Formação técnica na prevenção e tratamento do câncer de mama

Escola Politécnica forma profissionais técnicos que auxiliam na prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Em outubro, o Inca divulgou uma estimativa de 59,7 mil novos casos da doença
Bianca Bezerra - EPSJV/Fiocruz | 18/10/2019 15h05 - Atualizado em 25/10/2019 14h51

A campanha ‘Outubro Rosa’, que acontece todos os anos com o objetivo de alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, acaba de ganhar novos atores. Diante da alta incidência deste tipo de câncer, os alunos da Especialização Técnica de Nível Médio em Mamografia da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) decidiram se unir ao movimento como agentes multiplicadores. O intuito é esclarecer a população sobre o tema com os conhecimentos adquiridos em sala de aula.

“Como a Fundação Oswaldo Cruz tem sempre um foco muito grande em pesquisa e conscientização, nós achamos que seria de grande valia reafirmar as recomendações dadas na campanha para o público que circula na Escola e que vai compartilhar com as mães, pais, avós e irmãs”, explica José Geraldo de Aguiar Júnior, aluno do curso.

A campanha articulada no país pelo Ministério da Saúde (MS) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) teve início em Nova Iorque, nos Estados Unidos, no começo da década de 1990. No Brasil, a estreia da campanha foi só uma década depois, em São Paulo. Mais tarde, outros estados do país também aderiram ao ‘Outubro Rosa’.

O mote da campanha de 2019 é ‘Cada corpo tem uma história. O cuidado com as mamas faz parte dela’.

Dados no Brasil

De acordo com um levantamento do Inca divulgado no início do mês, em 2019 vão surgir 59,7 mil novos casos de câncer de mama. O risco estimado é de 56 casos a cada 100 mil mulheres. É o segundo tipo que mais acomete as brasileiras, atrás apenas do de pele, representando aproximadamente 25% de todos os cânceres que afetam as mulheres.

A detecção precoce da doença é fundamental neste cenário.Segundo a Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), 90% dos cânceres de mama podem ser curados quando detectados em estágios iniciais. Quanto mais cedo um tumor invasivo é detectado, maior é a probabilidade de cura.Os tipos de exames mais conhecidos são: o autoexame de mama, o exame clínico e a mamografia – sendo a última considerada o principal mecanismo para diagnóstico.

No Brasil, foi detectada uma queda no número de mamografias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos anos. Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) divulgado no ano passado, o percentual de cobertura mamográfica em 2018 atingiu o menor número dos últimos seis anos. Eram esperadas 11,5 milhões de mamografias e foram realizadas somente 2,6 milhões, uma cobertura de 22%. O número é bem abaixo dos 70% recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Para Simone Maia Evaristo, presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito) e professora do Inca, o problema não está centrado na falta de equipamentos para a realização do exame. “As principais causas são a má distribuição dos equipamentos, a falta de profissionais qualificados para a realização dos exames necessários e até mesmo as próprias descrenças por parte dos pacientes. Por isso é fundamental os esforços em campanhas”, comenta.

Tanto o Ministério da Saúde quanto a OMS recomendam que mulheres de 50 a 69 anos façam a mamografia uma vez a cada dois anos. O exame não é recomendado para mulheres fora dessa faixa etária, tampouco precisa ser feito com maior periodicidade. Fazer o rastreamento fora do tempo indicado pode acabar aumentando os riscos para o tumor em algumas mulheres. Segundo pesquisa publicada no periódico britânico British Medical Journal, a exposição à radiação aumenta as chances de uma mutação nos genes BRCA1 e BRCA2 – responsáveis por controlar a supressão dos cânceres de mama e de ovário – em mulheres jovens.

É o que alerta Stephan Sperling, médico de Família e Comunidade, membro do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e colaborador do Projeto Regula+Brasil. “As mulheres devem ser orientadas sobre os riscos e benefícios deste tipo de rastreamento antes do diagnóstico para que exerçam o seu direito de fazer ou não o exame de rotina. Em alguns casos, o rastreamento pode identificar cânceres de comportamento indolente, que não ameaçariam a vida da mulher e que acabam sendo tratados expondo-a a danos associados”, explica.

Segundo o médico, é importante a campanha enfatizar a prevenção no âmbito da atenção primária antes mesmo da mamografia. A prática de atividade física, alimentação saudável e amamentação são fatores associados ao menor risco de desenvolver câncer de mama: cerca de 30% dos casos podem ser evitados quando são adotados esses hábitos. “Nós não estamos de fato incentivando a melhora dos hábitos de saúde das mulheres. Nós falamos muito da mamografia e deixamos de abordar também medidas diárias de prevenção”, observa.

Segundo o Instituto, a incidência do câncer de mama tende a crescer progressivamente a partir dos 40 anos, assim como a mortalidade por essa neoplasia. Na população feminina com menos de 40, ocorrem menos de dez óbitos a cada 100 mil mulheres, enquanto na faixa etária a partir de 60 anos o risco é dez vezes maior. Somente 10% dos casos de câncer de mama são atribuídos a fatores hereditários. O risco é maior entre as mulheres com parentes em primeiro grau (mãe, irmã ou filha) que tiveram a doença. Nesses casos, a probabilidade de ocorrência do câncer de mama praticamente dobra.

Diversos outros agentes estão relacionados ao desenvolvimento da doença entre as mulheres, como: envelhecimento, fatores da vida reprodutiva, ingestão de bebidas alcoólicas, tabagismo, excesso de peso e exposição à radiação ionizante.

