Afinando o discurso contra a Economia Verde

Seminário debate os conceitos e negócios por trás do modelo que será defendido pela ONU na Rio+20 e expoe os riscos da Economia Verde para a qualidade de vida no planeta.




Durante o seminário Por um outra economia, Pat Mooney,
diretor da ONG canadense ETC Group,
ressaltou a importância da agricultura familiar e camponesa no momento de crise
social e ambiental pelo qual passa o planeta. “Sem nenhuma sombra de dúvidas,
apenas a agricultura camponesa irá alimentar o mundo. Hoje ela já alimenta 70%
da população mundial”, disse Mooney, ressaltando a grande diversidade da
agricultura familiar, ao contrário do que demonstram as práticas do
agronegócio. “O sistema de agricultura industrial trabalha com, no máximo, 150
variedades de alimentos. No entanto, o foco principal deles está em 12
variedades. Eles alegam que se puderem fazer uma engenharia dessas 12
variedades, resolvem a questão da alimentação. Enquanto isso, a rede mundial de
agricultura camponesa trabalha com sete mil espécies. Então, quem vocês acham
que vai nos dar as maiores chances de nos alimentar diante das mudanças
climáticas?”, questionou.




 




A ETC Group realiza uma série de
estudos sobre os mecanismos das multinacionais para tentar privatizar a
biodiversidade do planeta. Segundo o pesquisador, desde a Conferência de
Estocolmo, em 1972, as indústrias do sistema agroalimentar produziram 80 mil
variedades de plantas. Entretanto, 59% dessas variedades são de espécies
ornamentais. “Comparado a essas 80 mil variedades que as indústrias produziram,
a agricultura camponesa mundial produziu 2,1 milhões de variedades. Então, quem
tem a flexibilidade para suportar as mudanças climáticas?”, ponderou. De acordo
com Mooney, na criação de animais a desproporção na diversidade de produção do
agronegócio e da agricultura camponesa se mantém - na criação de peixes, por
exemplo, o agronegócio cria 363 espécies, já a produção artesanal dos
camponeses trabalha com 22 mil espécies.




 




Mooney também apresentou dados
sobre a preservação dos solos. “As empresas de fertilizantes conseguem destruir
70 bilhões de toneladas da camada fértil do solo por ano. Já os sistemas
camponeses de produção conservam 140 bilhões de toneladas dessa camada do
solo”, informou. O pesquisador disse ainda que as empresas do agronegócio
tentam buscar nos territórios dos camponeses a diversidade preservada por eles
para que possam realizar cruzamentos em laboratório. Segundo Mooney, as
empresas estão em busca de espécies silvestres existentes nos territórios
camponeses ou nas zonas próximas e nas florestas ao redor dos territórios
camponeses, que contabilizam uma diversidade de 50 a 60 mil espécies
silvestres.




 




Campo de batalha na Rio+20




 




Para Mooney, a pressão sobre o Brasil duplicou com a escolha
recente de um brasileiro como secretário executivo
do Secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, o ex-secretário
nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio
Dias. Segundo Mooney, a Conferência Rio+20 será um campo de batalha sobre a
biodiversidade do planeta, que já perdeu para as corporações 23,8% das
espécies.  “O que o capitalismo vem
buscar aqui são os 76,2% que restam. Essa é a batalha do Rio. Com a crise das
hipotecas em 2007, nós já demos aos banqueiros 14 trilhões de dólares. Agora,
se aceitarmos essa nova proposta de financeirização da natureza, o que estamos
dizendo para aqueles mesmos bancos é que eles podem vir e brincar em nosso
jardim. Seremos insanos se aceitarmos isso”, finalizou.

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