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Entrevista: 
Maurício Monken

'Planejamento urbano e planejamento em saúde estão diretamente interligados'

O professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Maurício Monken discute o papel dos conceitos de território e territorialização na Atenção Primária e na formação dos trabalhadores do SUS. Em diálogo com uma concepção de território desenvolvida pelo geógrafo Milton Santos, Monken reforça que mais do que uma descrição de como as cidades são ocupadas e organizadas, o território é também resultado das relações sociais, dos modos de apropriação da cidade e das disputas que definem quem pode acessar seus recursos e serviços. Uma dimensão política que aproxima a territorialização na saúde do planejamento urbano.
André Antunes - EPSJV/Fiocruz | 27/10/2026 11h24 - Atualizado em 27/10/2026 11h34

Em sua avaliação, o planejamento urbano e o planejamento em saúde dialogam no Brasil?

Sim, pelo menos em seu escopo de atuação, mas [esse planejamento] ainda é limitado e feito frequentemente de forma fragmentada. Pela Constituição Federal de 1988, o SUS e a política urbana compartilham princípios como a promoção da qualidade de vida, da equidade e da participação social, mas na prática essas políticas costumam ser elaboradas e executadas por setores diferentes e com pouca integração.

O conceito de território pode contribuir na aproximação entre essas políticas. Ele é o elemento integrador da atuação dos setores da gestão pública, pois a realidade social não se dá de forma separada. Essa separação é a forma como se organiza a ação da gestão pública, mas isso acaba tendo efeitos ruins. Planejamento urbano e planejamento em saúde estão diretamente interligados, no sentido de que a estrutura de uma cidade determina as condições de vida e os níveis de adoecimento da sua população.

O planejamento urbano influencia diretamente os determinantes sociais da saúde, como habitação, saneamento básico, mobilidade, entre outros. A APS, por sua vez, especialmente através da Estratégia Saúde da Família e da Vigilância em Saúde, conhece de perto os problemas e as potencialidades dos territórios e pode fornecer informações importantes para o planejamento das cidades.

Na prática da Atenção Primária, de que maneira o processo de territorialização permite identificar como a organização do espaço urbano influencia as condições de saúde e orientar o cuidado?

A territorialização na APS, na Vigilância em Saúde e o planejamento urbano orientado pelo Estatuto da Cidade compartilham uma premissa fundamental, que é o território. Mas ele está muito além de se referir apenas a um recorte espacial. Para as ciências humanas, trata-se de um fenômeno social que se caracteriza pela ocupação de pessoas e grupos sociais convivendo numa dinâmica de interação social com diferentes contextos de uso e apropriação dos espaços.

Ele carrega consigo a inteligência social do conjunto da sociedade, tornando-se um elemento importante para a participação popular, a emancipação e autonomia de populações vulnerabilizadas, que é crucial para organizar as ações de saúde e intervenções urbanas de promoção de melhorias nas condições de vida. 
Colocar em prática a pedagogia do território para elaborar propostas de intervenção possibilita analisar o contexto de construção dos processos sociais que produzem e reproduzem constantemente a vida da população, interferindo na saúde e em suas relações.

Em que medida a formação técnica incorpora a dimensão do planejamento urbano e dos princípios do Estatuto da Cidade para qualificar a leitura dos territórios?

Na formação técnica em saúde, especialmente para profissionais que atuam na Atenção Primária em Saúde (APS) e na Vigilância em Saúde, a territorialização organiza as ações de saúde buscando identificar populações e suas vulnerabilidades, equipamentos públicos, redes de apoio e de solidariedade existentes, os riscos e as características epidemiológicas.

Entretanto, nem sempre incorpora de forma sistemática conhecimentos sobre planejamento urbano, temas centrais do Estatuto da Cidade. Pode até incorporar alguns, como o saneamento e habitação, mas ainda de forma discreta e descritiva. A integração desses conteúdos qualifica a leitura do território ao permitir que o profissional compreenda como a organização do espaço urbano produz desigualdades em saúde.

A formação técnica dos profissionais de saúde, e de outros setores, deve se basear em propostas pedagógicas com centralidade: no território, para escutar as suas vozes e orientar as políticas públicas; na equidade, para identificar desigualdades territoriais e priorizar populações em vulnerabilidade social; no papel do apoio e da participação social e suas tecnologias democráticas; e na intersetorialidade para atuar de forma integrada com outros setores da administração pública.

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