Entrevista: 
Gabriel Corrêa

‘Não se pode entrar no autoengano de que aquilo que foi trabalhado remotamente substitui o que deveria ter sido feito de forma presencial'

A decisão sobre utilizar ou não o ensino remoto durante o período de isolamento social é um dos desafios – e das polêmicas – que a Covid-19 trouxe para a educação no Brasil. A atuação das entidades filantrópicas de origem empresarial na condução do debate político e na oferta de serviços e tecnologias para agora e para o futuro pós-volta às aulas é outro ponto que tem mobilizado a atenção de pesquisadores do campo (e que será pauta de reportagem da próxima Revista Poli, que estará disponível em breve). Nesta entrevista, Gabriel Corrêa, gerente de políticas públicas do Todos pela Educação, que tem várias dessas entidades como mantenedoras e vocaliza as principais propostas desse segmento, descreve as ações do Movimento neste momento, discute as críticas ao ensino remoto e defende o que deve permanecer como mudança mais perene no pós-pandemia.
Cátia Guimarães - EPSJV/Fiocruz | 02/07/2020 11h24 - Atualizado em 09/07/2020 10h57

A nota sobre ensino remoto , lançada pelo Todos pela Educação (TPE) termina afirmando que o movimento “não medirá esforços para apoiar todos os gestores e profissionais da área”, “buscando soluções em prol das crianças e dos jovens brasileiros”. Que tipo de ajuda o Todos pela Educação está desenvolvendo neste momento em relação ao contexto da pandemia? Quais são as principais ações junto aos governos e órgãos reguladores?

O Todos Pela Educação tem uma natureza de atuação em que o nosso papel é oferecer subsídios técnicos para os atores governamentais poderem tomar decisões e elaborar políticas públicas com mais qualidade. A gente não tem parceria, nem tem nenhum contrato com secretarias de educação dos governos, exatamente, para nos dar independência de oferecer orientações, mas também criticar quando for preciso. Nesse sentido, a atuação do Todos Pela Educação durante a pandemia tem muito de sistematizar aprendizados que outros países já tiveram em situação de fechamentos de escolas, seja no atual momento da Covid-19, seja em outros períodos, por desastres naturais... Então, é sistematizar esse conhecimento e trazê-lo de forma contextualizada para o Brasil, para esses atores políticos. Por exemplo, a gente tem essa nota técnica a qual você se referiu, do ensino remoto, temos uma outra nota técnica sobre a volta às aulas e também somos muito procurados por secretários de educação e governadores para dar o nosso ponto de vista, para oferecer algumas recomendações. Realizamos, inclusive, alguns debates públicos - claro, que online - ou webinários com secretários de educação, governadores, professores e diretores de escola para oferecer essas orientações.

A gente fez também uma nota técnica, um estudo junto com o Instituto Unibanco, mostrando que, com a crise econômica esperada para este ano e para o próximo, a arrecadação dos governos estaduais vai cair muito e, consequentemente, também o orçamento da educação. Então, o Todos vem trabalhando com os deputados e governadores para buscar uma saída de um socorro emergencial para as secretarias de educação. E tem a pauta do Fundeb [Fundo de Manutenção da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação], que não deixa de ser importante, porque vence no fim deste ano e precisa ser renovado e pode ser aprimorado. Então, a gente vem trabalhando isso junto com os deputados. Com o Conselho Nacional de Educação, seguimos a mesma linha da secretaria de educação no sentido de oferecer apoio, orientação e subsídios aos conselheiros na elaboração de normativas no que tange à pandemia.

Você começou falando que o Todos Pela Educação não tem parcerias, convênios e contratos exatamente para garantir essa independência em relação a todos os poderes e governos. Mas o Todos Pela Educação é um grande movimento formado por várias instituições e essas instituições têm contratos, convênios e parcerias, principalmente com as secretaria estaduais e municipais. Como é essa articulação do Movimento com as entidades que a compõem nesse caso?

