MedioTec: a mesma qualificação para a mesma classe social

Governo federal amplia participação das escolas privadas no Pronatec e potencializa uma estratégia já prevista na reforma do ensino médio – a profissionalização antecipada dos jovens para atender às necessidades do mercado
Raquel Júnia - EPSJV/Fiocruz | 07/06/2017 11h08 - Atualizado em 07/06/2017 11h24
Michel Temer, Mendonça Filho (MEC) e Eliseu Padilha (Casa Civil) no lançamento do Novo Ensino Médio e MedioTec Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

As propagandas no rádio e na TV anunciam uma trajetória de sucesso para o estudante do ensino médio. Em um turno ele vai estudar e no outro vai fazer um curso técnico. Depois, vai conseguir um bom emprego. É assim que o governo federal tem apresentado o MedioTec, uma ‘nova’ ação de formação técnica destinada aos estudantes das escolas públicas. Na verdade, como o próprio Ministério da Educação (MEC) explica, o projeto está inserido no Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. No entanto, segundo a pasta, será potencializada a oferta de cursos para um público específico: a promessa é de 82 mil novas vagas para estudantes do ensino médio das redes públicas estaduais só em 2017.Apesar de ter sido lançado no final de 2016, até março deste ano pouco ou quase nada, além da propaganda oficial, havia sido divulgado sobre o MedioTec. Em abril, o MEC publicou um edital convocando as instituições privadas interessadas em participar da ação a apresentarem propostas. A partir daí, o desenho do projeto ficou mais claro. O documento informa que as instituições interessadas devem oferecer vagas gratuitas em cursos técnicos na forma concomitante e presencial para atender alunos matriculados na rede pública estadual, preferencialmente a partir do 2º ano do ensino médio. O MEC selecionará as instituições de acordo com alguns critérios como o valor da hora-aluno apresentado, o espaço físico adequado e um máximo de vagas em relação à capacidade total de oferta.  Ainda de acordo com o edital, só podem concorrer as instituições que já tenham firmado termo de adesão como ofertantes da Bolsa-Formação, uma das modalidades do Pronatec. A seleção dos estudantes caberá às secretarias de educação estaduais. O documento de referência, anexo ao edital, deixa claro que o foco são os alunos “socialmente vulneráveis”. Entre esses, a prioridade é para aqueles cujas famílias são beneficiárias do Bolsa Família.


Mais dinheiro para as escolas privadas

 

O professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Dante Moura, considera que há pouca novidade no projeto, com exceção de uma diferença importante: o aprofundamento da parceria privada. “Não se elimina o Pronatec, mas se cria, dentro dele, uma nova marca que não tem nenhuma diferença do ponto de vista das ofertas educacionais. A diferença é que vai haver um incentivo mais forte ao financiamento privado da oferta pública de educação”, avalia.

Para Dante, um dos agravantes em relação às parcerias que já existiam no Pronatec é a ampliação do volume de recursos repassado e a maior diversidade de entes privados contemplados. “O que anteriormente predominava era a oferta privada no Sistema S –cursos como os do Senai e Senac, por exemplo –, agora o programa é amplo, geral e irrestrito para qualquer entidade. Inclusive, pelo direcionamento que está no edital, o Sistema S não seria nem prioritário. E o que se agrava é que o volume que irá para a esfera privada é maior”, aponta.

De acordo com o MEC, estão previstos para o MedioTec R$ 700 milhões, cerca de 45% do orçamento total direcionado para o Pronatec neste ano (R$1,5 bilhão). Questionado sobre quem executará o programa, o MEC afirmou, via assessoria de imprensa, que o MedioTec não se dará apenas em parceria com instituições privadas. “O MedioTec será executado em diferentes fases. Na primeira fase,  é ofertado por meio da Bolsa-Formação/Pronatec por instituições privadas e públicas, tanto estaduais como municipais, que firmaram termo de adesão ao Bolsa-Formação/Pronatec, na modalidade presencial. Já na modalidade a distância, a oferta será priorizada para as instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Ciência e Tecnologia. Em outras fases, estudadas e elaboradas pelo MEC, a oferta presencial será ampliada para as instituições da Rede Federal, cujos requisitos de execução estão em estudo. As instituições dos Serviços Nacionais de Aprendizagem (Sistema S) também serão incluídas em fases futuras”, respondeu o Ministério.

