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Entrevista: 
Monica Levi

‘Devemos enaltecer a transparência com que tem trabalhado o nosso Programa Nacional de Imunizações’

Na semana em que se comemorou o Dia Nacional da Imunização (9 de junho), o Ministério da Saúde suspendeu a aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O motivo: 42 notificações de reações adversas “raras e inesperadas”, que são consideradas “sinais de alerta” – entre elas um caso grave, que levou um paciente a ser internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), e duas mortes. Não se sabe ainda se esses efeitos foram mesmo causados pela vacina ou se são eventos independentes, que apenas aconteceram no mesmo período de tempo. Foi por princípio de precaução que o Ministério decidiu interromper temporariamente a vacinação, antes de estender para a população brasileira: pouco mais de 500 mil doses haviam sido aplicadas, primeiro como projeto-piloto em três municípios de São Paulo, Minas e Ceará, e depois em profissionais de saúde, grupo no qual ocorreram os dois óbitos. Nesta entrevista, a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Monica Levi, explica que não é nada simples tomar uma medida como essa: envolve ponderações e cálculos de relação risco-benefício complexos, que precisam priorizar a estratégia que vai proteger mais vidas. Para se ter uma ideia, vale lembrar que os 42 “sinais de alerta” identificados da vacina do Butantan contra a dengue representam apenas 0,008% do total de doses aplicadas, o que, segundo ela, significa que se o Brasil enfrentasse hoje uma “explosão” de casos e mortes por dengue como a que ocorreu em 2024, talvez a ‘sentença’ da vacina não tivesse sido a mesma. “É mais fácil tomar uma decisão de suspensão quando a doença está num cenário epidemiológico muito mais favorável”, diz, elogiando a eficiência do sistema de farmacovigilância brasileiro, que agora terá a tarefa de investigar a relação entre esses eventos adversos e o imunizante. As respostas podem demorar – e, com isso, a decisão sobre se a vacina volta ou não para o SUS, o Sistema Único de Saúde, também. Para Levi, no entanto, do ponto de vista da política de saúde, a conclusão mais clara de todo esse episódio é que o sistema de vigilância de eventos adversos brasileiro, que acompanha todas as vacinas aplicadas na população, está funcionando muito bem, obrigado. Ela destaca a importância de se manter e ganhar adesão à vacinação de crianças e adolescentes de dez a 14 anos contra a dengue – já que se trata de outro imunizante, sem nenhuma relação com o que foi suspenso e nenhum registro de óbito ou efeito adverso grave. E aconselha: “Confiar no PNI, o Programa Nacional de Imunizações, é a melhor solução”.
Cátia Guimarães - EPSJV/Fiocruz | 11/06/2026 13h05 - Atualizado em 12/06/2026 14h13

Silvia OselkaO Ministério da Saúde anunciou a suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan para investigação de eventos adversos raros, incluindo dois óbitos. Foi uma decisão acertada?

Sem dúvida. A suspensão mostra que a nossa vigilância funcionou, que tomou uma atitude correta, obedecendo rigorosamente a princípios de precaução e ética. Essa é uma suspensão enquanto se investigam melhor os eventos inesperados que aconteceram após a vacinação ser licenciada e aplicada em um número muito maior de pessoas do que havia sido aplicada nos estudos [clínicos] de fase 1, 2 e 3.

Já houve situações semelhantes antes? Vimos, recentemente, durante a pandemia de Covid-19, a identificação de reações adversas mais graves após a aplicação de algumas vacinas, como os casos de trombose relacionados à Astrazeneca, por exemplo, mas a imunização não foi suspensa para o conjunto da população. Houve outros eventos semelhantes a essa suspensão que vimos agora na história recente brasileira?

Houve sim. Lembro de uma vacina contra o rotavírus, que se chamava RotaShield, e estava causando invaginação intestinal, [um problema] que leva a um procedimento cirúrgico. Com o aumento da notificação de casos na faixa etária vacinada, realmente se detectou uma causalidade [entre a doença e o imunizante]. E a vacina foi suspensa para sempre,  descartada. Isso aconteceu uns 25 anos atrás. Esse é o último caso recente de que eu me lembro, mas já houve outras situações.