"O Todos é composto por organizações do terceiro setor que, sim, formam parcerias. Desconheço que tenha alguma que fez uma parceria com contratos pagos"

O Todos Pela Educação é financiado por diversas entidades e organizações do terceiro setor, mas também instituições privadas e pessoas físicas. Mas a gente tem que deixar sempre muito explícito que, tanto a nossa atuação, quanto a atuação de cada organização são muito independentes, não precisam ser vinculadas uma à outra. O Todos é composto por organizações do terceiro setor que, sim, formam parcerias. Desconheço que tenha alguma que fez uma parceria com contratos pagos, acredito que não. Mas a gente é financiado e faz parcerias em projetos específicos. Não respondemos por todas elas.

A pandemia traz um cenário difícil para o país e para a educação, em especial. Mas esse momento traz também oportunidades para a educação pública? Quais?

A pandemia, primeiro, escancara, dá transparência para problemas já existentes, traz desafios novos e aprofunda parte desses desafios já existentes. E, nesse processo, ao escancarar e dar visibilidade aos diversos problemas que a educação já tinha, uma série de atores começa a se empenhar para resolver e se comprometer mais para resolver esses problemas. O desafio é, realmente, muito grande, mas uma série de medidas que estão sendo feitas agora são sim importantes de serem perenizadas. Eu não sei se a palavra é oportunidade, mas um impulso a mudanças positivas que precisam ser duradouras nos sistemas educacionais. E eu posso dar até alguns exemplos para concretizar a minha resposta. Acho que o primeiro fato, que é mais intangível até, é a valorização da escola e do professor. Muito vinha se criticando a escola, tem gente que fala que a escola é um amplificador de desigualdades, pouca gente dava valor para os professores. E, durante esse quadro da pandemia e da quarentena, a gente tem visto como a escola é importante, como as escolas públicas são redutores de desigualdade, que os próprios professores são profissionais que precisam ser mais valorizados. Isso no campo mais intangível. Falando especificamente de política pública, está cada vez mais claro que uma resposta adequada à situação, aos desafios que a pandemia traz precisará ser nesse necessariamente intersetorial. Ou seja, precisará de articulação entre a educação, a saúde, a assistência social e outras áreas. A educação, a escola, sozinha não vai dar conta de resolver todos os problemas. Mas isso não é algo específico, não é uma medida tampão ou uma necessidade apenas emergencial de resposta à crise atual. O Brasil já tinha problemas imensos de desigualdade, pobreza, desafios de vulnerabilidade social. Já existiam nas escolas e sempre foram necessárias articulações intersetoriais. Então, está aí uma possibilidade de impulso e mudança positiva que é, de uma vez por todas, a gente entender como é importante essas áreas se articularem para oferecer políticas públicas de qualidade para as crianças, adolescentes e jovens.

"Professores brasileiros já se deparam com uma diferença de aprendizagem imensa entre os alunos brasileiros dentro de sala de aula porque são raros os programas de recuperação de aprendizagem bem estabelecidos na rede pública. Então, está aí mais uma possibilidade"

