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(In)Feliz ano novo

Se depender do governo federal, os próximos meses concretizarão uma agenda de retrocessos nos direitos sociais que caminhou a passos largos no final de 2016
André Antunes - EPSJV/Fiocruz | 06/01/2017 12h09 - Atualizado em 01/07/2022 09h45

No apagar das luzes de 2016, enquanto a maioria dos brasileiros festejava o Natal e a chegada do Ano Novo, o governo e o Legislativo não pararam. A agenda de retrocessos nos direitos sociais em marcha no país ao longo de 2016 caminhou de forma acelerada no final do ano. E ao que tudo indica, 2017 não será muito diferente.  

O final de 2016 trouxe a aprovação do que muitos vêm chamando de maior retrocesso nos direitos sociais desde a promulgação da Constituição de 1988, que veio duas semanas antes do fim do ano. No dia 15 de dezembro foi promulgada a Emenda Constitucional 95, nome que recebeu a proposta que estabelece um teto para os gastos públicos pelos próximos 20 anos após ser aprovada em segundo turno no Senado dois dias antes. Aprovado na Câmara como PEC 241 e no Senado como PEC 55, a medida, enviada pelo presidente Michel Temer ao Congresso no primeiro semestre de 2016, deve significar, segundo seus críticos, uma redução significativa nos gastos públicos com educação, saúde e assistência social nos próximos anos. Durante a votação no Senado a oposição apresentou destaques para tentar reduzir o impacto da proposta sobre o gasto social, como o que mantinha as vinculações constitucionais para a saúde e a educação e outro que garantia a continuidade da política de valorização do salário mínimo ao atrelar seu reajuste ao crescimento do PIB. Ambas foram rejeitadas.

O fim da aposentadoria pública?

O ano que se inicia deve ser o ano das reformas – ou contrarreformas, dependendo de para quem você pergunte. E o governo tem pressa para aprovar outras duas propostas apresentadas pelo Executivo como respostas para a crise econômica, que vêm sendo duramente criticadas: a reforma da Previdência e a reforma trabalhista. Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo no dia 2 de janeiro, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (PMDB-RJ) afirmou que pretende aprovar ambas ainda no primeiro semestre.

Encaminhada ao Congresso no dia 5 de dezembro ao Legislativo, a Reforma da Previdência – protocolada na Câmara como PEC 287 - foi apresentada pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles como condição para a sustentabilidade da proposta da então PEC 55, agora EC 95. A proposta prevê uma série de perdas para os trabalhadores com relação ao que diz a legislação atual. Entre elas estão o estabelecimento de uma idade mínima de 65 anos para aposentadoria, tanto para homens quanto para mulheres, a ampliação do tempo mínimo de contribuição para a Previdência Social de 15 para 25 anos, o estabelecimento da obrigatoriedade de que trabalhadores rurais contribuam com o INSS e o fim da aposentadoria com salário integral nos regimes próprios para servidores públicos. “A questão que se faz é: será que alguém conseguirá ficar no mercado de trabalho até os 65 anos? Quantos conseguirão isso? O trabalhador precisará nunca ter ficado desempregado durante 49 anos para poder ter aposentadoria pelo teto. Numa depressão econômica como a que estamos vivendo, essas regras são inexequíveis para o trabalhador. Elas são feitas para o trabalhador não receber a aposentadoria, só contribuir”, criticou Denise Gentil, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em entrevista ao Portal EPSJV em dezembro, sentenciando que a aprovação da proposta significa o fim da aposentadoria pública no Brasil. “Por outro lado, é um grande estímulo para que as pessoas busquem as previdências privadas nos bancos. Foi a reforma da previdência que o sistema financeiro pediu”, acrescentou Denise. Nos últimos 12 meses, a captação líquida dos fundos de Previdência privada cresceu 20% e o número de participantes dos planos particulares subiu 5,8%, segundo a federação nacional do setor.