O doutor Esper [Kallás, diretor do Instituto Butatan] tem falado sobre a eficácia da vacina. Isso não está em questão. A suspensão não é pela eficácia. Os dados de proteção são ótimos. A vacina obedeceu com todo rigor as etapas, fases 1, 2 e 3 [dos estudos clínicos] até ser aprovada pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. [As reações adversas graves] começaram quando a vacinação aconteceu, ainda não em massa, mas com mais de 500 mil doses aplicadas, que é diferente do número de vacinados nos estudos pré-licenciamento. 

Toda vacina nova tem uma vigilância muito rígida, rigorosa, dos eventos adversos reportados após o licenciamento e a distribuição. É o que a gente chama de estudo fase 4 ou farmacovigilância. E quando aparecem eventos adversos considerados inesperados, que não foram vistos, não são comuns e são sinais mais graves, que a gente chama de sinais de alarme – como sangramento, hipotensão, lipotímia e outros sintomas –, procede-se à suspensão [da vacinação] para investigação sobre se há causalidade ou não. Então, não dá para a gente afirmar se essa vacina vai ou não ser licenciada e retomada no nosso Programa de Imunizações.

Tudo isso mostra que o nosso sistema funciona muito bem

Não lembro exatamente quando, mas certamente nos últimos 30 anos, o Ministério da Saúde comprou uma vacina de hepatite B, que é aplicada em criança, de procedência indiana, que deu muito evento adverso e foi suspensa. O Brasil descartou essas vacinas e voltou aos fornecedores anteriores. Tudo isso mostra que o nosso sistema funciona muito bem, que nós podemos ter segurança quando o PNI [Programa Nacional de Imunizações] aprova, licencia e recomenda [uma vacina].

Para se fazer um paralelo com a covid, a gente tem sempre que ponderar o número de mortes [causadas pela doença]. Porque é importante calcular o risco-benefício das vacinas. [Na pandemia de covid-19], havia um número pequeno de eventos adversos mais graves, como miocardite, trombose, etc., mas a própria doença causava muito mais mortes. A população estava morrendo. Então, o risco de ter esses eventos adversos era muito menor do que o risco da própria doença. Essas análises são sempre feitas para a gente manter ou não uma vacina: ainda que possa haver uma maior reatogenicidade [capacidade de uma vacina gerar reações adversas], tem que ver o risco da doença. Essa ponderação é muito importante que se faça.

Como se faz esse cálculo e se toma a decisão sobre o percentual de reações adversas graves que é ou não tolerado em função da eficácia de uma vacina? Óbitos são contabilizados nesse cálculo? Ou seja, se uma vacina for eficaz para a maioria esmagadora da população, mas se comprovar a relação causal entre o seu uso e alguma morte, ela, ainda assim, pode ser utilizada massivamente?

Sim. Um exemplo é a vacina contra pólio [poliomielite]. A gente sabe, desde sempre, que num percentual muito pequeno [da população] o vírus vacinal pode causar a própria paralisia infantil, o vírus pode retornar à forma virulenta e causar a pólio. Mas, como o risco da doença é gigantescamente maior do que o desse evento adverso extremamente raro, manteve-se essa vacina por muitos anos, sabendo-se desse risco. [Contrair] pólio por vacina, obviamente, é grave. Mas você salvou milhares de vidas e também milhares de [pessoas de terem] sequelas de pólio. Ninguém deseja, mas eventos raros podem acontecer com qualquer vacina, assim como acontecem com medicamentos, com alimentos... Essa ponderação entre o risco da doença e o risco de um evento adverso grave raro sempre é considerada. Eu acredito, por exemplo, que se nós tivéssemos, neste momento, a explosão [de casos] de dengue que tivemos em 2024, que foi a maior da série histórica, com quase 7 mil óbitos, talvez essa vacina [do Butantan] fosse mantida, a despeito desses eventos adversos. Porque o risco epidemiológico poderia superar esses 42 eventos adversos com sinais de alarme. Claro que teria que se investigar esses dois óbitos e o terceiro caso grave de qualquer forma, uma investigação profunda para se estabelecer se há relação de causa ou só uma relação temporal. Mas, ainda assim, eu acredito que o risco da doença superaria o risco de um evento adverso grave e raro.

