Frutas, doces, fast-foods: como o confinamento impactou a alimentação de adolescentes

Adolescentes comeram mais frutas e legumes nos primeiros meses de confinamento. Por outro lado, o consumo de doces também aumentou. Essa foi uma das constatações de um estudo coordenado pelo pesquisador Alberto Dávalos, do Instituto Madrilenho de Estudos Avançados em Alimentação, e realizado em outros quatro países: Brasil, Itália, Colômbia e Chile.

O estudo teve a participação da professora Patrícia Padilha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e foi publicado no periódico Nutrients em novembro.

Pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Letícia Cardoso participou do desenvolvimento metodológico do estudo e explica que o questionário foi enviado pela internet, para ser respondido por adolescentes com idade entre 10 e 19 anos.

"A Itália e a Espanha já vivenciavam o lockdown a um longo tempo, quando o estudo foi conduzido, enquanto a gente estava começando a vivenciar esse isolamento. Nossa ideia foi comparar as mudanças de hábitos alimentares nos cinco países", lembra.

"Quem respondeu esse questionário é uma parcela [da população] que tem mais renda e mais escolaridade, que tem uma maior preocupação ou já consomem habitualmente alimentos mais saudáveis", pondera Cardoso. "Hoje, temos estudos que mostram aumento de insegurança alimentar entre os mais pobres", ressalta.

A pesquisa demonstrou queda no consumo de fast-foods. Antes da quarentena, apenas 44,6% dos adolescentes consumiam esse tipo de alimento menos de uma vez por semana. A porcentagem aumentou para 64% durante o confinamento.

"O que mais chamou a gente nos resultados, inicialmente, foi um aumento no consumo de frutas, legumes e vegetais. A gente acredita que dois fatores influenciaram nisso: os pais estavam em casa, e isso favoreceu o hábito de comprar alimentos in natura para serem preparados", interpreta.

A pesquisa mostra que 43% deles consumiram vegetais todos os dias durante o confinamento, contra 35,2% que consumiam antes.

Por outro lado, houve aumento no consumo de doces, o que "está ligado a uma sensação de 'compensação'", segundo a pesquisadora. Não houve mudanças em relação ao consumo de carnes processadas, e houve um aumento não significativo nas bebidas açucaradas.

Cardoso define o resultado como "relativamente positivo". Ela acrescenta que o consumo de ultraprocessados no Brasil já era menor que nos demais países, e não aumentou no início do confinamento.

"Em contrapartida, outros estudos vêm demostrando maior acesso a comida pronta, entregue em casa, na fase mais tardia da pandemia", reconhece.

"Precisamos estar atentos a uma intervenção pública, tanto para continuar promovendo alimentação saudável para uma população com maior renda, quanto para garantir a alimentação de uma população que está sofrendo os impactos econômicos do isolamento social. E a gente não tem percebido movimentos nesse sentido, exceto ações pontuais no início da pandemia."

Os questionários eram anônimos e foram respondidos por 820 adolescentes. A Espanha foi o único dos cinco países que não registrou aumento no consumo de legumes.

Edição: Leandro Melito

Por: Ana Paula Evangelista

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