Segundo o edital publicado no dia 2 de março, as instituições privadas tinham até o dia 24 de abril para apresentar propostas. De acordo com o cronograma divulgado, o resultado final com a homologação das vagas e as instituições ofertantes deve ser divulgado no dia 30 de maio e as aulas devem começar entre julho e agosto. Questionado sobre quais instituições públicas participarão dessa primeira etapa já que nada ainda havia sido divulgado a respeito, o MEC respondeu que essas escolas estavam sendo selecionadas por meio de um processo de pactuação com aquelas que já firmaram parceria com o Pronatec.

O censo escolar realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) mostra que no Brasil o setor privado é responsável pela maior parte das matrículas nos cursos de educação profissional oferecidos de forma concomitante ao ensino médio, exatamente como se dará a oferta do MedioTec. Os dados nacionais revelam que havia em 2016 mais de cinco mil turmas de cursos técnicos concomitantes ao ensino médio ofertadas por instituições privadas, enquanto as turmas oferecidas por instituições públicas, sejam federais, municipais ou estaduais, somaram pouco mais de duas mil, sendo que cerca de 50% delas situava-se, na realidade, em instituições federais. Ou seja, o setor privado responde hoje, segundo o censo, por mais de 70% das turmas de cursos técnicos concomitantes.

Dessa forma, analisa Dante, ainda que haja escolas públicas envolvidas no MedioTec, pelo que já foi divulgado pelo MEC, que priorizou o chamado às instituições privadas, e pelo próprio cenário da educação profissional no país, depreende-se que os estudantes serão formados majoritariamente pelo setor privado. “E evidentemente as forças de mercado não vão formar trabalhadores a partir da perspectiva da formação humana integral. Então, essa perspectiva de uma formação que permita o sujeito compreender o mundo, e a partir daí, contribuir em alguma medida para a transformação dessa sociedade se perde completamente, porque o mercado só vai formar para o que interessa ao mercado e não para o que interessa à classe trabalhadora”, observa.

Analisando o MedioTec à luz do cenário atual de uma reforma do ensino médio, o professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Gaudêncio Frigotto, vê o que chama de uma “pronatequização do ensino médio”. Ele reforça a percepção de Dante sobre a gravidade de transmitir ao setor privado responsabilidades que seriam do Estado com implicações políticas e financeiras. “É a cereja do bolo da dupla privatização: a privatização do pensamento, ou seja, quem tem a prerrogativa de implementar o que o mercado quer é quem está no mercado e não o Estado; e, segundo, é o assalto ao fundo público, porque exatamente quem vai oferecer isso são as instituições privadas”, critica.


Catalisador

 

Segundo o mesmo documento de referência anexo ao edital do MEC, o MedioTec é uma ação “que catalisa a reforma do ensino médio”. A reforma, sancionada em fevereiro deste ano pelo presidente Michel Temer (Lei 13.415/17) após centenas de ocupações de escolas contra a medida e forte crítica de educadores, pesquisadores, estudantes e movimentos sociais, incorpora na carga horário do ensino médio o que é chamado de itinerário da educação profissional. Com isso, o estudante que siga essa formação, já no segundo ano, deixa de ter acesso aos outros conteúdos, com exceção de português e matemática. O termo de referência do MedioTec elogia exatamente este aspecto da reforma. “Hoje, se o jovem quiser cursar uma formação técnica de nível médio, ele precisa cursar 2.400 horas do ensino médio regular e mais 1.000 ou 1.200 horas do técnico. O novo ensino médio permitirá que o jovem opte por uma formação técnica profissional dentro da carga horária do Ensino Médio regular desde que ele continue português e matemática até o final. E, no fim dos três anos, ele terá um diploma do ensino médio e um certificado do ensino técnico”, destaca o documento oficial.

A professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Marise Ramos, aponta que é exatamente o enxugamento da carga horária da formação geral que está no cerne da crítica à reforma, agora, segundo o próprio MEC, catalisada pelo MedioTec. “Toda defesa que se fez historicamente e a demonstração empírica da formação técnica de qualidade, está, primeiramente, em não prejudicar a formação geral em benefício da formação técnica, mas, ao contrário, integrá-la. É o que a gente tem nas experiências exitosas e que podem fazer diferença para os filhos da classe trabalhadora, exatamente aqueles cursos com a carga horária curricular de 3.200 horas, até quatro mil horas ou mais. Mas na visão expressa na reforma e no MedioTec, para esse jovem da escola pública, esse jovem pobre, isso é muito”, critica.

Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil A reforma do ensino médio ainda não está totalmente em vigor, porque, segundo o próprio texto da lei, só pode ser implementada a partir da aprovação da Base Nacional Curricular Comum (BNCC), ainda não concluída para a etapa do ensino médio. No entanto, a ‘catalisação’ da qual fala o documento dá margem a diversas interpretações. Por exemplo, se mesmo com a reforma ainda não implementada os estudantes selecionados para o MedioTec já poderão ter a carga horária de educação profissional computada como o itinerário previsto no novo ensino médio. O MEC diz que não. “O público-alvo do MedioTec é o aluno atualmente matriculado no ensino médio regular das redes públicas de educação, cujo modelo ainda obedece às diretrizes de educação anteriores à reforma do ensino médio”, respondeu o ministério, via assessoria de imprensa. Questionado sobre o que significa catalisar a reforma, o MEC ressaltou apenas que o MedioTec é uma ação independente. “O programa possibilitará ao aluno regularmente matriculado no ensino médio das redes públicas de educação o acesso à formação técnica, cuja execução será realizada no contraturno ao que regularmente frequenta, ampliando as chances de inserção socioprofissional dos estudantes. Já a reforma do ensino médio prevê que a formação técnica seja uma das áreas de conhecimento de escolha do educando, cuja execução dar-se-á no mesmo turno de frequência regular do aluno. A oferta da educação técnica e profissional da reforma do Ensino Médio poderá ser executada por qualquer instituição pública ou privada, devidamente reconhecida pelos órgãos competentes, para a oferta dessa área de conhecimento, não tendo qualquer relação com as instituições de oferta do MedioTec.”

A relação entre as duas iniciativas, entretanto, é inevitável porque há muitos pontos em comum na argumentação da reforma e no texto que baliza o MedioTec. “Inclusive, o edital divulgado pelo MEC diz que essa concomitância se dá a partir do segundo ano, que é a mesma lógica do que está na reforma do ensino médio, você teria nos primeiros 18 meses uma base curricular comum, e, a partir daí, o respectivo itinerário”, compara Dante.

Entre os pontos de confluência está também a possibilidade de estágio no mercado de trabalho. “A ideia é estimular parcerias entre as instituições ofertantes de ensino médio e de educação profissional com o setor produtivo da região, para que os estudantes sejam absorvidos, a priori, na condição de aprendizes ou estagiários durante a realização do curso e, posteriormente, possam assumir postos de trabalho”, diz o documento de referência do MedioTec. Por sua vez, a lei do novo ensino médio aponta como possibilidade dentro da formação técnica e profissional “a inclusão de vivências práticas de trabalho no setor produtivo ou em ambientes de simulação, estabelecendo parcerias e fazendo uso, quando aplicável, de instrumentos estabelecidos pela legislação sobre aprendizagem profissional”.

Para Marise, este é também um ponto crítico do programa: a antecipação da inserção do jovem no mercado de trabalho sem uma formação adequada. A professora acredita que o cenário atual é ainda mais problemático do que imposto pela lei 5.692, da década de 1970, que também promovia uma reforma educacional de forma a profissionalizar o ensino médio. Ela compara: “Nem a 5.692 foi tão violenta, porque a composição da carga horária não era tão desigual. Ainda que submetesse a formação básica aos requisitos da formação profissional, o estágio era só a partir do terceiro ano, e sob o princípio de um estágio supervisionado, ou seja, um estágio efetivamente curricular, que seja uma relação teoria/prática. Na lei atual e no MedioTec não há essas salvaguardas, fala-se apenas em aprendiz ou estagiário. Quer dizer, antecipa a inserção desses jovens como força de trabalho explorada”.
Gaudêncio acrescenta ainda um terceiro aspecto já identificado na reforma e cristalizado com o MeditoTec, que é a naturalização da ausência nas redes estaduais de educação de estrutura física e de professores capacitados para oferta da educação profissional. “Agora os estados ficam aliviados disso, não precisam mais contratar professores e nem montar laboratórios. O que é direito, vira serviço mercantil”, aponta.  O professor destaca que é preciso atualizar a crítica que já se fazia aos cursos do Pronatec, por serem de curta duração e sem integração com o conteúdo do ensino médio, no cenário da atual reforma. “Para um jovem que tivesse estudado, por exemplo, na rede federal – reconhecidamente de maior estrutura e qualidade –, a carga horária do Pronatec era exuberante. Por quê? Porque ele tinha base. Para aquele jovem que não tinha essa base, a grande maioria, o Pronatec era um castelo no ar. Este banco de ilusões agora é concretizado duplamente na contra-reforma do ensino médio e no MedioTec”, reforça.