Neste momento, o Brasil conta com outra vacina contra dengue, além da do Butantan, que foi temporariamente suspensa. Isso contribui para a decisão tomada pelo Ministério da Saúde?

Mais ou menos. Porque a vacina da Takeda não tem quantitativo [suficiente] para a nossa população. [Com esse imunizante], a gente vacina só [a população] de dez a 14 anos. Nós tivemos, se não me engano, 7,2 milhões de doses aplicadas em 2024 e 9 milhões de doses em 2025 – e, como é uma vacina em duas doses, o cálculo matemático mostra que tivemos 3,6 milhões de pessoas [imunizadas] em 2024 e 4,5 milhões em 2025. O laboratório não tem produção [suficiente] para vacinar 200 milhões de pessoas no Brasil, [que é o total do público] retirando-se a faixa etária de zero a quatro anos e os maiores de 60, que não é [alvo] da vacinação. Nós não temos uma vacina que sustente o que a vacina do Butantan iria promover na proteção da população. Por isso eu digo que talvez a decisão de suspensão não estivesse acontecendo se nós estivéssemos com o cenário epidemiológico de 2024. Comparando 2024 e 2026, a gente teve uma redução de 97% dos óbitos e 94% de casos de dengue. É mais fácil tomar uma decisão de suspensão [da vacinação] quando a doença está num cenário epidemiológico muito mais favorável.

As duas mortes temporalmente associadas ao uso da vacina do Butantan contra a dengue estão sendo investigadas para que se comprove ou não se tiveram relação com o imunizante. Como se dá essa investigação?

A investigação é bem completa e bem complexa. Primeiro [é preciso] traçar uma história clínica com antecedentes individuais, porque você pode encontrar nessas pessoas algum tipo de imunodeficiência incomum, algum histórico de imunossupressão, alguma causa individual que possa ser uma explicação [para o efeito adverso grave após a vacina]. Depois tem o exame físico detalhado – estou falando dos 42 casos porque nos óbitos, obviamente, a gente não tem como recuperar um exame físico. São feitos exames laboratoriais mais complexos, uma análise temporal, verifica-se o lote de vacina... Por exemplo: nesses 3.700 casos de sintomas semelhantes à dengue, será que [as vacinas] vieram todas de um mesmo lote? Será que esse lote estava com algum problema? [É preciso verificar] a técnica de aplicação, o armazenamento da vacina, se tem outros casos semelhantes... É essa investigação que permite afastar ou concluir a relação [dos efeitos adversos] com a vacinação. E nem sempre você consegue, após essa análise, classificar. O objetivo é dizer se [os sintomas e mortes] estão relacionados à vacina ou se foi uma relação coincidente, temporal mas não causal.

Às vezes também se faz uma classificação como erro programático, reação de ansiedade ou reação psicogênica em que, por exemplo, alguns dos sintomas são a hipotensão e a lipotímia. Reações desse tipo são comuns e estão relacionadas à ansiedade, ao medo da vacinação e não a um evento adverso do líquido injetável. Isso acontece com a vacina contra HPV, que não é de vírus vivo, principalmente em adolescentes. E muitas vezes [a causa] fica como indeterminada. Mas o nosso sistema é extremamente sensível, está funcionando muito bem e eu acredito que nós vamos ter resposta sim. Mas, por exemplo, no segundo caso de óbito, que foi por meningoencefalite, nós não temos mais material para investigar. Foi colhido o líquido, mas não há mais secreções do paciente para se investigar melhor, fazer outras análises laboratoriais. Então, às vezes, você não consegue fazer a investigação completa.

