Pesquisadora da Escola Politécnica participa de estudo que aponta níveis elevados de mercúrio em crianças e mulheres indígenas

Nas aldeias de Maturacá e Ariabu, 56% dos ianomâmis apresentaram índice do metal acima do limite estabelecido pela OMS
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 16/08/2019 10h16 - Atualizado em 25/10/2019 14h52

São 9,6 milhões de hectares entre os estados de Amazonas e Roraima em uma região rica em minérios. Nela, vivem cerca de 26 mil indígenas ianomâmis que têm sido altamente impactados pela presença de garimpeiros ilegais. Recentemente, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) chamou atenção para os dados preliminares de uma pesquisa inédita que revela a contaminação por mercúrio em mulheres e crianças, das aldeias de Maturacá e Ariabu, localizadas na Região de Maturacá no estado do Amazonas. De acordo com o estudo que analisou amostras de cabelo de quase 300 indivíduos, 56% dos indígenas apresentaram concentrações de mercúrio acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 2 microgramas por grama (ou ppm). Em 4% da população analisada havia concentrações acima de 6 microgramas por grama, considerado o limite para o surgimento de efeitos adversos à saúde. A partir dessa concentração de mercúrio no cabelo, aumentam as chances de surgirem danos neurológicos graves.

Os resultados desta pesquisa foram apresentados à comunidade indígena no final de julho de 2019, em cumprimento ao acordo firmado entre a coordenação do projeto e às lideranças locais. Este estudo para avaliação da exposição dos ianomâmis ao mercúrio foi um pedido dos próprias lideranças locais, que já desconfiavam da contaminação dos moradores dessa região devido à proximidade aos pontos de garimpo de ouro. A pesquisa é coordenada pelo pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), Paulo Basta, e contou com uma equipe multidisciplinar da Fiocruz e com a parceria da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai) e do Instituto Evandro Chagas (IEC).

Especialista em mercúrio, a professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Ana Claudia Vasconcellos integrou a equipe do estudo e foi a campo durante o mês de fevereiro de 2019. “Aplicamos um questionário e obtivemos informações sobre o histórico de doenças da família, sobre a alimentação das crianças, das mães, de todos em uma maneira geral. Nessas visitas também coletamos as amostras de cabelo, que após serem armazenadas e identificadas, foram encaminhadas para o laboratório de Toxicologia, do Instituto Evandro Chagas”, conta.

E os resultados foram preocupantes. Das amostras de cabelo analisadas, provenientes de 134 mulheres adultas e 144 crianças, as concentrações de mercúrio variaram de 0,08 a 13,87 microgramas por grama (ou ppm). Este valor máximo foi detectado em uma amostra de cabelo de uma criança de apenas três anos. Tal concentração representa cerca de sete vezes mais mercúrio que o limite preconizado pela OMS (2,0 ppm) e o dobro da concentração limite para o surgimento de efeitos adversos à saúde (6,0 ppm). “No caso de crianças pequenas, de meses a três anos, por exemplo, a exposição ao mercúrio pode estar associada ao consumo de leite materno (que também pode conter mercúrio caso a mãe se alimente de peixes contaminados), mas também pode ser reflexo da exposição intrauterina”, aponta.

No organismo humano, o principal alvo de atuação do mercúrio presente nos peixes ou em outros organismos aquáticos é o sistema nervoso central. “Em grávidas, essa substância ultrapassa a placenta e o risco é muito maior para o feto, que ainda está em formação. O cérebro do feto é muito mais sensível ao mercúrio e pode comprometer a cognição. Essa criança pode ficar com a inteligência comprometida para o resto da vida, ter danos ou perda de visão, da audição e até mesmo na parte motora”, alerta.

Apesar dos altas concentrações de mercúrio encontradas na comunidade, Ana Claudia ressalta que existem outros fatores de risco que podem provocar atrasos cognitivos. “Em Maturacá [AM], mais de 80% das crianças sofrem de desnutrição, que é outro fator que pode provocar perda cognitiva. Então, não é tão simples dizer que aquele desfecho na saúde é com certeza por conta da exposição ao mercúrio. Mas, nesse cenário, nós podemos afirmar que o mercúrio é perigoso, que existe a possibilidade dele provocar perda cognitiva e das funções motoras, auditivas e visuais nas crianças e nos adultos”.

Relação do mercúrio com o garimpo

Ana Claudia explica que o mercúrio usado no garimpo está em seu estado elementar, como o mercúrio líquido prateado presente nos termômetros, por exemplo. Na região Amazônica, segundo ela, o ouro geralmente está em partículas finas e, para facilitar a retirada do leito do rio, os garimpeiros jogam o mercúrio. “Isso porque, por ter afinidade, o mercúrio e o ouro formam uma pedra maior, chamada amálgama, facilitando a extração”, afirma.

