso e apropriação dos espaços.
Ele carrega consigo a inteligência social do conjunto da sociedade, tornando-se um elemento importante para a participação popular, a emancipação e autonomia de populações vulnerabilizadas, que é crucial para organizar as ações de saúde e intervenções urbanas de promoção de melhorias nas condições de vida.
Colocar em prática a pedagogia do território para elaborar propostas de intervenção possibilita analisar o contexto de construção dos processos sociais que produzem e reproduzem constantemente a vida da população, interferindo na saúde e em suas relações.
Em que medida a formação técnica incorpora a dimensão do planejamento urbano e dos princípios do Estatuto da Cidade para qualificar a leitura dos territórios?
Na formação técnica em saúde, especialmente para profissionais que atuam na Atenção Primária em Saúde (APS) e na Vigilância em Saúde, a territorialização organiza as ações de saúde buscando identificar populações e suas vulnerabilidades, equipamentos públicos, redes de apoio e de solidariedade existentes, os riscos e as características epidemiológicas.
Entretanto, nem sempre incorpora de forma sistemática conhecimentos sobre planejamento urbano, temas centrais do Estatuto da Cidade. Pode até incorporar alguns, como o saneamento e habitação, mas ainda de forma discreta e descritiva. A integração desses conteúdos qualifica a leitura do território ao permitir que o profissional compreenda como a organização do espaço urbano produz desigualdades em saúde.
A formação técnica dos profissionais de saúde, e de outros setores, deve se basear em propostas pedagógicas com centralidade: no território, para escutar as suas vozes e orientar as políticas públicas; na equidade, para identificar desigualdades territoriais e priorizar populações em vulnerabilidade social; no papel do apoio e da participação social e suas tecnologias democráticas; e na intersetorialidade para atuar de forma integrada com outros setores da administração pública.