Na primeira semana de 2017, o governo de Michel Temer anunciou ainda que após a tramitação da PEC 287 pretende apresentar ao Congresso uma proposta com alterações no acesso ao benefício pago a pessoas pobres idosas ou com deficiência, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que corresponde a um salário mínimo. Entre as mudanças previstas estão um aumento do patamar de renda para acesso ao BPC. Atualmente, têm direito ao benefício pessoas com renda menor que um quarto do salário mínimo. A PEC 287 já prevê alterações no acesso ao BPC, como o aumento, em 10 anos, da idade mínima para seu recebimento de 65 para 70 anos, bem como a desvinculação do benefício ao salário mínimo.

Presente de grego para os trabalhadores

“O governo acaba de ganhar um belíssimo presente de Natal”. Foi com essas palavras que o presidente Michel Temer anunciou a proposta de reforma trabalhista apresentada ao Congresso no dia 23. O “presente” deve ter agradado mesmo ao grande empresariado nacional, que teve muitas de suas reivindicações históricas atendidas na proposta. O Projeto de Lei 6787/2016, que deve ser votado em regime de urgência no Congresso, determina, por exemplo, que os acordos coletivos de trabalho definidos entre empresas e representantes dos trabalhadores possam se sobrepor ao que diz a CLT. A jornada de trabalho, por exemplo, poderá ser negociada entre patrões e empregados, com um limite máximo de 12 horas diárias e 220 horas mensais. Atualmente, a jornada padrão é de 8 horas diárias e 44 horas por semana. Outro ponto que poderá ser negociado é o intervalo para almoço, que deverá ter no mínimo 30 minutos. Hoje a CLT estabelece um intervalo mínimo de uma hora para repouso ou alimentação para qualquer trabalho cuja jornada exceda seis horas diárias, podendo ser ampliado em negociação coletiva. O projeto propõe ainda a ampliação dos contratos temporários de trabalho de 90 para 120 dias, prorrogáveis por mais 120, com a ampliação da jornada máxima de 25 para 30 horas diárias, sem direito a horas extras.  A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) divulgou nota em que chamou de “afronta constitucional” a proposta apresentada pelo governo. Para a entidade, a flexibilização da jornada de trabalho representa uma “evidente regressão histórica de direitos sociais”, feita para exonerar as empresas do pagamento de horas extras aos trabalhadores. A possibilidade de redução do intervalo para 30 minutos também é alvo de críticas. Segundo a Anamatra, o intervalo de uma hora disposto na legislação vigente tem caráter protetor da segurança e da saúde ocupacional, e sua redução tem potencial de causar “efeitos danosos na vida dos trabalhadores e de suas famílias” e também “na contabilidade do Sistema Único de Saúde e da Previdência Social”.

Privatização nas telecomunicações

Em meio à ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, o Legislativo ainda encontrou tempo para fazer avançar de maneira acelerada um projeto de lei que transfere uma infraestrutura da União para o patrimônio privado das operadoras de telecomunicações. No dia 19 de dezembro, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) rejeitou recurso apresentado pela oposição que pedia a votação em Plenário do projeto de lei 79/2016, que além de anistiar multas aplicadas a empresas do setor, estabelece que, ao fim do período de concessão, em 2025, as empresas não terão que devolver parte do patrimônio físico da União que vinham utilizando e administrando desde a privatização. No início de janeiro, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmen Lúcia, requereu ao Senado a apresentação, até o dia 10 de fevereiro, de informações sobre a tramitação do projeto, que foi aprovado em apenas sete dias corridos.  A solicitação veio em resposta a um mandado de segurança apresentado ao STF pelos senadores Vanessa Graziottin (PCdoB-AM), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Paulo Rocha (PT-PA), que argumentaram que a aprovação do projeto “violou gravemente o regimento do Senado”. Os senadores defenderam que a matéria deveria ter sido analisada por mais comissões temáticas e pelo Plenário do Senado. 

