Observatório na Mídia

10/08/2016 09h33 - Atualizado em 10/08/2016 09h39

Análise

por: Marco Antônio Santos (professor-pesquisador da EPSJV/Fiocruz)

O "partido" das fundações empresariais que atuam na educação

A imprensa brasileira divulgou com destaque, em 2 de agosto do corrente,  os 25 anos da Fundação Educar uma criação de Jorge Paulo Lemann, o maior bilionário do Brasil segundo a revista Forbes. Dono de um patrimônio de 105,2 bilhões de reais, segundo matéria da mesma revista (1/7/16), Lemann declarou na comemoração do aniversário da fundação: “Passei a vida fugindo da política. E acho isso errado. Os jovens que têm vocação têm que agarrar a oportunidade. É isso que fará diferença no Brasil”.

Voltada para a formação de nível superior, a fundação já concedeu mais de 600 bolsas de estudo para cursos de graduação e pós-graduação. Lemann afirmou no seu discurso que um dos seus sonhos é que algum dos ex-bolsistas venha a se tornar presidente da República e que “possa levar um bando [de outros ex-bolsistas] para ajudar a melhorar o Brasil”, o que, segundo ele, significa levar ao governo valores como meritocracia, pragmatismo e eficiência. Segundo o bilionário “ética, pragmatismo e meritocracia fazem falta no Brasil”. A fundação é um projeto com metas ambiciosas, referências claras a valores e com recursos previstos para 2016 da ordem de R$15 milhões.

Na mesma ocasião o ministro do STF, Luis Roberto Barroso, defendeu uma reestruturação do financiamento do ensino superior no Brasil: “Precisamos de um modelo alternativo de ensino superior, uma universidade que aprenda a se autofinanciar. Que seja pública nos propósitos, e privada no financiamento”.

O interesse de Lemann pela educação foi declarado em várias ocasiões. A revista Exame, por exemplo, publicou as seguintes palavras de Lemann: “no final das contas, sou um professor. É assim que realmente me vejo”. Talvez por isso o investidor tenha adquirido três redes de escolas – Elite e Ponto de Ensino, do Rio de Janeiro, e Colegium, de Minas Gerais. As escolas deram origem, segundo a revista Exame, à holding Eleva Educação que visa chegar a 50 mil alunos matriculados em 2018. Além disso, Lemann mantém, em Stanford, na Califórnia, o Lemann Center, centro de estudos sobre problemas da educação no Brasil.

A Fundação Educar é parte do esforço dos empresários brasileiros no sentido de influenciar diretamente na educação em todos os níveis. A ela se juntam a Fundação Lemann - criada em 2002 com o objetivo de melhorar a qualidade da educação pública no Brasil através de diversos projetos e investindo em inovações educacionais -, a Fundação Roberto Marinho, além de um sem número de outras fundações e institutos. Dois movimentos se destacam neste cenário: “Todos pela Educação” e mais recentemente, o Movimento pela Base Nacional Comum que reúne entre os seus fundadores entidades como Fundação Lemann, Fundação Roberto Marinho, Instituto Ayrton Senna e Instituto Unibanco. Os valores que tais entidades e movimentos defendem são basicamente os mesmos -  empreendedorismo e meritocracia – e contam, para difundí-los e defendê-los, com uma sólida base parlamentar, com entidades e recursos financeiros.

Neste sentido, atuam como um verdadeiro partido: com programa, metas, estruturas de sustentação, lideranças. Por isso parece irônico um movimento como o “Escola sem partido”. O pronunciamento de Lemann sobre achar errado fugir da política é, no mínimo, curioso na medida em que, num momento de crise política, afirma a necessidade de “agarrar a oportunidade”, o que deve ser feito pelos “jovens que têm vocação”, isto é, pelos empreendedores como os “Lemann Fellows” ou os grupos de “Líderes de Alto Impacto”, a que se refere o relatório de 2015 da Fundação Leman, preparados pelos programas dirigidos pelos empresários para a formação de líderes. Para esses cabe uma formação sólida, proporcionada em universidades como Harvard e Stanford, diferente, evidentemente, da escola pública brasileira para a qual faltam recursos de toda ordem. Talvez venhamos a ouvir algo semelhante ao que disse o ministro na festa da Fundação Educar: que ela deve ser pública nos propósitos, e privada no financiamento. Talvez alguns já considerem, como se disse sobre o SUS, que também a educação não caiba mais no orçamento do país.

Passei a vida toda fugindo de política, conta Lemann

Homem mais rico do Brasil, o empresário Jorge Paulo Lemann acredita que a atual situação do Brasil abre uma oportunidade para que os jovens ingressem na política. "Eu passei a vida toda fugindo de política. E acho isso errado. Os jovens que têm vocação têm que agarrar a oportunidade. É isso que fará diferença no Brasil", disse o executivo, ontem, durante a reunião anual da Fundação Estudar, criada por Lemann e seus sócios Marcel Telles e Beto Sicupira.

A Fundação, que completa 25 anos, já concedeu mais de 600 bolsas de estudo no exterior. Do orçamento de R$ 15 milhões previsto para este ano, 30% virão das empresas mantenedoras (Ambev, BTG e consultoria Falconi), 25% dos jovens que pagam por cursos, 19% de empresas, 11% de receita financeira e o restante de ex-bolsistas e pessoas físicas, informou Tiago Mitraud, diretor executivo da Fundação. (...)

 

 

 

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Gustavo Brigatto, Valor Econômico, 01/08/2016
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