Nos três casos mais graves, entre eles as duas mortes, os sintomas indicavam um quadro grave de dengue. Em se tratando de um imunizante de vírus vivo atenuado, esse é um forte indício de relação causal entre os óbitos e a vacina?

Eu não quero afirmar isso. A vacina de febre amarela também é de vírus vivo atenuado, com óbitos relacionados [ao uso da vacina]. Raríssimos, mas há. Ela nunca deixou de ser utilizada, mas era indicada só para quem tinha maior risco [de contrair a doença]. Era aplicada por exigência internacional, em quem ia viajar e era obrigado a tomar a vacina para entrar em determinados países, ou em pessoas que moram ou se deslocam para locais de risco da doença. Não era uma vacina aplicada no Brasil inteiro. A partir de 2017, 2018, depois de um surto que a gente teve, com uma migração da doença para locais que nunca tinham sido afetados antes – como o Nordeste, e casos de macacos morrendo de febre amarela aqui em São Paulo, na região do Horto Florestal, do zoológico –, o Ministério da Saúde passou a indicar essa vacina para o Brasil inteiro. Ela entrou [no calendário] como uma vacina rotineira para todo e qualquer cidadão brasileiro que não tenha contraindicação. E a contraindicação principal, como para qualquer vacina de vírus vivo atenuado, é para quem sofre de imunossupressão grave, gestantes, mulheres amamentando... Nessa ocasião, em 2018, um morador de Minas Gerais de 64 anos foi até o posto de saúde [tomar a vacina]. A vacina [requer] mais cuidado para se aplicar em maiores de 60 anos, mas não é de maneira alguma contraindicada [para essa idade]. Só tem que se investigar se a pessoa não tem comorbidades que possam contraindicar a vacina. Esse homem foi duas vezes ao posto [de saúde]. Na primeira vez mandaram ele pedir uma autorização do médico – só pela idade, ele não tinha nenhuma comorbidade. Negaram a vacina. Quando ele voltou com o relatório do médico e tudo que o posto de saúde exigiu dele, tomou a vacina e, cerca de uma semana depois, faleceu com quadro de febre amarela. Saiu em todo o noticiário que ele morreu da vacina. Só que, na investigação, o que foi detectado? O vírus selvagem. Ou seja, esse homem morreu porque não o vacinaram [a tempo], não teve nada a ver com a vacina.

Ele contraiu febre amarela antes de conseguir ser vacinado, é isso?

Sim. Ele foi vacinado no período em que já estava com o vírus do organismo. Isso também pode estar acontecendo com a dengue agora. Então, você tem que fazer a genotipagem e diferenciar se [o que levou ao caso grave ou à morte] foi vírus vacinal ou um vírus selvagem. Como estamos falando de uma doença endêmica no país, eu tenho certeza de que muitos casos com sintomas semelhantes à dengue foram dengue. Outros podem ser reação à vacina realmente, com o vírus vacinal. Isso também tem que ser investigado melhor, não nesses 3.700, mas nos 42 casos [de reações raras e inesperadas], para se chegar a uma conclusão.

Os estudos clínicos, que são feitos antes da aprovação de uma vacina, preveem mapeamento de possíveis efeitos adversos segmentados por comorbidades ou outros fatores de risco prévios?

As vacinas inativadas [que não têm vírus vivo atenuado], que são seguras para os imunossuprimidos, sim. Você pode querer saber se a vacina contra o herpes zoster funciona bem no transplantado, em pacientes com HIV, etc. Porque a gente sabe que não há questão de segurança. O que pode acontecer é ela ter uma baixa proteção justamente num grupo que tem maior risco de desenvolver a doença de forma mais grave. Agora, [nos estudos das] vacinas de vírus vivo atenuado, se excluem categoricamente pessoas imunossuprimidas, gestantes e lactantes.

Mas essas são as comorbidades que já se sabe que interditam a aplicação de qualquer vacina de vírus vivo atenuado. Eu queria saber se os estudos clínicos para aprovação de vacinas testam grupos de pessoas identificadas por terem outras doenças, que não são imediatamente associadas a reações adversas de vacinas, como trombose, hipertensão etc...

