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Entrevista

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  • 02/04/2026 10h16 Entrevista

    Depois de quase dois anos de tramitação, foi finalmente aprovado na semana passada (25/03/2026) o Projeto de Lei nº 2.614/2024, que institui o novo Plano Nacional de Educação (PNE). Com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, o texto deverá ser o guia das políticas e investimentos públicos em todas as etapas e segmentos da Educação no Brasil até 2034. Tudo começou em janeiro de 2024, com uma Conferência Nacional de Educação (Conae) extraordinária, convocada especificamente para ouvir a sociedade civil organizada sobre as prioridades que deveriam constar no novo PNE – um instrumento legal que deve ser atualizado a cada dez anos. Mas a verdade é que o PL que o governo federal entregou ao Legislativo cinco meses depois não era propriamente um retrato fiel do que a Conae tinha ‘deliberado’. E o resultado que acaba de sair da votação no Congresso está ainda mais distante das concepções e propostas vocalizadas pelo controle social da Educação. Para piorar o cenário, a história mostra que boa parte das metas das últimas versões dos Planos Nacionais de Educação simplesmente não foi cumprida. Isso não significa que não haja nada a comemorar: ao longo de toda a tramitação e da mobilização em torno do tema, houve vitórias dos movimentos sociais da Educação, mas fica cada vez mais claro a força de setores conservadores e, principalmente, empresariais na queda de braços que vem sendo travada nesse campo. Para analisar tanto o resultado quanto o processo que culminou com o texto recém-aprovado, o Portal EPSJV entrevistou três especialistas, pesquisadores e militantes da área, que vão analisar, principalmente, os embates em relação ao financiamento, ao Ensino Médio e à Educação Profissional no PNE. Nesta terceira e última entrevista da série, José Marcelino de Rezende Pinto, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), critica a extensão ou ausência de prazos no PNE para mudanças já muito atrasadas, como a ampliação do gasto em Educação e a implementação do Custo Aluno-Qualidade (CAQ), e alerta para brechas privatizantes presentes em várias partes do texto.

  • 01/04/2026 13h24 Entrevista

    Depois de quase dois anos de tramitação, foi finalmente aprovado na semana passada (25/03/2026) o Projeto de Lei nº 2.614/2024, que institui o novo Plano Nacional de Educação (PNE). Com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, o texto deverá ser o guia das políticas e investimentos públicos em todas as etapas e segmentos da Educação no Brasil até 2034. Tudo começou em janeiro de 2024, com uma Conferência Nacional de Educação (Conae) extraordinária, convocada especificamente para ouvir a sociedade civil organizada sobre as prioridades que deveriam constar no novo PNE – um instrumento legal que deve ser atualizado a cada dez anos. Mas a verdade é que o PL que o governo federal entregou ao Legislativo cinco meses depois não era propriamente um retrato fiel do que a Conae tinha ‘deliberado’. E o resultado que acaba de sair da votação no Congresso está ainda mais distante das concepções e propostas vocalizadas pelo controle social da Educação. Para piorar o cenário, a história mostra que boa parte das metas das últimas versões dos Planos Nacionais de Educação simplesmente não foram cumpridas. Isso não significa que não haja nada a comemorar: ao longo de toda a tramitação e da mobilização em torno do tema, houve vitórias dos movimentos sociais da Educação, mas fica cada vez mais claro a força de setores conservadores e, principalmente, empresariais na queda de braços que vem sendo travada nesse campo. Para analisar tanto o resultado quanto o processo que culminou com o texto recém-aprovado, o Portal EPSJV entrevistou três especialistas, pesquisadores e militantes da área, que vão analisar, principalmente, os embates em relação ao financiamento, ao Ensino Médio e à Educação Profissional no PNE. Nesta segunda entrevista da série, Veruska Machado, vice-presidente de Relações Institucionais do Conif, o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e reitora do Instituto Federal de Brasília, analisa as disputas e prioridades que o novo Plano mostra em relação à Educação Profissional.