Outra coisa importante também, que a gente sempre vem destacando, é a relação da família com a escola. Todas as pesquisas nacionais e internacionais da academia mostram o quão é importante que os pais ou responsáveis atuem juntos no dia a dia escolar dos seus filhos, perguntem, ajudem a fazer o dever de casa, participem das reuniões de pais, mostrem que o aprendizado é importante. E agora, de forma às vezes até forçada, as famílias foram obrigadas a participar mais da educação dos filhos, abrindo a possibilidade de que essa aproximação seja também duradoura e diferente. Vou falar de quatro temas aqui que a gente destaca na nossa nota, já falei dois. O terceiro é que as secretarias de educação no Brasil e nos outros países, que a gente tem acompanhado, têm destacado muito que, apesar de as ações de ensino remoto que estão sendo adotadas de forma emergencial serem muitos importante, inevitavelmente, vão ser criadas lacunas de aprendizagem dos alunos. Então, é muito importante, nesse retomo às aulas, a gente fazer avaliações diagnósticas de aprendizagem, que é o que a gente chama de verificar, diagnosticar quais são os principais problemas de aprendizagem dos alunos para fazer programas de recuperação. Isso também é um problema que já existia antes, por mais que ele seja aprofundado com a pandemia. Então, professores brasileiros já se deparam com uma diferença de aprendizagem imensa entre os alunos brasileiros dentro de sala de aula porque são raros os programas de recuperação de aprendizagem bem estabelecidos na rede pública. Então, está aí mais uma possibilidade. Se a gente vai estruturar um bom programa de recuperação agora para dar resposta à crise, que ele possa ser expandido e perenizado para médio e longo prazo. E, por fim, um quarto ponto importante de se destacar é a introdução da tecnologia, de vez, como aliada da aprendizagem. Não uma tecnologia que vai substituir o ensino presencial, que vai substituir o professor, mas uma tecnologia que vai apoiar o professor no processo pedagógico, que vai apoiar os alunos e as famílias no processo de aprendizagem. Esse é um quarto elemento superimportante [em relação ao qual] a resposta atual à pandemia pode trazer uma avenida de mudanças positivas e duradouras nos sistemas educacionais.

A nota técnica sobre retorno às aulas do Todos pela Educação afirma que “é provável que haja elevados graus de disposição e abertura por parte de toda a comunidade escolar (estudantes, profissionais, famílias) para introduzir, de vez, a tecnologia como instrumento pedagógico”. Por que é provável? Se, neste momento, esse processo está acontecendo de forma fragmentada, apenas como ensino remoto, muitas vezes sem acesso à tecnologia, e se o próprio texto diz que isso é muito diferente “das soluções temporárias de ensino remoto”, o que permite afirmar que é provável? É apenas uma questão de “disposição”, tendo em vista que o Brasil nem chegou perto de universalizar a internet nas escolas e considerando a desigualdade que se reconhece agora? O que significa tecnologia como instrumento pedagógico?

Eu vou responder de forma mais geral. Não é só uma questão de disposição. Mas o que a gente destaca é que parecia haver pouca cultura no Brasil, e até preconceito, por certos atores, em relação ao uso de tecnologias nas escolas. Claro que é difícil. O Brasil é um país muito grande, muito desigual e a gente reforça muito que quando a gente prega algum ponto como o da tecnologia, ele não vai servir para o país inteiro. Por isso que há várias respostas, [ter] um leque de opções é sempre muito importante. Mas a gente tem escutado muitos relatos de professores, diretores de escolas, de secretários de educação sobre as ferramentas utilizadas atualmente. Claro, eu estou falando daquelas redes de ensino em que a maioria dos alunos tem o acesso...

Quais são essas redes de ensino?

Quando você vai para estados e municípios que têm maior renda per capita... Uma coisa é a gente olhar para o estado do Paraná, por exemplo. Outra coisa é olhar para o Maranhão. São estados diferentes. O Paraná, por exemplo, conseguiu estabelecer algumas políticas de ensino remoto que conseguem chegar a muito mais alunos do que o Maranhão, que também lançou mão de tecnologia educacional, sabe que não vai assistir todos os alunos, mas ainda assim fala: “olha, o fato de eu não consegui chegar a todo mundo, não significa que eu vou privar todos de terem acesso a isso”. Então, o grande desafio é como chegar a quem não consegue também: como eu mando materiais físicos, como eu chego de alguma forma a todo mundo. Mas não significa nivelar totalmente por baixo e não oferecer nada de tecnologia educacional pelo fato de que você não vai chegar a todos os alunos. Às vezes, a gente acha que é uma plataforma pedagógica supercomplexa, mas a própria comunicação dos alunos com professores por mensagem de SMS e no WhatsApp, neste momento, tem sido muito importante para manter o engajamento de alunos nas escolas. Isso pode trazer ganhos muito importantes. Tem pesquisas mostrando isso. Então, quando a gente fala de tecnologia, a gente também tem que entender que não necessariamente está se falando de um aplicativo de iphone superavançado, pode ser informação por televisão, rádio, SMS ou WhatsApp. Tem várias opções para se tentar chegar ao maior número de alunos, reconhecendo, é claro, que a situação do Brasil é que muito aluno sequer tem acesso a essa ferramenta, a essa tecnologia. Por isso, que fazer esse mapeamento e conseguir apoiar os alunos que nem têm acesso a essa tecnologias é superimportante.