Eu não sei exatamente se, para esta vacina do Butantan, eles excluíram qualquer comorbidade. Vamos dar um exemplo: a diabetes, dependendo do grau, tem um grau leve de imunossupressão. Mas não é uma imunossupressão que levaria à contraindicação de uma vacina de vírus vivo atenuado. Eu não sei se na população eleita nesses 11 mil participantes no estudo de fase 3 [do Butantan], que é onde se amplia a vacinação, foram ou não descartadas pessoas que se tivessem cardiopatias, pneumopatias, diabetes ou outras doenças metabólicas. Em geral, pessoas de uma idade mais segura – adolescentes, adultos jovens – são sempre preferenciais para iniciar estudos nessa fase pré-licenciamento. Mas eu não sei te dizer especificamente para essa vacina se eles descartaram qualquer comorbidade.

As duas vacinas contra a dengue que vinham sendo aplicadas no Brasil – a do Butantan, que foi temporariamente suspensa agora e a da Takeda – são de vírus vivo atenuado. Vários outros imunizantes utilizados há muitos anos usam a mesma tecnologia, mas vimos também esforços para substituir essas vacinas no caso da poliomielite. Essa tecnologia é confiável?

Sim. Ela é muito antiga, muito confiável. Pelo contrário, a gente tem que enaltecer o fato de tantas doenças terem sido eliminadas no Brasil [com esse tipo de vacina]. Esse é o caso, por exemplo, da pólio, da rubéola, da síndrome da rubéola congênita e do sarampo – por enquanto, a gente ainda tem a certificação da eliminação da circulação do vírus do sarampo, não sei se depois da Copa [do Mundo] isso vai continuar. Milhões de vidas [foram salvas com essa tecnologia]. O cálculo é que, nos últimos 50 anos, 154 milhões de vidas foram salvas e a previsão é de que mais 50 milhões de vidas [sejam salvas] até 2030 com a vacinação. Isso inclui todas as vacinas, não só as de vírus vivo atenuado, mas a gente tem esses exemplos emblemáticos.

Nós eliminamos a pólio com a vacina oral. Enquanto tiver o vírus da pólio circulando no mundo, a gente tem que ter a nossa população vacinada. A partir do momento em que passamos a ter uma vacina inativada da pólio, que não oferece nenhum tipo de risco, como é a Salk, nós trocamos, por questões de segurança. É muito mais fácil aplicar duas gotinhas na boca [como é a vacina de vírus ativo atenuado contra a pólio] do que ter mais uma injeção [como é a vacina inativada] no calendário da criança. Mas, mesmo sendo muito mais barata e mais fácil de aplicar – você faz campanha e põe gotinha na boca de todo mundo –, [se existe outra alternativa] e ainda aparecem casos de pólio relacionados ao vírus vacinal, não se pode manter essa vacina quando a doença não tem mais risco na população. Essa é a ponderação sobre a qual você me perguntou no começo da entrevista. Mas durante décadas a gente continuou usando a [vacina de vírus ativo atenuado contra] pólio, mesmo com esse risco raro de pólio vacinal.

Neste momento, para dengue, não existe nenhuma outra alternativa vacinal, nem plataforma de desenvolvimento, até onde eu sei. Faz mais de 20 anos que essa vacina do Butantan está em estudo, em desenvolvimento, junto com o NIH [National Institute of Health]. O início dos estudos foi lá nos Estados Unidos, com o NIH. E não se detectou nada preocupante, nem na fase 3, com 11 mil vacinados. Aí é isso: quando a vacinação vai para um número muito maior de pessoas, é comum que apareçam eventos inesperados. Recentemente [em 2026], [a Anvisa] pediu para ter uma mudança de bula [na vacina contra a covid-19, informando sobre casos raros de síndrome de Guillain-Barré. Foram pouquíssimos casos, mas que não puderam ser descartados. E aí se solicitou uma alteração de bula. Então, essa vigilância é dinâmica. Com sete casos para um milhão de doses, mesmo de um quadro grave como a síndrome de Guillain-Barré, não se tem motivo para suspender a vacina porque você vai ter muito mais vidas sendo salvas do que se deixar de vacinar por conta de um evento adverso raro.