  • 31/03/2026 12h59 Entrevista

    Depois de quase dois anos de tramitação, foi finalmente aprovado na semana passada (25/03/2026) o Projeto de Lei nº 2.614/2024, que institui o novo Plano Nacional de Educação (PNE). Com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, o texto deverá ser o guia das políticas e investimentos públicos em todas as etapas e segmentos da Educação no Brasil até 2034. Tudo começou em janeiro de 2024, com uma Conferência Nacional de Educação (Conae) extraordinária, convocada especificamente para ouvir a sociedade civil organizada sobre as prioridades que deveriam constar no novo PNE – um instrumento legal que deve ser atualizado a cada dez anos. Mas a verdade é que o PL que o governo federal entregou ao Legislativo cinco meses depois não era propriamente um retrato fiel do que a Conae tinha ‘deliberado’. E o resultado que acaba de sair da votação no Congresso está ainda mais distante das concepções e propostas vocalizadas pelo controle social da Educação. Para piorar o cenário, a história mostra que boa parte das metas das últimas versões dos Planos Nacionais de Educação simplesmente não foram cumpridas. Isso não significa que não haja nada a comemorar: ao longo de toda a tramitação e da mobilização em torno do tema, houve vitórias dos movimentos sociais da Educação, mas fica cada vez mais clara a força de setores conservadores e, principalmente, empresariais na queda de braços que vem sendo travada nesse campo. Para analisar tanto o resultado quanto o processo que culminou com o texto recém-aprovado, o Portal EPSJV entrevistou três especialistas, pesquisadores e militantes da área, que vão analisar, principalmente, os embates em relação ao financiamento, ao Ensino Médio e à Educação Profissional no PNE. Nesta primeira entrevista da série, Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, faz um balanço do projeto que vai à sanção presidencial, enumerando as conquistas, mas alertando também sobre os pontos críticos.

  • 27/03/2026 8h15 Entrevista

    Uma das histórias mais conhecidas da ‘Oitava’, contada há 40 anos quase como uma anedota, relata a chegada de ônibus lotados a Brasília, com milhares de pessoas que, espontaneamente, reivindicavam participar daquele que se tornaria um evento único do campo da Saúde Pública no Brasil. Eles não tinham sido eleitos delegados, não teriam direito a votar, mas, atendendo ao chamado daqueles tempos de forte mobilização social, queriam participar. Dar um ‘rosto’ – e uma narrativa em primeira pessoa – a essa história tão repetida é o objetivo desta entrevista, que integra as comemorações pelas quatro décadas da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Hoje aposentado pela Secretaria Estadual de Saúde de Brasília, em 1986 Marcos Freire Jr. era um médico recém-formado – literalmente, no ano anterior –, encantado com a Saúde Pública, que lhe tinha sido apresentada em uma única disciplina da faculdade, chamada ‘Saúde e Sociedade’, e, ainda mais empolgado com a perspectiva de que o cuidado em saúde pudesse abarcar as hoje chamadas práticas integrativas. Freire já tinha participado de uma conferência preparatória local, em Recife (PE), e, na verdade, nem se lembra ao certo como tomou conhecimento da ‘Oitava’. O fato é que ele esteve lá, por conta própria. Participou das discussões e, junto com um grupo de pessoas interessadas nos mesmos temas, ajudou a amplificar esse debate para além daquele evento: embora a Política Nacional de Práticas Integrativas só tenha sido publicada no Brasil 20 anos depois, em 2006, ele garante que o caminho dessas experiências no Sistema Único de Saúde (SUS) foi aberto pela Oitava, principalmente pela defesa de uma concepção de Atenção Integral à Saúde.

