Sustentabilidade

De acordo com o verbete ‘sustentabilidade’ do Dicionário da Educação do Campo, essa ideia surge como contraponto ao desenvolvimento sustentável, que teria perdido sua capacidade questionadora ao apagar as contradições entre os interesses nacionais, empresariais e sociais envolvidos na crise ambiental
Maíra Mathias - EPSJV/Fiocruz | 23/01/2019 09h54 - Atualizado em 23/01/2019 10h03

Nosso ponto de partida são os anos 1960, quando a questão ambiental emerge no cenário internacional. E, com ela, a pergunta: o planeta é capaz de sustentar indefinidamente altos patamares de produção, consumo e a consequente poluição gerada? Ou corremos o risco de provocar um colapso? As contradições entre crescimento econômico e conservação da natureza chegam às páginas dos jornais e dos livros. Um deles – ‘Primavera silenciosa’ –, publicado em 1962, foi o primeiro a alertar sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos para a biodiversidade e a saúde humana. E serviria como instrumento do ascendente movimento ambientalista em sua mobilização contra um pesticida utilizado em larga-escala, o DDT, banido ainda nos anos 1970 em vários países. “O agravamento da questão ambiental estava sendo assimilado, mas principalmente crescia a percepção de que esta é uma questão comum e, por isso, necessita de um tratamento articulado entre as nações”, explica o economista Renato Maluf, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

É a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em 1972, que inaugura essa articulação. Vinte anos depois, o esforço diplomático envolvendo dezenas de chefes de Estado seria retomado pela ECO-92, que aconteceu no Rio de Janeiro. A diferença entre os dois momentos, contudo, pode ser notada até pelas palavras escolhidas: é que “desenvolvimento” aparece juntinho de “meio ambiente” no nome oficial do evento. O que aconteceu entre uma conferência e outra? No ‘Dicionário da Educação do Campo’, editado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) e pela Expressão Popular, Carlos Mazzetto explica que a vertente mais crítica do debate ambientalista de primeira hora, que chamava atenção para o padrão de desenvolvimento imposto pelo chamado ‘Primeiro Mundo’ ao ‘Terceiro Mundo’ sofreu uma transfiguração a partir do ‘Relatório Brundtland’, publicado em 1987. O documento elaborado por uma comissão da ONU forjou o conceito de desenvolvimento sustentável, cuja definição você já deve ter ouvido antes: a satisfação das necessidades do presente não podem comprometer a possibilidade de as próximas gerações atenderem suas próprias necessidades.

Desde então, escreveu Mazzetto, desenvolvimento sustentável passou a ser a chave para uma “equação milagrosa” que harmonizaria mercado e natureza. “O relatório adota um discurso de combate à pobreza e simultânea conservação ambiental para as gerações futuras. As contradições, entretanto, são inúmeras, pois acaba afirmando a necessidade do crescimento econômico e arrefecendo a crítica à sociedade industrial e aos países desenvolvidos”, explicou, no verbete.

Mas o fato é que esta formatação se consolidou a ponto de batizar a agenda da ONU para 2030, que tem 17 objetivos de desenvolvimento sustentável. Nesse guarda-chuva, estão desde a erradicação da pobreza à igualdade de gênero, passando por ação contra a mudança global do clima e consumo e produção responsáveis.
Mas, afinal, o que desenvolvimento sustentável tem a ver com sustentabilidade?

Na superfície e a fundo

De acordo com o verbete ‘sustentabilidade’ do Dicionário da Educação do Campo, essa ideia surge como contraponto ao desenvolvimento sustentável, que teria perdido sua capacidade questionadora ao apagar as contradições entre os interesses nacionais, empresariais e sociais envolvidos na crise ambiental. A sustentabilidade, por outro lado, recuperaria os princípios presentes no início do debate na década de 1960 – como, por exemplo, a concepção de que a natureza não é um “ajuntamento” de recursos aleatórios, passíveis de serem “preservados” no varejo, mas um todo integrado em diferentes ecossistemas; ou de que a sustentabilidade dos ecossistemas tem relação direta com a expansão da produção e do consumo. E, nesse sentido, também existiriam sociedades sustentáveis ou insustentáveis. “Determinada forma de relação sociedade-natureza nos trouxe a esta crise ambiental que é, na verdade, socioambiental. Estamos falando das sociedades ocidental-capitalistas que dominaram o mundo nos últimos 500 anos e do modo de apropriação da natureza que se instituiu, a partir da Revolução Industrial”, escreveu Mazzetto, para quem a sustentabilidade seria um “atributo” das populações camponesas e tradicionais, como as indígenas, que têm modos de vida integrados ao meio ambiente. E a insustentabilidade, um “problema civilizatório”.

Mas o engenheiro florestal Luiz Zarref, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), explica que há uma corrente importante que vê também na sustentabilidade um debate perdido. “Principalmente a partir da década de 1990, tanto o conceito de desenvolvimento sustentável quanto o de sustentabilidade foram apropriados pelas empresas para construir estratégias de marketing verde. E mais recentemente, nos anos 2000, para construir a ideia de capitalismo verde, na perspectiva do pagamento por serviços ambientais, dos créditos de carbono e outros mecanismos financeiros que tentam se apropriar de territórios com florestas e outros biomas transformando-os em valor negociado no mercado”, cita.

De fato, um giro pelos sites de grandes empresas revela que todas dão grande destaque à sustentabilidade em suas páginas. Algumas criaram institutos para tocar ações na área. Outras publicam, anualmente, relatórios de sustentabilidade. Há, aliás, um mercado por trás da redação desses documentos, e até uma organização que presta consultoria especializada para empresas e governos, conhecida pela sigla GRI.

