30 anos de luta antimanicomial

Promovido pela EPSJV, V Seminário de Saúde Mental celebra três décadas do Encontro de Bauru diante do desmonte atual na Saúde
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 07/12/2017 13h45 - Atualizado em 07/12/2017 13h47

Nos anos 1980, ganhava força a luta pela reforma psiquiátrica, denunciando a violência dos manicômios e o modelo “hospitalocêntrico” na assistência às pessoas com transtornos mentais. Três décadas depois, a luta antimanicomial permanece viva. “É a hora de nos unirmos para refletir sobre o momento difícil que estamos passando na Saúde e, em especial na Saúde Mental, diante do desmonte de coisas que achávamos impossível regredir”, destacou Pilar Belmonte, professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), na abertura do V Seminário de Saúde Mental.  Sob o tema ‘30 anos de Bauru: Resistência e Militância’, o evento, promovido no dia 4 de dezembro pela Escola Politécnica, reuniu pesquisadores e estudantes da área da Saúde Mental.

“Precisamos pensar estratégias necessárias para continuar militando e resistindo aos ataques que a Saúde sempre sofreu. Não cabe a Saúde Mental tornar o mundo mais analisável. Cabe a Saúde Mental tornar o mundo mais humano”, apontou Carlos Maurício Barreto, vice-diretor de Ensino e Informação da EPSJV.

Em sua fala, Gonzalo Vecina Neto, professor da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que há um problema grave no modelo de assistência. “Diante desse desmonte e crise, temos que repensar o modelo assistencial, a questão da horizontalização e a integralidade da atenção e da equidade. A equidade é um desafio que está intocado. Estamos no recrudescimento de algumas doenças como a epidemia de sífilis congênita. Isso é absurdo”, caracterizou. De acordo com o professor é preciso agora revisar e redirecionar o modelo: “Mas faltam recursos. E a PEC do fim do mundo, que congela os gastos públicos por 20 anos, tem que ser enfrentada. Sem dinheiro não temos como fazer uma melhor assistência à saúde”.

Para Sandra Fagundes, professora da Universidade Federal Rio Grande do Sul (UFRGS), a luta antimanicomial venceu no imaginário da população e também em relação aos paradigmas dos profissionais de Saúde Mental, mas as comunidades terapêuticas ainda são os maiores desafios. “Ninguém quer manicômio. A comunidade terapêutica surge camuflada em uma proposta revolucionária de cuidado horizontal e de liberdade, com um ideal igualitário, democrático e participativo. Mas na verdade é um lugar de absoluta exclusão, humilhação e desqualificação da subjetividade. É o oposto em relação ao imaginário da sociedade”, afirmou Sandra.

Segundo Milton Freire, jornalista e militante da Luta Antimanicomial após anos de internações no Rio de Janeiro, as sequelas deixadas pelos tratamentos desumanos nos hospitais psiquiátricos em que passou foram superadas através da arte. “Qualquer crise que tivéssemos era eletrochoque, internação. O que circulava no manicômio eram humilhação e violência, não havia a possibilidade de recuperação. Tive a felicidade de poder ter um lugar em que eu pudesse me reestruturar”, contou Milton, (acho que poderia dizer qual foi esse lugar). E completou: “Meu diálogo maior foi com a arte”.

Resistência e Militância

Na parte da tarde, houve um debate sobre ‘Resistência e Militância: a Saúde Mental que queremos’. “É muito importante manter o espírito de resistência. Apesar de todas as dificuldades, apesar da greve, é muito importante continuar fazendo reuniões na comunidade, discutindo com familiares e mobilizando a sociedade”, afirmou Eduardo Vasconcelos, professor-pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que participou do debate.

Encontro de Bauru

Nos dias 8 e 9 de dezembro, acontece o ‘Encontro de Bauru: 30 anos de luta por uma sociedade sem manicômios’, na Universidade Sagrado Coração, em Bauru (SP).

Em 1987, a cidade de Bauru recebeu o II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental. O evento foi um marco na Luta Antimanicomial ao viabilizar a primeira manifestação pública organizada no Brasil pela extinção dos hospitais psiquiátricos. Na ocasião, os trabalhadores da Saúde Mental que estavam reunidos no evento escreveram o primeiro documento reivindicando uma sociedade sem manicômios no país.

“O manicômio é expressão de uma estrutura, presente nos diversos mecanismos de opressão desse tipo de sociedade. A opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Lutar pelos direitos de cidadania dos doentes mentais significa incorporar-se à luta de todos os trabalhadores por seus direitos mínimos à saúde, justiça e melhores condições de vida”, diz um dos trechos da Carta de Bauru.

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