Mas como vocês têm esse retorno sobre um relativo sucesso nas redes em que os alunos têm mais acesso, gerando, inclusive, uma certa quebra dessa cultura de resistência à tecnologia?

Essa parte do [contato por] SMS, WhatsApp, etc é de pesquisas mais sistematizadas antes da pandemia. Por isso que eu te falei de relatos de professores. É bem verdade que quando você olha para uma rede como um todo, ainda é difícil ver uma rede de ensino [e dizer]: “nossa, não temos problema nenhum”. Foi todo mundo pego de surpresa com esse vírus, com essa situação. Mas eu posso te citar algumas: a rede estadual de Minas Gerais, eu falei já do Paraná, do Maranhão, de Pernambuco, a própria rede de São Paulo... São redes que, se você for analisar o que está tendo de ensino remoto, vai ter problema, mas, dado o tempo em que foi feito, que foi todo mundo pego de surpresa e a necessidade de ações emergenciais foi impressionante, são redes que conseguiram estruturar uma resposta minimamente adequada e estão buscando chegar a diversos alunos. De novo: tem problemas, precisa melhorar, mas acho que a gente precisa reconhecer um trabalho que está sendo feito no Brasil sem apoio de um ator que seria tão importante para coordenação disso tudo, que é o Ministério da Educação.

Mas quando a nota técnica do TPE fala, por exemplo, em “incorporação da tecnologia como aliada contínua do aprendizado”, como um ganho futuro, não está se referindo ao SMS, rádio, TV ou ao improviso que, de certa forma, marca este momento. Para o mais longo prazo, que tecnologia é essa?

As principais ferramentas que apoiam um trabalho pedagógico do professor e que podem ser utilizadas como aliadas contínuas da aprendizagem estão relacionadas ao uso de computador e celular. É claro que, ao falar isso, você já sabe que uma parte dos alunos brasileiros ainda está privada do acesso a essas tecnologias. Por isso, um campo importante é ampliar o acesso dessa população a essas tecnologias. Eu não vou saber os dados exatos, mas falaria que em todos os estados brasileiros existem redes de ensino, menores ou maiores, em que a grande maioria dos alunos tem esse acesso. Então, o que a gente vê são ferramentas de computador e celular que ajudam os alunos a fazerem fazer exercício de casa, apoiam com videoaulas para reforçar conteúdos que a professora já deu, trazem jogos voltados para o aprendizado e que o aluno tem mais engajamento em aprender os conteúdos que estão sendo trabalhados. E há tecnologias que individualizam o ritmo de aprendizagem. A gente sabe que crianças e adolescentes têm ritmos de aprendizagens diferentes uns dos outros. Então, existem tecnologias e, de novo, com jogos, plataformas e aplicativos, em que o ritmo é mais individualizado. Com isso na mão do professor, ele consegue diagnosticar e entender muito mais em que etapa de aprendizagem de cada conteúdo cada aluno está, para apoiar e dar mais exercícios específicos para o que aquele aluno precisa. A grande maioria das escolas brasileiras ainda não tem tecnologia dessa forma que a gente está falando. Os professores têm muitas dificuldades ainda, muitos desafios para fazer essa personalização, essa individualização, de entender o que cada aluno está precisando a cada momento, e a tecnologia permite isso. Então, a gente sabe que não é um futuro imediato, não é na volta imediata das aulas que vai se ter isso para todo mundo, mas é uma visão de futuro desejável, até para conseguir minimizar os problemas de desigualdades que o Brasil ainda tem na aprendizagem dos alunos.

