O outro lado da cidade modelo

Toxic tour mostra para participantes da Rio+20 contradiçõesdo atual modelo de desenvolvimento na cidade maravilhosa.



Raquel júnia - EPSJV/FiocruzSeu Francisco saiu de casa para
olhar o movimento. Ficou curioso com tanta gente que desceu de um ônibus, quase
todos com câmeras à mão e muitos falando outros idiomas. Perguntou o que estava
acontecendo e explicaram a ele que os "turistas" eram pessoas de diversos
países e do Brasil, jornalistas, pesquisadores e ativistas que estavam no Rio
de Janeiro por ocasião da Rio+20 e foram conhecer de perto os impactos da
siderúrgica TKCSA [Thyssenkrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico] no bairro
de Santa Cruz, na zona oeste da capital carioca. "É um perigoso isso aqui",
comentou Seu Francisco, sobre a presença da empresa no local.



 



Seu Francisco, que mora no bairro há 60 anos, viu o local
mudar muito com a chegada da TKCSA. Assim como ele, milhares de pessoas,
estima-se que 20 mil, sintam os impactos da empresa na vida cotidiana,
sobretudo nos últimos dois anos quando começaram as atividades da siderúrgica e
uma "chuva de prata" começou a cair em cima das roupas no varal, das plantas e
passou a fazer parte do ar respirado pelas pessoas. A visita à Santa Cruz foi
um dos destinos do Rio+Tóxico, atividade organizada durante a Cúpula dos Povos
na Rio+20, entre os dias 15 e 17 de junho, para denunciar os prejuízos de grandes empreendimentos ao meio
ambiente e às populações, sobretudo as mais pobres, marginalizadas e comunidades tradicionais. Outro destino que recebeu visitantes foi a cidade de
Magé, onde pescadores tiveram que deixar o trabalho por conta de
empreendimentos da Petrobrás, além de contaminação da Baía de Guanabara e,
inclusive, sofrem ameaças de morte por protestarem e denunciarem a ação da
empresa pública. Também fizeram parte do tour a região de Duque de Caixas, com
a visita à refinaria Reduc, à Área de Proteção Ambiental São Bento, ao aterro
de Jardim Gramacho - o maior do mundo e recentemente desativado - e o local
conhecido com Cidade dos Meninos, onde há contaminação por resíduos de inseticidas
abandonados. Os visitantes ainda puderam conhecer a Baía de Sepetiba - que
também banha Santa Cruz, e é impactada pela TKCSA e outros empreendimentos
anteriores, que deixaram por lá um grave passivo ambiental. (Aguarde a
cobertura completa na Revista Poli - julho/agosto).



 



Na saída para o primeiro dos destinos - Santa Cruz -
Carlos Tautz, do Instituto Mais Democracia, explicou que a escolha do local de
concentração para saída dos ônibus rumo aos locais impactados não foi feita ao
acaso. "Escolhemos nos concentrar em frente ao BNDES [Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social] para denunciar que este banco público,
estatal, financia todos estes projetos. O banco está completando 60 anos, mas
hão faz jus a esta idade. Apesar de ter o dobro do orçamento do Banco Mundial,
financia os piores projetos no Brasil e também na América Latina e agora, na
Rio +20, se apresenta como um dos grandes financiadores do capitalismo verde",
afirmou.



 



Raquel júnia - EPSJV/FiocruzTKCSA



 



A viagem até Santa Cruz demorou cerca de uma hora. Miguel
Trentin, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), um dos
organizadores do Toxic Tour, explicou que este tempo dobra em dias úteis. A
fumaça dos alto-fornos da siderúrgica já pôde ser vista assim que o ônibus
chegou ao bairro. A comitiva avançou o mais próximo possível da TKCSA, um dos
portões de entrada da empresa, onde um carro da segurança particular estava
estacionado. Os visitantes fotografaram e filmaram a siderúrgica e também foram
fotografados por um dos seguranças. Em seguida, os moradores organizaram uma
recepção em um salão de festas para relatarem os impactos sofridos. Nas
paredes, cartazes de protesto contra a presença da TKCSA na região e várias
fotos das evidências do impacto - como uma criança com problemas de pele e a
concentração do pó prateado nas folhas das plantas.



 



Jacir do Nascimento, ex- pescador, relatou, muito
emocionado, o que vem acontecendo desde que a empresa se instalou em Santa
Cruz. "Não podemos mais tirar o nosso sustento da Baía de Sepetiba, temos que
procurar um outro modo de viver para levar o sustento para dentro de casa, eu
estou trabalhando como servente de obra, e fazendo um biscate ali e aqui. A
TKCSA acabou com nossos peixes na Baía de Sepetiba. A mesma coisa que nós aqui
na terra estamos sentindo na pele com a poluição, o peixe também está sentindo
dentro do mar. Os nossos governantes aceitaram essa empresa aqui, tentaram se
instalar em vários outros locais e não conseguiram, e vieram se implantar aqui,
em cima da gente, disseram que não havia moradores perto de onde a empresa
seria implantada, o que não é verdade", contou.



 



Jacir do Nascimento teve que deixar a pesca. Raquel júnia - EPSJV/FiocruzJacir acrescentou que antes da instalação da empresa foi
feita uma reunião com os moradores. Na ocasião, eles se posicionaram contra o
empreendimento, entretanto, de acordo com ele, foi levado para a Alemanha, sede
da siderúrgica, um posicionamento diferente segundo o qual os moradores de
Santa Cruz não estavam apresentando resistência à TKCSA. Ainda segundo Jacir,
fotos do bairro foram tiradas de forma a mostrar as partes menos habitadas para
tentar referendar o argumento de que não haveria impactos significativos aos
moradores. "Isso foi fraude deles. Agora estamos passando esse perrengue aqui,
minha vista tem ardência o tempo todo, essa coceira na pele. Eu com um pulmão
só, pescador, com 58 anos de idade, não estou agüentando isso aqui não. E as
crianças, como ficam? Quem já tem bronquite não agüenta", protestou.



 



Moradores de Santa Cruz fundaram recentemente a
Articulação da População Atingida pela Companhia Siderúrgica do Atlântico e,
junto a pesquisadores e entidades que os apóiam, têm feito diversas ações de
denúncia. Os participantes do tour receberam uma lembrancinha: um pequeno vidro
com uma amostra do pó emitido pela siderúrgica. E também foi distribuído o primeiro
informativo feito pelos moradores chamado "Alô TKCSA!".



 



Moradores relatam aos  jornalistas problemas de saúde em decorrência da siderúrgica. Raquel Júnia - EPSJV/FiocruzPara Fernando Costa, da Rede Brasileira de
Justiça Ambiental, também presente no Toxic Tour, a instalação da TKCSA em
Santa Cruz é um típico caso dos negócios fechados entre as empresas e os governos
sem levar em conta os direitos básicos das populações. "Aqui nós vemos um caso
típico de injustiça ambiental que acontece em vários locais do mundo, uma
comunidade que não foi consultada, que está sofrendo os impactos. Eles estão
resistindo, mas a empresa tem muito mais força, está junto com o governo.
Existe uma captura corporativa, uma relação promíscua das grandes corporações
com os governos e é isso que estamos vendo aqui. As opções do governo não são
mais para defender o povo, mas entregá-los para essas iniciativas".

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