Jogo produzido pela EPSJV vai tematizar assistência à saúde da população LGBT

Projeto foi selecionado em edital sobre Recursos Comunicacionais
Julia Neves - EPSJV/Fiocruz | 10/04/2018 14h44 - Atualizado em 20/04/2018 07h26

‘SUS Generis’. Esse é o nome do jogo – projeto coordenado por diversos profissionais da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com trabalhadores de outras unidades da Fiocruz, selecionado para financiamento no último Edital de Recursos Comunicacionais da Fundação. O jogo eletrônico, que deve estar concluído até fevereiro de 2019, tem o objetivo de informar sobre políticas de saúde relativas à diversidade de gênero e sexualidade e sobre a necessidade de acolhimento adequado à diversidade nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Coordenadora do projeto, a professora-pesquisadora da Escola Politécnica Cynthia Dias conta que a ideia surgiu de um protótipo de jogo de tabuleiro sobre gênero produzido com os alunos do ensino médio integrado no ano passado. “Fizemos um projeto e ganhamos o edital. O jogo busca sensibilizar profissionais para mostrar o que a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) vivencia na hora de usar os serviços de saúde e como esse trabalhador pode acolhê-la e atendê-la melhor de acordo com as diretrizes do SUS”, explica.

Segundo Simone Goulart, também professora-pesquisadora da EPSJV e membro do comitê pró-equidade de gênero e raça da Fiocruz, que também participou da elaboração do jogo, a política brasileira tem um direcionamento para que questões relacionadas à saúde LGBT sejam colocadas em processos de formação de profissionais. E o que a pesquisadora tem verificado em artigos e em conversas com diferentes pessoas é que muitas vezes essa formação não é levada a cabo. “O jogo seria um material possível para processos de formação. A questão das políticas públicas para a população LGBT ainda precisa ser mais discutida. O jogo é mais lúdico e pode ser utilizado tanto para treinamento quanto para sensibilização. Uma das nossas propostas é dar a voz e a visibilidade que faltam a essa população”, esclarece. “É preciso perceber que a discriminação e o preconceito são determinantes da saúde também. Ouvimos muitos relatos em nossas pesquisas na Clínica da Família Victor Valla de pessoas que adoeceram, indiretamente, por terem histórias familiares que tinham a ver com LGBTs e que adoeceram por questões emocionais”, acrescenta Chynthia.

Além da Clínica da Família, o projeto tem parceria de várias unidades da Fiocruz – Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), Casa de Oswaldo Cruz/Museu da Vida e Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict) –, além do coletivo ‘Seja diferente, seja você’ e de grupos de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/Rio).

Com público-alvo direcionado a jovens e adultos profissionais em formação, o ‘SUS Generis’ é um jogo de tomada de decisões, em que o jogador, um profissional da UBS Marielle Franco – nome dado em homenagem à vereadora do Psol/RJ, assassinada no dia 14 de março – é um agente que acabou de ser transferido e terá que buscar informações com colegas para atuar. No período de trabalho, ele terá que interagir com os usuários do SUS a fim de atendê-los da melhor forma possível, respeitando as especificidades de cada um. A plataforma do jogo oferece diversos espaços dentro da UBS, como sala de espera e sala de reuniões. “A ideia é que esses profissionais interajam com os pacientes que vão aparecendo com demandas específicas da população LGBT e, com isso, vão surgindo questões e diálogos a partir das histórias reais que temos coletados em entrevistas feitas na Clínica Victor Valla, por exemplo. Ou seja, o jogador terá que dialogar com os personagens para compreender as necessidades dos usuários e trocar informações com colegas”, afirma Simone. E acrescenta: “Como mulher lésbica que já vivenciou diversas situações no SUS, acho muito importante falar sobre isso. Porque quando a gente fala, a gente ganha voz, corpo e força. O jogo vai ser mais do que só uma tecnologia educacional, vai ser um instrumento de mudança e de empoderamento”.

Cynthia conta ainda que o grupo pretende usar o jogo pela primeira vez com os alunos da Escola Politécnica, mas também em UBS e no curso de especialização em Direitos humanos, Gênero e Sexualidade, da ENSP, que reúne diversos gestores e profissionais da saúde. “O jogo é sempre um recorte do mundo. As questões da população LGBT são múltiplas e complexas, estamos selecionando alguns grupos, situações e formas de agir, porque o jogo é finito. Mas nada impede que no futuro façamos novas versões”, finaliza.

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