Para servir ao industrial

 

O documento de referência do MedioTec não esconde que o objetivo do programa é também atender a demanda do setor produtivo. Segundo o texto, “o objetivo é mapear as demandas de formação técnica em cada uma das cinco regiões do Brasil, com dados sobre as oportunidades reais de inserção, por município, e as aptidões formativas necessárias para atendê-las”. “É aquilo que nas décadas de 1970 era slogan do Sistema S: ‘a pedagogia e os cursos do Senai têm que servir ao industrial’. Então, a lógica do MedioTec é essa, preparar para o que serve, não é o direito social e subjetivo a uma educação básica e a uma educação profissional”, rebate Gaudêncio.

O público do MedioTec também é bem definido: focalização nas pessoas mais vulneráveis. Dessa forma, o edital aponta que 10 a 20% das vagas devem ser preenchidas por jovens com deficiência e em situação de vulnerabilidade e risco social, tais como violência e medidas socioeducativas, com indicação dos órgãos de Assistência Social; de 65 a 75% por alunos cujas famílias são beneficiárias do Bolsa Família; e o restante, de 5 a 25%,  a critério da secretária de educação.  Marise acredita que a focalização da política, prática do atual governo não apenas na educação, se por um lado pode parecer positiva de forma a possibilitar oportunidades a jovens que dificilmente acessariam esse tipo de formação, esconde um outro lado, que é a ausência de políticas universais. “A ideia é de que a formação pelo trabalho e para o trabalho é exclusiva ou predominantemente para os pobres, e uma formação sempre menor. E que interesse esses jovens têm, se eles não têm o lugar da escola onde esses interesses sejam discutidos?”, questiona, ressaltando que as famílias com mais poder aquisitivo podem matricular os filhos em escolas que garantem uma formação básica mais sólida, o que permite uma escolha profissional com mais qualidade.

Novamente o documento orientador do MedioTec tenta dar uma resposta à questão apontando para os chamados parceiros demandantes – as instituições privadas – a necessidade de organizar seminários de profissões para que os jovens possam conhecer o futuro leque de atuação a partir dos cursos técnicos escolhidos.

Anexo ao edital que convoca as instituições privadas a apresentarem propostas ao programa, há também uma tabela com os cursos que devem ser oferecidos em cada cidade atendida e o número de vagas. Nas capitais, a variedade de ofertas é maior, de quatro a 10 cursos diferentes. Já nas cidades do interior, em algumas há apenas uma oferta e, na maior parte delas, de dois a quatro cursos. Segundo o MEC, as escolhas foram feitas levando em consideração “as demandas do mundo do trabalho e renda, mapeadas pelos ministérios parceiros demandantes da ação: MinC (Cultura), MCTIC (Ciência, Tecnologia e Inovação), Mapa (Agricultura e Pecuária), MDIC (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), MS (Saúde), MTur (Turismo), considerando-se os médios e grandes investimentos, as tendências de crescimento do seu setor específico e, ainda, as necessidades prospectadas para o período de 1,5 a 2 anos, prazo em que os alunos do MedioTec estarão se formando”.

Marise aponta que há uma ideia já consolidada na educação profissional de se levar em conta os arranjos produtivos locais e a existência de professores capacitados no momento de se definir a formação que será oferecida. Entretanto, esses não podem ser critérios absolutos. “Como é que essas vocações são feitas? Vamos dar um exemplo: você tem uma região onde o agronegócio é forte, como Chapecó (SC), e aí você tem uma grande empresa que é a Sadia. Um dos cursos mais frequentes lá é suinocultura. Aí a lógica é: vamos oferecer suinocultura para que os donos da Sadia tenham a força de trabalho precoce e barata. Esse critério precisa ser questionado”, alerta.