Em tempos como os que estamos vivendo, de negacionismo científico e crescimento do discurso antivacina, com um histórico de perda de cobertura vacinal nos últimos anos, essa suspensão temporária da vacina contra a dengue pode gerar mais desconfiança na população brasileira em relação à imunização? O que se deve fazer para evitar isso?

A vacina contra dengue que ainda está no SUS, a Qdenga, não está sendo investigada

Eu acho que a primeira coisa importante é reforçar que a vacina [contra dengue] que ainda está no SUS [Sistema Único de Saúde], a Qdenga, não está sendo investigada. Já são 8,8 milhões de doses aplicadas aqui no Brasil e nunca houve nenhum óbito e nenhum evento adverso grave. Então, a vacina que está sendo aplicada para [crianças e adolescentes de] dez a 14 anos, e também no setor privado, continua normalmente. Porque tem muita gente esclarecida perguntando: ‘E agora? Eu não vou fazer a segunda dose?’. A vacina de duas doses é a Qdenga, da [farmacêutica] Takeda. Mas as pessoas já estão confundindo uma coisa com a outra, achando que a suspensão da vacina do Butantan se deve a ser uma vacina contra a dengue, como se fosse uma coisa só. São duas vacinas diferentes.

A gente tem que ter medo não dos eventos adversos, de um modo geral, e sim das doenças

Nossa farmacovigilância e nosso PNI têm que ser aplaudidos pela transparência. O que a gente pode enaltecer, para melhorar a confiança [da população], é que temos um sistema de vigilância muito sensível e que toda a nossa Saúde Pública está sensível também a acolher pessoas que tenham sintomas e investigá-los. [Esse sistema] está sendo mais rigoroso ainda do que já é por conta dessas ocorrências. Se [se definir que] essa vacina tem um grau de segurança suficiente para ser restabelecida e aplicada na população, a gente pode confiar na orientação do nosso PNI. [É preciso explicar que] as demais vacinas seguem normalmente. E que essa vigilância serve para todas as vacinas que estão em uso no nosso país. A gente tem que ter medo não dos eventos adversos, de um modo geral, e sim das doenças: pessoas não vacinadas morrem, têm sequelas, limitações, sofrimentos, internações.

Isso é consenso mundial: da década de 1950 para cá, a gente teve um incremento de aproximadamente 30 anos de vida e a causa principal é a vacinação

Hoje há pessoas vivendo mais de 100 anos e a primeira causa desse aumento de longevidade global é a vacina. Isso é consenso mundial: da década de 1950 para cá, a gente teve um incremento de aproximadamente 30 anos de vida e a causa principal é a vacinação. A mortalidade infantil caiu mais de 90% já na década de 1970, com o PNI organizando a vacinação no nosso país. Então, acho que a gente precisa reiterar a importância da vacinação e a segurança do nosso Programa de Imunizações e das vacinas. Elas estão aí para salvar vidas.

Grupos antivacinistas espalham medo e terror, com objetivos obscuros, muitas vezes com capital estrangeiro injetado para venda de produtos naturais, cursos de desintoxicação, etc

Grupos antivacinistas espalham medo e terror, com objetivos obscuros, muitas vezes com capital estrangeiro injetado para venda de produtos naturais, cursos de desintoxicação, etc. E tem muita maldade por trás disso, muitos interesses antiéticos, que não são pró-saúde da população. O nosso PNI trabalha para melhorar a assistência à saúde do nosso povo. A gente tem que ouvir e atender aos chamados de campanhas [de imunização] e de vacinação rotineira. Estamos sob ameaça do retorno de doenças que já foram eliminadas e isso depende da colaboração de cada pessoa, não só para sua própria vacinação, mas também para a imunidade coletiva que é necessária para impedir o retorno da circulação de doenças que já não estão mais entre nós. Acho que é mais ou menos isso o que se tem que falar: do benefício, da importância e da segurança das vacinas que estão no Programa [Nacional de Imunizações], mostrando que essa suspensão [da vacina do Butantan contra a dengue] é um dado muito positivo porque mostra que estamos obedecendo todos os princípios da ética e da precaução estabelecidos pela OMS [Organização Mundial de Saúde].

