Segundo a base de dados construída pela pesquisa do Grupo de Estudos e Pesquisas em Direito à Educação, Economia e Políticas Educacionais (DEEP), da USP, existem no Brasil hoje 1.578 escolas militarizadas. Esse número pode parecer pequeno, diante das mais de 179 mil escolas de Educação Básica do país, mas o estudo também mostra uma tendência de crescimento: um aumento de 595% em relação a 2019, quando o governo Bolsonaro criou o Programa de Escolas Cívico-Militares. Além disso, como são escolas maiores, o número de matrículas é um indicador mais significativo que o número de escolas. Diante desses números, eu queria perguntar: a militarização é ainda um problema relevante para a Educação brasileira?
A gente tem feito o levantamento sobre as escolas cívico-militares desde 2010, mais ou menos, quando esse processo [começa] em Goiás. Primeiro, o problema das escolas militarizadas não começa no governo [Jair] Bolsonaro, a gente tem escola [nesse modelo] antes disso. Mas a inserção disso na política nacional faz com que o assunto tome uma outra dimensão e o processo de expansão também se dê como disputa política. A descontinuidade do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim) [que aconteceu em julho de 2023, pelo governo Lula] não descontinuou a militarização porque os estados e municípios incorporaram [as escolas militarizadas pelo programa] aos seus processos de militarização. Isso se ampliou bastante depois disso e ainda vem ampliando. Só a rede estadual do Paraná tem trezentas e tantas escolas e, com o governo Bolsonaro, eram só umas dez. [Isso acontece] aqui no DF [Distrito Federal], Goiás, Bahia, Maranhão... A Bahia e o Maranhão não militarizaram nenhuma escola cívico-militar, todas as suas escolas militarizadas são parte de um programa próprio. Então, a gente tem aí um problema de crescimento que não vai parar.
A gente não deveria ter nenhuma escola militarizada
Segundo, o percentual de escolas [militarizadas] frente ao total de escolas [do país] é um problema muito sério porque a gente não deveria ter nenhuma escola militarizada. Eu não estou discutindo as escolas militares, que existiram desde sempre, estou discutindo as escolas públicas militarizadas. Há redes que não têm nenhuma escola que não seja militarizada. Há municípios que têm uma escola de Ensino Médio e ela foi militarizada. Então, embora seja um percentual pequeno [o número de escolas militarizadas em relação ao geral], em alguns casos [as escolas militarizadas representam] 100% da rede. E a gente não deveria ter nenhuma escola pública regida pela Constituição, pela Lei de Diretrizes e Bases, funcionando a partir desse modelo porque ele vai na contramão dos princípios da escola pública. [A escola militarizada] deixa de ser igual às escolas das redes, tanto que você cria regimentos paralelos, é uma rede paralela dentro da rede, com normativas e práticas que só são permitidas dentro dessas escolas, que em nenhuma outra escola pública se aceita.
Por exemplo?
Essa escola deixa de ser pautada na inclusão, já que as pessoas com deficiência e os neurodivergentes não cabem dentro delas
Por exemplo, a questão de [os alunos terem que] bater continência, marcharem e repetirem cantos da formação militar. A questão da padronização dos cabelos e das roupas... A cultura da juventude não faz parte dessa escola, tudo aquilo que se discute a partir da diversidade que constitui a nossa sociedade [está fora]. Por exemplo, essa escola deixa de ser pautada na inclusão, já que as pessoas com deficiência e os neurodivergentes não cabem dentro delas. Há transferência desses alunos porque não entregam os resultados que eles querem ou porque não seguem os ritos militares. Você não aceita esse tipo de coisa nas outras escolas públicas, não se faz isso. Há grandes processos de assédio por parte dos militares... Tem um conjunto de práticas que acontecem dentro dessas escolas que só é permitido dentro delas. E que, se acontecesse dentro de uma escola gerida pelos civis sem os militares, viraria um escândalo, os diretores e professores perderiam cargos... Então, a gente não está só falando de número de escolas. Nenhuma deveria seguir esse modelo, mas a gente está vendo espaços em que os estudantes não têm nenhuma opção a não ser ir para uma escola militarizada. Os estudantes com distorção idade-série não cabem nessas escolas. Tem normativa dessas escolas que diz que não pode ter distorção idade-série, que se o aluno repetir mais de uma vez de ano ele será transferido da escola... Para onde esses alunos vão? Isso é permitido em outras escolas?