FENET

De volta ao passado

 

É por esses aspectos que os pesquisadores ouvidos pela Poli acreditam que o MedioTec e a concepção que orienta a reforma do ensino médio se traduzem em um retrocesso de mais de duas décadas na educação. Gaudêncio vê semelhanças entre o MedioTec e um programa de formação técnica de trabalhadores da década de 1990, o Planfor. Embora o programa não fosse necessariamente voltado a estudantes do ensino médio, também se oferecia uma formação simplificada, em parceria com instituições privadas. Para Marise, as pesquisas e reflexões sobre o direito à educação avançaram tanto desse período para cá que a inflexão é quase inaceitável.  “Mais de 20 anos depois que nós avançamos tão intensamente na construção de uma concepção que é da formação integrada, na existência de uma legislação nesse sentido, na construção de uma política de apoio aos estados para fazer isso, que a história não permitiria uma regressão nesse nível”, lamenta. E completa: “Uma coisa é o Brasil recém saído da ditadura, passado pelo governo Collor, Itamar, chegar no governo Fernando Henrique, e aí haver uma política de formação dos trabalhadores brasileiros, que, com toda a crítica que se tinha, de alguma maneira era feita num processo de reestruturação produtiva. Mas hoje temos a possibilidade de políticas de outra natureza e deveríamos aprender exatamente com o que já se mostrou fracassado”.

Entre esses fracassos repetidos no MedioTec, na opinião dos professores, está uma estratégia extremamente desgastada, que é a concomitância externa, ou seja, os alunos estudarem em um turno em uma escola e terem que se deslocar para fazer a formação profissional em outro local. “Aquilo que é uma promessa acaba se tornando uma penalidade. É completamente diferente, por exemplo, do jovem que fica o dia inteiro na mesma escola, que tem a sua formação básica, tem a formação técnica, que a alimentação já está dada dentro da escola, o projeto político pedagógico é o mesmo, os professores são os mesmos, são articulados numa determinada equipe”, compara Marise.

O edital do MEC estipula que as instituições privadas devem oferecer assistência estudantil que dê conta do deslocamento e da alimentação dos jovens. Essas instituições podem tanto oferecer a alimentação no local do curso, quanto pagar uma quantia aos estudantes. O documento coloca o valor mínimo de R$ 2 reais por aluno para cada hora–aula frequentada. Por exemplo, se o aluno estuda três horas por dia, ele deve receber R$ 6. Gaudêncio afirma que a assistência prevista não resolve a questão. “Isto é exatamente o tratamento que se faz aos filhos dos pobres, são jogados para um lado e para outro, mas nunca se busca o subjacente, que é uma educação básica de qualidade e, de forma integrada ou subsequente, uma educação técnica que responda às demandas da produção e da ciência”, aponta.

Os professores chamam atenção também para a necessidade de controle do repasse desses recursos para as instituições privadas. No Planfor, lembram, houve denúncias de instituições privadas que continuavam recebendo o valor referente ao custeio de estudantes que já tinham abandonado o curso. Em resposta à preocupação, o MEC diz que os recursos só vão ser liberados mensalmente após as informações da unidade de ensino e confirmação da frequência pelo próprio aluno em uma plataforma informatizada.


Esvaziamento por dentro

 

Segundo os entrevistados pela Poli, tanto a reforma do Ensino Médio quanto o MedioTec ameaçam mais uma vez o modelo de ensino médio integrado à educação profissional, resultante das reflexões sobre o tema das últimas décadas e praticado hoje principalmente na rede federal de educação profissional e tecnológica, e em algumas redes estaduais. “É como se o governo dissesse: você é livre para fazer, mas só te oferecemos isso. Você pode ir à Roma visitar o Coliseu, mas só te damos a passagem se você visitar o papa”, ironiza Gaudêncio. “Os sistemas de ensino não vão fazer a opção pelo ensino médio integrado porque é mais caro, mais trabalhoso e tem um desafio maior na infraestrutura escolar”, acrescenta Marise.