Como você já fez referência, a Copa do Mundo começa nesta semana e o Ministério da Saúde do Brasil tem alertado para o risco do sarampo, já que EUA, México e Canadá, países onde acontecerão os jogos, têm surtos ativos da doença. Quais os riscos e o que o poder público pode fazer em relação a isso?

A campanha para vacinação dos viajantes é fundamental. Eu acho que foi feito um trabalho grande para reforçar a importância de quem está indo para um evento desse se vacinar. É um evento de massa, onde as pessoas vão ter contatos, inevitavelmente, [com gente contaminada]. Não tem como você imaginar que os milhares de brasileiros que estão indo para lá estão imunes a ter contato com pessoas com sarampo. Por isso era importante a vacinação dos viajantes. Mas a gente também sabe que é necessário que a nossa população esteja vacinada, com alta cobertura, para que, se o vírus do sarampo entrar aqui, ele não tenha como se disseminar e não volte a causar surtos. E para que a gente não volte àquela situação que tivemos uns anos atrás, com tanto esforço de Saúde Pública para vacinar nossa população e eliminar o sarampo.

Acho que temos que ficar atentos. O que o nosso sistema de saúde faz é também aumentar a sensibilidade dos profissionais da saúde para identificar imediatamente os casos suspeitos, isolá-los e fazer a vacinação de bloqueio. Se chega uma pessoa com sintoma suspeito, faz o teste e é sarampo, você tem que vacinar não só os familiares, as pessoas que moram com ela, mas o circuito por onde essa pessoa andou nos últimos dias. Se ela foi naquele bairro, naquele prédio em que ela mora, vacina-se todo mundo. Isso se chama vacinação de bloqueio. E no Brasil isso tem funcionado muito bem. A gente tem tido casos [de sarampo] que não são de circulação endêmica, são pessoas que viajam e se infectam lá, ou viajantes que vêm infectados e têm os sintomas aqui. Essa sensibilidade, assim como a de agora, para atender os casos suspeitos de reação à vacina contra dengue, [envolve] várias técnicas, diretrizes e treinamento dos profissionais que estão na ponta e são responsáveis por suspeitar, identificar, notificar e investigar tudo isso.

Acho importante dizer que hoje a comunicação é tão importante quanto a vacinação. E que devemos enaltecer a transparência com que tem trabalhado o nosso PNI. Assim que essa investigação for concluída, vamos saber mais [sobre esses efeitos adversos e óbito] e as atitudes que forem determinadas pelo PNI devem ser seguidas pela população, porque nós temos um Programa que é um dos melhores do mundo e que, inclusive, seve de exemplo para muitos países. Confiar no PNI  é a melhor solução.

Isso vai respingar nas demais vacinas, o que é um grande problema

Obviamente, as fake news e os antivacinistas estão deitando e rolando. E o estrago é feito rapidamente. Quando você desperta o medo, é muito difícil tirar esse medo. Isso vai respingar nas demais vacinas, o que é um grande problema. Com certeza vai ter mais baixa.