No julgamento, pelo STF, de uma ação de inconstitucionalidade relativa ao modelo de escolas militarizadas implantado em São Paulo, o relator, ministro Gilmar Mendes, votou por considerar o modelo constitucional, impondo restrições. Mas o voto parece caracterizar as escolas militarizadas de uma forma diferente. Ele afirma, por exemplo, que “a chave interpretativa de compreensão constitucional de participação de militares em instituições civis deve ser marcada pela atuação subsidiária e subordinada sempre ao poder civil” e que “os chamados colégios ‘cívico-militares’ são, na verdade, colégios civis”. É de fato essa a compreensão que tem orientado o funcionamento das escolas militarizadas no Brasil? E, se elas de fato são escolas civis, o que as torna diferentes? Por que precisaríamos de um modelo militarizado?
O ministro Gilmar Mendes não entende nada de Educação nem de organização de escola. Ele diz que é constitucional militarizar e que o que a gente precisa é regulamentar como a militarização vai funcionar. No voto, ele faz a tese e destaca oito pontos para confirmar essa tese, [defendendo que a militarização] é constitucional desde que se respeitem esses aspectos. Eu fui pegando o parecer do Gilmar e fazendo comentários em todos eles para dizer que tudo aquilo não se confirma.
Não há um modelo único de militarização da escola no Brasil
O Gilmar estabelece que os militares vão estar sob o comando dos civis. Mas onde tem militar, a palavra dele sempre vale mais que a do civil. Se a gente está falando de militarização, o que é comum em todas as escolas no Brasil é seguir os princípios dos militares e não os princípios civis. A forma de implementação disso se dá de muitas maneiras. Por exemplo, no estado de São Paulo, [a lei que institui o programa diz] que os militares vão ser só monitores, não vão interferir na gestão. Não vai acontecer isso, mas digamos que o processo lá [preveja] que são só militares da reserva [que vão atuar na escola]. Só que a gente tem no Brasil militares da reserva e militares da ativa armados dentro das escolas. Os da reserva não estão armados, mas os da ativa estão. Então, esse argumento [do voto do ministro Gilmar Mendes] já vai caindo por terra. Tem militarização por meio de grupos privados que contratam militares ou treinam civis para implementarem a lógica dos militares dentro da escola. Não há um modelo único de militarização da escola no Brasil, então, várias questões do voto do Gilmar Mendes vão caindo por terra, inclusive no ponto em que ele fala de financiamento, que não pode utilizar a verba do MDE [despesa de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino] para a militarização. Porque tem criatividade do Brasil. Tem um monte de escolas [públicas] geridas por grupos privados que estão pagos com verba do MDE e esses militares podem ser contratados da mesma lógica. Vai ter formas de burlar o processo.
Existe lá dentro a chamada gestão disciplinar que, no final das contas, define o que a gestão pedagógica pode fazer
O termo ‘cívico-militar’ foi cunhado no governo Bolsonaro não foi por acaso. A ideia é que a escola continua civil, que os militares estão lá só ajudando, garantindo ordem, esse tipo de coisa. Mas na verdade isso não acontece, inclusive nas escolas que não têm a polícia fazendo gestão. A gente tem, no Brasil, inclusive, modelos de gestão compartilhada em que, em tese, [acontece] aquilo que o ministro [Gilmar Mendes] está dizendo [no seu voto]: que a gestão e todo o processo têm que ser feitos pelos profissionais da Educação [e não por militares]. Mas existe lá dentro a chamada gestão disciplinar que, no final das contas, define o que a gestão pedagógica pode fazer.