"Eu quero deixar isso claro para não minimizar, pelo contrário, você tem que chamar muita atenção para essa questão da tecnologia porque o Brasil está muito longe de ter um acesso à tecnologia e conectividade para a maioria dos seus alunos"

Você deu o exemplo de algumas redes em que o processo de ensino remoto estaria sendo mais exitoso - Paraná, São Paulo e outras. O Todos Pela Educação tem um mapeamento sobre o acesso dos estudantes no Brasil nas diferentes regiões, estados e municípios, à tecnologia? E de como está esse cenário agora?

Não, o que a gente tem são as informações públicas até o momento. Para você ter uma ideia, quando se pega uma rede estadual que, geralmente, é muito grande, você vai ter uma desigualdade muito grande. O Brasil tem municípios, especialmente municípios pequenos, com menos desigualdades. São os municípios com maior renda por habitante. [Nesses casos], a maioria dos alunos vai ter o acesso à tecnologia. Mas a gente tem uma desigualdade muito grande dentro de cada rede. Dentro das redes tem escolas com alunos que têm acesso e escolas com alunos que não têm acesso. E dentro de cada escola tem essa diferenciação também. Então, essa questão do acesso é muito importante, principalmente porque ela traz a questão da desigualdade no país para dentro da educação. Eu quero deixar isso claro para não minimizar, pelo contrário, você tem que chamar muita atenção para essa questão da tecnologia porque o Brasil está muito longe de ter um acesso à tecnologia e conectividade para a maioria dos seus alunos.

Os documentos do Todos Pela Educação apontam de forma bastante clara essa constatação da desigualdade de acesso. Mas o argumento daqueles que têm criticado o ensino remoto neste momento é que se reconhece que a desigualdade existe, mas continua-se, mesmo assim, considerando que o conteúdo curricular tem sido dado por meio dessas tecnologias. Não se discute neste momento, por exemplo, suspender ano letivo. E não se discute usar essas tecnologias para outros fins e sim para manter os conteúdos do currículo da BNCC. O que eles dizem é que a gente diz que reconhece essa desigualdade, mas continua reproduzindo isso. Os documentos do Todos Pela Educação falam de algumas alternativas de aproveitamento de horário de sábado, de turno noturno, mas, a gente sabe que, tendo em vista a quantidade de professores e a estrutura das escolas, isso é bastante difícil de acontecer. Eu queria que você falasse um pouco sobre essa crítica. Como vocês imaginam que essa equação difícil vai ser solucionada?

