Formação em saúde e agroecologia

Curso Técnico em Meio Ambiente (CTMA) realizado pela EPSJV/Fiocruz em parceria com o MST e com a Universidade Federal do Ceará foi uma das experiências discutidas durante o Encontro Diálogos e Convergências ‘Saúde e Agroecologia’
André Antunes - EPSJV/Fiocruz | 27/11/2018 15h26 - Atualizado em 27/11/2018 15h26

Promover o diálogo sobre como as várias unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), bem como a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) têm construído experiências nesse campo foi um dos objetivos do Encontro de Diálogos e Convergências ‘Saúde e Agroecologia’, realizado entre os dias 21 e 24 de novembro em Paraty-RJ. Para isso, foram realizados seis seminários simultâneos, cada um sobre um tema pelo qual as conexões entre a saúde e a agroecologia têm sido exploradas nos últimos anos. A proposta era trocar experiências e aprofundar a integração entre as diferentes unidades da Fiocruz que trabalham com saúde e agroecologia, além de fortalecer o intercâmbio da Fiocruz com ANA e ABA na promoção dessa agenda. Água e Saneamento, Plantas Medicinais, Alimentação Saudável, Educação e Formação, Agricultura Urbana e Comunicação foram os temas definidos a partir de um mapeamento realizado no processo de preparação para o encontro. 

No seminário temático sobre Educação e Formação, que o Portal EPSJV/Fiocruz acompanhou, foi apresentada a experiência do Curso Técnico em Meio Ambiente (CTMA), realizado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e com a Universidade Federal do Ceará (UFC). Concluído em 2013, o curso formou técnicos em meio ambiente em territórios de assentamentos do MST no Paraná e no Ceará. Segundo André Búrigo, que foi um dos coordenadores do curso e atualmente é assessor da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz, a formação buscou fortalecer o debate sobre Saúde do Campo dentro do SUS, e trouxe a agroecologia como um eixo central na composição de seu currículo. “O SUS é bastante urbano-centrado, assim como as políticas de saúde. É um desafio pensar em políticas que sejam centradas nos territórios. O SUS tem hoje uma Política Nacional de Saúde Integral dos Povos do Campo, Floresta e Águas, e essa experiência pedagógica buscou contribuir para seu avanço”, disse André.

Foram realizadas duas turmas simultâneas: uma na Escola João dos Santos de Oliveira, conhecida como João Sem Terra, no assentamento 25 de Maio, maior assentamento do MST no Ceará, e uma no Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro) do MST no centro-oeste do Paraná. Além do MST, foram formados integrantes de outros movimentos sociais, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), entre outros. “A gente trabalhou a agroecologia em quatro dimensões do curso: a análise de agroecossistemas, dos territórios onde aquele agroecossistema está inserido, a soberania e segurança alimentar e, por fim, uma dimensão importante para a saúde que é a agroecologia enquanto cuidado”, explicou André. O pesquisador destacou também o processo de produção do curso. “Quando começamos a pensar o currículo, fomos ao Ceará e ao Paraná, identificamos universidades que têm atuação naqueles territórios e, junto com o MST, convidamos vários atores para pensarmos juntos o currículo desse curso, enfatizando também o processo de construção do currículo enquanto rede de mobilização sobre o tema de saúde do campo. De uma certa forma, ao construir o curso, a gente levou a dezenas de instituições, não só do Ceará e do Paraná, o debate de Saúde do Campo”, ressaltou André. Ao longo do processo de formação, afirmou, foi possível identificar, além de um conjunto de tecnologias sociais e experiências de agroecologia que promoviam saúde nos territórios, um conjunto de ameaças aqueles territórios. “A gente estava no auge do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], que chegou a ter mais de 2 mil empreendimentos enormes acontecendo ao mesmo tempo no país, como a transposição do São Francisco e a usina de Belo Monte, impactando demais os territórios de reforma agrária, expulsando gente que lutou para conquistar aquela terra e que estava lá fazia 20 anos. Isso nos permitiu fazer um debate sobre modelos de desenvolvimento e injustiça ambiental com esses educandos”, explicou.

A experiência do curso foi sistematizada em cinco fascículos, que estão disponíveis para download no Portal EPSJV, em sintonia com a Política de Acesso Aberto ao Conhecimento da Fiocruz.