Os alunos estão marchando e repetindo cânticos da formação militar que são inimagináveis dentro de uma escola
E aí tem práticas militares. Mesmo nas escolas que só têm monitores [militares], em que [os militares] não têm uma interferência direta da gestão, como no Paraná, os alunos estão marchando e repetindo cânticos da formação militar que são inimagináveis dentro de uma escola. Então, esse argumento do Gilmar Mendes, de que as escolas serão só civis, é de alguém que está ignorando completamente – e ele sabe disso – o que é o militarismo neste país. Não existe essa coisa de militares obedecendo civis. No voto, ele proibe, por exemplo, que dentro das escolas haja cantos e símbolos [militares]. Mas se os militares não vão fazer nada disso, que é o que eles sabem fazer, se vão só auxiliar a gestão da escola, por que são militares [a fazer isso]? Por que não são profissionais de Educação? O que os militares têm para fazer dentro da escola além daquilo que eles sabem fazer, que é controlar e ensinar essas coisas? Eles não têm o que fazer dentro das escolas, além disso que o ministro está dizendo que eles não podem fazer.
Ele vai dizer também – olha só o tamanho do absurdo – que, se tiver padronização [de corte de cabelo, roupa etc], ela tem que passar pelo crivo dos civis. Mas estabelecer padronização já fere todo o nosso arcabouço legal, seja do ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente], seja da Constituição. A Constituição fala do desenvolvimento pleno do sujeito, de respeitar a diversidade, de a escola ser esse espaço diverso. Então, como é que os civis podem autorizar a padronização?
Mas, além de submeter à autorização de um civil, o voto do ministro Gilmar Mendes também afirma que, nessa padronização, precisam ser respeitadas as manifestações culturais e religiosas, inclusive de segmentos minoritários. Isso ajuda a diminuir o problema?
Não. Porque, no fundo, se for respeitar isso, não se pode estabelecer padronização. Não faz muito sentido. A impressão que eu tenho é que o Gilmar Mendes quis agradar o debate que a gente está fazendo e, ao mesmo tempo, não desagradar os militares. E foi impondo regras que ele sabe que os militares não vão cumprir. Tem um monte de civis, diretores e gestores, que vão adorar imprimir nas escolas o que os militares estão fazendo. Estamos falando de uma escola que a gente disputa e que exclui muita gente todo o tempo, inclusive nas não militarizadas. A gente está lá disputando para que essa escola seja antirracista, não seja capacitista... Esse é o debate que a gente faz o tempo inteiro na sociedade. O ministro do STF diz que [as escolas militarizadas devem] respeitar as questões culturais e religiosas, mas a gente sabe a quantidade de problemas que já temos nos espaços públicos e nas escolas, por exemplo, com as religiões de matriz africana.
É preciso colocar [nas escolas] mais profissionais de Educação, mais profissionais da área de Saúde, da assistência, e não militares
Outro argumento da tese [do voto do ministro Gilmar Mendes] é que, para militarizar [uma escola], tem que passar pelo crivo da comunidade acadêmica. A gente tem processos de ‘escolhas’ neste país, com muitas aspas, dos quais os estudantes não participam. Há todo um processo de controle de quem vai e como vai [às audiências decisórias]. Essa escola vai militarizar sem ter debate sobre o que significa tudo aquilo. Quem vivencia este país, quem está nos debates nas escolas ou, inclusive, fora delas sabe que essa normativa para regulamentar ou estabelecer regras para militarização [não vai funcionar]. Se você está dizendo que os militares não podem fazer nada disso, o que eles estão fazendo dentro da escola? É preciso colocar [nas escolas] mais profissionais de Educação, mais profissionais da área de Saúde, da assistência, e não militares.
Considerando essa compreensão do ministro Gilmar Mendes, de que os militares devem se submeter aos civis nas escolas militarizadas, e a clareza de que as despesas de militarização não podem ser consideradas gastos de manutenção e desenvolvimento do ensino (que já se sabia mas é reafirmada no voto do ministro), o que motiva um gestor estadual ou municipal a criar escolas militarizadas no Brasil hoje?
