“Mba'echapa? Porã!”. É com esse cumprimento da língua Guarani — que carrega em si a escuta, o cuidado e o desejo de bem viver — que a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) abriu suas portas para receber, nesta semana, os estudantes do Curso de Desenvolvimento Profissional de Educadores Populares Indígenas LGBTQIA+ em Saúde, Agroecologia e Direitos Humanos (Tekoporã). Após uma primeira etapa realizada entre os dias 16 e 22 de março. na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP), o Tekoporã seguiu, de 23 a 26 de março, na EPSJV, com diversas atividades. A formação é organizada pelo Coletivo LGBT do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em parceria com a Escola Politécnica e reúne jovens com idade entre 17 e 30 anos, que moram em territórios indígenas Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul.
Depois de uma chegada ao som de cantos e rezas indígenas, os jovens do curso foram recepcionados pela Direção da Escola Politécnica. Ao dar as boas-vindas, a diretora Anamaria Corbo apresentou a Fiocruz e a Escola, e falou sobre a importância da presença dos estudantes indígenas. “É muito importante essa troca, conhecermos a realidade de vocês para vermos de que forma, enquanto instituição pública, podemos estar juntos apoiando a luta e defendendo as questões que vocês trazem. A luta de vocês é uma luta integrada a outros povos indígenas, a outras comunidades e a outros territórios”, destacou.
Em seguida, Nhandesy Adelaide Lopes [“Nhandesy” significa "nossa mãe" ou "nossa terra" na língua Guarani, referindo-se também às líderes espirituais, rezadoras ou xamãs mulheres], e os representantes da Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá (Juind), Jessica Aquivel e Douglas Fernandes, que também fazem parte do curso, compartilharam experiências e vivências relacionadas à saúde em seus territórios.
Nhandesy Adelaide Lopes apontou algumas dificuldades sofridas pelos indígenas nos territórios. “Sofremos com faltas de medicamentos e de um atendimento melhor, além de maus tratos em hospitais, que causam morte”, lamentou. O papel de promotor de saúde, muitas vezes, é feito pelas anciãs: “Elas que fazem a reza, passam remédios tradicionais. E as pessoas melhoram e têm saúde por elas. Esses sabores tradicionais também formam os indígenas, que se fortalecem por eles”.
“Nós, jovens Guarani Kaiowá, jamais imaginávamos estar aqui ocupando esse espaço”, continuou Jéssica Aquivel. Ela falou sobre a Juind, que foi criada em 2022, após o assassinato de um jovem de 16 anos, Indígena LGBTI+ do povo Guarani Kaiowá. “O coletivo surge a partir disso. Nós nos unimos para pensar em como poderíamos nos fortalecer na nossa caminhada. Nós somos muito esquecidos e isso tem nos afetado enquanto juventude. Temos muitos casos de suicídio entre os jovens, não temos muito acesso a psicólogos e as ambulâncias, quando vão, sempre demoram horas para chegar”, disse.
Para fechar a roda de conversa e abrir ao debate com os participantes, Douglas Fernandes completou: “O coletivo foi criado para ser resistência e combater as violências dos nossos territórios, principalmente contra as mulheres e os rezadores, que ainda praticam a cultura tradicional e são perseguidos. As casas de reza são queimadas, jovens são ameaçados por serem indígenas e gays... Então, a Juind se organizou coletivamente para se fortalecer e para ajudar e acolher. Lutamos para que a nossa luta seja reconhecida”.
Na parte da tarde, os estudantes participaram de atividades de Práticas Laboratoriais em Saúde e das oficinas de Soberania Alimentar e Saúde; Plano de Saneamento Indígena; e Jogos Educativos sobre Agroecologia.
Seminário
Na terça-feira, dia 24, aconteceu o Seminário “Direito a Saúde e o Bem Viver (Tekoporã) para LGBTQIA+ Indígenas”, com a presença de Alessandro Santos Mariano, representante do Projeto Bem Viver+ pela Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania; Nhandessy Adelaide Lopes, rezadora Guara-Kaiowá; Gualoy Kaiowá, representante da Juventude Indígena da Diversidade Guarani Kaiowá (Juind); e Ana Claudia Vasconcellos, professora-pesquisadora da EPSJV/Fiocruz.
Ao abrir o evento, representando a Direção da Escola Politécnica, Geandro Pinheiro, integrante do coletivo da Vice-Direção de Gestão e Desenvolvimento Institucional, deu as boas-vindas aos estudantes e destacou a importância da iniciativa. “A Escola tem um longo trabalho nos territórios indígenas e com os movimentos sociais. E é muito importante ver a possibilidade de trazer um conjunto de pessoas que compõem um extrato da sociedade que é, muitas vezes, invisibilizado como povo indígena, população LGBTQIA+, educador popular... A lógica do Tekoporã nos faz reafirmar essa concepção ampliada de saúde, que é geradora dessa escola, da Fiocruz e do SUS. Não o SUS que se pensa apenas pela lógica do serviço, mas um SUS que sempre se pensou no projeto de Reforma Sanitária como projeto de bem viver e civilizatório que se perdeu no tempo”, destacou.
