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Pesquisadoras da EPSJV e ENSP apresentam resultados preliminares da pesquisa Gerânio no Canadá

Estudo internacional reúne equipes de quatro países para investigar a participação de mulheres nas decisões sobre a própria saúde em contextos de vulnerabilidade social
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 14/05/2026 11h32 - Atualizado em 14/05/2026 11h45

As pesquisadoras Monica Vieira, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), e Eliane Vianna, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), apresentaram os resultados preliminares da pesquisa internacional Gerânio, nos dias 23 e 24 de abril, no Centre de Recherche en Santé Durable (Vitam), em Québec, no Canadá. O centro de pesquisa é afiliado à Université Laval, instituição responsável pela coordenação geral do projeto, conduzida pelos pesquisadores France Légaré e Amédé Gogovor.

O encontro reuniu equipes de pesquisa do Brasil, Canadá, Senegal e Camarões para discutir os avanços do estudo, que investiga a participação das mulheres nas decisões relacionadas à própria saúde, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Para Monica Vieira, a participação da Fiocruz no estudo fortalece o compromisso da instituição com pesquisas voltadas às desigualdades sociais e às realidades vividas nos territórios. “Os resultados preliminares reforçam que as decisões em saúde não acontecem de forma isolada, mas são atravessadas pelas condições concretas de vida das mulheres, especialmente em contextos marcados pela violência, pela desigualdade e pela sobrecarga do cuidado”, afirma Monica.

Na sequência do encontro, nos dias 27 e 28 de abril, a equipe brasileira participou de reuniões estratégicas com a coordenação internacional para discutir os próximos passos do estudo, incluindo a etapa final da pesquisa no Rio de Janeiro, prevista para o início de 2027. Durante as atividades, Eliane Vianna apresentou a Terapia Comunitária Integrativa (TCI) como ferramenta de apoio à decisão compartilhada em saúde, voltada a usuárias e trabalhadores da saúde.

Já nos dias 29 e 30, Monica e Eliane integraram uma oficina de trabalho dedicada às práticas de decisão compartilhada e à pesquisa participativa com mulheres em situação de vulnerabilidade. O espaço promoveu debates sobre desafios comuns enfrentados em diferentes países, como dificuldades no recrutamento e na permanência de mulheres em pesquisas participativas, relações de poder nos processos investigativos, o papel das organizações comunitárias e estratégias de produção e disseminação do conhecimento voltadas às comunidades participantes.

A pesquisa

No Brasil, a pesquisa é desenvolvida no bairro de Manguinhos, na cidade do Rio de Janeiro (onde está localizada a Fiocruz), envolvendo mulheres usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) atendidas no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP) e profissionais da Atenção Primária à Saúde. Um dos diferenciais do projeto é a criação de um comitê gestor formado por usuárias e trabalhadores da saúde do território, contribuindo para orientar o estudo a partir das demandas concretas da comunidade e dos serviços. “Relatos coletados apontam que muitas mulheres enfrentam obstáculos concretos para participar das decisões sobre a própria saúde, como acesso limitado à informação, dificuldades de mobilidade, violência nos territórios e descontinuidade no cuidado. Profissionais de saúde também destacaram que, frequentemente, “não é escolher que é difícil, mas ter condições para escolher”, evidenciando a influência de fatores estruturais nas possibilidades de decisão”, aponta Eliane.

Segundo as pesquisadoras, a metodologia adotada pela pesquisa é participativa e envolve usuárias e trabalhadores da saúde em todas as etapas do processo investigativo. Entre as estratégias utilizadas estão oficinas coletivas, ferramentas de escuta compartilhada e o uso de materiais audiovisuais para fortalecer vínculos e reduzir desigualdades de poder entre pesquisadores e participantes.

Desdobramentos

Além da produção de dados científicos, o projeto prevê o desenvolvimento de uma plataforma digital multilíngue com materiais pedagógicos e ferramentas de apoio à decisão compartilhada em saúde, destinadas a mulheres e profissionais da área. 

A parceria entre Brasil e Canadá também resultou na publicação do artigo “Advancing shared decision-making toward social justice: insights into an intersectional and decolonial approach from a Brazil-Canada partnership”, na revista científica BMJ Evidence-Based Medicine. O trabalho discute como racismo, desigualdades sociais, violência e colonialidade impactam a participação de mulheres nas decisões em saúde, propondo abordagens interseccionais e decoloniais.

Como próximos passos, o projeto prevê a finalização das análises e a produção de materiais de disseminação científica, incluindo publicações acadêmicas e um vídeo educativo voltado às mulheres de Manguinhos e aos trabalhadores da saúde. O material, sobre decisão compartilhada em saúde, está sendo desenvolvido de forma participativa em parceria com o comitê gestor e a equipe de planejamento familiar do CSEGSF.