Essa é uma pergunta que não tem uma única resposta. A militarização no Brasil tem se tornado um elemento político e político-partidário, inclusive, para atender a interesses de vereadores e deputados e agradar a uma parte muito conservadora da nossa sociedade. Os gestores que são realmente mais democráticos não militarizam a escola. Há políticos extremamente conservadores que querem isso. A militarização é mais uma das formas de manifestação dos conservadorismos no Brasil. Há uma necessidade de controlar o público da escola pública. Há todo um discurso de que se vai militarizar [escolas em] áreas vulneráveis, mas não é bem assim que funciona. Os vulneráveis não permanecem dentro dessas escolas. Os militares vão definindo quem pode e quem não pode ficar dentro dessas escolas. E há um elemento central nesse processo, que é a lógica de que os militares nunca deixaram de estar no poder ou de fazer parte do controle da sociedade brasileira. Os gestores e políticos que temem o público da escola pública [apostam também], por exemplo, na contratação de empresas para fazer a gestão da escola, para que essa gestão não seja feita pelos professores. Mas a militarização é um processo que vai dar um check em tudo isso: com ela, você controla o debate da diversidade, controla a cultura da juventude. Há um processo de controle muito mais efetivo quando você põe os militares dentro da escola.
A militarização é parte desse elemento do conservadorismo do nosso Estado, mas também de manutenção das estruturas de privilégios, por exemplo, dos militares. Porque, além de controlar [a escola pública], os militares engordam seus soldos
E, obviamente, que quando os gestores militarizam as escolas, eles não estão pensando na qualidade da Educação, porque os militares não são um insumo de qualidade. Eles sabem o que os militares vão fazer dentro da escola: o mesmo que eles fazem fora dela, só que num espaço muito menor, de uma forma muito mais controlada, e lidando com crianças e adolescentes, desde muito pequenos até a juventude. A militarização é parte desse elemento do conservadorismo do nosso Estado, mas também de manutenção das estruturas de privilégios, por exemplo, dos militares. Porque, além de controlar [a escola pública], os militares engordam seus soldos. Eles recebem valores mais altos que os valores dos professores, valores que, inclusive, entram como bolsa, sem incidência de imposto.
O Distrito Federal está numa expansão enorme da militarização e a verba vem da área de segurança. Esses governadores, ao serem impedidos [de usar] a verba da Educação, podem implementar isso com verba vindo de outro lugar. Os governadores não estavam pagando [os militares] porque entendiam que eles eram profissionais da Educação. Não são. Não tem nenhum arcabouço legal neste país que transforme militar em profissional da Educação. Então, limitar de onde pode vir a verba [para a militarização] é um elemento importante no processo? É. Mas, definitivamente, isso não resolve a questão. Esse povo pode pegar [dinheiro de] Emenda Parlamentar, pode arrumar dinheiro de todos os lugares para continuar com os militares dentro da escola.
Ninguém vai me convencer de que os militares vão ficar dentro da escola só para auxiliar a gestão em tarefas específicas
E ninguém vai me convencer de que os militares vão ficar dentro da escola só para auxiliar a gestão em tarefas específicas. E nem precisaria de tantos militares dentro das escolas para fazer isso. As escolas deste país inteiro estão sem professores, sem técnicos administrativos, sem merendeiras, mas [há escolas] cheias de militares. Ou nas escolas militarizadas se garante tudo isso e nas demais não. Cria-se, inclusive, uma estrutura de privilégio [para as escolas militarizadas]. Tem municípios que só militarizam a escola depois que ela é reformada, eles exigem um conjunto de condições: que nunca faltem professores, que não tenha alunos repetentes...
De fato, o estudo coordenado pelo Fernando Cássio mostra que “todos os indicadores de infraestrutura analisados são mais favoráveis nas escolas militarizadas do que no universo das escolas do país”. Esse é um importante elemento de atração e apoio da comunidade à militarização das escolas?
