Geopolítica na África e na América Latina

Seminário virtual da Rede Internacional de Educação de Técnicos em Saúde, promovido pela EPSJV, discutiu os dilemas, conflitos e perspectivas da geopolítica na região
Redação - EPSJV/Fiocruz | 29/10/2018 08h35 - Atualizado em 07/11/2018 10h02

‘Dilemas, conflitos e perspectivas geopolíticas na África e na América Latina’ foi o tema do 5º Seminário Virtual da Rede Internacional de Educação de Técnicos em Saúde, realizado no dia 24 de outubro, na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). O debate contou com a participação de Nildo Ouriques, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Beatriz Bissio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Sandra Quintela, coordenadora geral do Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs).

Nildo Ouriques destacou que é importante pensar a política interna brasileira na perspectiva latino-americana. “Ou articulamos uma dimensão latino-americana, ou não tem como fazer geopolítica em escala global. As articulações são regionais”, disse ele, acrescentando que geopolítica se faz sempre observando o futuro, mas com o olho no passado, conhecendo a nossa história e sabendo dos dramas do presente: “Mas tendo um horizonte de futuro, um horizonte utópico, mas uma utopia realizável, uma pátria grande, unida, soberana”, disse o professor.

Ele destacou que a elite brasileira, quando vai à Europa, fica em êxtase com a Comunidade Econômica Europeia (CEE), mas que é resistente quando se fala em uma grande pátria latino-americana. “Gostam de lá, mas quando é aqui, dizem que não vai dar certo. O Brasil não consegue romper com a tradição de subserviência à política imperialista”, disse Nildo. Para ele, a estratégia geopolítica para africanos e os povos latino-americanos tem que incluir um projeto emancipatório. Lembrando de diversas revoluções que ocorreram ao longo da história, como a chinesa, cubana, americana, francesa e inglesa, cada uma com suas características e objetivos diversos, o professor afirmou que é preciso pensar a revolução brasileira. “Não existe condições ideias para pensar a revolução, ela é uma imposição da realidade e aparece como uma exigência histórica, em geral, em tempos difíceis, quando não há alternativas e temos que fazer alguma coisa”, afirmou o professor.

Nova hegemonia

Beatriz destacou que, no momento atual, está havendo um deslocamento da hegemonia do Ocidente para o Oriente, capitaneado principalmente pela China. “Desde 2014, a China ultrapassou a economia dos Estados Unidos e, neste momento, há uma enorme agressividade dos americanos em relação a toda essa periferia da qual fazemos parte porque está em jogo o futuro do predomínio e do domínio americano em nível internacional”, disse a professora, lembrando que, desde 2005, China e a Rússia iniciaram uma aliança estratégica, com a realização de manobras militares conjuntas e, a partir daí, inúmeras cooperações econômicas, culturais e militares. “E a Europa, que está, há muitos anos, procurando sua identidade e um lugar ao sol, pode se associar nas próximas décadas mais abertamente ao grande projeto da China, fazendo uma interação euro-asiática”, completou ela.

A professora também ressaltou a questão da nova ordem informativa internacional, na qual, segundo ela, os meios de comunicação distorcem as relações internacionais, enquanto os fluxos informativos continuam a ser criados pelo hemisfério norte, enviesando a visão global a partir dessa ótica. “O diagnóstico sobre os meios de comunicação é um dos mais importantes temas do mundo contemporâneo. Estamos sentindo o que é ter uma imagem absolutamente distorcida da realidade, por uma mídia que esta reproduzindo a agenda dos países centrais e dedicada a destruir qualquer possibilidade de um projeto autônomo dos nossos países periféricos”, disse ela, acrescentando que à questão dos meios de comunicação tradicionais tem que se acrescentar as redes sociais: “Somente agora, no Brasil, começamos a perceber o quanto os setores conservadores tinham desenvolvido ferramentas para a utilização das redes sociais de forma profissional. Temos de pensar uma alternativa para a mídia e uma estratégia para as redes sociais. Sem isso, não temos nenhuma condição de fazer um debate que permita efetivamente consolidar um projeto transformador. Não podemos analisar a nossa inserção no mundo com as lentes do mundo desenvolvido porque não estamos no mesmo lugar”, observou Beatriz.

Ela lembrou ainda que um dos desafios que a África enfrentou depois de sua independência, foi reescrever sua história. “Antes, a história da África era escrita pelo colonizador e começava apenas com a chegada do colonizador”, disse a professora, acrescentando que, certa vez, uma de suas alunas fez a observação de que os livros didáticos no Brasil também começam a contar a história de nosso país a partir da chegada dos portugueses. “Está na hora de entendermos que a história do Brasil e da América Latina não começa com a chegada dos espanhóis e dos portugueses. Temos que revisar a nossa história para construir melhor nosso futuro”, concluiu.

Conjuntura atual

Sandra falou sobre a conjuntura atual, a nova configuração do Congresso Nacional, eleito no último dia 28 de outubro, e dos interesses que ele defenderá. “Nesta eleição, muitos caciques da política não foram reeleitos, nem seus filhos, mas, por outro lado, foi uma ‘renovação’ conservadora, com o chamado Congresso BBBB, do boi, da bala, do banco e da bíblia, que hoje tem ampla maioria”, disse ela, lembrando que um dos desafios desse novo congresso é a Emenda Constitucional 95, a PEC do teto dos gastos, que compromete investimentos em áreas importantes como saúde e educação. “Já existem cinco projetos para ‘emendar a emenda’, flexibilizando alguns gastos como saúde e educação”, observou Sandra.

Outra questão em pauta na conjuntura atual, apontada por Sandra, é a reforma trabalhista, que prevê a redução de direitos da classe trabalhadora. “Muitos trabalhadores estão sendo demitidos para assinarem novos contratos, com menos direitos. A discussão do trabalho não é a favor da classe trabalhadora. A tecnologia 4.0  coloca o avanço tecnológico no mundo do trabalho, o que significa desemprego e desmonte de alguma carreiras, como os bancários, por exemplo”, disse ela.

Para Sandra, há um enorme desafio a enfrentar e, passada a eleição, o Brasil terá um “terceiro turno” importante pela frente, independentemente de quem saiu vencedor nas urnas. “Temos que entender o que está acontecendo na sociedade brasileira hoje e nos armar com instrumentos de luta para enfrentar, voltar às bases, combater o analfabetismo político e apostar em abrir a cabeça para pensar a partir desses novos lugares, sem abandonar esse processo histórico que nos trouxe até aqui”, concluiu a coordenadora do Pacs.

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