Essa é uma pergunta importante, até para esclarecer que não há tanta divergência no discurso quanto pode parecer. Porque, mesmo defendendo que as ações de ensino remoto são muito importantes, em nenhum momento o Todos Pela Educação acredita que elas vão substituir o que deveria estar sendo feito em salas de aulas presenciais. Por isso, a gente reforça muito: o Brasil é um país federativo, cada município, cada estado, com o seu conselho de educação, vai definir o quanto desse período deve ou não contar como horas letivas cumpridas. E aí, de novo, não tem uma resposta certa, vai depender de que respostas foram dadas por cada rede de ensino. A gente só acha importante ressaltar que nada fazer é a pior das alternativas porque você afasta o aluno da escola, desengaja o aluno da escola, acaba perdendo o aprendizado que já tinha sido conquistado pelo aluno. É uma situação muito inédita, muito complicada. Quando a gente defende que as ações de ensino remoto precisam ser feitas, tem um leque de opções grande. A gente não está defendendo que quando voltar ao normal deve-se considerar que todos os conteúdos, todos os conhecimentos que foram trabalhados de forma remota sejam tocados como se fôssemos continuar a partir dali. Longe disso. É muito mais para evitar perda de aprendizagem e desengajamento dos jovens. Veja, períodos longos de distanciamento entre alunos e escolas que já aconteceram no mundo em outras pandemias, por exemplo, em desastres naturais, mostram um risco de evasão altíssimo, jovens desengajados, adolescentes não voltando para a escola ou voltando e perdendo o conhecimento com aprendizagem mais baixa do que tinham anteriormente. É muito mais para evitar essa perda do que acreditar que a gente está, de fato, substituindo a educação presencial pelo ensino remoto. Só que também não é falar: “olha, o ensino remoto atual tem vários problemas, então é melhor não fazer”. Todas as pesquisas que a gente lê, tanto no Brasil quanto fora, [mostram que] essa é a pior saída. Então, é reconhecer que tem problemas, que vai criar lacunas, mas fazer o máximo para que essas lacunas sejam minimizadas. E aí, a gente termina a nossa nota técnica de ensino remoto falando: “olha, a resposta adequada do poder público vai se dar na volta às aulas”. Porque é ali que a gente vai de fato conseguir trabalhar com os alunos as habilidades e conteúdos que deveriam ter sido trabalhados nesse período em que eles estavam em casa. Não é um divergência dessa fala que você citou, é uma convergência em parte, falando que tem problemas sim, que é preciso reconhecer esses problemas, mas que nada a fazer é a pior das opções.

Mas o que alguns pesquisadores e entidades críticas têm apontado é que é preciso fazer alguma coisa, mas não em relação ao currículo do ano letivo. Não em relação a uma urgência para garantir a certificação. Porque os estudos internacionais também mostram, e os dados do Brasil na pandemia confirmam, que nessas situações há aumento de violência doméstica e um conjunto de problemas que expõem mais as crianças e jovens. Tudo isso faz com que não se queira que os alunos estejam isolados do ambiente escolar, sem dúvida. Agora, se a gente tem um percentual importante desses alunos que não teve sequer acesso àquele conteúdo, ou se a mãe e o pai não têm escolaridade para ajudar, entre outros problemas, não aumenta a desigualdade insistir no cumprimento do currículo e na aceleração do ano letivo?

A pior saída é fingir que os conteúdos de conhecimentos foram bem trabalhados e continuar o calendário escolar como se nada tivesse acontecido. Por isso, de novo, é importante ressaltar que cada rede de ensino vai ter que decidir o quanto do ensino remoto vai contar ou não como cumprimento do ano letivo. Pode decidir que vai ser zero, 10%, 25%, por exemplo. Cada rede de ensino vai ter que entender que resposta consegue dar. A nosso ver, não se pode entrar no autoengano de que aquilo que foi trabalhado remotamente substitui o que deveria ter sido feito de forma presencial. Por isso, um debate importante é se, quando as aulas voltarem, a gente vai ter turno estendido nas escolas para trabalhar o conteúdo perdido, se a gente vai ter aulas aos sábados, se vai estender o calendário letivo deste ano. Em vez de falar de um ano perdido, vamos estender o calendário deste ano até o ano que vem, por exemplo, dependendo de quando vai retornar? Tem especialistas defendendo que a gente encerre o ano de 2020 e 2021 como um ciclo, que o conteúdo de 2020 que a gente não conseguiu trabalhar, a gente trabalhe no ano que vem, exatamente para evitar essa falta visão de que ao voltar está tudo bem. Entender como, de forma presencial, a gente vai dar conta dos problemas que foram ampliados e que surgiram durante o período do fechamento de escolas é muito importante para a gente conseguir garantir a aprendizagem dos alunos perante o que a Base Nacional Comum Curricular prega.