A gente vem mostrando isso desde o início. Por exemplo, a primeira escola militarizada [em Goiás] foi a Hugo de Carvalho Ramos, uma escola que fica num bairro nobre, perto do shopping Flamboyant, que é o mais chique de Goiânia. Inclusive, em Goiás, eles cobram taxa dos alunos. Pegaram essas taxas e fizeram reformas na escola. Tem engarrafamento de carros e vans na porta da escola, que as outras escolas públicas não têm. Então, você militariza a escola e esse público muda. E aí vira um elemento de distinção. Você vai ver pais, inclusive de classe média, que não estão conseguindo pagar a escola privada e põem na escola pública por ela ser militarizada. Eu já entrevistei pais que disseram: ‘eu não posso pagar a escola privada, mas meu filho só estuda na escola pública porque é de gestão compartilhada ou é cívico-militar’. Mesmo nas regiões mais periféricas, as escolas militarizadas são as mais novas, as que têm mais infraestrutura, mesmo se não estiverem nas regiões mais centrais, não vai para as escolas que têm os menores índices educacionais. E vai-se estabelecendo toda uma estrutura de privilégios que depois justifica a militarização dessas escolas: ‘olha como é a escola mais bonita, é a escola mais isso, mais aquilo’. Isso faz parte do processo.
Os militares não vão para as piores escolas, não vão ficar com os vulneráveis, os vulneráveis a polícia mata. A polícia nunca cuidou dos vulneráveis. O braço armado do Estado mata os vulneráveis. Então, mesmo quando vão para áreas mais vulnerabilizadas, que não é o mais comum, os mais vulneráveis não vão permanecer naquela escola.
Segundo essa nota técnica do DEEP/USP, “nas redes estaduais, 60,0% dos profissionais atuam nas escolas via cessão direta das corporações militares (Polícias e Corpos de Bombeiros), enquanto nos municípios predominam os cargos comissionados (49,6%), os contratos temporários (9,2%) e a contratação terceirizada por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) ou empresas privadas (9,8%)”. Diferente dos estados, no caso das escolas militarizadas municipais, a maioria dos profissionais são militares da reserva. O que isso diz sobre o aspecto pedagógico dessas escolas?
Repressão e controle é o que vai significar isso. A militarização no país começa amplamente pela Polícia Militar. O que a gente tem massivamente [nas escolas militarizadas] é Polícia Militar, depois entra Corpo de Bombeiro, embora em alguns estados, como o Maranhão, o Corpo de Bombeiros esteja mais presente. Aqui no DF, a gente pegou oito escolas da Polícia Militar, o restante todo vem do Corpo de Bombeiros. Em Goiás, essencialmente, está a Polícia Militar, na Bahia e Paraná também. Essa configuração vai mudando de estado para estado, mas em todos o que configura esse processo é a questão da hierarquia, do controle, da disciplina e da repressão. Porque é o que os militares sabem fazer, é para o que eles são formados. Está na própria lógica de atuação dos militares. Grupos privados como a Associação Brasileira de Escolas Cívico-Militares, Abemil, não conseguem contratar tantos militares e vão contratando civis: no meio disso, tem Polícia Militar mas também tem Corpo de Bombeiro, polícia penal, Polícia Rodoviária Federal, tem de tudo, inclusive civis treinados para implementar esse processo. Esse é um caminho, inclusive, da lógica da militarização.