Para Dante, professor de um instituto federal que oferece o ensino médio integrado à educação profissional, o projeto está sendo esvaziado, mas tem condições de resistir com base nas contradições do discurso do próprio governo. “O que o governo utiliza como fundamento para dizer que o ensino médio brasileiro é um caos? São os resultados ruins dos estudantes nas avaliações de larga escala, tanto de âmbito nacional, como o Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] e o Enem, quanto internacional, como o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes]. Só que esses mesmos indicadores aos quais, aliás, temos grandes críticas – dizem que o ensino médio da rede federal de educação profissional e tecnológica é o melhor que tem no país, inclusive, com resultados acima da iniciativa privada. E no caso do Pisa, com resultados acima de países da OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico], como a Coreia do Sul, que é cantada e decantada como exemplo de educação a nível mundial”, argumenta. Para ele, portanto, o movimento deveria ser o de incentivar escolas desse tipo também na rede estadual. “Só que isso implicaria numa ampliação muito grande de investimento na área educacional e a lógica estabelecida pelo governo é reduzir investimento em educação”, complementa.

O professor sustenta que mesmo com a reforma do ensino médio, o modelo integrado tem respaldo legal para continuar existindo. “A lei que regulamenta os Institutos Federais, o Cefet, a Universidade Tecnológica do Paraná, concede autonomia administrativa, didática, pedagógica e financeira a essas instituições. Portanto, se elas têm autonomia didática e pedagógica, é de responsabilidade dessas instituições e da sua autonomia definir seus currículos e, portanto, isso não poderia ser afetado”, detalha. Além disso, Dante destaca que há uma brecha que pode ter passado despercebida na própria lei do novo ensino médio quando diz que os sistemas de ensino poderão fazer integração entre a Base Nacional Curricular Comum e qualquer um dos itinerários formativos (artigo 4º, parágrafo 3º). “Portanto, existem condições materiais concretas na rede federal e políticas para se resistir a esse processo de desmanche do ensino médio brasileiro”, destaca.

Diante do cenário de contingenciamento dos gastos públicos com a Emenda Constitucional 95, que congela o investimento do Estado por 20 anos, o MEC anunciou em março que pediu ao Banco Mundial recursos para viabilizar a reforma do ensino médio. Segundo matéria publicada no site do Ministério, o órganismo se mostrou aberto ao pedido. “Isso é uma retomada dos anos 1990 quando nós tivemos a reforma educacional que separou obrigatoriamente o ensino médio da educação profissional [decreto 2.208/1997]. E o braço operacional da reforma foi exatamente o Programa Social de Educação Profissional, cuja fonte de financiamento foi o Banco Mundial. Então é o mesmo modelo que está se colocando”, alerta Dante.


O falso eldorado do emprego

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou recentemente um estudo que mostra que a formação técnica não tem se traduzido em emprego. Apesar de mostrar um incremento na realização de cursos técnicos no país, o suplemento educação e qualificação profissional da Pnad relativo ao ano de 2014 (último levantamento ao qual se tem acesso) mostrou que mais de 40% das pessoas concluintes de cursos técnicos não conseguiu trabalho na área na qual fez o curso. A pesquisa mostra ainda que os motivos para não se conseguir o emprego são a falta de vagas, em 25% dos casos, e o fato de terem conseguido emprego em outro setor em 26%.  A pesquisa mostra ainda um dado curioso: 20% dos entrevistados declararam não ter interesse na área de formação.

Para Gaudêncio, é por isso que a propaganda sobre o MedioTec faz uma promessa irresponsável. “A propaganda é de uma ilusão brutal, porque você está num contexto de desemprego estrutural e o próprio Estado anunciou decréscimo no PIB. E as famílias, especialmente, dos jovens pobres, apostam nessa possibilidade. Então, é um jogo cínico e maquiavélico. É um duplo sofisma: que se está atendendo aos interesses do jovem e que ele vai ter emprego. Quem é que pode dizer que ele vai ter emprego? E qual emprego?”, questiona o professor.

Marise reforça que apesar da expectativa natural que a população cria em torno da promessa de empregabilidade, é papel dos educadores questionar a formação que está se oferecendo especificamente para a parcela mais pobre da juventude. “Não quer dizer que se o meu filho faz um curso desses e consegue um emprego é algo ruim. A questão é perguntar o que ele poderia ter a mais do que isso, ou melhor do que isso. É sempre essa pergunta que tem que ser feita, que a burguesia não vai fazer. Mas, nós, como educadores, temos que fazer”, conclui.

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