Educação popular em saúde e agroecologia

A experiência de construção do Curso de Especialização em Educação Popular e Promoção de Territórios Saudáveis na Convivência com o Semiárido da Fiocruz Ceará foi outra iniciativa apresentada durante o seminário temático. O projeto nasceu do diálogo entre movimentos de convivência com o semiárido e de educação popular em saúde, segundo Ana Cláudia de Araújo Teixeira, pesquisadora da Fiocruz Ceará. “No Ceará, a Fiocruz, em articulação com outras instituições na área da educação, como universidades, o Instituto Federal, e movimentos que atuam no contexto do semiárido, como o MST, a Cáritas, entre outros, criou a Rede Saúde, Água, Saneamento e Direitos Humanos no Semiárido em 2017, e viemos atuando na troca de experiências nessa temática. O curso está inserido dentro dessa discussão”, afirmou Ana Cláudia, complementando que o curso é parte de um projeto aprovado em edital no final de 2017 e financiado pela Secretaria de Gestão Participativa do Ministério da Saúde (Segep/MS). “Espera-se com o desenvolvimento deste projeto um intercâmbio entre as várias experiências de convivência do semiárido que já existem, de reuso de água, de cisternas de enxurrada, entre outras, e das experiências de educação popular em saúde. A gente espera que as experiências de convivência com o semiárido consigam também ser desenvolvidas no contexto do Sistema Único de Saúde, particularmente na atenção primária”, informou Ana Cláudia. “O objetivo é possibilitar a aproximação das equipes de Saúde da Família do tema da convivência com o semiárido e que elas possam incorporar nas suas práticas ações relacionadas a esse tema, em diálogo com a educação popular em saúde, na perspectiva da vigilância e da promoção da saúde”, complementou. Com 70 vagas, o curso é direcionado para trabalhadores da atenção primária e para integrantes de movimentos que atuam na educação popular em saúde e convivência com o semiárido. A experiência será sistematizada na forma de cadernos, vídeos e cordel, materiais que serão distribuídos a trabalhadores da saúde, centros formadores e movimentos sociais, e o material didático ficará disponível nos repositórios institucionais da Fiocruz.


Núcleos de agroecologia e a disputa pelo conhecimento nas universidades

A terceira experiência apresentada foi a do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Agroecologia da Universidade de Brasília (NEA/UnB). Flaviane Canavesi, coordenadora do núcleo e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Agroecologia, informou que os núcleos foram instrumentos impulsionados a partir da aprovação da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, de 2003, como uma forma de promover a construção do conhecimento agroecológico nas universidades. “Desde 2010 temos a constituição de núcleos dentro das universidades, em parceria com a Embrapa, com institutos federais, com movimentos sociais, etc”, disse Flaviane. Formado em 2016 por meio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o núcleo da UnB reuniu pessoas que já atuavam com agroecologia dentro da universidade e fora dela, e hoje conta com 60 membros, de dois campi da UnB. “De 2010 a 2016, pelas minhas contas, houve uma redução de 83% nos recursos para os núcleos. Mas eles, mesmo sem apoio, vêm se mostrando um ambiente muito interessante para fazer o enfrentamento do conhecimento, porque todo recurso para pesquisa, o direcionamento da formação na universidade, vai muito para o agronegócio”, afirmou Flaviane. A formação de núcleos é uma maneira de catalisar a captação de recursos, segundo ela. “A gente começou com um edital do CNPq de R$ 120 mil, e hoje a gente tem R$ 650 mil para operar, o que foi muito interessante em termos de bolsistas, ações no campo, etc”. Uma dificuldade, segundo ela, tem sido a de integrar ensino, pesquisa e extensão, que ainda são operadas de forma muito separada dentro das universidades. “A ideia é que o núcleo seja um momento de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão a que a gente se propõe. Tomamos a decisão de o núcleo ser campo, ser dentro dos assentamentos. É uma cultura que a gente quer construir no núcleo, nós queremos discutir ir ao campo, discutir a parceria com os agricultores, e não se voltar para dentro da universidade. Até porque muito do conhecimento agroecológico se constituiu fora das universidades”, pontuou. Um dos projetos tocados pelo núcleo atualmente é o Nexus, lançado por meio de edital do CNPq em 2017, de apoio a projetos de pesquisa para o desenvolvimento de ações sustentáveis e integradas para a garantia da segurança hídrica, energética e alimentar no bioma do Cerrado. “São coisas que a gente está aprendendo, que antes não dávamos tanta atenção. A questão hídrica e a questão energética são muito limitantes de qualquer sistema de produção no Cerrado. Temos relatos de comunidades que deixam as comunidades na época da seca porque não conseguem morar ali. Então pensar soluções para isso tem sido uma experiência bem interessante”, afirmou Flaviane.

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