Tem um outro elemento do voto do Gilmar [Mendes] que, para mim, é muito preocupante e as pessoas estão falando muito pouco, que é quando ele diz que para que o município militarize a escola, tem que ter uma escola não militarizada no perímetro urbano. É um negócio tão absurdo... Porque você está fazendo da exceção a regra. Há estados que estão com o projeto de militarizar a rede inteira, por exemplo, Mato Grosso e Tocantins. [O voto do Gilmar Mendes] significa que eu posso ter todas as escolas militarizadas, contanto que naquela cidade tenha uma não militarizada. A gente não está dizendo que pode militarizar uma, está dizendo que pode militarizar todas, desde que tenha uma que não seja militarizada. O voto do Gilmar Mendes dá aos gestores a possibilidade de ampliar muito mais a militarização, é um negócio muito perigoso. Ele não está nem dizendo que se pode ter no máximo uma escola por cidade: não, pode ter todas, desde que uma não seja militarizada. Você vê o tamanho do problema que a gente está criando com esse voto do Gilmar Mendes?
Não faz sentido dizer que os militares podem desenvolver atividades extracurriculares, mas não podem desenvolver atividades pedagógicas. Não existe nada dentro de uma escola, nenhuma atividade pensada, nenhuma atividade desenvolvida, que não seja pedagógica
A gente estava, desde o início, querendo saber qual seria a ginástica da hermenêutica jurídica que um ministro usaria para dizer que é constitucional militarizar uma escola. Porque por todos os caminhos possíveis do arcabouço legal que você pense, seja o ECA, que é um elemento fundamental para as crianças e adolescentes, ou a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação, não cabem os militares dentro da escola. Então, qual é o argumento jurídico que o STF vai utilizar para dizer que é constitucional a militarização? Vai falar de atividades extracurriculares, mas vai [estabelecer] que as atividades pedagógicas não podem ser desenvolvidas por militares. Atividades extracurriculares dentro da escola são atividades pedagógicas. Daí eu dizer que o Gilmar não entende nada de Educação nem de currículo. Como você vai dizer que o militar está dentro da escola desenvolvendo atividade extracurricular? Qualquer coisa dentro da escola faz parte do currículo e é pedagógico. Não faz sentido dizer que os militares podem desenvolver atividades extracurriculares, mas não podem desenvolver atividades pedagógicas. Não existe nada dentro de uma escola, nenhuma atividade pensada, nenhuma atividade desenvolvida, que não seja pedagógica.
O estado do Mato Grosso tem, como mostra essa nova base de dados, uma taxa de militarização da rede muito maior do que todos os outros estados, chegando a 41% - o estado que vem em seguida é o Paraná, com 17%. O que explica isso e quais as consequências?
O Mato Grosso está agora com 240 escolas militarizadas e mais algumas na lista, em processo. O governador do Mato Grosso já disse que vai militarizar a rede inteira. E ele está fazendo isso numa velocidade absurda. Então, tem um interesse político do governo, é uma decisão política. O Paraná tem um número maior de escolas militarizadas, mas a rede também é maior. O estado do Mato Grosso tem uma diversidade enorme na constituição da sua população, tem muitas escolas indígenas, quilombolas, das águas... Tem uma diversidade gigantesca no estado do Mato Grosso, o que vai trazendo elementos mais complexos ainda. Militarizar a rede inteira é militarizar para todo esse público. É uma decisão política pautada no autoritarismo, no conservadorismo. Em todos os lugares, são decisões políticas, pressões. A gente tem dissertações e teses fazendo levantamento, inclusive, de como cresceu politicamente em um determinado município [a demanda por militarização das escolas] quando um deputado que era daquele município no estado do Paraná, por exemplo, trouxe para a Assembleia Legislativa a pauta da militarização. Qual é o ganho político que ele tem em relação àquilo? Quando eu digo decisão política, é do governador mas também de todos os militares e parlamentares envolvidos, tanto nos municípios quanto nos estados.
Mas também existe uma boa aceitação social desse modelo de escolas nesses estados, como Mato Grosso e Paraná, certo?
