Por linhas tortas

Estudo encomendado nos Estados Unidos para provar superioridade do modelo de saúde privada concluiu o contrário: os sistemas que cobrem toda a população são mais eficientes e economizam dinheiro
Portal EPSJV - EPSJV/Fiocruz | 03/08/2018 15h08 - Atualizado em 03/08/2018 15h35
Um dos eventos de apoio a Sanders na campanha das prévias do Partido Democrata tem como mote a saúde

O processo eleitoral de 2016 nos Estados Unidos não trouxe apenas 'novidades' preocupantes para a política mundial, caso da ascensão do presidente eleito Donald Trump. Por lá, um dos debates que mais ganhou tração é o da saúde. Ou melhor, o direito à saúde, já que o sistema estadunidense, majoritariamente privado, deixa amplas parcelas da população sem qualquer tipo de seguro que franqueie o acesso a serviços e procedimentos, mesmo em caso de emergências.

A ampliação do seguro de saúde, pago pelo Estado, para todos os habitantes do país é a principal bandeira do senador Bernie Sanders, que disputou com Hillary Clinton a chance de concorrer a Presidência do país pelo Partido Democrata. A ideia, no entanto, vem sendo duramente combatida por conservadores, a começar pelo próprio Trump que fez da restrição à saúde um trunfo na sua campanha.

A mais nova cartada da direita, no entanto, dá munição para quem defende sistemas universais públicos em todo o planeta. Isso porque uma pesquisa encomendada pelos irmãos Koch, bilionários americanos que destinam grandes somas a políticos ligados ao Tea Party, braço conservador do Partido Republicano, para provar que a ideia de saúde para todos é mais cara e ineficaz concluiu justamente o contrário. Realizada pelo think tank Mercatus Center e tendo como autor Charles Blahous, economista consultor da administração George W Bush, o estudo The Costs of a National Single-Payer Healthcare System aponta que é, sim, um bom 'negócio' mudar o sistema de saúde dos EUA.

O estudo aponta que a proposta de Medicare para todos, que prevê que o Estado financie seguros de saúde para toda a população - não só para os idosos e os mais pobres, como é feito hoje - vai custar 32,6 trilhões de dólares no orçamento federal entre 2022 e 2031. De 10,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 passaria a representar 12,7% do PIB 2031. Segundo a própria pesquisa, os cálculos estão de acordo com outras projeções sobre quanto o Medicare para todos custaria feitas por outros institutos de pesquisa em 2016.

Segundo a pesquisa, a aprovação do Medicare para todos aumentaria o número de pessoas seguradas no país e, com isso, a utilização dos serviços, o que aumentaria seus custos. Além disso, a proposta amplia o escopo de serviços cobertos pelos planos, incluindo tratamento dental e oftalmológico entre os procedimentos cobertos, o que também aumentaria o grau de utilização destes serviços, bem como uma guinada nos gastos com saúde com esses procedimentos, do privado para o público. Isso tende a aumentar também o valor gasto com esses procedimentos. Além disso, o estudo projeta um aumento na taxa de utilização dos serviços pelos segurados, uma vez que o Medicare para todos prevê o fim de copagamentos e outras taxas extras cobradas pelos planos aos segurados no caso de utilização de serviços.

Por outro lado, a medida reduziria custos porque o governo federal passaria a ter controle sobre os preços cobrados por prestadores de serviços, que passariam a seguir a tabela paga pelo Medicare, o seguro de saúde financiado pelo governo federal à população idosa. Nesse sentido, o estudo projeta uma redução no acesso a serviços de saúde, uma vez que a queda nos valores pagos significaria que muitos dos serviços deixariam de existir por não conseguirem se adaptar aos novos custos. Cita estudos que apontam que a oferta existente não seria capaz de suprir o aumento da demanda do Medicare para todos e sugere que só seria viável se as taxas pagas atualmente pelo Medicare fossem aumentadas.

No cálculo final, Medicare para todos representaria uma economia de 846 bilhões de dólares entre 2022 e 2031 com medicamentos por conta do maior poder de barganha do governo federal para negociar preços com a indústria farmacêutica. Os custos administrativos também seriam reduzidos. Além disso, o fim dos seguros custeados por empregadores significaria um aumento dos salários pagos aos trabalhadores. Entre 2022 e 2031, o custo total do sistema, somando despesas privadas e públicas, seria de 2 trilhões de dólares a menos do que o custo atual. 

A conclusão da pesquisa diz que, ao contrário do que pregam os defensores do Medicare para Todos, o total gasto com saúde no país não seria reduzido significativamente, a redução projetada no custo total do sistema seria de 4%. A mudança mais significativa seria a transferência do gasto que hoje é privado para o público, financiado por impostos. A medida afetaria os prestadores de serviços, que estariam submetidos a uma política de controle de preços que reduziria o valor pago pelos serviços e consequentemente sua lucratividade. 

E tem mais: uma matéria do site Intercept EUA cita outros pesquisadores que apontaram problemas com o estudo, ainda que ele tenha apontado que ele representaria uma redução nos custos em relação ao gasto com saúde atual. Segundo os pesquisadores citados pela reportagem, as projeções de economia de custos do Medicare para todos foram subdimensionadas, enquanto as projeções de aumento de custos por conta da ampliação do número de segurados e maior demanda pelos serviços foi superestimada. Ou seja, a redução nos cursos seria bem maior caso o Medicare para Todos fosse implementado.

Comentar