Mudanças no ensino médio

A reforma do ensino médio, outra proposta do governo Temer que vem sofrendo duras críticas desde que foi apresentada no dia 22 de setembro, ficou mais próxima de ser aprovada no Legislativo no final de 2016. No dia 13 de dezembro, a Câmara dos Deputados concluiu a votação da Medida Provisória 746/16.
O texto atual mantém a não obrigatoriedade do ensino de algumas disciplinas, como sociologia, filosofia, educação física e artes e possibilita que profissionais sem licenciatura ou formação específica sejam contratados para ministrar aulas. O PLV ainda estabelece que 60% da carga horária do ensino médio seja destinada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com os 40% restantes sendo preenchidos de acordo com a opção feitas pelos estudantes entre cinco áreas: Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Sociais, Matemática e Ensino Profissional.  No dia 19 de dezembro, o procurador-geral da República Rodrigo Janot enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um parecer em que alega que a reforma é inconstitucional. Segundo o procurador, uma reforma dessa envergadura não poderia ter sido feita por meio de medida provisória, que por ter um rito abreviado de tramitação no Legislativo não leva em conta a necessidade de participação democrática e de amadurecimento de uma proposta com tamanha complexidade. A supressão da obrigatoriedade das disciplinas de filosofia, sociologia, artes e educação física, a flexibilização na admissão de profissionais de educação, a supressão do ensino noturno e os itinerários formativos específicos são apontados como irregularidades da proposta no parecer da PGR. 

Renomeado como Projeto de Lei Convertido (PLV) 34/16 após ser aprovada na Câmara, a proposta aguarda para ser votada no plenário do Senado, onde tramita em regime de urgência até o dia 2 de março de 2017. A matéria, que tranca a pauta de votações do Plenário, deve ter prioridade na agenda do Senado no retorno das atividades legislativas, no dia 2 de fevereiro.