Os estudantes, que são os principais envolvidos, majoritariamente têm se contraposto à questão da militarização
Esse é um outro elemento. As pessoas sempre falam dessa aceitação, mas a gente precisa desmembrar a discussão dessa aceitação. Quem é que está aceitando? Normalmente são mais os pais [que votam]. Os estudantes, que são os principais envolvidos, majoritariamente têm se contraposto à questão da militarização. O governo de Minas [Gerais] anunciou a militarização de quase 740 escolas e ela não foi à frente porque teve uma mobilização forte das universidades, dos sindicatos e, sobretudo, dos estudantes. O processo de votação nas escolas era com cédula impressa e identificação, inclusive telefone, e os sindicatos eram impedidos de entrar nas escolas para fazer o debate sobre isso. E o [governador Romeu] Zema foi perdendo, sofreu derrotas acachapantes nas escolas, por parte dos estudantes, sobretudo. Mas há apoio de professores e gestores – aliás, um elemento fundamental para a militarização entrar numa escola é a gestão compactuar com esse processo. Então, você tem muito mais pais [do que estudantes] apoiando esse processo, inclusive a partir de discussões ou de fundamentos questionáveis, como a questão da segurança, das drogas, a questão de que a escola está debatendo temas que não deveria debater... Todos esses elementos que a gente está vivenciando na sociedade, da discussão de gênero e de sexualidade, entram nesse pacote daqueles que estão dizendo que a escola tem que ser militarizada. Por isso que eu estou dizendo que a militarização é parte desses conservadorismos, mas ela vai dando um check em todos os outros, porque tem uma aderência enorme a todos esses elementos.
O estudo da USP mostra que a militarização da Educação Básica é mais presente em municípios menores, com menos de 50 mil habitantes. Esse dado é relevante para analisar esse contexto? O que ele nos diz?
Quando a gente vai interpretar o dado estatístico, precisa olhar outras questões. Por exemplo, quando eu pego um estado, tanto o Paraná quanto o Mato Grosso, que militariza muitas escolas, essa quantidade de escolas não está concentrada num único município. Como a gente está falando de uma militarização muito massiva, ela está distribuída nos municípios e grande parte dos municípios brasileiros são de pequeno porte. O Mato Grosso, por exemplo, é um estado grande, mas com densidade populacional baixa, então você vai ter municípios com pequeno porte. Se eu sair militarizando essas escolas e distribuindo no estado como um todo, vou ter uma grande quantidade de municípios de pequeno porte [com escolas militarizadas]. Se eu tenho três escolas [militarizadas], por exemplo, numa capital ou num grande município, muitas vezes isso vai ter um impacto menor do que se tiver uma num município pequeno que só tem duas escolas, porque a possibilidade de escolha é muito menor. Então, se a militarização está pulverizada no país, ela vai estar em grande parte também nos municípios de pequeno porte, que são a maioria dos municípios brasileiros.
Pensar a militarização nos municípios de pequeno porte tem uma implicação muito mais séria, porque a suposta possibilidade de escolha é muito menor. Os municípios de pequeno porte têm uma escola, no máximo duas de Ensino Médio, por exemplo. E aí você militariza uma ou as duas. Quanto menor o município, mais complicado fica.
E é muito mais fácil você levar [para os municípios menores] o conservadorismo com falácias, sem nenhum debate sério com a população. Eu vou para debate com gente favorável à militarização que, quando você mostra o que significa isso, sai revoltada, porque não há debate sobre. Dizem assim: ‘olha, a militarização vai deixar a escola mais segura’. Quem é que não quer uma escola mais segura? Dizem que com a militarização não vai ter droga, não vai ter violência, não vai ter armas na escola... Ainda mais com o índice de violência que a gente sabe que está nas escolas, as pessoas vão dizer que querem os militares lá dentro, que a escola vai ser mais ordeira, que vai entregar melhores resultados. Vão mostrar as fotos, [para dizer] que as escolas são mais bonitas, têm a melhor infraestrutura... Você vai convencendo a população, a partir desse senso comum, de que a militarização é uma boa saída. E no município de pequeno porte, [isso] é muito mais [forte]: todo mundo quer uma escola mais bonita e segura para os seus filhos. A partir disso, você vai ‘vendendo’ essas ideias e militarizando. Mas os estudantes são majoritariamente contrários a esses processos.