‘Que tempos são esses?’

Marcada por homenagem a Marielle Franco, aula inaugural da EPSJV/Fiocruz apresentou espetáculo baseado na obra de Brecht
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 20/03/2018 15h59 - Atualizado em 17/04/2018 10h53

‘Que tempos são esses?’. A pergunta que tem sido feita por todo o país dá nome à peça de Bertolt Brecht, encenada pela Companhia Ensaio Aberto no dia 15 de março, marcando a abertura do Ano Letivo 2018 na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). O evento contou também com momentos de reflexão coletiva, denúncia e homenagem à vereadora Marielle Franco (Psol-RJ), morta a tiros com indícios de execução na noite do dia 14 de março, na Região Central do Rio de Janeiro. “Este é um momento de denúncia e de celebração. Porque, mesmo em meio a toda essa barbárie, nós estamos começando mais um ano letivo, nós continuamos nosso trabalho diário em defesa do SUS e da educação pública, nós continuamos disputando o Estado para as camadas mais necessitadas e para a classe trabalhadora como um todo. Porque, apesar de tudo isso, apesar, repito, da barbárie, nós resistimos”, discursou, emocionada, a diretora da EPSJV/Fiocruz, Anakeila Stauffer.

Anakeila ressaltou que a proposta de pela primeira vez fazer uma aula inaugural no formato de uma peça teatral se justifica, em primeiro lugar, porque a arte é, desde sempre, uma “ferramenta de resistência”. “A ideia de uma aula-teatro abrindo nosso ano letivo veio a partir de uma conversa com o Grêmio, num esforço que temos feito de ampliar o diálogo e a escuta aos estudantes e nos aproximarmos dos temas e da linguagem que são importantes e acessíveis a eles”, explicou.

Representando a presidência da Fiocruz, Cristina Guilam, coordenadora geral de Pós-Graduação da Fundação, deu boas vindas aos alunos e agradeceu a EPSJV por ser uma instituição que tem a capacidade de promover uma manifestação “criativa, bela e forte”. “Falem sobre as coisas que vocês estão vendo, conversem com seus amigos e pais para que todos compreendam esse momento difícil que estamos passando”, afirmou Cristina, muito emocionada, destacando a importância da discussão política para além da escola. “A gente deve pensar, refletir e agir sobre o que aconteceu com Marielle. Porque foi só um recado para o que ainda vai acontecer”, lamentou a representante do grêmio da Escola Politécnica, Ana Beatriz André, aluna do 2º ano do Ensino Médio, da habilitação de Análises Clínicas.

A peça

A peça ‘Que Tempos São Esses?’ não trata apenas da vida e da obra de Brecht (1898-1956) – um dramaturgo, poeta e encenador alemão que fez da arte uma importante ferramenta de conscientização no século 20. Na busca por um teatro engajado, “materialista e dialético”, a encenação traz recortes e fragmentos da luta política dos trabalhadores.

Na EPSJV, trabalhadores e estudantes ficaram concentrados, de pé, no meio do pátio circular, interagindo com os nove atores que faziam intervenções em pequenos grupos. Até que a atenção de todos voltou-se para um vídeo sobre a 1ª Guerra Mundial, que mostrava também a fome e miséria do povo, além de imagens da Revolução Russa. Em seguida, diversas esquetes foram apresentadas, com o público, em volta, sempre convidado a participar. Em uma delas, os atores encenaram o julgamento de Galileu Galilei, pela Inquisição Romana, para dar explicações a respeito de um livro que havia publicado um ano antes, intitulado 'Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo', defendendo o modelo heliocêntrico proposto pelo astrônomo Nicolau Copérnico, segundo o qual a Terra e os planetas giravam em torno do sol, e não o contrário. Em um trecho, o ator que interpreta o inquisidor questiona: “Não é mais provável que o criador saiba mais do que a criatura sobre a criação? Será mesmo necessário que o homem compreenda tudo?”.

Outra esquete, intitulada 'Primeiro de maio', falava sobre o movimento operário de 1886, na industrializada cidade de Chicago, nos Estados Unidos, onde milhares de trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho, entre elas a redução da jornada de trabalho de 13 para oito horas diárias. Chicago foi o cenário também de outra esquete, que reproduziu uma crônica de Eduardo Galeano intitulada ‘A desmemória’. O texto conta a história de alguém que chega à cidade e se espanta com o fato de não haver nenhum registro do movimento dos trabalhadores que teria inspirado o 1º de maio. “O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo”, diz o texto, cuja encenação terminou com um cartaz que dizia ‘Marielle, presente!’. No debate realizado após a pela, o ator Henrique Juliano contou que a vereadora disse uma vez ao diretor da Companhia, Luiz Fernando Lobo, que ela entrou para a política depois de assistir ‘A missa dos quilombos’, uma peça montada por eles que fala sobre trabalho escravo contemporâneo. ‘Marielle, presente!’ foi também o grito que encerrou a peça, puxado pelos atores e repetido pelo público.

Debate político

Segundo Henrique, a Companhia ainda não decidiu como incorporará ao seu trabalho a denúncia em relação ao caso Marielle. Afirma, porém, que continuará falando sobre os tempos sombrios que, segundo ele, foram marcados com a morte da vereadora. “O teatro político teve uma grande ruptura no início do século 20, com a 1ª Guerra Mundial, constatando que não se podia fazer teatro da mesma maneira, a partir do momento que pessoas são mortas em uma guerra de diversos países. A execução da quinta vereadora mais votada também não é algo qualquer, é um atentado à democracia. Já que nossa companhia foi importante para Marielle falar e fazer tudo que ela fez, que a gente consiga semear outras Marielles”, realçou. “Comecei a fazer teatro sob uma ditadura militar. Estou estarrecido em ver como as coisas estão caminhando para o mesmo lugar que eu achei que nessa vida não passaria de novo”, acrescentou outro ator, Gilberto Miranda.

Questionado sobre o motivo pelo qual a encenação pressupõe que o público fique de pé, acompanhando e interagindo com a peça, o ator João Raphael Alves afirmou que no teatro épico – herança da concepção de Brecht que a Companhia segue - há uma série de técnicas para desconstruir o teatro convencional. “Nesse espetáculo, a gente trabalha com uma dramaturgia não linear, sem a obrigação de seguir uma história com início, meio e fim. A gente gosta de tirar o público da passividade, fazê-lo procurar a cena e o sentido de cada coisa”, esclareceu.

Os atores foram questionados também sobre o fato de se referirem ao estudo da obra de Marx. As perguntas provocaram debate sobre as violências cometidas nas experiências do socialismo real e os limites das lutas em relação às liberdades individuais. João  ressaltou que, na sua avaliação, esses limites são políticos e têm que ser decididos pelo coletivo. “Sob meu ponto de vista, do jeito que o mundo está, não dá. Marx já questionava que esse limite não pode ser definido pelos mais ricos da sociedade. Eu queria ver a população brasileira decidir de fato o futuro do país, sem tirar quem ela própria eleja. O mais importante é quando uma sociedade pode libertar a todos. A liberdade individual só existe a partir da liberdade coletiva”, observou, destacando  que o autoritarismo que se viu em experiências como a do estalinismo na União Soviética se justifica, entre outras razões, pelo abandono desse caráter coletivo. A atriz Nady Oliveira acrescentou: “Precisamos de luta. Sem ela, a gente não sai do lugar. Precisamos de uma classe que seja capaz de dissolver todas as classes, porque só assim a gente consegue mudar esse jogo”.

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