  • 27/03/2026 7h54 Entrevista

    Celebrada por ter, de certa forma, inaugurado a participação social na Saúde e por ter sido uma das maiores expressões da mobilização popular daqueles tempos, a 8ª Conferência Nacional de Saúde tem tido sua história contada, principalmente, por sanitaristas e integrantes do chamado movimento da Reforma Sanitária. Foi por isso que, na comemoração dos 40 anos da ‘Oitava’, o Portal EPSJV saiu em busca de alguém que tenha participado do evento como representante do movimento social. Nesta entrevista, Eni Carajá, militante do Morhan, o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, e um dos fundadores, em Minas Gerais, do famoso MOPS, o Movimento Social de Saúde, que teve grande protagonismo naqueles agitados anos 1980, fala sobre a organização que a sociedade civil já promovia antes mesmo da ‘Oitava’, rememora a experiência de ver “o povo” ocupar aquele espaço e faz um balanço do que veio depois.

  • 20/03/2026 9h27 Entrevista

    Há exatos 40 anos, entre 17 e 21 de março, cerca de 4 mil pessoas se encontraram no ginásio Nilson Nelson, em Brasília, para debater as políticas de Saúde no Brasil. O ano era 1986. O cenário era o de uma mobilização social intensa, que tinha contribuído para o fim dos governos militares e agora lutava tanto pelas ‘Diretas Já’ quanto pelos rumos da democracia que nascia depois de mais de duas décadas de ditadura. Foi nesse contexto que se deu a 8ª Conferência Nacional de Saúde, um evento que, diferente de todas as edições anteriores, apostou na participação popular para discutir criticamente o modelo de atenção, redesenhar o sistema de saúde e propor uma verdadeira Reforma Sanitária no Brasil. De lá saíram as principais concepções e propostas que pouco depois formatariam a maior política social inscrita na Constituição de 1988: o Sistema Único de Saúde, SUS. “É uma lembrança muito bonita”, emociona-se Maria Inês Bravo, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e uma das lideranças da Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, que quatro década atrás foi delegada da ‘Oitava’ representando o Conselho Federal de Serviço Social. Mas ela alerta: ser ‘bonito’ não significa que tenha sido fácil. Num país em que a oferta de Saúde era fortemente privatizada, o setor empresarial decidiu não participar da Conferência quando percebeu que o debate mobilizaria um grande contingente de pessoas dispostas a defender mudanças profundas, como a estatização dos serviços, o financiamento público e o princípio de que a Saúde é direito de todos e dever do Estado. Ausentes da ‘Oitava’, esses mesmos empresários jogaram todas as fichas na Assembleia Nacional Constituinte. E ganharam um bocado. Na avaliação de Maria Inês, a maior perda que o movimento sanitário que vinha da ‘Oitava’ teve nessa queda de braço foi a substituição da proposta de estatização progressiva da Saúde pelo papel “complementar” do setor privado em relação ao público no texto da Constituição. Apesar desse revés, o que se conquistou não foi pouco – e, segundo a dirigente da ‘Frente’, nada disso teria sido possível sem a mobilização social da 8ª CNS. Reconhecendo que vivemos hoje um momento de descenso dos movimentos sociais e argumentando que o movimento da Reforma Sanitária se institucionalizou demais, abandonando as lutas por fora do Estado, nesta entrevista ela conta um pouco dessa história e defende que a melhor forma de comemorar esse marco de 40 anos é retomar a radicalidade das propostas da ‘Oitava’.

