Abrasco lança 3ª parte do dossiê sobre agrotóxicos

Documento procura problematizar o papel da ciência frente aos agravos à  saúde provocada pelos venenos agrícolas.
André Antunes - EPSJV/Fiocruz | 17/11/2012 09h00 - Atualizado em 08/09/2016 10h31

O terceiro dia do Abrascão tem tudo para entrar para a história da luta contra o consumo de agrotóxicos no Brasil. O evento sediou na sexta-feira, dia 16, o lançamento da 3ª parte do dossiê da Abrasco sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde, encerrando um ciclo iniciado em abril deste ano, com o lançamento da 1ª parte, durante o World Nutrition Rio 2012, seguido do lançamento da 2ª parte durante a Cúpula dos Povos, também no Rio de Janeiro,em junho. O dossiê,agora completo, reúne mais de 400 páginas contendo um amplo panorama sobre o consumo de venenos na agricultura praticada no país e seus efeitos nefastos sobre a saúde e o meio ambiente. O trabalho reuniu em um só documento uma gama de estudos sobre o tema produzidos por pesquisadores de diversas universidades e instituições públicas do país – incluindo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - bem como experiências de resistência de movimentos sociais e das populações mais diretamente atingidas por estes venenos no campo brasileiro. “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, título que não nos orgulha de nenhuma maneira. Gostaríamos de reverter de maneira efetiva esse quadro que nos traz muita preocupação. Além de aumentar a dependência dos agricultores pelas multinacionais, os agrotóxicos envenenam a população e os trabalhadores brasileiros. Para fortalecer as bases de uma sociedade saudável e desenvolvida, o Brasil deve investir na agricultura familiar e na agroecologia, aumentar a escolaridade e o conhecimento técnico cientifico dos agricultores, e ao mesmo tempo valorizar os seus conhecimentos tradicionais”, afirmou Luiz Augusto Facchini, presidente da Abrasco.

Motivação

Fernando Carneiro, pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), explicou que um dos fatores que motivaram a elaboração do dossiê foi a constatação de que o aumento do consumo de agrotóxicos no Brasil nos últimos anos acompanhou o crescimento da incidência de intoxicações por estes venenos registrados pelos Sistema Único de Saúde (SUS), ao mesmo tempo em que as empresas produtoras dos pacotes tecnológicos que incluem as sementes transgênicas resistentes a venenos e os agrotóxicos comercializados em conjunto com elas, como a Monsanto, tinham lucros cada vez maiores. E tudo isso com a anuência do Estado brasileiro. “As empresas têm um domínio completo: no Legislativo, com a bancada ruralista; no Judiciário, onde falta investigação sobre os problemas relacionados aos agrotóxicos; no Executivo, onde poucos têm coragem de desafiar; na academia, onde a maioria da produção científica preconiza o uso de agrotóxicos; e na mídia, onde se defende o agronegócio com ufanismo”, disse Fernando. 

Segundo ele, a 3ª parte do dossiê deu um salto em ousadia científica e política em relação às duas anteriores. “Ele foi a concretização do trabalho de um coletivo pensante de 30 pesquisadores de vários campos do conhecimento. Nele explicitamos a inércia do Estado e mostramos que as evidências dos males dos agrotóxicos são suficientes para exigir seu banimento. Criamos um fato político e também científico e conseguimos impacto na mídia por causa disso. Até um Globo Rural de 30 minutos conseguimos emplacar”, comemorou Fernando. Segundo ele, o processo de elaboração do dossiê ensinou algumas lições: “Devemos aprofundar nossos estudos sobre os grandes problemas do país, principalmente dos aspectos estruturais, aproximando ciência e política. É viável e necessário o trabalho integrado e participativo entre os GTs da Abrasco; é possível construir uma forma mais integral e critica de fazer e divulgar ciência driblando as amarras das revistas cientificas”, enumerou. Para ele, um dos maiores méritos do dossiê foi a criação de uma interlocução entre cientistas e militantes. “Construímos uma semântica própria gerando um conhecimento mais critico e emancipador". Com o dossiê brasileiro terminado, disse Fernando, a ideia agora é que a Abrasco auxilie a elaboração de um dossiê latinoamericano sobre os agrotóxicos, com a mesma metodologia utilizada. 

O cineasta Silvio Tendler, diretor do documentário ‘O veneno está na mesa’, produzido no âmbito da Campanha Permanente contra os agrotóxicos e pela vida com o apoio da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Vemâncio (EPSJV/Fiocruz), afirmou que o filme contribuiu para a conscientização de uma parcela maior da sociedade sobre o problema. “Conseguimos mobilizar a sociedade brasileira. Hoje o link para o filme no Youtube está com mais de 100 mil acessos, tantas cópias circularam que é impossível dizer quantas pessoas assistiram. Toda a sociedade percebeu que poderia ser vitima do veneno”, disse Tendler.

Por um novo modo de fazer ciência

Membro da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Paulo Petersen chamou a atenção para a necessidade de utilizar os agrotóxicos como exemplo de um quadro maior. “Os agrotóxicos são apenas uma das expressões nefastas de um modelo de desenvolvimento predatório e excludente. É preciso dialogar com os movimentos ligados à economia solidária, à saúde coletiva e à agroecologia e perceber que temos pontos em comum e criar sinergia. Estamos em um momento crítico e precisamos nos aliar e dar continuidade política a esse processo. Estamos no caminho correto com essa aliança entre a academia, movimentos sociais e comunicação”, avaliou Petersen. 

Raquel Rigotto, pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC), também destacou a metodologia usada na elaboração do dossiê. “Procuramos nessa parte olhar para nós mesmos, dar foco à produção da ciência e do conhecimento. Nossa aproximação com a via campesina e outros movimentos começou a nos mostrar que precisamos avançar e demarcar outra maneira de produzir conhecimento”.  O trabalho, disse Raquel, procurou utilizar o exemplo dos agrotóxicos para fazer uma reflexão sobre a ciência moderna. Ela citou a mercantilização da produção cientifica, a criminalização de pesquisadores e os sistemas de avaliação da pós-graduação como problemas do modo de fazer ciência hegemônico. “A própria experiência do dossiê é um exemplo de um novo paradigma para a produção científica que defendemos. O dossiê não vai poder constar do nosso currículo lattes, porque não é um artigo, não está em inglês e não foi publicado em revista importante. Este é um dado importante para pensar o papel da ciência. Que fast science é essa que acelera tudo, que simplifica objetos complexos?”, criticou.

Coordenador da Campanha Permanente contra os agrotóxicos e pela vida, Cleber Folgado apontou qual deve ser o caminho a ser seguido agora, após a conclusão do dossiê. “Temos que transformar de fato esse dossiê em instrumento de luta, nos apropriar do conteúdo produzido e pautar o governo. Precisamos de organicidade, formar comitês da campanha nos estados, fóruns, espaços para nos organizar e informar para combater o agronegócio, que é muito organizado. A terceira tarefa, por fim, é pensar o dossiê como instrumento de formação e informação para que a sociedade possa saber a desgraça causada pelos agrotóxicos”, finalizou.

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