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apostas

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  • 07/05/2026 17h19 Entrevista

    ‘Devo, não nego, pago quando puder’. O antigo ditado popular, retrato de um tempo em que quem cobrava a ‘conta’ era a ‘vendinha’ da esquina, parece que perdeu a graça. Seguindo uma tendência de crescimento, o endividamento das famílias brasileiras chegou a quase 50% (49,9%) em abril deste ano, segundo dados do Banco Central. Com números ainda mais alarmantes, uma pesquisa da Confederação Nacional do Comério (CNC) apontou, no mesmo mês, que mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas. Foi esse cenário que motivou o governo federal a lançar, esta semana, o programa ‘Novo Desenrola Brasil’, que prevê estratégias para facilitar a negociação de dívidas e regularizar a situação de pessoas que ganhem até cinco salários-mínimos. E uma das exigências da Medida Provisória (MP) 1.355/2026, que instituiu o programa, é que “ao aderir à renegociação, o beneficiário se compromete a não usar plataformas de apostas de quota fixa”, concordando em bloquear o acesso do seu CPF a esses aplicativos por pelo menos um ano. Para quem não juntou o nome á ‘pessoa’, “plataformas de apostas de quota fixa” são as chamadas bets, aquelas empresas que não param de ser propagandeadas nas suas redes sociais e na TV, principalmente durante os jogos de futebol do seu time favorito. Essa condicionalidade inserida na nova iniciativa do governo federal não é casual. Segundo dados da consultoria internacional Regulus Partners, divulgados pela BBC no ano passado, em 2025 o Brasil tinha se tornado o quinto maior mercado de bets do mundo. No final do ano anterior, a Pesquisa Data Senado já mostrava que 13% dos brasileiros, que correspondia a mais de 22 milhões de pessoas, tinham apostado nas bets nos últimos 30 dias. Entre muitos outros dados relevantes, o estudo mostrou que 52% desses apostadores ganhavam até dois salários-mínimos por mês, integrando, portanto, os segmentos economicamente mais vulneráveis da população, e que 42% das pessoas que reconheceram apostar nas bets fazem parte do grande grupo de brasileiros endividados. A pesquisa da CNC divulgada este ano foi ainda mais longe, identificando as apostas nessas plataformas eletrônicas como um fator relevante no processo de endividamento dos segmentos sociais de menor renda no país. O que parece um problema financeiro, no entanto, tem se mostrado também uma importante questão de Saúde Pública. Números do Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, elaborado pelo Ministério da Saúde, mostram que os atendimentos relacionados a ‘jogo patológico’ e ‘mania de jogo e aposta’, duas classificações de doença reconhecidas no CID-10, mais que dobraram no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2018 e 2025. Por tratar-se de um cenário recente, ainda não há estudos que permitam afirmar cientificamente, sem sombra de dúvidas, que esse crescimento se deve à expansão e legalização das bets no país, mas essa é a hipótese principal – não custa lembrar, por exemplo, que foi exatamente em 2018 que o então presidente Michel Temer sancionou a lei nº 13.756, que legalizou as apostas esportivas no país. Nesta entrevista, o psicólogo e pesquisador André Guerrero, coordenador do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília, argumenta que, embora nem todo mundo que aposte desenvolva dependência, a necessidade dos segmentos populacionais mais vulneráveis de ampliar a renda, associada à intensa propaganda dos jogos e à facilidade de se apostar sem sair do lugar, com um celular, na palma da mão, tem gerado um efeito social nocivo, que já se expressa nos serviços de saúde e impacta o SUS como um todo. Por tudo isso, os jogos de aposta em plataformas eletrônicas são, segundo ele, “um capítulo novo nessa questão da dependência” que, até pouco tempo atrás, era identificada no senso comum quase que exclusivamente ao uso de álcool e outras drogas. Para que os profissionais estejam mais preparados para dar conta dessa novidade, atendendo a uma demanda do Ministério da Saúde, a instituição está, inclusive, oferecendo um curso rápido de qualificação sobre cuidado na Rede de Atenção Psicossocial e jogos de aposta, que pode ser feito à distância e gratuitamente. Trata-se, de acordo com Guerrero, de uma entre muitas ações intersetoriais que o governo federal, por meio de um Grupo de Trabalho interinstitucional, está promovendo, com atuação em várias frentes, para tentar enfrentar o problema.