  • 13/03/2026 9h57 Entrevista

    Entre os seis ‘personagens’ do estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro e chocou o Brasil nas últimas semanas, três – dois acusados e a vítima – eram colegas de escola. Foi no ambiente escolar, por exemplo, que a jovem conheceu e se relacionou, inclusive afetivamente, com o adolescente que a atraiu para uma emboscada. Não por acaso, foi para cobrar ações pedagógicas e políticas públicas educacionais voltadas à prevenção da violência de gênero e sexual que, no dia 10 de março, estudantes, professores e membros da comunidade escolar em geral promoveram uma manifestação em frente ao Colégio Pedro II. Mas, ao contrário do que possa parecer, e apesar da gravidade desse crime em particular, esse não é um problema isolado. Um relatório sobre ataque às escolas no Brasil, produzido em 2023 por um Grupo de Trabalho instituído pelo Ministério da Educação (MEC), já apontava a misoginia – um comportamento social baseado no ódio contra meninas e mulheres – como elemento central naquele fenômeno que se começava a identificar e mapear no país. Com diagnósticos do problema e propostas de enfrentamento, o documento tratava especificamente de crimes que tinham como alvo o espaço da escola e a comunidade escolar, “um tipo razoavelmente recente de violência, com características próprias”. Mas o próprio texto afirma que “olhar somente para os ataques às escolas não é suficiente para a construção de políticas públicas eficazes no enfrentamento do problema”, defendendo que, “para isso, é necessário olhar para as outras violências que permeiam o ambiente escolar”. É com a experiência de ter sido o relator desse Grupo de Trabalho e do seu documento final que, nesta entrevista, o professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação Daniel Cara comenta os aspectos educacionais que merecem destaque no debate sobre o caso do estupro coletivo ocorrido em Copacabana. Ele fala sobre o que pode ajudar no enfrentamento desse problema nas escolas, propõe mudanças legislativas e aponta o conservadorismo que hoje caracteriza boa parte da sociedade brasileira, com expressões no Congresso Nacional, como um obstáculo a ações mais efetivas de prevenção à violência sexual, tanto na política em geral quanto no espaço escolar. Ressaltando uma diferença de percepção em relação ao relatório sobre ataque às escolas que ele mesmo coordenou três anos atrás, Cara destaca que, embora a influência dos conteúdos que circulam nas redes sociais continue sendo muito importante nesse processo, os valores associados ao discurso de ódio contra meninas e mulheres já estão tão entranhados na sociedade que boa parte dos jovens entra em contato com eles mesmo que nunca tenham participado de comunidades da chamada ‘machosfera’.

  • 13/03/2026 9h27 Entrevista

    Quem acompanhou a cobertura jornalística sobre o novo censo escolar certamente fixou uma informação: em apenas um ano, entre 2024 e 2025, o Brasil teria perdido 420 mil matrículas no Ensino Médio. A explicação viria pouco depois, com a resposta da Secretaria Estadual de São Paulo – maior rede do país – de que vinha duplicando o número de registros de alguns estudantes, em função dos diferentes itinerários formativos cursados junto com a Formação Geral Básica. Trata-se, de acordo com Fernando Cássio, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Repu, a Rede Escola Pública e Universidade, de um exemplo concreto do efeito “caótico” que a primeira Reforma do Ensino Médio, instituída no governo Michel Temer, gerou na oferta e na gestão desse segmento educacional no Brasil. A boa notícia, segundo ele, é que, ao contrário do que o susto inicial sugeriu, o que nas tabelas do novo censo parecia uma volumosa perda de estudantes é, na verdade, um sinal de que os dados do censo voltaram a mostrar um retrato mais fiel da realidade do país. Mas, se a queda das matrículas foi um alarme falso, o que mais de relevante os dados mostraram sobre o cenário educacional brasileiro? Na avaliação do pesquisador, quase nada. Na verdade, o que ele considera que merece destaque está além dos números: uma mudança de metodologia adotada na edição deste ano, que resultou no desaparecimento – ou na invisibilização – do Ensino Médio Integrado à Educação Profissional, o modelo mais exitoso de educação pública do país, carro-chefe da experiência dos Institutos Federais. De fato, os dados sobre Educação Profissional de nível técnico referentes a 2025 juntaram numa única categoria, nomeada como “articulados”, a modalidade integrada (em que Ensino Médio e a Educação Profissional acontecem na mesma escola) e a concomitante (que se dá em escolas diferentes). Não por acaso, a mesma nomenclatura tem sido cada vez mais usada também nos marcos legais e regulatórios da área, como a recente Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica. “Não foi simplesmente uma decisão técnica”, diz Cássio, fazendo eco à preocupação de entidades como o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, Conif, e a Anped, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, que emitiram notas públicas questionando a mudança.

