No meio da pandemia, tinha um quilombo

Falta de dados e de políticas sociais antes e durante a pandemia mostram vulnerabilidade das comunidades de descendentes de escravos no Brasil em relação à Covid-19
Cátia Guimarães - EPSJV/Fiocruz | 17/11/2020 13h13 - Atualizado em 18/11/2020 11h57
Vrin Resende/Mídia Ninja Foto: Vrin Resende/Mídia Ninja

“Em relação aos quilombolas, não há dado nenhum”. A denúncia é de Givânia Silva, pesquisadora e militante que integra a Coordenação Nacional das Comunidades Negras Quilombolas (Conaq), referindo-se às informações sobre contaminação e morte por Covid-19 entre as populações negras que vivem nos mais de 400 territórios oficialmente reconhecidos como quilombos no país. Em meio a uma pandemia que rapidamente se interiorizou, a solução foi produzir uma espécie de ‘sistema de informação paralelo’. Foi assim que a Conaq, em parceria com suas representações estaduais e com o Instituto de Saúde Ambiental (ISA), criou o Observatório da Covid-19 nos Quilombos. “Tanto as secretarias de saúde como o próprio Ministério da Saúde têm negligenciado uma atenção específica em relação às comunidades negras”, diz o texto de apresentação do Observatório, indicando que, além da subnotificação, o acompanhamento feito por moradores apontou também outros problemas, como as dificuldades de pessoas com sintoma fazerem exame. “Sabe aquilo que diz: testou um, [deu positivo], isola e vai testar os outros? Então, não é verdade. Esse protocolo não é real, pelo menos nos casos que a gente tem acompanhado”, detalha Givânia.

São variadas, inclusive, as condições de acesso aos serviços de saúde. Por isso, o Observatório também sistematizou as informações oficiais sobre a disponibilidade de hospitais, com ou sem Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), em cada estado e município que tem quilombo no Brasil. “No mundo real nem todas as comunidades quilombolas acessam com regularidade e sistematicamente os serviços de saúde”, lamenta Givânia, que completa: “A pergunta não é o que a pandemia trouxe mas como estavam os quilombos quando a pandemia chegou”.

Vrin Resende/Mídia NinjaDe todo modo, os dados do Observatório ajudam a dar visibilidade ao impacto da Covid-19 sobre essas populações: até 17 de outubro, 167 quilombolas tinham morrido pela doença, mais de 4,6 mil tinham sido contaminados e outros 1,2 mil estavam sendo monitorados. O estado com maior número de óbitos foi o Pará, totalizando 46 em comunidades espalhadas por 18 municípios. No segundo lugar do ranking vem o Rio de Janeiro, com 37, mas aqui o que se destaca é a situação da capital que, sozinha, concentrou 30 mortes. “No caso de regiões de turismo, os casos se propagam mais rápido”, explica Givânia, relatando que, em muitos casos, as comunidades tentaram forçar o isolamento, criando inclusive barreiras físicas, mas sem muita autonomia em relação aos governos municipal e estadual. Além disso, diferente do perfil mais comum dessas comunidades no país, a cidade do Rio de Janeiro concentra quilombos urbanos, que podem reproduzir também condições de moradia que facilitam a disseminação do vírus.

"Quando morre uma mulher quilombola, morre uma história, uma história que não está escrita nos livros. É a história da memória que vai com aquele corpo"
Givânia Silva

Mas se a aglomeração não é propriamente um problema da maioria dos quilombos brasileiros, que ficam em áreas rurais, outras carências, como a dificuldade de acesso à água e a produtos como álcool gel, por exemplo, sacrificam essa parcela da população negra tanto ou mais do que aquela que vive nas periferias das cidades, impedindo os cuidados de higienização necessários à proteção contra a Covid-19. “Não chega encanamento, não chega água, não chega energia de qualidade, internet muito menos”, resume Givânia lembrando também a dificuldade que as famílias vêm enfrentando para acompanhar novidades como o ensino remoto.

Com formatos distintos, a mobilização social dessas comunidades pela própria sobrevivência tem sido um marco desse período, segundo Givânia. O próprio monitoramento do território, que permite a alimentação dos dados do Observatório, é um exemplo desse tipo de ação. Mas houve também outros tipos de organização, como a produção de sabão e busca de doações que reduzissem o deslocamento dos quilombolas das áreas rurais para as cidades. “Temos muitos exemplos de medidas que deveriam ser políticas públicas, mas que, como não existem essas políticas, foram tomadas pelas próprias comunidades”, conta, e conclui: “Estamos operando com um mecanismo de defesa porque quando morre uma mulher quilombola, morre uma história, uma história que não está escrita nos livros. É a história da memória que vai com aquele corpo”.

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