Leia mais

Milhares de estudantes secundaristas ocuparam escolas em outubro para protestar contra a reforma do ensino médio - decretada pelo governo Michel Temer por meio de Medida Provisória – e contra a PEC do teto de gastos. Em todo o Brasil, o movimento chegou a reunir mais de mil escolas ocupadas. Ana Julia Ribeiro, de 16 anos, era uma das integrantes da ocupação do Colégio Estadual Senador Manoel Alencar Guimarães, na capital do Paraná, estado que naquele momento somava cerca de 850 ocupações de escolas, quando foi escolhida para falar em nome dos estudantes sobre o movimento em uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Paraná realizada no dia 26 de outubro. Seu discurso, proferido em meio às lagrimas, ‘viralizou’ na internet, furando o bloqueio imposto pela grande mídia ao movimento de ocupações de escolas e tornando-a porta-voz um dos principais movimentos de oposição ao projeto político do atual governo. Nesta entrevista, Ana Julia sobre as repercussões de seu discurso na Alep e explica porque os secundaristas têm feito das ocupações de escolas uma arma para protestar contra medidas que entendem ser prejudiciais para a educação pública. “As ocupações nos incentivam, porque mostram que há uma revolta muito grande por parte dos adolescentes”, afirma.
Modificações feitas na Câmara tornam ainda mais claras as possibilidades de parceria com instituições de ensino privadas para educação a distância. Deputados delegaram sociologia, filosofia, artes e educação física para BNCC
Ao contrário do que dizem todos os dias os grandes jornais, não existe rombo na previdência social brasileira. A afirmação é feita pela economista Denise Gentil, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e comprovada na sua tese de doutorado, com números oficiais. Nesta entrevista, ela mostra como um cálculo equivocado, que ignora o texto constitucional, tem sido usado para justificar as sucessivas reformas da previdência. E essa história se repete agora, no momento em que o governo Temer submete ao Congresso a Proposta de Emenda Constitucional 287 que, entre outras coisas, torna a aposentadoria muito mais longe, com uma fórmula que combina idade mínima e tempo de contribuição, acaba com as especificidades da aposentadoria rural e extingue o regime de previdência dos servidores públicos. Nesta entrevista, Denise refaz essas contas, defende o princípio da seguridade social – que inclui previdência, assistência social e saúde – e argumenta que a garantia de uma renda digna na velhice ajuda a dinamizar a economia do país.
O governo de Michel Temer apresentou ao Congresso esta semana uma Proposta de Emenda Constitucional que institui uma nova reforma da previdência. Sob o argumento de um déficit nas contas públicas que inviabilizaria o sistema em poucos anos, a reforma, se aprovada, dificultará muito o acesso à aposentadoria. Uma das principais e mais comentadas mudanças é a instituição de uma idade mínima para aposentadoria associada ao tempo de contribuição ampliado. Pelas novas regras, ninguém poderá se aposentar antes dos 65 anos. A questão é que, para receber o teto do INSS, será preciso também contribuir por 25 anos. Para se aposentar com a idade mínima, portanto, o brasileiro terá que começar a trabalhar aos 16 e contribuir por 49 anos seguidos. É por isso que especialistas alertam que, na maioria esmagadora dos casos, essa idade provavelmente será muito maior. Nesta entrevista, a professora e pesquisadora do tema Ivanete Boschetti, da UnB, comenta essa e outras mudanças, como o fim das especificidades da aposentadoria rural e a extinção do regime próprio dos servidores públicos. Desmentindo os argumentos do governo, ela aponta saídas para equilibrar as contas públicas sem retirar direitos e não tem dúvida em afirmar que esse é o maior ataque que o direito à aposentadoria já sofreu no Brasil.
Assunto foi tema da aula inaugural da segunda turma do Mestrado em Educação Profissional em Saúde da EPSJV, voltado para trabalhadores das ETSUS
O ministro do trabalho, Ronaldo Nogueira, se adiantou sobre o tom da reforma trabalhista que será apresentada em breve pelo governo Temer – a possibilidade de uma jornada diária de até 12 horas de trabalho, novas modalidades de contratação e possibilidade de vínculo do trabalhador com mais de uma empresa. A declaração teve uma grande repercussão e obrigou o governo a tentar esclarecer melhor do que se trata. Por meio de nota e de vídeo divulgado nas redes sociais, o ministro afirmou que não haverá aumento da jornada semanal de trabalho de 44 horas, como está previsto na CLT, mas apenas uma flexibilização dessa carga horária ao longo da semana. A explicação não foi suficiente para desfazer o temor. Nessa entrevista, o médico sanitarista e pesquisador do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública (Dihs/Ensp/Fiocruz), Luis Carlos Fadel, explica porque as condições atuais de trabalho já adoecem os trabalhadores, e afirma que o quadro tende a se agravar com as mudanças propostas na reforma trabalhista.
Prevalência do negociado sobre o legislado, com flexibilização da CLT, e regulamentação da terceirização: essas são as medida que o governo interino já antecipou que devem constar de uma proposta de reforma trabalhista a ser encaminhada ao Congresso ainda este ano. Veja reportagens e entrevistas do Portal EPSJV/Fiocruz que debatem e desmistificam o tema
Quando a equipe de reportagem da EPSJV/Fiocruz terminava a última edição da Poli (n° 46), a Casa Civil da Presidência da República informou que nenhuma iniciativa tinha sido tomada para construir a proposta de reforma trabalhista prometida pelo governo interino. Não passou muito tempo até que, num café da manhã com jornalistas no dia 20 de julho, o ministro provisório do trabalho, Ronaldo Nogueira, anunciasse os termos da proposta que, tal como a reforma da previdência, deve ser apresentada ao Congresso ainda este ano. Sobre os pontos principais da contrarreforma, quase nenhuma surpresa em relação ao que a Poli adiantou e ao que se podia ler no programa do PMDB, ‘Ponte para o futuro’: desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho, fazendo o negociado prevalecer sobre o legislado, regulamentação da terceirização e ampliação do Programa de Proteção ao Emprego (PPE), criado no governo Dilma Rousseff. Nesta entrevista, realizada pouco antes desse anúncio do ministro interino, o professor da Faculdade de Economia da Unicamp, Marcio Pochmann, rebate as ideias que agora se apresentam oficialmente como propostas, explicando por que a ideia de que flexibilização das leis trabalhistas permite gerar mais emprego é um mito difundido pelo empresariado
Portal EPSJV/Fiocruz ouviu CUT, CSB, Força Sindical e CSP-Conlutas sobre reforma da previdência
Especialistas desmentem números que anunciam rombo na previdência. Governo interino quer aprovar este ano contrarreforma que inclui ampliação da idade mínima para aposentadoria