Só que o mercúrio elementar, por suas propriedades físico-químicas, não é muito tóxico para o organismo humano caso será ingerido diretamente, destaca a pesquisadora: “Tem histórias de garimpeiros que bebem o mercúrio para mostrar que não acontece nada. Mas, na verdade, grande parte do que ele ingere, é eliminado. A priori não é uma forma tão grave de contaminação”. No caso do mercúrio elementar, a via de exposição que mais representa risco à saúde humana é a inalação de seus vapores, que atingem o sistema nervoso central e provocam danos importantes.

Mas então por que o mercúrio é tão perigoso? Ana Claudia explica que em sistemas aquáticos – tanto no mar quanto nos rios –, o mercúrio elementar sofre oxidação e se transforma em espécies iônicas, que se ligam a matéria orgânica e se depositam no sedimento do rio. O sedimento do rio, por sua vez, tem regiões onde não tem oxigênio e reúne bactérias específicas que respiram enxofre (bactérias sulfato-redutoras) e transformam o mercúrio em metilmercúrio, a forma mais tóxica. “Essa substância entra na cadeia alimentar aquática, vai se acumulando em peixes e em quaisquer organismos que estejam ali. Os peixes maiores, que ocupam o topo da cadeia alimentar por serem carnívoros, têm concentrações maiores de mercúrio, devido ao processo de biomagnificação. Então como os seres humanos tendem a se interessar por esses peixes maiores, a exposição a essa substância é maior. Podemos concluir que, para quem não trabalha com o garimpo, a maior via de exposição é através da alimentação”.

A principal fonte de proteína animal na Amazônia ainda é o peixe. E a pesquisadora afirma que justamente por isso não tem como pedir que essa população deixe de comer esse alimento. “Além de ser uma questão cultural, é sobrevivência. Eles fazem tudo no rio, usam para trafegar, se banhar, se alimentar. Não tem como cortar essa ligação”, defende.

Qual o caminho?

No Brasil, o principal problema do uso do mercúrio é ligado ao garimpo, alerta Ana Claudia, no sentido de que todo mercúrio utilizado acaba sendo perdido no ambiente, não existe recuperação ou um descarte responsável: “O garimpeiro não possui a menor preocupação ambiental. O mercúrio é lançado no sistema aquático, e a partir daí ele começa a sofrer uma série de alterações químicas e vai contaminando água, solo e organismos aquáticos”.

Segundo a pesquisadora, os danos ambientais e à saúde humana podem ser minimizados com o banimento do uso do mercúrio no processo de extração do ouro. Outros setores produtivos, que são fontes emissoras potenciais de mercúrio, já utilizam tecnologias de menor potencial poluidor. “Na produção de cloro soda existe toda uma preocupação na perda desse mercúrio para o meio ambiente e, por isso, são estabelecidas regras e protocolos para garantir que essa perda vai ser a menor possível ou mesmo que não exista". Além disso, a pesquisadora diz que está tecnologia está sendo substituída por outras menos nocivas.

As termelétricas também se preocupam com a liberação de vapores contendo mercúrio a partir da queima do carvão. Existe, na maioria delas, alguma medida para evitar a liberação do mercúrio. “Por ser um elemento natural, o mercúrio também é encontrado no carvão mineral e vegetal e quando as termelétricas queimam esse carvão há uma produção de vapor de mercúrio”, relata Ana Claudia, explicando que, em contrapartida, essas indústrias apresentam relatórios de produção anual com uma parte de responsabilidade socioambiental da empresa que demonstra a redução na emissão de mercúrio com o passar dos anos.

Outro fato relevante a ser destacado é que em 2013 o Brasil assinou a Convenção de Minamata, que prevê o banimento ou diminuição do uso de mercúrio em várias atividades. Incluindo o uso do metal em termômetros, previsto para acabar em 2020. “Em outras atividades ela estabelece algumas normas e recomendações para que cada país signatário tome algum cuidado. Em relação ao garimpo, a Convenção não estabelece um prazo para finalizar, mas traz alertas e recomendações para que cada país regularize essa atividade e, de preferência, que sejam utilizadas outras substâncias que não sejam tóxicas ao meio ambiente”, afirma.

Com isso, Ana Claudia acredita que é preciso uma maior fiscalização por parte das autoridades públicas. “O mercúrio é um perigo, principalmente para aqueles que trabalham com esse elemento, o próprio garimpeiro por exemplo. O problema não se restringe aos ribeirinhos, ele se expande. Outros estudos demonstram que, assim como os ribeirinhos e os indígenas, a população urbana da região amazônica também possui níveis altos de mercúrio no organismo”, aponta.

Por fim, a pesquisadora ressalta que a ideia é continuar o estudo para que seja traçado um histórico de exposição dessa comunidade ao mercúrio. Ela explica como será feito: “Eu coletei algumas amostras de mulheres indígenas que possuem o cabelo muito comprido, com até 40 cm. E nessa primeira avaliação, nós trabalhamos usando somente 1,5 cm mais próximos da raiz nas amostras. Esse pequeno segmento reflete a exposição recente, diz respeito à aproximadamente o último mês de exposição. Agora vamos continuar analisando os outros centímetros dos cabelos”.

*Com a colaboração de Bianca Bezerra

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