Cada rede tem autonomia para decidir o quanto de ensino remoto vai ser ou não aproveitado, mas se ela decide que pouco do ensino remoto vai ser validado, isso coloca para ela um desafio de educação presencial em condições que vão estar longe das ideais. Não há um risco importante de as redes começarem a aceitar um percentual alto do ensino remoto como conteúdo trabalhado pelo fato de estarem espremidas, precisando dar conta de um ano que não houve e sem recursos? Porque uma coisa é a gente dizer que a rede tem autonomia, outra coisa são as redes enfrentando tantos problemas na prática. Vocês estão avaliando sobre essas possibilidades?

Olha, eu acho difícil falar em chances altas, mas eu concordo que há um risco real de isso acontecer. E isso preocupa muito. Por isso, levantar essa pauta é importante para sensibilizar o secretário de educação, para não correr o risco de haver uma decisão de gestão financeira na rede de acatar o máximo possível do ensino remoto como se ele fosse substituto do ensino presencial. Eu sei que é um tema polêmico, por isso, a gente fala que, na voltas às aulas, vamos fazer esse diagnóstico de quantos alunos deixaram de aprender. Até para ajudar nessa decisão. Porque, ao nosso ver, o problema vai ser grande. A lacuna de aprendizagem criada não é pequena. Diagnosticar isso é importante para apoiar os professores, claro, em primeiro lugar, mas é importante também para tomar essa decisão, para falar: “olha, então, não vamos tratar o ensino remoto que foi feito como substituto e continuar a partir daqui trabalhando o currículo”. E, só para complementar, o Todos Pela Educação tem defendido no Congresso Nacional que é muito importante o Brasil continuar discutindo o apoio emergencial direto para as famílias, mas é importante resguardar a educação e dar um socorro financeiro para as secretarias de educação. A crise econômica traz um desafio imenso para o setor educacional que precisa desse apoio para conseguir dar a melhor resposta possível em uma situação como essa.

"Eu acho que a crítica parte até de um desconhecimento e de um preconceito quanto à atuação de organizações"

Uma crítica recorrente à atuação de movimentos como o Todos pela Educação e diretamente às entidades filantrópicas de origem empresarial diz respeito à produção e oferta de ‘pacotes’, seja de produtos, serviços ou consultoria, às escolas públicas. Têm-se discutido que, neste momento da pandemia, estratégias futuras apontadas nos documentos de vocês, como a avaliação diagnóstica e programas de recuperação da aprendizagem são um ‘prato cheio’ para esse tipo de oferta, que muitas vezes vem de cima para baixo, sem a participação devida do professor e da comunidade escolar. Eu queria que você comentasse essa crítica.

Eu acho que a crítica parte até de um desconhecimento e de um preconceito quanto à atuação de organizações. O Todos Pela Educação, em nenhum momento da sua história, defendeu pacotes prontos. Inclusive, a gente tem sempre muito cuidado nas nossas recomendações de falar que soluções precisam sim ser contextualizadas, a medida é o local. Sobre outras organizações, eu poderia dar a minha opinião, mas seria pessoal. Teria que buscar o Instituto Unibanco ou a Fundação Lemann para falar disso. Mas, particularmente, pelo que eu conheço, está longe de ser pacotes prontos o que é oferecido. Mas aí, de novo: é melhor buscar fontes específicas. Em relação à recuperação [dos estudantes] e ao processo de avaliação diagnóstica de avaliação, é muito claro na literatura brasileira, na literatura internacional, que é um processo importante. O problema é que experiências, não só no Brasil, distorcem esse processo, em que a avaliação acaba sendo punitiva para o aluno ou para o professor. O aluno se sente mal de estar em um processo de recuperação, geralmente um processo muito cansativo, que esgota o aluno e o professor. É claro que existem sim críticas a como o processo é feito, pode ter uma ou outra divergência, mas tem um consenso maior no debate educacional de que fazer um processo de recuperação bem feito, ter um diagnóstico de recuperação, é muito importante. No Todos Pela Educação, [achamos que] a gente pode olhar para outras redes de ensino, se inspirar e aprender com o que aconteceu, com as boas práticas. Mas é sempre fundamental contextualizar em nível local, dar autonomia para o que acontece dentro da escola porque qualquer saída que seja construída em um gabinete, feito de cima para baixo, sem envolver os profissionais, os professores e os diretores, não vai ter aderência, não vai conseguir chegar aos alunos e não vai conseguir melhorar a aprendizagem. Então, aqui, é uma mensagem de concordância de que contextualização é importante sim, contextualização em nível local, ouvir os profissionais. Porque pacotes prontos, se forem realmente oferecidos por alguma organização, estão longe de ajudar.