  • 09/03/2026 13h55 Entrevista

    Ir e voltar em segurança. Estudar, trabalhar, ter momentos de lazer, sem que o medo seja um acompanhante. Não ter que mediar conflitos para acessar direitos e os serviços de saúde. Ou seja, viver sem que a violência seja um perigo eternamente à espreita. Essa é uma realidade distante para boa parte dos brasileiros. Segundo a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registradas 44.127 mortes violentas intencionais no Brasil, 5,4% a menos do que o ano anterior – mas quadros estatísticos mais específicos, como violência contra mulheres, crianças e adolescentes, seguem em vias de crescimento. Tendo em vista que a segurança é um dos determinantes sociais da saúde, é preciso compreender como sua ausência pode impactar a sociedade. Nesta entrevista, a antropóloga e cientista social Jaqueline Muniz, professora e pesquisadora do bacharelado e mestrado em Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), aborda a relação entre segurança pública e Saúde Coletiva. “Segurança pública é abundância de futuro. Insegurança pública é tornar o mundo ‘presentista’. E isso inviabiliza que as pessoas possam se deslocar, se mover, ascender e melhorar suas vidas”, afirma Muniz.

  • 06/03/2026 8h57 Entrevista

    A história desta entrevista com a Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Ministério das Mulheres, Estela Bezerra, começa na semana antes do carnaval. A partir da constatação de que os casos de assédio e violência contra a população feminina tendem a aumentar durante a ‘folia’, a ideia era divulgar a campanha ‘Se liga ou eu ligo 180’ e discutir o Pacto dos Três Poderes contra o Feminicídio, assinado em 4 de fevereiro. Por desencontros de agenda, a conversa acabou não acontecendo. Quando foi retomada, pouco tempo depois, o tema se mantinha o mesmo, mas o objetivo principal passou a ser marcar as comemorações e lutas do 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher. O que se deu entre o primeiro contato e a publicação deste texto, no entanto, foi um ‘choque de realidade’, daqueles que mostram como não faltariam ‘ganchos’ jornalísticos para discutir a violência que todos os dias vitimiza mulheres no Brasil. Nada poderia ser mais didático sobre a importância do envolvimento dos três Poderes da República no enfrentamento da violência contra as mulheres do que a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que, no final de fevereiro, absolveu um homem de 35 anos do crime de estupro, alegando que a relação que ele mantinha com uma menina de 12 anos era “consensual”. Diante da indignação coletiva, a ‘sentença’ foi revertida, mas, num novo capítulo sórdido da história que mobilizou o país, um dos desembargadores envolvidos foi afastado por denúncias de ter, ele próprio, cometido assédio sexual. E não parou por aí: a gravação desta entrevista já tinha terminado quando, no último dia de fevereiro, o Disque Denúncia tornou públicas a identidade e a fotografia de quatro homens que, junto com um menor de idade, promoveram o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. Confirmando as estatísticas segundo as quais a maior parte da violência sexual contra mulheres é promovida por pessoas conhecidas, do seu círculo afetivo, a jovem foi atraída para a ‘emboscada’ por um ex-namorado, ‘amigo’ da mesma escola. Tudo isso atravessa as análises que Estela Bezerra faz nesta entrevista, em que a secretária admite que o Brasil tem falhado na tarefa de proteger as mulheres, apesar de todos os avanços das últimas décadas. Citando as principais medidas implementadas no âmbito do Executivo, a partir da pressão dos movimentos sociais, ela defende a importância de ações que comprometam o Legislativo, o Judiciário e as instituições que ajudam a travar as batalhas culturais, como a mídia e as entidades religiosas. “O Pacto Brasil contra o Feminicídio, que propõe para as instituições tratarem de maneira central esse tema, começando a observar também a própria cultura de violência que elas instituem, é um caminho de esperança para que a gente consiga dar respostas mais efetivas”, diz.