Na abertura da mesa de debate, Alessandro Santos Mariano reforçou o caráter articulador do encontro. Para ele, o evento conecta diferentes lutas e amplia o debate sobre a saúde indígena no país. “Estar na EPSJV é importante não apenas para os povos indígenas, mas para que o Brasil pense essa dimensão da saúde”, afirmou. Alessandro também destacou o significado da formação politécnica. “Politecnia é, antes de tudo, uma forma de se relacionar com a vida. É pensar uma educação conectada às necessidades do povo, uma formação integral que considera a totalidade da existência”, disse, em seguida, apresentando o Programa Bem Viver+.
Ana Claudia Vasconcellos destacou os impactos do garimpo de ouro sobre a saúde indígena, apontando seu caráter profundamente destrutivo. Segundo ela, a atividade provoca desmatamento, polui os rios e altera drasticamente o equilíbrio dos territórios. “Onde há garimpo, há remoção de árvores, os rios ficam turvos e contaminados, e os animais de grande porte fogem por causa do barulho das máquinas”, explicou. Ela também chamou atenção para o uso do mercúrio no processo de extração, substância altamente tóxica que contamina a água e os peixes, afetando diretamente a saúde das populações. “O mercúrio é um veneno. Ele contamina os rios, os peixes e, consequentemente, as pessoas que dependem dessa alimentação. Eu investigo os efeitos do mercúrio em diversos povos, como os Munduruku (PA) e Yanomami (RR/AM), para tentar contribuir com a luta indígena em defesa dos seus direitos constitucionais”, afirmou.
Nhandessy Adelaide Lopes e Gualoy Kaiowá compartilharam aspectos da realidade vivida nos territórios indígenas, marcada por profundas transformações ambientais e impactos diretos na saúde das comunidades. Em sua fala, Nhandessy Adelaide destacou a perda de condições tradicionais de cuidado e sobrevivência. “Antigamente, não precisávamos de hospitais. Tínhamos os remédios tradicionais e as nossas rezadoras, que nos abençoavam e curavam. Hoje, não temos mais florestas, nossas águas estão contaminadas e não há onde buscar água limpa. Nosso corpo tem ingerido água poluída. O agronegócio contamina nossas nascentes, destrói nossas matas e, com isso, a gente acaba padecendo também, porque sobrevivemos daquilo”, afirmou.
Nhandessy Adelaide ressaltou ainda a permanência dos saberes e práticas tradicionais como forma de fortalecimento coletivo. “Mesmo perdendo tantas coisas na nossa vida, a gente não deixa o nosso modo de ser, nossa cultura, nossas rezas. É assim que temos nos fortalecido cada vez mais.” Ao final, fez um apelo por apoio e reconhecimento: “Olhem para a gente, nos ajudem. A terra pode estar devastada por cima, mas nós a queremos do mesmo jeito, para que possamos fazê-la florescer novamente. Nos ajudem a vencer os desafios das nossas vidas”.
Gualoy Kaiowá deu continuidade ao debate ao destacar a situação vivida por seu povo. “Os Guarani Kaiowá formam um dos maiores povos indígenas do Brasil e têm um histórico marcado por vulnerabilidades sociais e territoriais, que impactam diretamente as condições de vida, saúde e bem-estar”, afirmou. Segundo ele, a luta pela terra é central nesse contexto e se arrasta há décadas, muitas vezes sem o devido reconhecimento do poder público. “Ao longo do tempo, nosso povo tem denunciado essa situação e lutado por seus territórios. Mas, frequentemente, essas áreas são abandonadas pelo governo, pelos estados e pelos poderes Legislativo e Judiciário, que não avançam na demarcação das terras indígenas”, disse. No Mato Grosso do Sul, explicou, grande parte das comunidades vive em territórios reduzidos, fragmentados ou ainda não demarcados. “Esse processo compromete diretamente nossos modos de vida tradicionais, apaga a nossa cultura e dificulta o acesso a alimentação baseada na caça, pesca e cultivo que resulta em insegurança alimentar e alto índice de desnutrição”, concluiu.
Para finalizar a visita ao Rio de Janeiro, os estudantes conheceram as instalações da Fiocruz, incluindo o Museu da Vida e o Castelo Mourisco; e ainda fizeram um passeio ao Cristo Redentor.
Assista ao seminário completo em https://www.youtube.com/watch?v=kuvBxT6xQjY