A Vale é uma das empresas que contrata a GRI. Em sua página, a mineradora divulga que tem o objetivo de se tornar referência mundial em sustentabilidade no setor até 2030. Procuramos a companhia para uma entrevista. A Vale atenciosamente nos respondeu que, pelo perfil dos outros entrevistados da matéria, a companhia não seria a mais adequada para representar o mundo empresarial. A mineradora brasileira é sócia da australiana BHP na operação da Samarco que, em 2015, protagonizou o maior desastre socioambiental do país: a poluição do rio Doce após o rompimento de uma barragem de rejeitos em Mariana (MG).

A segunda empresa procurada foi a Coca-Cola Brasil, que aceitou responder por e-mail, através de sua assessoria de imprensa, as perguntas enviadas pela reportagem. “Sustentabilidade significa a longevidade do nosso negócio”, definiu Andréa Mota, diretora de sustentabilidade da companhia. E prosseguiu: “E isso só é possível a partir do momento em que entendemos que estamos totalmente conectados ao planeta e à sociedade. Nós buscamos fazer negócio do jeito certo, agindo de forma consciente para moldar o que produzimos e como produzimos para o futuro”. Segundo a executiva, sustentabilidade não pode ser tomada como algo “etéreo”. “Mais do que um conceito, é falar em mudança de cultura e de modelo mental e falar em pessoas.  Na Coca-Cola Brasil, por exemplo, nosso time de sustentabilidade trabalha de forma integrada com toda a estratégia e operação do negócio. Os objetivos de sustentabilidade são, também, de todos. Assim como os investimentos da companhia estão em linha com a sustentabilidade a longo prazo. É nosso compromisso atuarmos em diferentes frentes para contribuirmos, cada vez mais, com um mundo melhor”, afirma.

A Coca-Cola é a empresa que mais contribui para a poluição dos oceanos com embalagens de plástico, segundo relatório do #breakfreefromplastic, movimento que reúne 1,3 mil organizações no mundo, lançado em outubro de 2018. O levantamento foi feito a partir da coleta de aproximadamente 200 mil embalagens nos mares do mundo todo. “As embalagens, por exemplo, são parte importante do estilo de vida moderno, e componente essencial no nosso negócio. Mas encaramos hoje, globalmente, um problema real e nossa embalagem contribui para esse desafio”, citou Andréa.

A empresa diz atuar alinhada à Agenda 2030. Perguntamos se é possível ser uma grande empresa e uma empresa sustentável ao mesmo tempo. “Com certeza e essa consciência nos traz um enorme senso de responsabilidade”, afirmou a executiva. Zarref, no entanto, problematiza: “A perspectiva da sustentabilidade é completamente aberta. Inclusive para uma ação da Coca-Cola, da Bayer ou de uma grande mineradora como a Vale, que trabalham incessantemente em cima desse conceito, que é um fetiche criado para escamotear o violento processo de apropriação que as empresas fazem dos territórios, das riquezas, dos conhecimentos e da exploração da mais-valia dos trabalhadores”, critica, defendendo que as instituições que se aproximam do campo popular deveriam abandonar o termo, mesmo que ele seja base de vários acordos internacionais. Na sua avaliação, esses acordos “legitimam a forma mercantilizada de relação com a natureza”. Já Renato Maluf pondera que esses termos nem sempre são incorporados de forma voluntária. “Em alguns casos a incorporação é, digamos, compulsória, na medida em que desenvolvimento sustentável acaba sendo uma referência imposta nos programas de cooperação e ajuda internacional. É muito comum escutar que sem a palavra ‘sustentável’ no projeto, o dinheiro não sai”, observa.

E a saída?

Mas se não for desenvolvimento sustentável, nem sustentabilidade, o que deve balizar o debate ambiental hoje? Para Luiz Zarref, a resposta vem sendo construída por movimentos territoriais: é a agroecologia. “A mediação do ser humano com a natureza para os quilombolas, indígenas e camponeses se dá por meio do trabalho. Não é por meio de investimentos financeiros ou propaganda. Ela se dá produzindo a sua própria existência. E isso inclui alimentos, mas também cultura, educação”, lista, ressaltando que o conceito não deve ser entendido como uma técnica de produção orgânica, mas “na totalidade das relações do ser humano com a natureza, ligada ao processo territorial, também com a soberania ambiental”.

Ao contrário do que aconteceu com a sustentabilidade, reflete, que foi formulada em acordos governamentais e na academia e, segundo ele, levada para as comunidades principalmente por ONGs, justamente por surgir da base, a agroecologia tem menos chances de ser apropriada pela lógica empresarial. “Quem é o sujeito da sustentabilidade? É uma abstração. Quem é o sujeito da agroecologia? É o camponês, o agricultor familiar quilombola ou indígena”, compara.

Já Renato Maluf reconhece que alguns setores econômicos têm perseguido iniciativas menos danosas, tanto na produção quanto no consumo dos bens. Exemplos são o automóvel elétrico ou investimentos no uso da energia solar. “Tem muito investimento em tecnologia nessa direção do sustentável”, observa. Mas, na análise do economista, fica a questão: “Qual a possibilidade de o desenvolvimento tecnológico ser a solução para os problemas que o desenvolvimento tecnológico criou? Penso que ele cumpre um papel, mas nem a tecnologia surge de processos neutros, nem seus benefícios são distribuídos igualmente. Além disso, o processo de desenvolvimento tecnológico segue critérios de rentabilidade e lucro, que se sobrepõem a qualquer outro. As soluções foram sempre, acima de tudo, lucrativas. Até para justificar o capital investido nelas. Portanto, há um conflito de interesses entre o privado e o público. Sobretudo nos temas ambientais”, alerta.

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