Especificamente em relação a essa orientação da avaliação diagnóstica seguida de recuperação de aprendizagem, existem experiências exitosas que o Todos pela Educação ache que é possível se inspirar? Vocês têm algum desenho para essa política?

Eu acho mais do que te mostrar um desenho, vale comentar dois casos de redes que conseguiram avançar no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] apesar de seu contexto socioeconômico.  Primeiro, o mais conhecido é o de Sobral (CE) . Lá há diagnósticos frequentes da aprendizagem dos alunos, uma preocupação muito grande em não deixar nenhum aluno pra trás, existem essa avaliações diagnósticas e existe um trabalho de recuperação dos alunos que não conseguiram aprender o conteúdo no tempo certo. Sobral é um exemplo muito específico de avaliações não para punir, mas para identificar. São avaliações ora bimestrais, ora trimestrais e os professores têm acesso de forma muito rápida a essas informações. Num trabalho colaborativo, professores da mesma classe ou da mesma disciplina se juntam para estabelecer a estratégia. Outro exemplo, de uma capital pobre, mas com o melhor indicador de Ideb, é Teresina (PI), que também consegue fazer avaliações frequentes e oferecer essas informações para os professores para que eles trabalhem com os alunos que não conseguiram a aprendizagem necessária. Claro que tem problemas, é difícil, gerir um sistema educacional é complexo e difícil. Mas são redes que, ao longo do tempo, vêm conseguindo avançar nesses casos, estabelecendo uma série de estratégias, entre elas, a avaliação diagnóstica seguida de um programa de recuperação.

Os documentos do Todos pela Educação têm apontado as experiências internacionais de desastres para alertar sobre os cuidados com o retorno às aulas. Há pesquisadores que também têm usado essa comparação para apontar o risco de se dar no Brasil, neste momento, o que chamam de “privatização por desastre”, um processo que teria se verificado em alguns países, como Haiti e El Salvador, em que a tragédia abre caminho para uma atuação mais ativa do setor privado. Eu queria que você comentasse sobre essa comparação.

Eu acho que isso reforça o ponto de que existem muitos exemplos fora para a gente aprender, tanto com os bons, quanto com os maus. Eu não demonizo o setor privado e é muito difícil julgar a situação de outro país. O que gente defende no Todos pela Educação para o contexto brasileiro, é que a saída está na escola pública, está no Estado. Eu, sinceramente, não enxergo esse risco de privatização massiva da educação brasileira advinda da pandemia. Mas foi uma resposta que outros países decidiram politicamente fazer, e me parece que é uma reposta que está muito longe do Brasil. E, politicamente, não é uma resposta adequada. O Brasil precisa acreditar na escola pública, acreditar no Estado como provedor da educação.

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Lançando mão do conceito de “privatização por desastre”, que analisa a experiência de países que passaram por tragédias naturais, Marina Avelar, pesquisadora associada da Graduate Institute of International and Development Studies, da Suíça, debate criticamente, nesta entrevista, como a suspensão das aulas em função da pandemia pode se tornar uma ”janela de oportunidades” para uma penetração ainda maior das entidades filantrópicas de origem empresarial nas redes públicas de ensino. Protagonismo na formulação de políticas públicas e oferta de soluções tecnológicas para o ensino remoto são, na avaliação da pesquisadora, algumas das ações dessas entidades que miram o agora e o futuro.

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