Em comparação com o mundo

De acordo com o Inca, o país apresenta uma taxa de mortalidade do câncer de mama considerada baixa em relação a outros países. O Brasil está situado na segunda faixa mais baixa, com uma taxa de 13 por 100 mil, ao lado de países ricos como Estados Unidos, Canadá e Austrália – e melhor do que alguns deles, como a França e o Reino Unido.

Por outro lado, o país figura na segunda faixa mais alta de incidência de câncer de mama entre todos os países, chegando a 62,9 casos por 100 mil habitantes.

Hoje, o SUS apresenta uma linha de cuidados estratégicos no que diz respeito a esta neoplasia no intuito de melhorar a taxa de incidência e diminuir ainda mais a taxa de mortalidade. O percurso começa pela atenção básica com as ações de prevenção e detecção precoce. Caso seja detectado, as mulheres são encaminhadas para a Média Complexidade para investigação diagnóstica; confirmado o câncer, são encaminhadas para tratamento em uma unidade hospitalar de referência.

“A meu ver, um fator importante nesse processo é investir em uma equipe de saúde coesa, bem articulada, que conheça cada etapa do fluxo para uma melhor orientação e apoio ao usuário.”, comenta Simone Evaristo, do Inca.

Na última quarta-feira (16/10), o Senado aprovou o projeto de lei n° 143, que fixa o prazo de 30 dias para a realização de exames de diagnóstico de câncer pelo SUS. O prazo se aplica quando o tumor cancerígeno for a principal hipótese do médico e mediante solicitação fundamentada deste profissional.Mas de acordo com Alexandre Moreno, professor-pesquisador e coordenador do curso técnico em Radiologia da EPSJV/Fiocruz, só a aprovação da lei não é o suficiente. Ele reforça a importância de analisar e fiscalizar se o sistema de saúde público possui condições e infraestrutura o suficiente para atender a demanda no prazo acordado na lei.

“É preciso um maior investimento nessa área para garantir a obtenção e melhor distribuição dos equipamentos necessários. Com os cortes orçamentários pelos quais a área da saúde está passando hoje, essa aprovação se torna um grande complicador”, explica.

Profissionais técnicos

Em vista da importância da especialização e qualificação de trabalhadores que atuam na área do tratamento do câncer, a EPSJV/Fiocruz aposta na formação de profissionais técnicos em saúde que colaborem para o diagnóstico e o cuidado à enfermidade. No contexto de prevenção e diagnóstico, a Escola oferece cursos técnicos como o de Radiologia com especialização em Mamografia, Citopatologia e Análises Clínicas. Já na fase de tratamento, a escola oferece uma Especialização Técnica de Nível Médio em Radioterapia.

A Especialização Técnica de Nível Médio em Mamografia começou a ser ofertada pela Escola em 2012 e, desde então, gera uma grande procura por vagas. Coordenada pelos professores-pesquisadores da EPSJV, Alexandre Moreno e Glaucia Pires, o objetivo é atender à demanda nacional de profissionais. A ênfase do curso são os riscos ocupacionais, a saúde coletiva e a política de atenção básica a mulheres na prevenção do câncer de mama. “Aqui no Rio de Janeiro só nós oferecemos esse curso, e no Brasil são poucas instituições públicas que têm essa formação técnica. É um curso que traz uma bagagem muito grande. Nós possuímos uma sala especializada com aparelhos para trabalhar com os alunos todo o funcionamento na prática”, afirma Denise Bita, tecnóloga em radiologia e professora do curso.

Já o curso de Citopatologia, feito em parceria com o Inca, é coordenado pelo professor-pesquisador da EPSJV Leandro Medrado. “Parte da grade traz a análise de amostras de pulsões de mama, que permitem o diagnóstico precoce dessa lesão”, explica. O técnico em Citopatologia é quem irá produzir o laudo técnico que orienta o médico na definição diagnóstica. “O trabalho desses técnicos é importante para o SUS tanto no diagnóstico do câncer de colo de útero quanto no de câncer de mama. É um grupo técnico que precisa ser mais reconhecido”, reforça.

Para os jovens que cursam, concomitantemente, o ensino médio, a EPSJV oferece a habilitação técnica em análises clínicas. O curso agrega conteúdos tratados normalmente no curso técnico em Histologia, que também já foi oferecido pela Escola. Esse tipo de técnico coleta e processa materiais biológicos por meio de exames, fornecendo dados que apoiam diagnósticos médicos. Além de atuar em hospitais e serviços de saúde em geral, eles ainda participam de equipes multiprofissionais em pesquisas científicas.

Já na fase de tratamento, a EPSJV, em parceira com a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES/MS) e o Inca, oferta um curso para a especialização de técnicos em radiologia na área de radioterapia em todo o país. Cerca de 50 hospitais já foram contemplados com essa especialização. A iniciativa faz parte da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer e do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNTs) –2011-2022, do Ministério da Saúde.

Com carga horária de 1.920 horas, o curso prepara os técnicos tanto para a aquisição das imagens radiológicas para planejamento quanto para a aplicação das radiações ionizantes no paciente. Essa radiação se dá por meio de aceleradores lineares— equipamentos utilizados no tratamento do câncer. “Esse técnico é uma figura muito importante nesta fase. É ele quem atua diretamente com o paciente diagnosticado. É muito importante preparar bem esses profissionais porque são eles os responsáveis pela aplicação do tratamento. Uma dose errada causa um erro irreparável e afeta diretamente o estado de saúde do paciente”, comenta Alexandre Moreno, coordenador do curso.

Comentários

Fico tão feliz com este curso oferecido pelo EPSJV, infelizmente ainda não tive a oportunidade de ser contemplada para o curso, porém tenho fé que um dia serei., Amo a especialidade em mamografia.... Parabéns!

Existe algum curso para maiores de 60 anos, com o intuito de colaborar no controle e tratamento. ?

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