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Aumentar os índices de vacinação infantil contra a Covid-19 e recuperar as altas coberturas vacinais em geral são desafios que o Brasil precisa enfrentar neste momento. Nesta entrevista, produzida para subsidiar a reportagem de capa da Revista Poli nº 84, o presidente do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri, explica a gravidade da volta de doenças controladas, destaca a urgência de se recuperar a confiança da população no programa de imunizações e, para isso, aposta na importância das estratégias de comunicação oficial, promovida pelos governos.
Houve um tempo em que as políticas públicas no Brasil apostavam tanto nas campanhas como caminho para resolver os problemas de saúde que pesquisadores da área da comunicação puderam se ‘dar ao luxo’ de criticar esse modelo. A principal ponderação era sobre uma certa ilusão de que esse tipo de iniciativa conseguiria, “quase automaticamente”, provocar uma mudança de comportamento na população – o que, traduzido para o contexto atual, seria como acreditar que, com peças de comunicação bem feitas, a população entenderia a importância da imunização e colocaria a caderneta de vacinação das crianças em dia. Uma das principais críticas nesse sentido foi desenvolvida por Janine Cardoso, professora do Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde do Icict/Fiocruz, na dissertação ‘Comunicação, saúde e discurso preventivo: reflexões a partir de uma leitura das campanhas nacionais de Aids veiculadas pela TV (1987-1999)’, defendida em 2001. Nesta entrevista, produzida para subsidiar a matéria de capa da Revista Poli nº 83, sobre as baixas coberturas vacinais no Brasil, ela fundamenta essa crítica, mas alerta que isso nunca significou a defesa de que as campanhas tinham que acabar. Ao contrário: reforça o quanto elas são importantes para colocar na agenda pública temas fundamentais para a saúde da população, como, por exemplo, o risco da volta de doenças em função da queda das taxas de imunização. Cardoso aborda ainda o fenômeno de negacionismo científico e alerta para o quanto a perspectiva individualista que norteia as principais ações de comunicação em saúde compromete, hoje, a compreensão da dimensão coletiva da vacinação.
No momento em que instituições, pesquisadores e profissionais de saúde se mobilizam para reverter as baixas coberturas vacinais, que trazem o risco de retorno de doenças já controladas ou mesmo eliminadas do país, como o sarampo e a poliomielite, esta entrevista relembra as dificuldades e o êxito da primeira grande campanha de vacinação brasileira, contra a varíola. É verdade que naquele remoto início do século 20 a população do Rio de Janeiro se insurgiu contra a vacinação obrigatória, mas a pesquisadora Tania Maria Fernandes, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), lembra que esse não foi um movimento apenas contra a vacinação: estava presente ali a indignação de parte da população com um ambiente de opressão, expressando uma insatisfação social que ia muito além da vacina. Além disso, ressalta, num tempo em que não havia internet e a maior parte da população brasileira sequer sabia ler, as estratégias de informação e conscientização eram mais difíceis mas, embora houvesse boatos que amedrontavam, nada era comparável às atuais fake news. A entrevista foi realizada como parte da reportagem de capa da Revista Poli nº 83, sobre a queda das coberturas vacinais no Brasil.
‘Reconquista das altas coberturas’: esse é o nome de um novo projeto coordenado pela Fiocruz, em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, e dá dimensão do tamanho desafio - o país precisa, urgentemente, voltar a ter taxas de vacinação que protejam o conjunto da sociedade e evitem a volta de doenças já controladas ou mesmo erradicadas. Há dez anos, a cobertura vacina média no Brasil era de 96,5%, enquanto, em 2021, caiu para menos de 68%. Um dos profissionais à frente dessa empreitada é Akira Homma, pesquisador de Bio-Manguinhos, Fiocruz. Nesta entrevista, produzida para a matéria de capa da revista Poli nº 85, ele explica as situações em que há diferença na imunização de crianças e adultos, ressalta as sequelas que doenças para as quais já existem vacinas podem provocar e garante que as vacinas aplicadas no Brasil são seguras. Sobre a iniciativa que vai tentar ampliar as coberturas vacinais no país, destaca que o esforço principal tem sido ir até os municípios, sentar para dialogar com todos que atuam na saúde daquele território e entender que os protagonistas dessa ‘reconquista’ são os profissionais locais.
Nessa entrevista, a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Isabella Ballalai fala sobre a questão da hesitação vacinal em países da Europa – que tem contribuído para um aumento no número de óbitos por Covid-19 em alguns países – e no Brasil, e discute os desafios para reverter o quadro de queda na cobertura vacinal de várias doenças em meio ao cenário de polarização política e difusão de desinformação, que para ela ajudam a aumentar a insegurança da população na vacinação.
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