Projetos da EPSJV são aprovados em novo edital do Inova Fiocruz

‘Geração de Conhecimento – Covid-19 – Encomendas Estratégicas’ tem como foco o enfrentamento da pandemia e pós-pandemia do coronavírus
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 08/07/2020 16h27 - Atualizado em 09/07/2020 10h40

Três projetos de professores-pesquisadores da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) foram aprovados no edital ‘Geração de Conhecimento – Covid-19 – Encomendas Estratégicas’, do Programa Fiocruz de Fomento à Inovação, o Inova Fiocruz, que tem como objetivo incentivar a transferência para a sociedade do conhecimento gerado em todas as áreas de atuação da Fundação. Os cerca de 90 projetos selecionados, de diversas unidades da Fiocruz, têm como foco o enfrentamento da pandemia e pós-pandemia da Covid-19. Os projetos da EPSJV selecionados pelo edital englobam os temas: análise socioespacial de risco de incidência e mortalidade para o município do Rio de Janeiro; associação entre taxa de infecção por Covid-19 e exposição a curto prazo à poluição do ar; e investigação e apoio aos trabalhadores de saúde na pandemia.

O projeto ‘Covid-19 Rio: Uma análise socioespacial de risco de incidência e mortalidade para o município do Rio de Janeiro’, coordenado pelo professor-pesquisador da EPSJV, Raphael Guimarães, é um dos selecionados no edital. Segundo ele, a pandemia do novo coronavírus obrigou os formuladores de políticas públicas a mudar drasticamente as prioridades em saúde, desde a alocação de recursos materiais e humanos, até a identificação de vulnerabilidades sociais para o enfrentamento da nova emergência de saúde pública. “Notadamente, a estrutura populacional, o comportamento social e a espacialidade são bastante heterogêneas no município do Rio de Janeiro, que tem se mostrado potencialmente o novo epicentro da pandemia no Brasil, especialmente no que diz respeito aos casos graves e potencialmente fatais. Tem muita fragilidade envolvida”, destaca. Dessa forma, Raphael ressalta que é necessário identificar a história natural da doença no município, identificando áreas prioritárias de intervenção para prevenção primária e secundária no município. “Acredita-se que o uso das estatísticas públicas, através da aplicação de métodos estatísticos e espaciais possam contribuir nesse sentido”, afirma.

A partir desse contexto, Raphael destaca que o objetivo geral do projeto é descrever a história natural da Covid-19 e avaliar os efeitos individuais da estrutura populacional, como sexo e idade; e contextuais, como o comportamento social e a localização geográfica, no padrão da curva epidêmica e na mortalidade no município do Rio de Janeiro. O projeto de pesquisa conta com a parceria da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS/RJ). “Ao final da pesquisa, publicaremos os resultados em forma de artigos científicos e os dados ficarão com a SMS para definir estratégias de atuação”, conclui.

Covid-19 e poluição do ar

O projeto ‘Associação entre taxa de infecção por Covid-19 e exposição a curto prazo à poluição do ar: evidências em duas grandes cidades do Brasil’, coordenado pelo professor-pesquisador da EPSJV, Márcio Sacramento, tem o objetivo de avaliar a relação entre os casos diários confirmados de infecção e de óbitos e as concentrações de quatro poluentes do ar (Ozônio, Dióxido de Enxofre, PM 2,5 e PM10) nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. “O impacto inicial nas taxas de infecção pode estar relacionado a diferentes fatores comportamentais e ambientais de risco, como os altos índices de poluição atmosférica, por exemplo. Estudos são realizados para explorar fatores importantes que afetam a transmissão do SARS-CoV-2. Alguns sugerem que a poluição do ar é um fator de risco para infecção respiratória, tornando os patógenos mais invasivos e afetando a imunidade. É isso que vamos analisar na pesquisa”, explica Márcio.

Os quatro poluentes estudados, segundo ele, vêm, sobretudo, das indústrias e da queima de combustíveis fosseis. Além disso, dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) do Rio de Janeiro apontam que mais de 76% da poluição na cidade do Rio vem do trânsito. “Atualmente, os carros são os maiores inimigos do ar no Rio de Janeiro e em São Paulo”, afirma.

O projeto tem parceria com o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e com a Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), além de contar com a participação de outros pesquisadores da EPSJV. “Estão previstos no projeto a divulgação dos resultados em artigos científicos de acesso aberto e também uma devolutiva para as Secretarias Estaduais de Saúde do Rio de Janeiro e de São Paulo, além de reuniões com grupos de pesquisa da própria Fiocruz”, diz Márcio.

Projeto Respiro

Foi aprovado também o ‘Respiro – Projeto de investigação e apoio aos Trabalhadores de Saúde na pandemia: (co)movendo a vida entre (ultra)penosidades e (re)existências’, coordenado pela professora-pesquisadora da EPSJV, Monica Vieira, e pela pesquisadora Eliane Vianna, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Ele será desenvolvido em parceria com outros setores e laboratórios da Escola Politécnica e outras unidades da Fiocruz, como a Coordenação de Saúde do Trabalhador e o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). O estudo conta ainda com parceiros externos para investigar também as repercussões da Covid-19 em Portugal, Canadá e aspectos que se destacam em países da América Latina.

De acordo com Mônica, o estudo enfoca o sofrimento no trabalho em saúde e a atualização das penosidades por meio da análise das políticas de gestão e organização do trabalho; das condições de proteção e segurança do trabalhador; dos saberes e práticas ofertados e acionados; dos dispositivos de apoio; e das estratégias de enfrentamento acionados pela pandemia. “O projeto busca compreender os sentidos de vida e trabalho do profissional que atua na atenção básica e na assistência hospitalar, pelo mapeamento de suas narrativas e denúncias na mídia e redes sociais; o acompanhamento de seus processos de sofrimento e (re)existência; e a promoção de encontros para a construção de caminhos de escuta e intervenção”, explica.

Entre as diversas atividades que serão realizadas, o projeto propõe uma análise dos discursos publicados na mídia e nas redes sociais que identificam os desdobramentos das políticas sociais regressivas e de ajustes econômicos pré-Covid-19 no campo do trabalho em saúde; a análise das políticas e estratégias de gestão do trabalho e de denúncias que evidenciem a estigmatização de trabalhadores de saúde, além da identificação dos saberes e dispositivos acionados pelos trabalhadores da atenção básica e da assistência hospitalar para lidar com a pandemia. “Vamos realizar seminários virtuais e produzir podcasts com questões pertinentes ao trabalho em saúde na pandemia que fomentem a reflexão e o acolhimento dos trabalhadores da saúde”, acrescenta Mônica.

Uma dimensão do estudo está voltada para o acompanhamento mais próximo, aprofundado e sistemático junto aos trabalhadores que atuam na pandemia na Fiocruz. Essa etapa visa permitir que os trabalhadores reflitam sobre suas experiências, trajetórias e  valores, através da escuta e acolhimento dos testemunhos sobre as vivências associadas ao trabalho em saúde e com a Covid-19. As práticas integrativas em saúde são incorporadas como campo de estudo e como uma ferramenta de cuidado do projeto para serem acionadas na pandemia e pós pandemia.

Ao longo da pesquisa, a experiência coletiva do trabalho em saúde na pandemia será compartilhada por meio de uma plataforma digital chamada Respiro com sínteses analíticas, mapas interativos e conteúdos acolhedores e emancipadores para e com os trabalhadores da saúde.

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