escravidão
-
13/05/2026 8h05 Entrevista
Era uma vez uma princesa que, num ato de bondade que lhe renderia estátuas e nomes de rua, no dia 13 de maio de 1888, num país chamado Brasil, libertou os negros da escravidão. A depender de quantos anos se passaram desde que cursou a Educação Básica, foi mais ou menos assim que você aprendeu a história da abolição da escravatura. E a verdade é que provavelmente ainda hoje há quem ouça em sala de aula essa mesma narrativa, de uma abolição concedida pelos setores dominantes por meio da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. E esse não é um problema banal: há décadas, pesquisadores e militantes dos movimentos negros alertam que mudar a forma como se conta a História do passado é fundamental para transformar a história do presente e do futuro. Foi essa concepção, política e pedagógica, inclusive, que motivou as lutas por uma legislação que obrigasse o ensino de História africana e afrobrasileira nas escolas. Essa conquista veio em 2003, com a Lei 10.639, atualizada em 2008 pela lei 11.645, que acrescentou a essa nova exigência do currículo a história da cultura indígena. Mesmo tanto tempo depois, no entanto, os números mostram que a lei ainda não ‘pegou’: segundo um levantamento feito pelo Geledés-Instituto da Mulher Negra e pelo Instituto Alana, em 2023, quando se comemoravam 20 anos dessa primeira legislação, nada menos que 71% das redes municipais simplesmente não a cumpriam. Como se não bastasse, a lei passou a ser questionada por grupos de extrema direita que a acusam de violar a liberdade religiosa ao tematizar em sala de aula as religiões de matriz africana – tramita no Congresso, neste exato momento, o Projeto de Lei nº 1007/2025, da deputada Clarissa Tércio (PP-PE), por exemplo, que defende tornar esses conteúdos opcionais, mediante autorização das famílias, e não mais obrigatórios. “Poderíamos também retirar [do currículo] o processo de formação da Europa a partir da Igreja Católica e o conteúdo sobre a Reforma Protestante”, ironiza Iamara Viana, professora adjunta do Departamento de Ensino Aplicado à Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), nesta entrevista. Nada disso significa que não houve avanço. Em relação às políticas públicas, por exemplo, o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) incorporou a necessidade de conteúdos de História sobre a África e, em 2024, o governo federal lançou a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola, que, entre outras coisas, prevê a construção de material educativo e a formação docente voltada para esses temas. Em relação à prática em sala de aula, professores e pesquisadores têm produzido, em vários cantos do país, propostas de abordagem desses conteúdos focadas não apenas no currículo de História, mas também de outras disciplinas da Educação Básica. E uma dessas pesquisadoras é exatamente a entrevista desta semana do Portal EPSJV, autora, entre outros, do livro ‘Mulheres afro-atlânticas e ensino de História’.
-
26/07/2023 10h07 Entrevista
O número de resgates de trabalhadores em condição análoga à escravidão tem batido recordes nos últimos meses no Brasil. No primeiro trimestre de 2023, 918 pessoas foram retiradas de situações degradantes de trabalho. Para a pesquisadora Marcela Soares, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), esses números só tendem a crescer diante do aumento da terceirização provocado pela Reforma Trabalhista de 2017. A professora é autora do livro “Escravidão e dependência: opressões e superexploração da força de trabalho brasileira”, editado pela Lutas Anticapital e lançado neste ano. Nesta entrevista, ela comenta a prevalência dos resgates no meio rural e a importância das denúncias realizadas durante a ditadura empresarial-militar para a formulação da legislação de proteção aos trabalhadores. Marcela também traça paralelos entre a escravidão contemporânea e o aumento de ocupações mediadas por plataformas de transporte, entrega e produção de conteúdo, que negam ter vínculos trabalhistas com esses profissionais.
